O Poder do Olhar
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Confesso que me exaltei, mas não vejo motivos para me odiar perpetuamente. — me justifico relembrando do acontecido e desde o tempo que havia chegado — Afinal, nunca tinha trocado palavras com ele.
— E pelo fato de você não ter trocado nenhuma palavra com ele, não entende. — nada daquilo fazia sentido para mim. Vendo minha confusão estampada em meu rosto, ele põe fim a minha falta de entendimento. — A mãe dele está no hospital. Sofreu de um AVC, deixando-a em um estado grave.
Nunca fui próxima a minha mãe, e a pouca consideração que tinha por ela, se esvaiu quando me largou. Judy, minha vó, no entanto, já superou dois AVC, sendo que o segundo a deixou cega temporariamente. Então compreendia perfeitamente o que ele sentia.
Uma tristeza me abate; minha memória me arrasta para lembranças dolorosas e não contenho as lágrimas. Jack deve ter visto pois logo diz parecendo preocupado:
— O que eu disse era brincadeira, ele não vai ficar com raiva de você. — não ligo muito para o que ele disse, tudo que quero no momento é ter seu perdão. Pergunto ao rapaz qual hospital a mãe dele está, e ele me informa rapidamente.
Sem perder mais tempo, passo as mãos em meu rosto molhado e ando até onde minha mochila se encontra. Carrego-a em meu ombro e vou em busca da minha redenção.
***
Saio da estação de metrô com mais frio do que quando cheguei. O casaco jeans não ajuda muito e claramente foi uma péssima ideia ter vindo de vestido. Sinto meu celular vibrar no bolso do casaco; vejo uma mensagem da minha vó na tela.
Tudo bem querida. Fique tranquila. Não volte muito tarde. Beijos.
Havia lhe contado brevemente que visitaria alguém no hospital. E embora esteja preocupada e curiosa, entendeu. Depois explicaria melhor.
Demoro mais que o planejado na recepção. É muito complicado visitar alguém no hospital sem ter grau parentesco, e aparentemente em cidade pequena é pior, pois são mais rígidos e respeitam mais o sistema, priorizam mais a segurança do que gente de cidade grande. Apesar da enorme relutância, consigo convecer a recepcionista a me deixar entrar.
Seguro com mais cuidado o jarro com flores em minhas mãos. Não gostaria de derrubar estando tão perto. Escolhi um buquê de girassóis. O amarelo alegre das pétalas traria cor em contraste do branco monótono do quarto.
Não demora muito para pararmos em frente ao quarto. Ela diz que a visita é de vinte minutos, e que logo estaria retornando para me guiar para saída. Aceno positivamente para ela, que logo já estava virando o corredor, rumo à sua bancada de trabalho.
Aproximo-me da porta de vidro para olhar adentro. Meu estômago revira de nervosismo quando vejo Daniel sentado na cama; ele segura a mão de sua mãe. Sem prolongar, bato na porta suavemente e entro da maneira mais discreta que consigo. Meus olhos pairam nos seus, porém desvio para sua mãe, que tem uma aparência frágil.
— O que faz aqui?! — ele não esconde a raiva de sua voz. Honestamente, não fico surpresa. Afinal, estou invadindo seu espaço pessoal.
— Jack me contou. — ele resmunga algo, e por sua cara, posso entender que agora estava aborrecido com seu amigo também. — Trouxe flores.
Estendo o jarro em sua direção, porém ele permanece no mesmo lugar, me observando e analisando. Como ele não pega, coloco o jarro de vidro do lado de sua cama. Estava certa. As flores davam uma certa alegria para o recinto.
— Imagino que não tenha mais nada o que fazer aqui. Pode ir agora.
Levantando-se da cama, ele caminha até a porta e a abre, claramente me expulsando daqui. A tentação de voltar para casa e desistir é grande, mas vir até aqui e não cumprir meu propósito teria sido uma perca de tempo.
— Eu quero pedir desculpa. O que fiz foi errado. A começar pela minha intromissão na sua conversa e de seu amigo. Segundo por ter explodido daquela maneira, na frente de todos. — seus olhos estão fixados em mim e aproveito sua atenção para continuar — E o mais óbvio: por ter te ferido, sem estar ciente da sua dor.
Observo atentamente os traços do seu rosto. Seus olhos que sempre me chamaram atenção, nariz delicado, uma boca carnuda e rosada.Vejo-o comprimir os lábios; seus olhos estão fixados no chão enquanto suas mãos brincam umas com as outras; logo pára e fecha a porta do quarto lentamente. A sensação de nervosismo começa a me invadir, fazendo meu coração ficar acelerado. Pego na barra do vestido de estampa floral e agarro fortemente tentanto permanecer estável. Mas sua presença traz um peso para meu peito.
