O Poeta

19 Decisões


Notas iniciais
Revelações. Itachi sambando. Naruto quieto. Oi! Peço desculpas por não ter postado dia 17, tive problemas pessoais aqui em casa, briguei com o meu "namorado", fiquei revoltadinha mas aqui estou de volta... Fazendo o que mais amo e queria também agradecer à Uchihacherry pela linda e emocionante recomendação. Sério, vocês não sabem como fazem feliz. Enfim, o capítulo não está enoooorme mas está recheado de coisinhas nas entrelinhas. Boa leitura.

– E o que isso significaria? – Perguntou seco.

Sakura o encarou perplexa, não estava conseguindo acreditar na indiferença que as atitudes de Itachi demonstravam. Sempre com a moeda passeando por seus dedos e o olhar fixo em um ponto qualquer do consultório.

Ela podia esbofetear sua face, agarrar os fios de cabelo milimetricamente ajeitados em um rabo de cavalo que ia até o meio das costas, aliás, já estava ficando irritada com aquela moeda indo de um lado para o outro.

De um lado para o outro.

De um lado para o outro.

De um lado para o outro.

Seus olhos a acompanhavam.

– Para com isso! – Ela segurou os pulsos de Itachi, prendendo-os em suas mãos, o impacto fez com que a moeda caísse no chão e rolasse até debaixo da maca.

Silêncio.

– Nunca mais faça isso. – Itachi soltou-se facilmente das mãos de Sakura e agachou-se para pegar a moeda, despenteando um pouco os cabelos. Talvez a médica nunca tenha se dado conta que o ato de brincar com o objeto de metal fundido o desestressava e o fazia agir racionalmente. – Sasuke não é uma criança a quem eu deva paparicar vinte e quatro horas, eu já o avisei diversas vezes do risco que ele corria com aquela merda mas não... Aquele mimadinho nunca me deu ouvidos, muito pelo contrário, sempre usou e abusou da heroína.

– Já tentou interná-lo?

O Uchiha colocou as mãos no bolso da calça e caminhou lentamente até a porta do consultório, tinha os lábios secos que talvez fosse o sinal do nervosismo mas também poderia ser a raiva que estava do próprio irmão. Tudo bem que Itachi não era um exemplo a ser seguido mas se tinha uma coisa que ele odiava era o vício, não importava do que, vício significava dependência e isso significava falta de livre arbítrio.

Itachi amava a liberdade de poder dizer não e poder dizer sim sem que algo/ alguém interferisse nas suas vontades.

– Ele já ficou um período na reabilitação, conseguiu até ficar um bom tempo limpo, largou o cigarro e tudo mas só foi voltar para o apartamento que a heroína e nicotina vieram junto. – Ele respirou fundo – Em duas horas ele estava tão dopado que eu pensei que morreria mas … Você sabe como é a legislação aqui, não importa o quão poderoso eu seja, a punição vem igual para todos.

A essa altura, Sakura já havia soltado a cabeleira de nervosismo e um calor tão profundo instalou-se em seu corpo que a necessidade de retirar o jaleco foi absurda. Eram tantas coisas ao mesmo tempo, tantas informações para serem assimiladas que o estômago da médica embrulhou e por isso teve que correr para o cesto de lixo que ficava embaixo de sua mesa.

O barulho repugnante do vômito não enojou Itachi, nem o deixou raivoso. Ele apenas encarava a cena de maneira impassível, como uma reação normal de qualquer ser humano que ficasse transtornado ao descobrir que seu grande amor é um grande zero à esquerda.

– Toma. – Ela levantou a cabeça, vermelha de vergonha mas Itachi segurava um lenço que tinha tirado do bolso. Um gesto de “eu te entendo”. – Não precisa devolver.

– Eu joguei fora a heroína. – Disse timidamente. – Tem uma caçamba de lixo atrás do restaurante tailandês... Aquele perto do chafariz. Não sei como Sasuke andava com aquela droga toda numa bolsa, sem medo de o pegarem. Parecia que todo mundo sabia que eu estava com a heroína, que a qualquer momento uma patrulha me pararia e eu seria presa e mandada para uma clínica.

Ele a fitou, com os olhos arregalados, o punho fechado.

– Você é louca, mulher? E se alguém te pega no flagra? – Itachi agarrou os pulsos brancos da médica, sacudindo-a como uma boneca de pano. – Sabe se alguém a viu?

