O Poder no Sentir

6 Capítulo II - Parte 3: Mal(Bem)dito Refrigerante


Notas iniciais
Boa Leitura

Nova York, 20, Março de 2017. 18:05h

Laura

Eu não estava acreditando nisso, como que a Lu teve a coragem de insinuar que eu estava exagerando. Só porque eu não sou igual a elas que fazem artes não que dizer que eu não faça serviços muito importantes nos festivais. Mas eu não vou me estressar por causa disso, vou tentar colocar a culpa na TPM ou no fato de hoje ser uma segunda-feira.

Estava aí uma coisa que eu não entendia por que caralhos, ele faziam festas em plana segunda-feira eu sei que o solstício de primavera é hoje, mas eles não podiam deixar essa festa pra sexta? Assim ela não precisaria acabar as 21:00h.

Eu não podia ficar chateada com ela, nem deixa-la sozinha, não depois dos sonhos que eu tive com ela e com aquela mulher que me falava pra protegê-la. Mas eu não ia dar meu braço a torcer, se a Luciana podia fazer drama eu também podia, eu sei que essa é uma atitude infantil, mas eu podia me permitir ser infantil uma vez na vida.

Segui em direção as barracas de bebida, cheguei lá e encontrei a capitã do time.

— Oi capitã, não sabia que você ia estar nas barracas. – Falei tentando não parecer chateada com o que tinha acontecido.

— Me colocaram aqui eu sei lá por que. – Respondeu ela rindo. – Mas cadê as meninas? Vocês normalmente não andam sozinhas.

— Elas ficaram lá assistindo a peça e eu vim comprar uns refrigerantes pra gente. – Falei não dando muito detalhes, não queria que ninguém soubesse do nosso desentendimento.

— Acho que elas vão se decepcionar porque você vai voltar sem os refrigerantes. – Falou ela seria.

— Mas, porque isso? – Perguntei confusa.

— Você achou mesmo que eu ia te vender refrigerante duas semanas antes do campeonato? – Respondeu ela de forma irônica.

— Eu nem tinha pensado nisso, mas tá tão quente que eu e as meninas precisávamos de algo pra beber. – Falei tentando convencê-la.

— Então a última barraca desse lado da praça ta vendendo sucos naturais, você deveria ir lá comprar um. – Falou ela.

— Tudo bem então. – Respondi meio sem jeito.

Olhei em direção a última barra daquela fileira e imaginei o trabalho e o tempo que demandaria para que eu chegasse até com toda essa multidão em volta. Pensei em voltar para onde as meninas estavam, mas achei que não tinha feito drama por tempo suficiente. Então resolvi encarar aquela maldita multidão, o empurra, empurra era tanto que eu só consegui chegar ate a barraca de sucos quando a peça já tinha acabado.

— Me vê três sucos de laranja médios, por favor. – Pedi impaciente.

— Aqui estão, dá 10 dólares.

— Aqui, tem aquele negocio de colocar os copos para levar? – Perguntei já tentando prevenir a tragédia que seria levar esses sucos até as meninas.

O garoto que estava na barraca me entregou os copos de suco naquelas caixinhas de transporte, todos devidamente tampados e com os canudos do lado pra eu colocar quando chegasse às meninas, graças a Deus que ele tinha percebido meu desespero em transportar aqui e facilitou tudo. Peguei o dinheiro na minha bolsa e paguei ele.

— Obrigada! – Respondi e encarei a multidão que eu teria que enfrentar novamente dessa vez com esses copos na mão.

Segui meu caminho com muita dificuldade estava me sentindo uma ninja, porque já tinha me desviado de tantas coisas tentando não derrubar os sucos, eu sempre fui muito ágil, sempre tive reflexos rápidos e uma intuição que nunca errava, assim como a Raquel sempre teve o melhor ouvido de todos.

