O Poder Oculto
3 Capítulo 3 - A lula
O que se seguiu aquele grito foi uma grande confusão. Quando a lula submergiu, soltou um ronco anormal e deu para ver que havia algo de errado pelo modo como ela se lançou na água. Mas algo mais tinha acontecido antes daquilo.
Eu, Tim, Cassius e as garotas, saímos da Casa do Barco no exato momento em que o animal gigante voltou a emergir, lançando ondas em todas as direções. Esquadrinhei as margens lamacentas com o olhar até que percebi que um dos píeres que estava do outro lado do lago havia sido esmagado sob o peso de um dos tentáculos da lula.
Os alunos agarravam-se desesperadamente a pedaços de madeira, tentando voltar à margem. Ao mesmo tempo, a lula cortava a superfície do lago na direção do aglomerado de alunos que estava na margem mais próxima ao ancoradouro.
— Wittelsbach, os alunos! — lembrou-me Valenttina, no exato momento em que percebeu qual era a intenção do animal gigante.
Por mais que eu não suportasse aquela sonserina, tinha que admitir que ela estava correta. Como monitores, era nosso dever manter a ordem e proteger os alunos no caso de ausência de algum membro do corpo docente e estava claro o que aquele monstro pretendia fazer.
— Aqui! — gritei sem pensar, puxando a varinha do bolso do jeans e fazendo uma pequena rajada de faíscas vermelhas saltarem sobre minha cabeça, numa tentativa de atrair a atenção da lula. — Pericullum!
— Não ‘tá adiantando, Caesar! Cass, faz algo! — disse Demetria, com o desespero evidente em sua voz.
Sem titubear, Cassius puxou a varinha de dentro da calça e apontou-a na direção da lula gigante, bradando:
— Spinus!
Uma série de movimentos de pulso rápidos precedeu a pronúncia do feitiço, mas assim que ele completou-se, uma saraivada de espinhos negros e pontiagudos surgiu no ar, lançando-se contra o flanco da lula gigante. Como esperado, o animal titubeou em seu avanço, movimentando os tentáculos ao redor do próprio corpo e girando a cabeça na nossa direção, esperando saber o que lhe atingira e de onde aquilo viera.
Um rastro de sangue aguado escorreu dos furos causados pelos espinhos, mas aquilo não era nada com que a lula se preocuparia, devido a seu corpanzil.
— Valenttina, Demetria, vão logo! Tirem os alunos de lá! — ordenou Cassius, chicoteando a varinha novamente na direção da lula; desta vez, um pequeno raio prateado atingiu-a no meio dos olhos, atordoando-a. — Kadabrus!
As duas sonserinas brandiram as varinhas e correram na direção dos alunos. No meio do caminho, deu para ouvir a voz de Valenttina ser ampliada magicamente, de modo que todos nas redondezas poderiam escutá-la.
— Vamos lá, seus idiotas! Saiam daí, não queiram bancar os heróis! Salvem suas vidas!
Enquanto Valenttina e Demetria se afastavam, a lula começou a nadar na nossa direção, erguendo parte dos tentáculos sobre a água e deixando a mostra sua boca cheia de dentes pontiagudos.
— Tim, Caesar, acho melhor nós sairmos daqui também se não quisermos morrer!
— Você tem razão, Cassius. — falei. — Mas se nós sairmos daqui agora, ela vai atrás dos outros. Lá tem muita gente, vai acabar acontecendo uma tragédia!
— É, Cass... CUIDADO! — Timothy não teve nem a chance de terminar o que estava falando. A lula havia se aproximado de nós numa velocidade impressionante e, naquele exato momento, um de seus pesados tentáculos desceu sobre mim. Felizmente, Tim empurrou-me para perto de Cassius, que disse:
— Gradius! — Uma rede feita por cordas de cânhamo e com pequenos pesos de chumbo nas extremidades foi conjurada sobre o tentáculo da lula enquanto ele ainda arrastava-se na margem lamacenta onde nós estávamos. Claro que não pretendíamos deter aquele animal com uma tática tão simplória como aquela.
Quando me recuperei do choque de quase ter sido esmagado vivo, apontei a varinha para o animal gigante, que já se preparava para atacar novamente, e vociferei:
— Flagelum! — Da extremidade de meu condão, um flagelo comprido e brilhante, feito de pura luz, apareceu.
Chicoteei a varinha no ar três vezes, e por três vezes o flagelo estalou no corpo da lula, obrigando-a a recuar como se ela estivesse sendo chicoteada. Repeti aquilo mais duas vezes, obrigando-a a afastar-se mais e mais, intimidando-a com o meu chicote mágico. Infelizmente, quando tentei dar a sexta chicotada, o flagelo dissipou-se no ar, não conseguindo esticar-se até a lula e estalando uma última vez a poucos metros de sua cabeça.
— Timothy, Cassius? Onde estão vocês?! — Recuei para perto da Casa do Baco ao perceber que os irmãos Duffer haviam saído de perto de mim. Quando entrei na construção feita de pedra, Tim e Cassius estavam lançando feitiços nas cordas de cânhamo que suspendiam os barcos responsáveis pela travessia dos primeiranistas pelo lago.
