O Poder Oculto
1 Capítulo 1 - O aviso
Os sinos do campanário de Hogwarts repicaram, anunciando o fim das aulas naquele dia. Saí da úmida masmorra de poções acompanhado de Timothy, meu melhor amigo, segurando uma pequena pilha de livros contra o peito com a mão direita e arrastando meu caldeirão pelo labirinto bolorento que constituía o subsolo do castelo com a outra mão. Não tardou para que eu emergisse nas escadarias, onde o burburinho constante das centenas de alunos ecoava livremente.
— Tim, você pode segurar essas coisas para mim por um segundo? — entreguei o caldeirão e os livros a Timothy sem esperar resposta, tirando a varinha de um dos bolsos de meu manto e caminhando até uma dupla de alunos da Grifinória que estava arrumando encrenca no Saguão Principal. A vida de monitor não era fácil, ainda mais quando se somava as responsabilidades do cargo ao fato de que aquele era o ano dos NOM’s. Sem mais delongas, lancei um olhar ameaçador aos grifinos, que eram dois palmos mais baixos que eu, e falei:
— Caham, algum problema aqui, senhores?
— Ahn... Não, monitor Caesar. Nós só estávamos conversando!
— Foi o que imaginei. — semicerrei os olhos e fiz um gesto com a mão que não segurava a varinha, dando sinal para que os alunos saíssem dali. — Vamos, vamos, vocês estão obstruindo a passagem!
Após evitar o início da aparente confusão entre os garotos, enfiei minha varinha no bolso novamente e driblei os alunos que transitavam em todas as direções até chegar a Timothy, que ficou no mesmo lugar em que eu o deixei, incapaz de se locomover devido ao peso exacerbado que eu o conferi com os meus materiais. Peguei minhas coisas novamente e reiniciei a subida pelos degraus de mármore das escadarias, sempre acompanhado de Timothy. O sol já estava começando a se por no horizonte, lançando dardos alaranjados na direção do castelo, que eram filtrados pelos vitrais coloridos de algumas janelas para só então banhar a cabeça dos adolescentes.
A subida até a Torre da Corvinal cansativa e exaustiva, mas Tim ocupou minha mente com os mais variados assuntos; quando eu pensava que ia se calar, ele recomeçava a falar, mas eu gostava daquilo. Dei atenção a ele o máximo que pude, interrompendo a subida mais duas vezes para apartar duas brigas. Quando por fim chegamos ao Salão Comunal, minhas pernas doíam.
Tim e eu ficamos conversando no comunal por algum tempo, e eu não deixava de perceber a irritante mania que ele tinha de ficar arrumando o cabelo, por mais alinhado que suas mechas negras estivessem. Decorridos alguns minutos, o assunto finalmente acabou e eu resolvi fazer parte de meus deveres. Iniciei pelo de minha matéria preferida — Trato das Criaturas Mágicas —, e finalizei-o rapidamente.
A essa altura, a lua já estava subindo no céu e logo a hora do jantar chegaria; tendo isso em mente, fui até o banheiro dos monitores, que não ficava muito longe da Torre da Corvinal, e tomei um banho rápido. Quando voltei ao comunal, Tim já estava pronto para descer. Juntos, fomos até o Salão Principal.
Quando chegamos lá, as mesas já começavam a se encher. Antes dos pratos serem servidos, o diretor, professor Hilbert Arnstein, subiu ao palanque, elevando-se diante de todos e erguendo as mãos para que o barulho fosse cessado. Quando conseguiu o esperado, começou a falar:
— Boa noite a todos! — a voz do diretor soou com clareza por todo o salão, reflexo de uma das incríveis habilidades dele: realizar alguns feitiços sem o auxílio de varinhas, cajados ou outros artefatos. Ele continuou:
— Devo lembrar-lhes que hoje completamos exatos dois meses letivos e que, daqui a duas semanas, as visitas a Hogsmeade iniciar-se-ão. Mas não é por isso que estou atrasando o jantar de vocês; gostaria de comunicá-los que coisas estranhas se agitam nos arredores de Hogwarts. A monitora da Sonserina, Valenttina Vendramini, afirma ter visto vultos agitarem-se na orla da floresta; neste exato momento, o nosso mestre de Defesa Contra as Artes das Trevas, Sr. Billford, está patrulhando a Floresta Negra junto do zelador Hardy...