Como eu disse minha intuição nunca falhava e eu sentia que algo errado iria acontecer e foi só eu pensar nisso que o pior aconteceu, uma menina tropeçou e esbarrou em um garoto que acabou caindo em mim, os sucos derramaram em cima de mim e dessa vez meus reflexos não foram suficientes pra me tirar de uma enrascada, como eram enquanto eu estava jogando.

Eu sabia que a culpa daquilo não era do menino, mas o estresse que eu tinha passado hoje misturado com a péssima sensação que eu estava sentindo por estar toda melecada e com frio graças ao suco me fez descontar tudo em cima daquele garoto, foi ai que eu me descontrolei e comecei a gritar igual uma maluca.

— VOCÊ É DOENTE OU SE FINGE? NÃO SABE USAR ESSAS PERNAS QUE VOCÊ TEM NÃO? OU SÓ ESTAVA A FIM DE ENCHER A MERDA DO MEU SACO? NÃO TROPEÇAR NOS OUTROS É UMA BOA COISA A SE FAZER!

Eu não sei em que momento eu parei de gritar e nem como eu não percebi aquele garoto chegando perto de mim, meus reflexos nunca tinham falhado tão feio como estavam fazendo hoje, eu só percebi o que estava acontecendo quando senti o garoto me beijar, o empurrei e continuei a gritar.

— O QUE MERDA VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? VOCÊ TA COM VONTADE DE PERDER OS DENTES QUE VOCÊ TEM NA SUA BOCA? VOCÊ NO MÍNIMO PERDEU A NOÇÃO DO PER...

— Você vai parar de gritar e me ouvir ou eu vou ter que te beijar de novo pra você ficar quieta? – Falou o garoto com deboche.

— Você não que está muito abusado não? – Respondi com muita raiva.

— Você que é uma maluca descontrolada. – Disse ele rindo.

— Desculpa se eu não te agradeci por ter derrubado minha bebida na minha blusa favorita. – Falei ironicamente.

— Você viu que foi um acidente, não precisava de todo esse surto. — Ponderou irritado.

— Talvez eu tenha me exaltado um pouco, mas você também não precisava me beijar. – Depois que disse isso percebi o clima no lugar ficar meio estranho.

— Realmente isso foi meio desnecessário. Como pedido de desculpa por isso e pela blusa eu vou te comprar uma blusa nova e os sucos que eu derrubei. É assim se for do seu interesse saber eu me chamo Lucas. – O garoto que agora eu sabia o nome ergue a mão para eu apertar.

Apertei a mão dele meio contrariada, eu não estava gostando de nada daquilo, mas eu também não tinha muito que fazer além de seguir o fluxo.

— O meu é Laura. –Falei meio sem jeito.

— Eu já sabia disso, quem nesse orfanato não conhece a estrela do time de vôlei e a campeã de natação. – Lucas falou.

— Você falando assim faz parecer muita coisa. – Respondi meio envergonhada.

— Mas é muita coisa. – Falou ele me confortando. – Vamos comprar uma blusa para você, deve ser péssimo ficar com esse suco no corpo. – Ele falou isso, me pegou pela mão.

Eu estava completamente sem saber como reagir, então só o segui enquanto o mesmo me guiava no meio daquela multidão. Depois que atravessamos aquela multidão com muito esforço chegamos ao outro lado do parque aonde tudo que não era comestível, fomos até a barraca onde estava à galera de costura se encontrava.

— Pode escolher qualquer blusa que você quiser eu pago. — Lucas me disse.

— Você sabe que não precisa fazer isso né? – Perguntei sei jeito.

— Eu insisto te devo desculpas pelo beijo. – Ele disse coçando a cabeça em um sinal de vergonha.

— Então tá. – Respondi e comecei a olhar as roupas ele pareceu não querer falar nada e me ajudou.

— Aqui essa blusa e bonita acho que combina com você. – Ele disse me mostrando uma blusa verde bem florida.

— Ela é bonita sim. – Respondi pegando a peça. – Liz tem onde eu provar isso? – Perguntei pra menina que estava responsável pela barraca.

— Tem sim Laura! Ali atrás. – Ela disse apontando para a cabine de provador que tinha improvisada ali.