Era possível perceber que a lula estava se aproximando mais e mais do ancoradouro, tanto pelo rugido ensurdecedor que ela fazia quando pela agitação incomum das águas que rodeavam o ancoradouro. Quando o último barco foi trazido à superfície por Timothy e Cassius, caindo sobre o amontoado dos outros que flutuavam tosca e desajeitadamente na água, um dos tentáculos da lula caiu sobre o outro lado do ancoradouro, esmagando a pedra como se fosse gelatina.
A poeira dissipou-se rápido e era possível que víssemos os olhos do animal encarar-nos com fúria.
— Agora, Cass! Waddiwasi! — os irmãos pronunciaram o feitiço em uníssono, içando um dos barcos no ar e lançando-o violentamente contra a lula. Quando o barquinho se chocou contra seu corpo, estilhaçou-se em dezenas de pedaços de madeira, que voaram pelos ares. Compreendendo a estratégia de Tim e Cassius, acompanhei-os na investida, mas de um jeito diferente.
— Eletricus, Eletricus! — Enquanto os outros dois garotos lançavam os barcos contra a lula, fiz com que pequenas rajadas elétricas fossem enviadas até diferentes pontos de seu corpanzil molhado, atordoando-a mais e mais.
Em agonia, o animal foi recuando, não suportando os ataques consecutivos contra ele disparados. Pouco a pouco a lula foi vencida até que voltou a submergir no lago. Àquela altura, tanto eu quando os outros dois corvinos estávamos suados e cansados de realizar tantos feitiços ofensivos de uma vez só. Quando certificamo-nos de que a lula realmente havia acabado com seu ataque de fúria, saímos do pequeno cais.
Cassius foi atrás de Demetria e Valenttina, que, àquela altura, já estavam terminando o processo de evacuação da margem adjacente. Eu, por minha vez, puxei Tim comigo e caminhei sobre os escombros da parede do ancoradouro, onde a lula gigante abrira um enorme buraco. Junto dele, avancei pela margem pedregosa que levava até os píeres que outrora estiveram lá prostrados.
Agora, somente um deles continuava em pé. Poucos alunos continuavam ali, alguns estavam tossindo a margem do lago e outros os ajudavam; a maioria tinha fugido em pânico, procurando algum refúgio. A uns vinte metros de onde estávamos, erguia-se uma parede de troncos de madeira negra, onde uma névoa prateada espiralava em volta. Estávamos demasiado perto da Floresta Negra, aquilo não era bom.
— Onde está a monitora Tracy? — perguntei a uma aluna da Lufa-Lufa, que ajudava uma colega de casa a recompor-se do súbito mergulho no lago.
— Hã? A monitora Tracy... Ah, ela estava conosco. Pior, ela estava no píer que foi destruído!
— E você não a viu?
— Não, não vi não! A menos que ela tenha conseguido fugir sozinha e ninguém a tenha avistado.
Aquela possibilidade estava fora de cogitação. Tracy era uma garota responsável, e por mais debilitada que estivesse, iria fazer o que pudesse para cumprir com as obrigações de seu cargo. Como monitora, era inadmissível que ela deixasse os alunos a mercê de uma situação como aquela. Preocupado, olhei em volta e caminhei até o lago, mergulhando meus pés na água. Tracy não estava em lugar nenhum; na lama que me rodeava, não havia nenhum sinal dela e na vasta água negra que se projetava diante de mim, não havia nada exceto pedaços de madeira que flutuavam ermamente e...
Um corpo!
Era difícil de vê-la dali, ela estava a uns dez metros da margem, flutuando de bruços na água, com a camisa marrom encharcada pela água fria. Não dava sinal de vida, não se movia, não fazia nada além de flutuar de um lado para o outro, sob o controle das marolas que se propagavam em diversas direções. Desesperado, gritei:
— Carpe Retractum! — uma corda de energia vermelha e elástica saltou de minha varinha e agarrou-se ao tornozelo do corpo flutuante, arrastando-o subitamente na minha direção. Quando estava próximo o suficiente, cancelei aquele feitiço com um florear da varinha e voltei a dizer:
— Mobilicorpus! — aquele era um melhor jeito de transportar o corpo de alguém desacordado. O corpo ergueu-se no ar e passou a flutuar em minha direção, percebi que era Tracy. Seus cabelos castanhos estavam grudados ao rosto pálido e sua pele estava enrugada por passar tanto tempo boiando.
Pousei o corpo da monitora a alguns metros da margem, virado para cima, e caminhei até ela, com lágrimas escorrendo dos olhos devido ao desespero que tomava conta de mim naquele exato momento.
— An... Anap... Anapneo... — nada aconteceu.
