O Poeta
8 Atrevimento
Notas iniciais
(...)
– Você nunca mais me ligou. Nem um e-mail teve a capacidade de mandar. – Sakura ficou calada durante alguns minutos, caçando as palavras que lhe fugiam da boca. Poucos minutos dos quais Gaara pensou ser eterno; arrastado. – Sempre fomos amigos, Gaara.
– Nós transamos...
Ela não respondeu. Ajeitou-se desconfortável no banco de pedra da pracinha em frente ao prédio, evitava levantar os olhos e confrontar a realidade daqueles verdes que não paravam de encará-la. Era estranho.
– Estávamos bêbados... Que droga! Podíamos ter passado por cima disso. Somos adultos. Éramos adultos. – Sakura fechou as mãos em punho, visivelmente alterada. – Podíamos ter lidado com isso, fingir que nada aconteceu, sei lá.
Casualmente, ele passou a mão no cabelo ruivo, desarrumado por inteiro.
– Não é fácil esquecer que transou com uma amiga, você sempre foi como uma irmã. – Gaara elevou o tom de voz, estava nervoso por aquela conversa ter rumado diferente do que havia planejado, do que estaria mais preparado. – Que merda, Sakura! Acha que é fácil fingir que nada aconteceu? Que eu faria cara de paisagem cada vez que te visse e lembrasse que te comi na cama dos meus pais? Eu não sou assim...
E não era fácil. A medica sabia muito bem, a própria não conseguia esquecer os flashes da noite em que fizera sexo com Gaara. A noite da formatura.
– Vai embora... Vai embora! – Os olhos dela moveram-se para cima. Dentes cerrados, gritando com todo o ar que tinha em seus pulmões. – Por favor, vá embora.
Ela não tinha ficado verdadeiramente irritada com o fato dele não ter ligado, desde que o conhecerá, sempre fora estranho. Sumia por dias sem aparecer tanto na escola quanto na faculdade, não precisava assistir muitas aulas para entender a matéria.
A médica riu desgostosa ao vê-lo afastar-se, ficar pequenininho em seu campo de visão. Ela tinha ficado irritada pelo termo "comer". Quem ele pensava que era para tratá-la como um pedaço de carne?
Gaara virou, com as mãos no bolso.
– Sakura... – Mas ela não podia ouvi-lo. Ele estava longe demais, apenas conseguiu enxergar seu nome desenhado nos lábios do amigo ou ex amigo. Quem sabe...
– Você é um idiota. – Ela devolveu tomando o seu caminho, apertando a passada até chegar ao prédio onde Ino a esperava impaciente.
Não cruzou olhares com a loira e nem precisou já que com a sobrancelha arqueada, ela a encarava errar mais de quatro vezes a fechadura do portão de ferro. Uma coisa tão simples e Sakura não o fazia.
Ela soltou um palavrão pouco antes de conseguir enfiar a chave e colocar as duas para dentro do prédio.
– Gaara vai viajar para o meio do mato. – Mentiu mas, para o seu desgosto, Ino percebeu.
– Sério? Não me diga. – Ironizou. – Gaara tem alergia a picada de quase todos os insetos existentes na face da Terra. Sakura, tudo seria mais proveitoso se fosse sincera comigo, sou sua amiga... Sua melhor amiga.
Ela deu de ombros.
– Gaara é um idiota, só isso! Complica tudo e...
Os olhos de Sakura arregalaram-se assim que entrou no corredor do andar em que morava, sua voz esvaiu-se assim que deu de cara com o apartamento no fim do corredor.
– Mas o que... – Um notebook quebrado jogado na porta, estava em mil pedaços, como se alguém o tivesse lançado bem longe.
E foi. A gritaria dentro do apartamento e o som estridente da música clássica fazia os vizinhos saírem para o corredor, reclamando, xingando o misterioso escrito com palavrões do mais baixo calão.
Uma mulher alta, vestida como uma executiva saiu em disparada do apartamento. Os saltos na mão direita e a bolsa, que deveria ser de grife, na esquerda.
– O que estão olhando? O showzinho acabou! – A mulher gritou ameaçadoramente, apertando o botão do elevador. Estava histérica e a briga deveria ter sido muito dolorosa porque a maquiagem dos olhos lhe escorria na face branca.
Pobre mulher que prestava-se àquele escândalo.
Pouco a pouco as pessoas entravam em suas moradias, ignorando a barraqueira que sumia conforme as portas do elevador fechavam-se.