Mas antes que ele perdesse o controle, Sakura conseguiu soltar-se e o misto de vontade, raiva e desespero fizeram com que os cinco dedos magros da jovem ficassem delineados no rosto do deputado. Só assim para que ele voltasse a normalidade e pensasse racionalmente.

Ela ofegou e cambaleou para trás, por sorte a parede a escorou, impedindo que caísse de costas no chão.

Sakura engoliu em seco enquanto ele a observava recompor-se.

– Desculpe, eu só …

– Eu amo o seu irmão, amo tanto que eu mal consigo respirar por isso. Ele em uma clínica de reabilitação ficaria mais louco do que já é. Quer dizer... Eu sou médica, posso lidar com isso, posso ir para um lugar afastado com ele e fazer tudo dar certo.

A boca comprimida. O olhar cabisbaixo. Os cabelos cor de rosa embaraçados.

As eleições estavam próximas e ele precisaria de um modelo de família perfeita para que nada interferisse nos resultados da campanha mas tudo ficaria ainda mais difícil com Naruto o bombardeando de todos os lados, pelo menos, um escândalo por mandá-lo para uma reabilitação seria poupado.

Ele era o seu irmão. Um Uchiha.

O menininho que ele prometera cuidar. Um doente ingrato.

– Sasuke precisa de um tratamento feito por pessoas especializadas no assunto e pelo o que sei, você sabe sabe apenas o básico de cada coisa. – Itachi girou a maçaneta da porta mas logo virou o corpo em direção à Sakura. – Vou liberar suas visitas por lá... Assim que ele tiver alta aqui no hospital, vou mandá-lo para a melhor clínica do Japão. Eu posso ser o filho da puta que você quiser mas eu não vou deixar meu irmão se matando com aquela merda.

***

Uma mochila com duas calças jeans, duas camisas de botão, algumas meias e quatro cuecas eram o suficiente para Naruto. Aliás, quem se importava com o que iria vestir? Seu melhor amigo tinha sofrido um acidente e ele, logo ele, iria escolher detalhadamente cada roupa que iria usar?

– Quer um pouco, meu amor? – Hinata mordeu a barrinha de cereal e a ofereceu para o loiro, que recusou com um sorriso fino no rosto.

Pior do que o acidente com Sasuke, eram as mudanças abruptas de humor de sua noiva. Uma hora ela parecia bem, era carinhosa e atenciosa, na outra parecia uma louca transtornada, Naruto sabia que aquilo era perigoso demais para sua segurança, inclusive para a da própria e a do bebê aguardado ansiosamente.

Os dois fizeram as pazes e Naruto nem tinha ideia como, quando deu por si, ela estava oferecendo uma barra de cereal para ele em um avião rumo à Tókio.

– Você acha muito cedo para o bebê chutar? – Ela perguntou inocentemente olhando para a barriga.

Naruto sorriu triste e se impulsionou em direção a garota, ajeitando a franja com a ponta dos dedos. Era estranho olhar para Hinata e vê-la com a franja dividida ao meio.

– A sua barriga nem está aparecendo direito, podem ser gases.

A jovem suspirou, levando as mãos infantis até onde sentia as leves pontadas. Pensando bem, aquilo parecia mesmo gases e estava tão concentrada neles que sequer reparou no silêncio de Naruto ou em sua preocupação com Sasuke.

Era muito difícil vê-lo sem assunto ou falando baixo, até porque, boa parte do tempo o deputado gritava e era escandaloso, falava de comida e se comportava como uma criança no avião. Por isso conquistou muito a simpatia da população, ele era simples, alegre e não engolia sapos.

Naruto encostou a testa no vidro da janela lembrando das vezes em que encontrar o amigo em estado precário, isso na época da faculdade, em que comprar drogas era quase tão fácil quanto encontrar uma boceta para comer. Ele já havia perdido as contas de quantas vezes teve que buscá-lo em nos banheiros dos bares ou em becos.

– Pensando no que?

– Em você. – Mentiu procurando a boca e depois a língua de Hinata. Levantando a mão para acariciar o cabelo dela, fazendo cachos com a ponta do dedo, de tão liso, os cachos se desfaziam sozinhos.

Ela sorriu.

– Não se preocupe, Sasuke vai ficar bem. – Os olhos brancos se desviaram de modo tímido, contrastando totalmente daquela maluca que ameaçou tirar o bebê. Aquilo ainda assustava Naruto.