A possibilidade de estar lidando com o cadáver de Tracy Westwonder tirou-me toda a capacidade que eu tinha de realizar feitiços. Eu estava perturbado e assustado, nada daquilo deveria estar acontecendo. Felizmente, Timothy apareceu ao meu lado no momento mais oportuno e apontou a varinha para o pulmão da corvina, ordenando:
— Anapneo! — Decorreram alguns segundos e, com estremecimentos consecutivos, o corpo da monitora foi expulsando toda a água que não deveria estar lá. A cada tossida que a garota dava, eu sentia uma pontada de alívio, pois me certificava que ela ainda estava entre nós. Infelizmente, aquele alívio não durou muito.
Dois minutos depois de Tracy por para fora o último gole indesejado de água, quando eu já estava calmo e tinha me recomposto com o auxílio de Timothy, um vento frio e suspeito soprou, vindo da Floresta Negra que se erguia diante de nós. Junto daquela brisa sombria, um lampejo negro emergiu dentre as árvores, cortando o ar numa velocidade impressionante para chocar-se com estrondo na água. Olhei confuso para o local de onde o lampejo surgira e tentei imaginar quem teria sido o responsável por aquilo.
— Pelas barbas de Merlin! — minha linha de raciocínio foi interrompida pela exclamação de Timothy, seguida dos gritos dos alunos que ainda estavam ao meu redor. Uma enorme sombra ergueu-se atrás de mim e, quando eu me virei em sua direção, a lula ligante tinha emergido novamente.
Ela observava a mim e a Tim com seus olhos assassinos, ciente de que nós havíamos ajudado a subjugá-la. Quando ela ergueu os tentáculos sobre a água e deixou a enorme boca à mostra para emitir o rugido mais assustador que eu já havia ouvido até então, senti que estava tudo acabado. Com ou sem Timothy, seria impossível derrotar aquela lula. Perto do ancoradouro, nós tínhamos o terreno que nos favorecia, assim como os objetos necessários para intimidar o animal, mas ali nós só estávamos cercados por pedaços de madeira partida, lama e vários alunos debilitados, que se arrastavam desesperadamente para longe da água.
Quando a lula parou de rugir e ergueu o maior de seus tentáculos na direção em que eu e Timothy nos encontrávamos, não ousei nem erguer a varinha para me defender, por sabia que seria inútil. Porém, outras pessoas tomaram iniciativa.
— Expurgare! — Gritaram os três professores em uníssono, no outro lado do lago. Mesmo àquela distância, era possível ouvir o seu feitiço com clareza indescritível.
Três jatos contínuos de energia purpúrea foram lançados das varinhas dos três professores, e todos chocaram-se contra a parte dorsal da cabeça da lula, que ficou paralisada na mesma posição em que estava.
No centro do trio de salvadores, estava o diretor Arnstein, que afastava sua capa prateada com o cotovelo e conjurava o feitiço com o braço direito erguido. Normalmente ele parecia um velhinho frágil, mas naquele exato momento sua aparência era tão intimidadora que nem eu ousaria me aproximar dele. Ao seu lado direito, estava o professor Koppelmind, o vice-diretor e mestre de Trato das Criaturas Mágicas, trajando seu costumeiro terno marrom. Ao seu lado esquerdo erguia-se a imponente professora de Transfiguração e diretora da Corvinal, Madame Lamarphe.
Ela era uma mulher esbelta e cheia de curvas torneadas, talvez a mais jovem de todo o corpo docente, porém não era correto julgá-la por seu rosto bonito como sendo uma bruxa frágil. Katherine Lamarphe era uma mulher prodígio, uma das melhores transfiguradoras da atualidade, responsável por feitos de incrível complexidade e certamente digna de devoção. Ela erguia-se mais alta que os outros dois bruxos à sua direita, trajando um vestido lilás que lhe descia até os tornozelos. Sua varinha era erguida pela mão direita, enquanto a esquerda mantinha a barra do saiote que compunha o vestido longe da lama que a rodeava.
Por alguns segundos, os três bruxos continuaram a execução do feitiço até que, com um barulho estridente, uma sombra negra ergueu-se do corpo da lula gigante e flutuou no ar por alguns segundos. Ela não possuía forma bem definida, contudo, era possível dizer que estava muito irritada com os professores. Passados alguns momentos, a sombra atirou-se na direção da floresta, sumindo na escuridão macabra.
A lula gigante girou no próprio eixo, encarou o trio de bruxos na outra margem do lago e, silenciosa e pesarosamente, submergiu nas águas do lago, lançando ondas em todas as direções.
O sol ainda estava alto no céu, mas ninguém mais se aventuraria a permanecer fora do castelo depois de toda aquela confusão. Ao meu redor, os alunos começavam a erguerem-se, atordoados e moribundos, exceto por Tracy, que continuava desacordada atrás de mim e por Timothy, que se prostrava ao meu lado como uma sentinela, tão sujo de lama, poeira e suor quanto eu.
— Ah, senhor Wittelsbach! — falou o diretor Arnstein da outra margem, com a voz magicamente ampliada e estranhamente calma. — Gostaria de reunir os outros monitores e comparecer ao meu gabinete dentro de vinte minutos? Creio que temos algo a debater.
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