O Poder do Olhar
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Depois de três aulas lentas e entediantes, o alarme para o intervalo finalmente toca e grande parte dos alunos saem para irem para o refeitório. Decido seguir a massa e descobrir qual seria o cardápio; não é a melhor comida, mas estou faminta, então pego já andando para às mesas. Procuro alguma mesa para me estabelecer, porém todas estavam ocupadas por grupos formados.
— Anny, aqui! — olho para quem me chama e pela voz só podia ser Kattie, que se encontrava a poucos metros de distância.
Tal atitude era comum para mim, pois durante as duas semanas que venho para aula, Kattie me chama todos os dias para sentar com ela e seus amigos, e sempre recuso, no entanto, hoje resolvo ir ao seu encontro.
Caminho até ela e sento do lado de uma garota — amiga dela, assim imagino. Seu cabelo é grande, bate no seu quadril. É de um louro desgastado, talvez ela não cuide tão bem dele como deveria. Seu rosto é diferente, me lembra uma mulher de 30 anos — conservada é claro -sem maquiagem. No lado de Kattie tem um garoto alto, cabelo espetado. Deve ter usado muito gel para ficar daquele modo. Usa aparelho e tem um bigode ralo. Com certeza não era o garoto mais bonito — ou até mesmo apresentável que já vi.
Mas pensando bem, olhando ao redor, não há tantos garotos atraentes na escola e não me recordo de ter visto um jovem rapaz bonito pela cidade. Já garotas, são muitas que tem uma beleza singular. Cada uma delas tinha algo bonito há apresentar.
— Procura algo? — a garota de cabelo longo me pergunta. Sua voz é esganiçada até mesmo baixa.
— Talvez algum garoto. — tem outra garota na mesa, que está sentada ao lado de Kattie. É meio gorda, cabelos castanho escuro cacheado, seu nariz é pontudo e seus lábios são finos. — Você tem cara de que sai com vários garotos.
Um sorriso que poderia ser definido por mim e por todos que viram de que é puro deboche. Suas palavras soam para mim ridículas, e não evito de soltar o riso.
— Acho que acertei.
— E eu não acho. Tenho certeza de que errou. -meus olhos cor de mel a encaram e ela faz o mesmo. Eu não devia estar fazendo isso; estou praticamente confrotando uma garota com potencial -pouquíssimo- para ser uma amiga. — Não sou desse tipo.
— E você tem algo contra a esses tipos?
— Eu não tomo de conta da vida de ninguém além da minha. Quem quer seja, se quiser fazer, faça.
Nossos olhares permancem firmes e constantes. Até nossas piscadas parecem sincronizadas. Após uns segundos dessa forma, ela solta uma risada estridente me assustando.
— Gostei de você. — a morena afirma sorrindo para mim, que retribuo de forma contida.
— Imagino que saibam o meu nome. Diferente de vocês, eu não faço ideia dos seus. — comento e não demora muito até que tenho resposta vinda deles. Felicia é o nome da de cabelo longo, Alex o garoto e Taty, a última.
Enquanto como, escuto eles conversando e contando suas histórias, além de fofocarem sobre os acontecimentos da escola. Não dou a mínima para nada do que dizem. Prefiro observar todos ao meu redor. Reconheço alguns rostos da minha turma. Um grupo de garotas que conversam animadamente; em outra mesa, uma menina ri alto com vários garotos aos seu redor. Pela forma que sorriem e falam uns com os outros devem sem apenas amigos. No entanto, não me surpreenderia se alguém tivesse algum sentimento por ela, pois é bem bonita. Já em outra extremidade, longe das mesas, o garoto da quadra está só. Não por muito tempo. Um rapaz negro magricelo caminha em sua direção. Entrego no refeitório a bandeja com o prato e talheres, e quando olho novamente para a dupla, eles estão conversando; a todo instante o menino da quadra gesticula enquanto o outro ri.