– Bela vizinhança você arrumou. – Ino fez uma careta logo antes de tentar reprimir o sorriso.
Sakura ignorou o comentário divertido da amiga, ignorou completamente para falar a verdade. O som da musica alta logo foi tomado por um silêncio que zumbia nos ouvidos, era estranho.
Ela atravessou o corredor que nunca parecera tão longo como estava sendo, tentava não fazer ruídos e por isso tirou as botas sem salto, largando-as do lado de fora do apartamento.
– Sakura! Sakura! Você está louca? Não pode sair por aí entrando na casa dos outros! – Ino, ao invés de gritar como sempre fazia, sussurrou em um tom pouco mais alto, repreendendo-a. Como se as duas estivessem a beira da clandestinidade. — Volta aqui!
– Shh! – A médica revirou os olhos e balançou a mão impaciente, dando as costas para a loira.
Queria saber o que estava acontecendo ali. Queria os mínimos detalhes da vida de Sasuke, inclusive aqueles que nenhuma mulher gostaria de saber. Ela... Ela estava sendo a pior das fofoqueiras só pelo prazer de conhecê-lo ainda mais afundo.
Sentia os pelos se eriçarem a cada passada, colando os pés suados no piso frio. Espreitando pela porta entreaberta de um recinto escuro.
Sasuke estava perto da janela aberta, fumando como se nada tivesse acontecido, parecia ter reparado o pequeno rangido da porta de entrada.
– Veio porque quer saber o que aconteceu ou vai inventar mais uma daquelas desculpas? – Aos poucos a fumaça saía de suas narinas até novamente colocar o cigarro na boca.
Ele se virou, postura ereta, olhando para a garota que entrava acanhada no apartamento.
– Fiquei preocupada.
– Curiosa, você quer dizer. – Seus olhos desceram pelo o corpo dela, vestia um conjunto brega florido. Uma saia até metade da coxa e uma blusinha amarela com pequenos detalhes bordados. Sua visão logo pairou num par de pernas sensuais. – Não insulte a minha inteligência.
Sasuke sentiu a visão ficar seca, piscou algumas vezes e nada. Ele caminhou vagarosamente até a mesinha de centro e pegou o pequeno frasco transparente. Bastou algumas gotas de Trisorb nos olhos.
Droga! Como aquilo ardia!
– As horas no computador estão te fazendo mal.
Não, não era culpa do computador. A maior parte da culpa era da heroína que corroía aos poucos cada pedaço de Sasuke. Sua mente, antes sã, já não era mais a mesma.
Sua Hero.
– Hm.
Sakura de maneira inconsciente, mordeu os lábios e isso não passou despercebido pelo exímio senso crítico do escritor, que sorriu discretamente e voltou seus olhos para o cigarro entre os dedos.
– Nervosa, Sakura?
A mulher não aguentou, fechou os olhos e seus lábios se abriram degustando daquela voz gutural arranhando seus ouvidos, pronunciando seu nome.
– O que... Aconteceu aqui? – Perguntou ignorando completamente a ultima pergunta que nem parecia uma. Era obvio que estava nervosa.
– Negócios ... – Outra tragada fez-se no cômodo. Era o quarto cigarro de Sasuke em menos de duas horas, seu pulmão devia estar imundo com tanta nicotina impregnada.
O ato de fumar foi um habito adquirido logo no início de seus dezesseis anos, quando visitou pela primeira vez a boate de Kurenai e colocou um charuto na boca. Sasuke lembra de ter tossido tanto que parecia que morreria sufocado mas não morreu. Devia ter morrido mas em troca, ganhou uma foda com uma das mulheres de lá.
A primeira de muitas. Ele sorriu amargo.
– Quer que eu te ajude a limpar essa bagunça? – Ela perguntou sem dar-se ao luxo de levantar os olhos e dar de cara com um rosto atraente. – Tem pedaço de papel para todos os lados.
– É melhor me deixar sozinho. – Disse rispidamente. Os olhos dela se escureceram.
Sakura sentia que não devia estar ali, que não devia confiar nas poucas palavras que saíam da boca do escritor, intercaladas por uma fumaça cinzenta que claramente pertencia ao cigarro. Ela não devia confiar nos olhos que a despiam e brilhavam maliciosamente, refletindo nos ônix seu corpo vestido de maneira recatada.