Aquele era um assunto estranho a comentar-se tão abertamente. Normalmente, o corpo docente de Hogwarts mantinha notícias como aquela longe dos ouvidos dos alunos e só as revelava quando a coisa estava começando a ficar séria. Se aquilo estava sendo dito exatamente no mesmo dia em que os vultos foram avistados, alguma coisa realmente ruim deveria estar acontecendo.
Olhei em volta para avaliar a reação dos alunos e não deixei de notar a pequena ruga que se formou entre as sobrancelhas de Timothy enquanto ele franzia o cenho para o diretor.
— Ei, vocês aí, façam silêncio! — disse para um grupo de alunos sentados à minha mesa que haviam começado a conversar do nada, talvez comentando sobre o que o Sr. Arnstein acabara de comunicar. Por sorte, eles me deram ouvidos e calaram as bocas.
— Enfim, o que eu tinha para falar era somente isso. — professor Hillbert voltou a falar. — Não há motivo para alarde, mas, doravante, é melhor que pensem duas vezes antes de se aproximar da floresta, pelo menos até que resolvamos esta pendência. Aproveitem o jantar!
O diretor ergueu os braços num movimento abrangente e os pratos sobre as cinco mesas que mobiliavam o Salão Principal encheram-se de comida. Fiquei observando enquanto ele caminhava de volta para sua cadeira de respaldar alto, onde estava entalhado o símbolo de Hogwarts, e puxar conversa com o vice-diretor e professor de Trato das Criaturas Mágicas, o Sr. Koppelmind. Os dois eram pessoinhas baixas, mas isso era a única semelhança entre ambos.
Enquanto Arnstein já passava dos setenta anos, com a pele pálida como algodão, reluzentes olhos verdes e uma fofa barba cinzenta que lhe decorava o queixo, em harmonia com os cabelos finos que lhe desciam do cocuruto encoberto pelo chapéu pontiagudo, Koppelmind era um homem forte e robusto que não chegava aos cinquenta anos de idade, com a pele acobreada, olhos cor de mel e cabelos negros meticulosamente alinhados para a direita.
— Caesar, o que você acha que a Valenttina viu? — indagou-me Timothy enquanto servia seu prato com colheradas generosas de purê de batatas.
— Não faço a mínima ideia, Tim. Mas se tem o dedo daquela sonserina nojenta, não deve ser boa coisa. Talvez seja até mentira!
— Você acha que ela mentiria para o Sr. Arnstein?
— Pode ser que sim, pode ser que não... Quando se trata de pessoas como aquela garota é bom sempre ficar com uma pulga atrás da orelha.
— Verdade, verdade... — Tim balançou a cabeça positivamente e arrumou os cabelos novamente antes de começar a comer. Observei-o por um breve minuto antes de comer também, não deixando de notar o modo como seus cabelos negros contrastavam drasticamente com sua pele pálida ou o jeito que seus olhos azuis gostavam de encarar as pessoas, como que para descobrir se o que elas diziam era verdade ou não.
O jantar foi tenso, admito. Fiquei toda a refeição conversando com Tim e com outros garotos da mesa da Corvinal, mas, lá no fundo, fiquei um pouco preocupado com o aviso do diretor.
Quando terminei de comer, reuni os alunos da Corvinal junto da outra monitora, Tracy Westwonder, assim como todos os monitores, e escoltei-os até o comunal. Como era de praxe, eu e Tracy nos dividimos e patrulhamos os corredores por meia hora, para certificar-nos de que nenhum outro aluno andava zanzando por aí.