Resolvo voltar para a sala juntamente com as meninas. Andamos pelo extenso corredor e Alex fica ao meu lado e tenta puxar assunto.
— De onde você era?
— Um lugar bem distante. — minto. Vim de San Creamont, cidade relativamente pequena de Londres — porém maior a que vivo agora, como Kattie, mas ele percebe minha evasão.
— Você não gosta muito de conversar, não é? — fixa seu olhar em mim e tudo aquilo, aquela tentativa de criar um laço estava me irritando.
Sabia muito bem que ele queria algo mais, havia escutado fragmentos de seu diálogo com Taty. E honestamente, nada dele me atraia. Nem sua inteligência — embora seja incrivelmente rápido com matemática, nem sua aparência.
— Me desculpe, é que está sendo difícil assimilar tudo. — paro no meio do corredor e explico para ele de forma comprimida. Meu desejo não é me expor. — É uma cidade nova, pouco conhecida para mim. Preciso de tempo. E espaço.
Sem dizer mais nenhuma palavra, ele avança e me deixa para trás, parada. Fico aliviada por poder respirar sem pesar. Não me agradava nem um pouco ele e Taty estarem praticamente me avaliando para ver se valia seu esforço. Me tratando como um mero objeto. Com certeza os amigos de Kattie não me deram uma boa impressão.
Ainda parada, sinto alguém me empurrar. Vejo o garoto da quadra e o outro rapaz. Eles pedem desculpa e fazem uma reverência. Estranho aquilo. Os dois ao se endireitar, sorriem um para o outro.
— Posso saber o que foi isso? — pergunto um tanto curiosa. Por saber o que aquilo significava e por enfim ouvir a voz do garoto dos olhos negros. Mas em vez disso, o jovem negro responde.
— É algo relacionado a cultura japonesa.
Sem dizer mais nada, se retiram do local e continuam sua conversa, entrando em suas dimensões. Todavia, não me contento em manter minha curiosidade aprisionada e resolvo perguntar seus nomes. Jack, o garoto magricelo, fala primeiro.
— Daniel. — sua voz soa baixo, todavia é notório que ela é grave e um pouco rouca. Seu nome e sua voz ficam gravado em minha mente, até que me recordo da hora da chamada e de ter escutado esse nome.
Percebo então que Jack é da mesma sala e que está sentado atrás de Daniel. Aparentando um pouco de desespero, me meto novamente na conversa deles. O sorriso dos dois logo se fecha.
— Perdão por interromper mais uma vez, mas percebi que vocês não perguntaram meu nome.
— É porque não nos importa. — as palavras de Daniel me atingem profundamente e preciso usar toda minha habilidade para parecer inabalável.
Todo seu ar de misterioso mexia comigo, e descobrir que não causei nenhum tipo de curiosidade nele causava um sentimento destruidor dentro de mim. Mas como sou idiota. Cheguei há pouco tempo e já queria a atenção de todos. Sou um garota estúpida que tenta manter uma aparência fria, mentindo para si própria.
Esqueço meu controle quando vejo seu rosto formando um sorriso debochado e minha curta paciência é esgotada.
— Talvez meu nome não importe, mas quem sabe manter sua educação devia importar. Ou sua mãe esqueceu de ensinar isso à você? — meu tom de voz sai mais alto do que o esperado e meu corpo queima.
Provavelmente toda sala nos observava e logo um arrependimento de gosto amargo me invade. Para piorar a situação, ele se levanta da cadeira da qual estava sentado, ficando muito mais alto que eu. Seu braços apoiados na mesa e seus olhos irritados me julgando. Em questão de segundos, ele pega sua mochila e sai como um tornado da sala. Aquela situação faz minha cabeça girar, e caio na cadeira da qual ele estava.
— Ele sabe seu nome Anny. — Jack diz olhando ainda a porta, até que profere essa palavras me olhando: — E tenho certeza que nunca irá esquecer, pois agora ele deve ter ódio mortal de você.
Fale com o autor