O homem deixava claro que gostava de suas pernas e não tinha o menor pudor ao examiná-las minunciosamente mas ainda assim era um cavalo com ela. Sempre ríspido e misterioso.
Vai ver era por isso que Sakura teimava em procurar saber mais sobre ele.
– Eu vou. – Ela disse colocando as mãos na cintura, raivosa pela indiferença.
Mas antes de se virar, escorregou as mãos para a barra da saia, fazendo com que o pano subisse poucos centímetros. Sasuke arregalou os olhos crente de que a menina tinha dado algum problema e resolveu tirar a roupa, no entanto, tudo que ela fez foi tirar a pequena calcinha de renda fazendo movimentos sutis no quadril até que ela descesse por toda a extensão da perna.
– Mas fica com isso. – Sakura colocou o pano em cima do sofá.
Ele a observava entre uma tragada e outra, exibindo aquelas pernas enquanto tirava um pedaço de pano que indevidamente era chamado de calcinha.
– Sasuke, aquela vadia quase quebrou os meus dentes e ... – Um homem de cabelos brancos e repicados, num penteado esquisito abriu a porta do banheiro, massageando o maxilar. De relance encarou a calcinha no sofá e depois para a mulher de cabelos rosa ajeitando a saia. – Eu acho que não saí em uma boa hora. Saí?
Sasuke o encarou sobre o ombro, indiferente. E voltou para Sakura que já abria a porta do apartamento, tendo um leve vislumbre da bunda da garota.
– Pelo menos ela não quebrou um vaso na sua cabeça.
Ele franziu o cenho ainda atordoado com a ousadia da médica. A cada dia suas atitudes demonstravam intenso interesse nele, até as roupas que ela usava quando ia cozinhar para ele, todas elas contrastavam com o brilho daqueles longos fios rosados; o arfar espontâneo cada vez que o flagrava trocando de camisa.
Tudo era muito tentador e Sasuke não era de ferro.
– E ela? – O homem de fios platinados perguntou jogando-se no sofá e caçando a calcinha, estendendo-a perto do rosto. Achou engraçado a maneira como o amigo agiu diante daquela mulher. – Aliás, porque mesmo você ainda paga por sexo? Essa daqui até calcinha te dá e faz questão de tirá-la na sua frente.
– Suigetsu, aprenda uma coisa: Esse tipo de mulher sempre quer algo a mais. – Com os olhos fixos no cigarro, ele pegou o pano das mãos do amigo e o enfiou no bolso. Mais tarde, com certeza desfrutaria do pequeno presente. – E o que eu menos quero é uma mulher apaixonada cheirando o meu cangote. Tenho a minha carreira e essa maldita editora para me preocupar.
– Se ela é do tipo que se apaixona eu não sei mas correr de mulher não vai te ajudar em nada. – Suigetsu aconselhou com sinceridade, concentrando os olhos no teto branco – Só estou falando...
Não conhecia o escritor há muito tempo nem muito afundo mas tinha um palpite de que toda aquela amargura tinha a ver com laços já que o homem vivia recluso ao seu mundinho artificial de droga e sexo pago. Tudo bem que uma vez ou outra uma prostituta dava um jeito na situação, mas todos os dias?
Sasuke o encarou desconfiado, sabia que estava tramando alguma coisa, por isso, apenas prendeu o cigarro no boca e driblando a montoeira de coisas jogadas, rumou até a cozinha.
– Então não fale. – Disse com o cigarro pendurado na boca, analisando os itens dentro da geladeira. – Adoro quando você me poupa das merdas que diz.
– Onde vai? – Rapidamente levantou-se do sofá. Não gostava daquele apartamento nem de ficar sozinho ali. Mesmo beiradeando seus trinta anos, não tinha a menor vergonha em admitir que aquele lugar lhe causava arrepios. – Não vou ficar aqui sozinho.
– Vou ao mercado comprar mais leite. – Disse sumindo pelos cômodos e voltando com um casaco de capuz cinza, uma calça jeans e chinelos de dedos. Um item importante no guarda roupa daquele Uchiha.
Ao cruzar a porta, Sasuke fixou seu olhar no objeto cinza espatifado em frente ao apartamento.
Silêncio.
Uma explosão de gargalhada no apartamento ao lado. Ele continuava encarando o notebook estilhaçado, não tinha ideia de como falaria para a editora que uma mulher entrou em seu apartamento e começou a quebrar tudo que tinha relação com seu trabalho, nada fugiu dos seus pretensiosos olhos.
