Notas iniciais
ééé

Parte 2

Eu não havia prestado bem atenção no tempo, Maria Eduarda havia sentado à minha frente e chorou a viagem toda, tive que me forçar a chamá-la para descer, meu ponto havia chegado.

Eu segurei em sua mão e ela me olhou assustada, um pouco atônita, eu estava querendo muito perguntar o porquê de tudo aquilo, tinha vindo a viagem inteira pensando em milhões de explicações, milhões de possibilidades para tudo isso. Eu havia determinado 3 fatos: Ela era agredida pelos pais, ou algo assim; A mãe era alguém que ligava muito para as aparências, por isso não havia se estressado até que Maria Eduarda perdeu as estribeiras; Maria Eduarda tinha alguma maneira de saber sobre minha vida.

Tentei pensar em várias maneiras dela saber de tudo aquilo, mas não tinha como, não tinha um porquê, não havia uma razão dela ter dito toda a minha vida, a não ser que pudesse ler a minha mente. Será que ela podia?

Ela estava totalmente em silêncio quando saímos do ônibus, parada, alheia, eu segurei sua mão para que pudéssemos prosseguir até minha casa. O que a Gisele, minha namorada, pensaria? No meu segundo dia na cidade grande eu trouxe uma garotinha sem-teto para casa, não era uma boa impressão para a mulher que eu decidi até me casar.

Estava chegando perto de casa, um sobrado bem pequeno de aparência simples por fora mas bem organizada por dentro, eu mantinha tudo em ordem. Maria olhava para a janela como se quisesse se jogar dela assim que estivesse lá dentro, preocupante, decidi abriga-la lá essa noite, e então, amanhã, sendo sábado, eu poderia pensar em alguma solução, talvez chamar a polícia, sei lá. Quando chegasse em casa, tomasse um banho bem relaxante, e preparasse comida para mim e para ela, eu saberia de toda história.

Eu abri o portão, subi as escadas e em uma porta na lateral direita, estava a porta da minha casa, seguindo as escadas, havia uma laje e a porta de outra casa, embaixo, uma garagem. Abri, e a casa estava completamente escura, percebi só agora que já era noite. Gisele voltaria apenas daqui algumas horas, pois ela trabalhava no turno da tarde, então eu sempre chegava, arrumava tudo e esperava ela apenas de bermuda deitado na cama, para nossa diversão. Eu a conheço desde a 7 série, o oitavo ano, mas na época éramos apenas amigos, depois, evoluímos para namorados e estamos assim há mais de 3 anos, ela se mudou para cá primeiro, e depois, eu a acompanhei. Nosso primeiro dia aqui, longe de todo mundo, foi o dia que nos descobrimos por completo. Ela é linda.

Maria Eduarda entrou depois de olhar para minha casa por muito tempo com um olhar perdido, nossos olhares se encontraram e então ela se sentiu forçada a entrar, insistia em não dizer nada, e aquilo já estava me matando. Será que a mãe dela já havia chamado a polícia para mim? Ela estava arrependida, agradecida? Maria Eduarda estava bem com tudo isso? Ela queria voltar? E o pai dela? Deuses, tantas coisas e eu nem sabia por onde começar.

Foi quando ela falou.

— Bela casa... – A voz ainda estava carregada, afinal ela chorou esse tempo todo.

— Obrigado, Maria Eduarda.

— Pode me chamar só de Duda, Carlos Oliveira.

Eu fechei a porta, e um arrepio subiu a espinha quando ela disse meu nome e sobrenome.

— Afinal, como você sabe meu nome, e todas as outras coisas que disse naquela hora? – Eu já não aguentava mais de curiosidade, muitas perguntas, nenhuma resposta.

E ela me respondeu com uma desviada de olhar, e um "Onde fica o banheiro?". Estava tão nervoso que ri.