— Está bem. Aceito suas desculpas. — uma paz invade meu coração preocupado; um suspiro involuntário de tranquilidade sai de minha boca, mas ele não deixa essa sensação de calmaria se estabelecer.
— Saia daqui. — de modo rude ele diz, e abre a porta do quarto abruptamente me assustando. Ele me pega pelo braço e nos leva para o corredor. A raiva já surgindo, me solto de seu toque gelado. Encaro-o com fúria, pensando em vários modos de atingí-lo, mas antes de proferir uma palavra, ele é mais rápido. — Quero que vá para sua casa, e não me incomode mais. Esqueça que esteve aqui e, não visite-a mais.
— Eu apenas queria fazer algo que lhe agradasse e que pudesse me perdoar. — meu tom de voz sai branda, porém não era meu intuito. Ainda sinto a raiva e quero expressá-la de algum modo.
— Perdoada. Vá. Agora. — apontando para o corredor, seus olhos expressam o mais genuíno ódio e eu não consigo aguentar.
— Você devia ter o mínimo de consideração pelo que fiz. Tive compaixão da sua situação. — digo entre dentes, embora esteja tentando controlar toda a raiva.
— Você não entenderia o que estou sentindo, não venha com todo aquele discurso clichê de que entende, porque você não é capaz disso.
— Tudo que restou da minha família foi minha vó, tendo sofrido, não um, mas dois AVC. E se você se pergunta do resto da minha família, e provável que você não tenha se perguntado, todos que sobraram me abadonaram. Até meus irmãos. — Carl e Rickson decidiram não ficar mais sob os cuidados da minha vó e foram embora, sem olhar para trás. Pela sua cara, minha história havia o imprenssionado. — Se imagina que não entendo sua situação, então com certeza não entenderia a minha.
Um silêncio plácido se instala entre nós, me deixando um pouco agradecida, pois estava me ajudando a me acalmar, e não gostaria de criar uma confusão aqui. Na verdade, não gosto de criar qualquer tipo de confusão. E toda situação que ele está passando é bem delicada.
— Me desculpa. — com uma voz mansa, seu pedido de desculpa me acalma ainda mais. — Não te conheço e lhe ofendi. E trouxe memórias dolorosas para sua mente.
Não havia sentido as lágrimas escorrem, mas ele viu e as limpa. Sua mão é surpreendentemente macia, gelada devido ao ar-condicionado. Daniel passeia seus dedos por meu rosto, tirando todo traço das gotas líquidas.
— Acho melhor mesmo eu ir. Aproveite o tempo com sua mãe. — seguro fortemente a jaqueta e me despeço dele. O caminho para saída é curto e não preciso da recepcionista para me guiar. Ela volta seus olhos para o relógio que está na parede, conferindo o tempo que estava lá, e antes que vire seu rosto para mim, já estou na rua em rumo à minha casa.
***
Abro a porta de madeira escura, entrando na casa iluminada. Minha vó acendeu todas as luzes da sala, e quando a vejo entendo a razão. Estava costurando a mão. Mesmo com o óculos, ela precisa de toda luz possível. Chegando perto dela, beijo o topo da sua cabeça, inalando o cheiro de seu cabelo. Cholocate.
— Você gosta mesmo desse shampoo.
— Acho uma delícia. — ela solta uma risadinha e arranca um grande sorriso de mim. Eu a amo muito.
— Realmente. Tenho vontade de morder.
Tiro o casaco e me jogo no sofá, relaxando com o enorme conforto. Assim como no metrô, caminhando para casa, volto a lembrar do ocorrido no hospital. Meu desejo não era me expor. Nem criar um conflito em primeiro lugar. Porém é o que acontece quando meu lado impulsiva surge. Levando-me a fazer coisas estúpidas.
— Vai me contar o motivo de ter ido ao hospital?
Judy quebra o silêncio, e logo já estou explicando para ela. Sabia do meu problema com a paciência e que não temos uma relação boa. Então compreendeu perfeitamente, até ficou feliz por ter tomado a atitude de consertar meu erro.
— Sei que é difícil querida controlar nossa língua e a ira que toma conta de nosso corpo, mas quando pensamos nas possíveis consequências, ajuda bastante.
Vovó Judy. Com suas palavras sábias. Instruindo-me para a vida. Sorrio quando recordo que ela sempre me aconselhou, e que foram poucas vezes que eu seguir seus aconselhamentos, me fazendo quebrar a cara maioria das vezes. Mesmo assim, continuou ao meu lado. Com seu amor imutável.
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