— Muito obrigada. – Respondi e fui em direção ao provador.

A blusa era realmente bonita, não sei se era o modelo ou a estampa que deixava ela linda. Mentira eu sei sim e o fato de ela ser da minha cor favorita. Sai do provador com a blusa no corpo.

— Parece que eu aceitei em cheio, a cor dessa blusa combinou muito com o tom da sua pele. – Lucas disse admirado.

— Ela ficou realmente magnífica. – A Liz falou.

— Eu vou levar essa mesmo Elizabeth, aqui o dinheiro. – Disse Lucas pagando a moça.

— Você poderia me dar uma sacola para eu por minha outra blusa Liz? Eu vou ficar vestindo essa aqui mesmo. – Pedi a Liz.

Ela colocou minha blusa em uma sacola e eu coloquei a sacola na minha bolsa.

— Vamos tomar um sorvete? Assim eu consigo ficar mais um tempo com você e me desculpar de verdade. – Ele disse fazendo uma carinha de cachorro sem dono.

— Acho melhor não eu falei para as minhas amigas que só iria comprar uns refrigerantes, acho que elas deem estar preocupadas. – Falei tentando me justificar.

— A gente vai ter que ir lá para comprar os sucos mesmo, não custa nada eu te pagar um sorvete. – Ele disse tentando me convencer a ir com ele.

— Tudo bem então. – Falei me conformando com a situação.

É ela quarta vez naquele dia eu estava atravessando aquela maldita multidão, finalmente chegamos até o outro lado do parque, paramos na barraca de sorvetes.

— Dois sorvetes de chocolate, por favor? – Ele pediu ao menino da barraca.

— Você é algum tipo de bruxo? – Perguntei em tom de brincadeira.

— Dê onde você tirou isso? – Ele perguntou intrigado.

— É que hoje você acertou minha cor favorita, e agora meu sorvete favorito. — Falei tentando explicar.

— Eu só gostei muito daquela blusa, é todo mundo gosta de sorvete de chocolate. – Ele falou e logo em seguida começou a tomar o sorvete.

Fomos caminhando até a barraca dos sucos. Começou uma gritaria horrível no lugar foi quando eu percebi que a assistente da diretora tinha anunciado que a atração principal já ia subir ao palco.

— Meu Deus, eu não percebi a hora passar, minhas amigas devem estar malucas me procurando. – Falei um pouco desesperada.

— Calma! Você já vai voltar pra elas, vamos só comprar os sucos. — Ele falou tentando me tranquilizar.

— Tudo bem então. – Respondi.

Eu tinha sido muito irresponsável, como eu podia ter deixado minhas amigas sozinhas por tanto tempo, me deixado distrair por um garoto bonitinho. As meninas deviam estar malucas com isso, era pra eu ser a responsável do grupo e hoje eu tinha sido exatamente o oposto. Tinha estado tão distraída que só percebi que já tinha chegado à barraca de sucos quando o Lucas parou.

— Me vê três sucos de laranja com todos aqueles aparatos para um transporte seguro. – Ele disse brincando com o ocorrido de mais cedo. – É se puder um papel e uma caneta.

Ele pagou o suco e o garoto entregou um pedaço de papel pra ele e foi preparar os sucos, Lucas escreveu algo no papel e esperou o suco ficar pronto.

— Aqui está seu suco. Obrigado por fazer desse festival de primavera o melhor de todos e aqui está o número do meu telefone pra você falar comigo. – Ele disse tudo de uma vez.

— Obrigada pelo suco. Você também fez esse festival ser bom, eu vejo o que posso fazer com esse número. –Disse para ele como resposta.

Me despedi dele e segui para o local em que supostamente minhas amigas deveriam estar. Hoje de manhã quando eu falei para elas que o festival de primavera era o melhor de todos não passou pela minha cabeça que seria tão maravilhoso assim, ele realmente tinha valido a pena.

Notas finais
Comentem o que vocês estão achando.