O Poder Oculto
2 Capítulo 2 - Confusões no lago
Notas iniciais
Definitivamente, aquele era o pior jeito que eu tinha arrumado para começar o sábado. Quem iria querer passar o final de semana limpando os banheiros de Hogwarts? Absolutamente ninguém, mas eu estava fazendo aquilo naquele exato momento; há dois dias, quando o diretor Arsntein dera o anúncio sobre os vultos avistados na orla da Floresta Negra, o professor Billford e o zelador Hardy haviam sido enviados para investigar, porém, não deram as caras desde aquele dia.
Era estranho? Muito. Nunca nenhum professor de Hogwarts havia sumido daquele jeito, pelo menos não desde a minha chegada ali. Com o sumiço do zelador, rapidamente a sujeira começou a se acumular e, para facilitar o trânsito dos alunos pelo castelo, os professores e os monitores se dividiram e assumiram a responsabilidade pela limpeza e a manutenção de diferentes áreas do castelo. Eu e Tracy, como representantes da Corvinal, havíamos sido incumbidos de garantir que o quinto andar e as torres adjacentes ficassem tão limpas como o zelador Hardy as deixava.
Sinceramente, eu não tinha a menor ideia de como aquele homem conseguia limpar todo o castelo e ainda ficar de pé no fim do dia para comparecer ao jantar. Naquele exato momento, eu estava com as mangas arregaçadas, um balde cheio de água e sabão ao meu lado e a varinha empunhada na mão direita; Tracy estava no fim do corredor, polindo uma série de armaduras com o auxílio da varinha.
— Limpar! — agitei a varinha para uma mancha que se esgueirava por trás do quadro de um magnífico alazão branco e ajaezado; a mancha sumiu no mesmo instante, eliminada pelo feitiço.
Pode parecer que aquela tarefa de limpar o castelo era simples. Ora, o que seria mais fácil do que agitar a varinha e fazer a sujeira sumir? Nada. Estar realizando aqueles feitiços continuamente era desgastante. Felizmente, eu e Tracy já estávamos terminando aquela faxina.
— Animus Novandi! — apontei a varinha para o esfregão que estava apoiado na parede, mas nada aconteceu. Aquele feitiço era difícil, ainda mais para mim, que não tinha muita habilidade na área da transfiguração.
Tracy começou a se aproximar de mim ao perceber que eu estava tendo dificuldades em animar o esfregão.
— Ei, Wittelsbach! — ela falou. — Quer ajuda com isso?
— Ahn, acho que sim. — saí de perto do esfregão e observei-a erguer a varinha para ele.
— Animus Novandi! — vociferou Tracy, floreando a varinha para a esquerda e a direita rapidamente; sem demora, um lampejo prateado saltou de seu condão e chocou-se contra o esfregão, fazendo-o ganhar vida imediatamente. O objeto mergulhou uma de suas extremidades no balde com água e sabão e começou a esfregar o chão sozinho.
— Ah, eu queria saber fazer isso. Meu ponto forte é em Trato das Criaturas.
— É, eu sei. Enfim, você não quer por aquelas armaduras ali no lugar? — ela indicou as armaduras no fim do corredor. — Eu já limpei todas.
— Pode deixar. — dei as costas a ela e me afastei até o fim do corredor, onde uma dezena de armaduras reluzentes estava posicionada.
Felizmente, eu não era tão desastroso quando se tratava de feitiços normais. Ergui a varinha para a primeira armadura e ordenei:
— Mobiliarbus! — uma força invisível içou a armadura no ar e, sob o controle da minha varinha, ela foi levitada até o início do corredor. Repeti isso em todas as outras armaduras, pondo cinco em cada lado, paralelamente.
Quando terminei, Tracy estava movimentando a varinha e fazendo com que a água e o sabão sumissem. Juntei-me a ela, murmurando o feitiço e sugando tudo o que restava.
— Acho que acabamos! — suspirei ao certificar-me que aquele era o último corredor que tínhamos de limpar e que tudo estava nos trinques.
— É, acabamos. Vemos-nos por aí, então. — ela ergueu a varinha e fez com que o balde e o esfregão flutuassem atrás de si, sem dizer nenhuma palavra.
Observei enquanto Tracy virava a esquerda no corredor e estreitei os olhos, sentindo uma pontada de inveja por ela ser tão habilidosa tanto com a transfiguração quanto com a realização dos feitiços não-verbais que nós estávamos começando a aprender naquele ano.
A manhã já estava perto do fim e, naquela altura, todos deviam estar descendo ao Salão Principal para almoçar. Girei em torno do meu próprio eixo e caminhei até o banheiro dos monitores, estava precisando de um banho.
O almoço havia sido barulhento como sempre. Naquele exato momento, a maioria dos alunos havia desistido de trajar o uniforme preto formal e estava vestindo roupas casuais, aproveitando que os finais de semana eram os poucos momentos em que era permitido o uso de trajes daquele tipo.