***

Era uma situação delicada, e toda vez que eu parava para pensar, eu me imaginava cada vez mais fodido. Eu sequestrei a criança, sequestrei a Duda. Eu seria preso? Espero que não. Esses pensamentos me assombraram por boa parte do tempo que eu cheguei em casa, Maria Eduarda tomou um banho e vestiu as mesmas roupas, pude ver hematomas, arranhões e inchaços em seu corpo, cicatrizes e marcas roxas... Alguns bem novos, outros já estavam até sem cor. Meu coração apertou e eu perguntei se a mãe dela fizera tudo aquilo, ela preferiu não responder. Depois do banho tomado, sua aparência estava revigorante, e o inchaço do olho parecia ter sumido, observando seu corpo antes e depois do banho, percebi o quanto ela estava encardida, suja, e o quanto parecia nova agora, parecia até mais alegre que antes. Durante esse tempo, eu preparei um jantar para nós, Gisele estava prestes a chegar, mas Maria Eduarda parecia faminta, então decidimos comer antes dela.

Ela observou a mesa posta, e eu sorrindo com meu melhor sorriso gentil que consegui fazer. Seu olho viajou entre os pratos e meu rosto, e subitamente, começou a lacrimejar, seguido de um breve soluço, e choro. Não era um choro de tristeza, muito pelo contrário, ela parecia verdadeiramente feliz. Colocou as mãozinhas no rosto e soluçou novamente, droga, eu também chorei.

Foi uma grande cena, eu segurei sua mão, e prometi que nunca mais ninguém a machucaria. Eu não sabia o que tinha dado em mim, naquela hora, todos os problemas desapareceram, éramos apenas eu e aquela menina peculiar que estava aterrorizada, mas feliz por ver que ainda tinha como prosseguir. Eu senti um peso nos meus ombros nessa hora, já não importava mais de onde ela vinha, qual era sua história, eu apenas queria vê-la sorrir, mesmo que eu tenha que dar meu suor e lágrimas.

Nem vi quando eu a abracei. Nem vi quanto tempo passou até a hora de estarmos sentados na mesa, comendo e sorrindo, eu contando piadas sem graça, e ela agindo como se fossem, de fato, engraçadas. Muito diferente da menina surrada e de cara fechada que eu encontrei hoje mais cedo. Ela estava feliz.

Também não vi quando Gisele apareceu na entrada da cozinha com uma expressão assustada e cansada, olhando para Duda.

— Quem é você? – sua voz tremia, eu e Duda levamos um susto.

Eu havia dito à garota que ela já estava chegando, mas não esperava que fosse tão cedo, nem assim tão de repente.

— Carlos – ela estava claramente se esforçando para manter a calma. – Pode, por favor, me explicar quem é essa menina?

Duda estava assustada, na defensiva, eu também.

— É-é uma longa história, amor – minha voz trêmulou – Melhor você se sentar.

Um clima tenso se instaurou de repente, bem, eu não a culpo.

— Muito bem, explique – ela se sentou entre nós dois, nos observando com severidade, como se eu tivesse batido o carro dela e ele tivesse explodido – Eu não a conheço, então imagino que você também não – ela fez uma pausa, estudando o rosto de Maria Eduarda, que a olhava como se ela fosse o bicho papão – De onde você é?

— Sou... Sou de... – ela fez uma pausa, olhando para mim.

— Jardim do paraíso – completei.

— Onde diabos fica isso?

— É um pouco longe, pra falar a verdade.

— Não me interessa – Gisele aumentou o tom de voz, sinal que ela estava perdendo a paciência. Olhei para Duda, mas ela já não estava mais tão assustada, diferente disso, ela olhava para Gisele com a mesma intensidade.

Duas mulheres fortes.

— Carlos, apenas me diga o porquê de ter uma garota estranha na nossa casa, okay? – sorriso forçado.

Contei a ela toda a história, estava se revirando na minha cabeça, eu já estava louco para dividir com alguém, então disse todos os detalhes desta tarde. Gisele ouviu tudo atentamente, mas ficou um pouco chocada com as agressões. Pediu para ver alguns hematomas da garota, e ela a mostrou. Obviamente, eu não contei sobre a possibilidade de Maria Eduarda poder de alguma forma ler mentes, eu não sabia como a mente racional de Gisele reagiria a isso.