Durante esse tempo, pensei em Tracy. Nós não éramos muito próximos, mesmo que, em todos os cinco anos que eu passei em Hogwarts, dividi no mínimo uma aula com ela. Que era bonita ninguém podia negar, mas parecia que ela — assim como boa parte das garotas das quais eu tentava me aproximar — me evitava. A eleição para a monitoria não mudou muito o nosso pseudorrelacionamento: agora nós só nos falávamos quando era necessário.
Ao fim da meia hora de patrulha, não encontrei nenhum aluno, então voltei para o comunal. Quando entrei, muita gente estava lá, inclusive Tracy, mas ela não me deu muita bola. Esquadrinhei o local em busca de Timothy e, ao constatar que ele não estava ali, subi a escada em espiral que levava ao dormitório, encontrando-o debruçado sobre os deveres de casa.
— Ei, cara! O que você ‘tá fazendo?
— Hum? Ah, é você, Caesar! Eu estou terminando a atividade de poções! — quando ele me percebeu, rapidamente enrolou um pergaminho no qual estava rabiscando e pegou o livro de poções, abrindo numa página aleatória.
Achei aquilo meio estranho, porque nós não tínhamos recebido nenhuma atividade de poções.
— Sei bem... Enfim, isso de monitor ainda vai me matar de cansaço. Nesse tempo que eu passei caminhando por aí, já poderia ter feito todos os meus deveres. — caminhei até minha cama e peguei minha mochila, donde tirei alguns livros, pergaminhos, pena e tinteiro; posteriormente, caminhei até a cama de Timothy e comecei a fazer o dever.
Ele não se importou, mas parecia um pouco nervoso com a minha aproximação. Ergui o olhar, analisando-o.
— Tem algo errado?
— Algo errado? Báh! Está tudo ótimo.
— Sei bem. O que você estava escrevendo quando eu cheguei?
Olhei para o pergaminho que ele enrolou quando eu apareci e, instintivamente, ele o puxou para perto de si.
— Não foi nada, Caesar. Eu disse, estava fazendo o dever de poções.
— Você mente pessimamente, Tim. — observei-o enrubescer.
— Deixe pra lá, cara. Não era nada, já disse.
— Está bem então. De um jeito ou de outro eu vou descobrir.
— Não vai descobrir nada! — ele disse num tom desafiador, esboçando um sorriso descontraído; era claro que ele queria mudar de assunto e eu não estava afim de criar outra crise entre nós, então debrucei-me sobre os pergaminhos e voltei a fazer os deveres que eu deixara pendentes antes do jantar; Timothy fez o mesmo.
Quando terminamos o dever de casa, começamos a conversar sobre quadribol e sobre garotas. Citei Tracy durante o diálogo, mas percebi que tentar algo com ela seria claramente algo falho; até o modo como eu falava o nome dela era desanimado. Ficamos tagarelando por mais meia hora até que meus olhos começaram a pesar, então peguei meus materiais e voltei para a minha cama.
— Boa noite, Tim. — falei após fechar as cortinas azul-celeste que rodeavam minha cama e por o pijama. Mesmo que estivesse com sono, ainda continuei acordado por cerca de quarenta e cinco minutos, sem conseguir pregar os olhos. Ouvi enquanto os outros colegas de quarto chegavam e dormiam.
Algo me impedia de adormecer, e eu sabia que tinha a ver com o comunicado do diretor Arnstein. Havia alguma coisa naquela notícia que me preocupava, e por mais que eu tentasse tirar aquilo da minha cabeça, não conseguia. O tempo se arrastou, e depois de muito que eu rolei na cama consegui cair no sono. Mas, quando fechei os olhos, me vi na floresta. E, na floresta, vultos estranhos assomavam na escuridão.
O que seria aquilo?!
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