Hinata o observou fazer uma careta de descontentamento e voltar suas atenções para a janela, quem sabe para Tókio, que ficava tão pequenina vista de cima e por isso ficou curiosa para ver também.

De certo modo, os dois estavam se dando bem e a garota parecia agora outra pessoa, tinha até visitado algumas lojinhas de móveis infantis e escolhera um berço todo branco com um móbile de cavalos marinhos verdes. Particularmente, Naruto não queria ela comprasse um berço mas que usasse o que ele havia usado quando bebê.

Era antigo, é claro mas tinha um significado emocional enorme.

***

Duas pessoas passaram.

Três pessoas passaram.

Quatro pessoas passaram.

Cinco pessoas passaram.

A atendente loira riu, parecia estar gargalhando de alguma coisa muito engraçada mas ela o encarou ainda com o sorriso no rosto, dessa vez, de deboche.

– Chega! Eu não aguento mais! – Itachi vociferou e levantou bruscamente da cadeira. As pessoas que também aguardavam na sala de espera, se assustaram com a atitude abrupta do homem.

O Uchiha caminhou lentamente até o balcão onde a loira o encarava um pouco assustada. Ele estava perdendo a paciência e talvez nem sua preciosa moeda conseguisse acalmá-lo.

– O ...O que o senhor deseja?

– Eu quero saber do meu irmão, ninguém nessa merda de hospital me diz alguma coisa.

Era meio que óbvio que promover um barraco no principal hospital de Tókio não serianada bom para sua imagem, entretanto, Itachi estava a beira de um colapso e última coisa que passava em sua cabeça era a importância de seu comportamento estúpido em público.

A loira encolheu-se atrás do balcão, jurava que o deputado ainda pularia em seu pescoço mas o que ele fez foi respirar fundo e esfregar as mãos frias no rosto.

– Olha... – Ele procurou o crachá da jovem. – Senhorita Yamanaka, eu só peço que chame o responsável de plantão aqui, só faça isso, sim?

Ino fechou os olhos de frustração, com dificuldade se recompôs e ajeitou a mini saia que havia subido um pouco com o movimento repentino.

– Como quiser, senhor Uchiha. – Ela quase tropeçou nos próprios pés, no entanto, conseguiu alcançar o telefone sem que caísse de boca no chão.

Itachi a intimidava com aquele orbe escuro, não no sentido de atração mas no sentido de receio. Ele não parecia um homem de muitos amigos se bem que nem Sasuke parecia ser muito amigável. Devia ser de família.

– Shizune? Shizune... Pode chamar Tsunade? O Senhor Uchiha está muito impaciente aqui. – Ela virou-se de costas para o homem e colocou o fone ainda mais perto da boca, em cochicho. – Por favor, esse homem é a grosseria em pessoa.

Tudo bem, vou ver o que posso fazer.

– E então? – Ele perguntou ansioso, dessa vez com a voz mais mansa, sem a falta de educação de antes.

Ino inclinou a cabeça de lado, sem muito o que dizer. A realidade é que tinha um pouco de medo de falar que não tinha a confirmação de Tsunade, que ao menos sabia se receberia o recado já que Shizune também tinha seus afazeres e poderia assim, esquecê-lo.

A secretária pigarreou.

– Ela virá assim que puder. – E esforçou-se para esboçar o melhor sorriso possível, mesmo saindo um pouco torto, funcionou.

Itachi fechou os olhos lentamente e os abriu da mesma forma, não queria acreditar que teria coragem de novamente fazer uma internação compulsória em Sasuke. Lembrava que a única vez que uniu forças com Naruto, foi para internar o escritor e mantê-lo dentro da clínica, era difícil lidar com as crises de abstinência.

O político apenas lembrava de ver o irmão vomitando muito, suando fedido, contorcendo-se de espasmos e dores musculares intensas, fora as alucinações que Sasuke tinha com a mãe. Aquilo sim era perturbador.

Ela vem nos buscar, Itachi”

Não estamos sozinhos nesse quarto, sabia? Nossa mãe está do seu lado, sorrindo para mim”

Era meio difícil de admitir que aquelas alucinações o assustavam e que depois, não conseguia pregar os olhos com medo de acordar e ver que realmente não estava sozinho. E um arrepio cruzou sua espinha, eriçando os pelos de seus braços.

Não devíamos ter fugido, ela morreu por nossa causa e eu nunca vou me perdoar por isso.”

Notas finais
Sim, a Hinata é louca.