Depois de toda a conversa, Gisele não falou mais nada, se levantou e foi tomar um banho. Eu olhei para Duda, e seu olhar desconfiado desvaneceu-se. Eu imaginara o motivo de Duda ainda não ter gostado de Gisele, porém, levando em consideração o trabalho que tive para que ela confiasse minimamente em mim, eu até entendo.

"Não se preocupa, sabe, eu confiei em você no primeiro momento."

Fui pego de surpresa, pisquei os olhos várias vezes confuso. Duda havia dito alguma coisa, não havia?

"Tecnicamente, sim."

"É, tecnicamente...... Não... Espera"

Duda sorriu, e então minha ficha caiu, me inclinei e a colher lançou um pouco de molho na minha roupa. Duda começou a gargalhar, garota danada.

— Você falou comigo por pensamentos, isso? Estou maluco?

"Está!" Ouvi a voz dela mesmo enquanto ela continuava dando gargalhadas.

— Com certeza estou, não é? – eu me peguei rindo também, se aquilo era um sonho, estava divertido demais para que parasse. Agora eu não havia sequestrado uma criança surrada qualquer, era uma criança surrada com poderes de telepatia.

"Pare de falar em sequestro, bobão"

— Parei, eu juro.

"Pode parar de falar com a boca, também"

Ela mostrou a lingua, mas parou de rir.

"Então, isso enlouquecera sua mãe? Por isso ela te batia?", Ela acenou que sim, "Ela te odiava por isso?"

"Minha mãe era uma puta social"

"Boca suja, lavo ela com sabão", Tentativa falha de descontrair a conversa, bem, ela parecia triste por lembrar desses assuntos.

"Okay, sr.Certinho, minha mãe ligava mais para as aparências, sabe?", Ela começou a brincar com os dedos, "Então ter uma filha como eu a deixava maluca, eu era especial demais... Era o que ela dizia, quando eu era mais novinha"

Ouvi tudo atentamente.

"Meu pai morreu quando eu tinha um ano, então até os cinco, ela era uma boa mãe, sempre ajudada, sempre a coitada da cidade, mãe solteira, viúva, até que vieram os padrastos"

"Homens nojentos, quem sabe não foi por causa deles que eu comecei com isso, um deles a traía frequentemente, e eu vi isso um dia, na cabeça dele, e contei para minha mãe, foi quando ela endoidou pela primeira vez"

Segurei em sua mão, e ela sorriu.

"Ela me bateu, e disse para eu lavar a boca antes de falar mal do marido dela, mas tava claro que era interesse, já que ele era bem de vida... Me chamou de coisas horríveis..."

"Mas aí então ele foi preso, ele era um criminoso, ela ficou chocada, mas manteve a cabeça no lugar pra usar isso de novo como argumento, virou de novo a coitada, nunca me pediu desculpas"

Tudo aquilo era terrível de ouvir, aliás, pensar. Ela jogava algumas imagens em meus pensamentos, e eu via as cenas em flashes. Sua mãe, bêbada, a agredindo, outros homens a molestando, ela em desespero...

"Até que um dia eu decidi não engolir mais isso, e comecei a treinar meus poderes, treinar para me defender, claro que isso só serviu de razão pra minha mãe me agredir, mas valeu a pena! Agora os homens não chegam mais perto dela, e ela me odeia por isso"

Ela deu uma risada, mesmo com o rosto triste.

"Eu não posso voltar pra lá, Carlos... Ela vai me matar... Ela nunca me aceitou, e agora, com todo aquele show que eu dei, com certeza vão começar a falar dela, ela vai perder o status e vai por a culpa em mim..."

Engoli em seco. Fechei os olhos. Ela também.

"Não sei como, mas vou te ajudar Duda, não importa como você faz essas coisas, você já é importante pra mim"

Segurei os dedinhos dela, e ela sorriu para mim. Meu coração bateu mais forte.

Notas finais
Eu meio que fiz uma burrada, ai to repostando kk desculpem