Eu e Tim havíamos encontrado o irmão dele, Cassius, um sextanista também corvino, no Saguão Principal. Cassius era mais alto que eu e Tim alguns centímetros; os cabelos pretos e a pele branca eram uma das poucas características que possuía em comum com o irmão.
No geral, ele era muito legal conosco. Saímos para o Pátio de Entrada e observamos o começo de tarde ensolarado e quente. Meu olhar estava sempre alerta para qualquer começo iminente de confusão; mesmo que fosse final de semana, meu dever parecia nunca acabar.
Juntos, caminhamos com o grande afluente de alunos que seguia na direção do lago. Normalmente lá era mais fresco, e parecia que o calor iria continuar por mais algumas horas.
— Gente, vocês viram a Demetria? — indagou-nos Cassius no meu do caminho. Demetria era namorada dele, uma das poucas sonserinas com as quais eu mantinha uma relação saudável. Diferente da maioria dos alunos de sua casa, Demetria era gentil e sabia respeitar a todos. O único problema era Valenttina, sua prima e melhor amiga, que era a pessoa mais antipática que alguma vez já residira em Hogwarts.
— Não vi não, Cass. — respondeu Tim, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans clara.
— Eu também não a vi. — completei. — Provavelmente ela deve estar no lago como a maioria dos alunos. Está um calor danado, e ninguém vai ficar derretendo dentro do castelo.
— Você está certo, Caesar. Já sei um lugar em que ela deve estar; vocês vêm comigo?
— Claro que sim. — disse Timothy, ansioso para sair do meio daquele monte de gente que seguia para o lago.
Juntos, eu, Tim, e Cassius escapamos da multidão de alunos e voltamos ao Pátio de Entrada, caminhando por uma passagem adjacente que levava ao Pátio Pavimentado. Eu sabia aonde ele iria nos levar, todos os alunos faziam aquela travessia pelo menos uma vez na vida, sendo que era no sentido contrário.
A passagem nos levou ao Pátio Pavimentado que, por sua vez, acabou em um enorme arco de pedra que dava passagem a uma ladeira de terra. Seguimos por ela, levantando pequeninas nuvens de poeira atrás de nós enquanto avançávamos. Quando por fim chegamos ao sopé da ladeira, estávamos ao lado da Casa do Barco, uma construção de telhado triangular que ficava às margens do lago.
Era ali o ancoradouro dos barcos que levavam os primeiranistas na travessia pelo lago. Entramos lá e, como deduzido por Cassius, Demetria estava ali, junto de Valenttina. Ambas estavam com os jeans dobrados na altura dos joelhos e os pés mergulhados na água escura que adentrava o pequeno cais de pedra.
— Senti o mau cheiro do sangue de vocês de longe. — declarou Valenttina ao decair o olhar sobre Cassius e Timothy, que eram mestiços.
— Tina, não fala assim! — repreendeu Demetria, levantando-se do chão e caminhando até Cassius para beijá-lo.
— É, não fala assim, Vendramini. — salpiquei minha fala de sarcasmo, sentando-me junto de Tim no lado oposto às garotas.
Sobre nossas cabeças, os barcos que percorriam o lago estavam içados por cordas de cânhamo. Cassius e Demetria sentaram-se ao lado de Valenttina, que ficou observando o próprio reflexo na água turva, calando-se subitamente.
O tempo passou rápido. Tim e eu ficamos conversando sobre os mais variados assuntos, Demetria e Cassius ficaram se beijando e Valenttina continuou lá ao lado deles, calada. Dali do ancoradouro era possível observar a maioria da margem do lago. Grande parte dos alunos estava conversando dezenas de metros para a esquerda. Alguns estavam nos píeres de madeira que se erguiam sobre as águas e outros estavam sentados em troncos caídos no chão lamacento.
Na outra margem do lago, mais dois píeres estendiam-se sobre o lago, e poucos alunos aventuravam-se a ficar ali. Tracy estava entre estes alunos, em parte por não gostar da balbúrdia que se formava na aglomeração de alunos e em parte porque a outra margem do lago era a que estava mais próxima da Floresta Negra e, como uma boa monitora, era dever dela garantir a segurança dos alunos.
Entre os dois píeres na outra margem, erguia-se a enorme lula gigante que residia nas águas do lago. Ela estava, assim como a maioria das pessoas ali, aproveitando o dia para refrescar-se. Seus tentáculos rosados moviam-se em todas as direções, parcialmente submersos na água, enquanto sua enorme cabeça repousava sobre a margem lamacenta.
O dia estava perfeito. Nenhum incidente até então, tudo corria bem. Até que um grito de horror ecoou no lago e a lula gigante submergiu violentamente.
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