Ele deu um passo trêmulo para recolher o notebook mas logo desistiu e colocou o capuz sobre a cabeça, jogando a chave para que Suigetsu trancasse o apartamento atrás de si. Por mais que gostasse do sucesso dos livros publicados, ainda não tinha acostumado-se aos holofotes, por isso, quando era reconhecido na rua, não sabia muito bem o que fazer e as pessoas achavam estranho a maneira como agia quando era pego de surpresa por alguma fã histérica.
Como um homem carismático nas noites de autógrafo ou coletiva de imprensa conseguia ser o mesmo mal educado e travado quando abordado por fãs?
Simples: Sasuke sempre preparava-se psicologicamente para dias em que precisava ser carismático, treinava em frente ao espelho e ás vezes até aparecia com resquícios da droga nos neurônios. Era tudo tão mais fácil quando entorpecido pelo heroína.
Ele enfiou as mãos no bolso e seguiu seu caminho até mercado rezando para não ser reconhecido, o que seria meio difícil, já que o capuz cobria boa parte do seu rosto e mesmo assim, caminhava de cabeça baixa. Rápido. De passadas largas.
Um som começou a vir de dentro do seu casaco. Era um som bem parecido com o toque do seu celular mas engraçado... Ele não lembrava-se de tê-lo trazido.
– Sasuke, porque merda você não atende o telefone de casa? – Do outro lado da linha, uma voz esganiçada demonstrava intensa irritação e empolgação ao mesmo tempo. Naruto gritava, não por estar zangado mas pelo barulho de falatório.
– Jogaram meu telefone pela janela. Nem me pergunte porque, te explico pessoalmente. – O tom dele era estranhamente calmo. Uma brisa tocou seu rosto, deixando o capuz escorregar de sua cabeça.
Sasuke acendeu um cigarro, expelindo a fumaça logo em seguida. O homem não pôde deixar de reparar em seu reflexo na vitrine de uma loja, poucos metros do seu destino. Estava pálido e parecia um doente sugando com toda a força a nicotina da pequena morte ambulante. Ainda assim, não entendia o porque do sexo oposto o achar atraente, sexy. Deviam estar loucas.
– Isso quer dizer que você vem?
– Exatamente, você ainda está me devendo um duelo de esgrima. – Sorriu quase que imperceptível, segurando o cigarro entre os dedos, sem deixar que o intenso fluxo de pessoas em Tokio o fizesse perder o fio da meada.
Entenda, uma capital com tanta gente esbarrando em seu ombro, é meio difícil continuar uma conversa sem perder-se nas palavras
– Vai trazer a Sakura? Porque eu faço questão da presença de vocês dois. – Agora sim a conversa estava rumando para um lado que o escritor não apreciava nem queria falar.
– Você só a conhece há três meses mas enfim, vou ver o que posso fazer. – E desligou o celular.
***
A porta do apartamento abriu e lá saiu a loira, ainda com risadas presas na garganta. Gostava de passar tardes assim com a amiga. Uma boa sessão de filmes era agradável de vez em quando. Demorou um pouco até um envelope grudado na porta entrar no campo de visão de Sakura, ela o tirou de lá e abriu cuidadosamente.
– Eu já vou, cuide-se hein! E não faça nada que eu não faria. – Ino ergueu as sobrancelhas rapidamente, piscando sedutora mas sem deixar o sorriso maroto sair de seus lábios.
– Pode deixar. – Disse observando a amiga sumir no elevador.
Sakura deixou-se guiar pela letra incrivelmente desenhada, típica de um escritor da época vitoriana. Olhava para um ponto fixo.
Naruto faz questão que você vá a tal festa dele, por isso tomei a liberdade de comprar a sua passagem. Não se preocupe em me pagar, leve como um agradecimento pelo presente que me deu hoje mais cedo.
Sasuke.
Ela corou e virou os olhos para o apartamento ao lado, umedecendo os lábios. Estava tudo muito quieto. Seu sorriso cresceu discretamente quando tirou do envelope uma passagem para o interior, na primeira classe, no dia seguinte. E ela sabia que não iria sozinha.
Sakura fechou os olhos fortemente, prensando os lábios nos dentes. Imaginando mil coisas indecentes. Que pensamentos impróprios são esses hein Sakura?
Sonhadora.
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