Notas iniciais
esse é meu favorito

Parte 3

Ela continuou contando sua história, por telepatia, enquanto Gisele tomava banho e se trocava, nesse meio tempo, aprendi muito sobre ela. Ela disse que seus poderes foram uma tremenda confusão no início, quando ela tinha por volta de 6 anos, de um dia para o outro, passou a ouvir o pensamento de todas as pessoas indiscriminadamente. Foi um inferno, ela disse. Claro que sua mãe não a ajudava, seu lar conturbado só piorava a situação. Não havia explicações para o que ela ouvia ou por quê, mas não demorou muito para ela entender que era o pensamento das pessoas.

Depois de longos dias, ela finalmente aprendeu como se desligava aquilo, e ela nunca mais foi a mesma garotinha inocente. Ela conseguia sentir como cada pessoa era em seu interior, era uma grande ironia, afinal ela sempre viveu num lugar onde as aparências eram a coisa mais importante. Ela sabia que cada uma daquelas pessoas eram, na verdade, podres, tristes, infelizes, depressivas. Aquilo a assustou muito, e sempre tivera pesadelos por isso. Ela odiava todo mundo, mas odiava a si mesma por não conseguir ajudar. Até que, com o passar do tempo, ajudar já não era tão importante. Aquelas pessoas não mereciam ser ajudadas. As brigas com sua mãe aumentaram, elas estavam cada vez mais distantes, até que a condição mãe-filha deixara de existir.

Eu ouvi, senti e vi tudo, todos seus relatos, e aquilo me deixou muito pra baixo, mas fui surpreendido por uma onda de felicidade. Hoje, mais cedo, Maria Eduarda disse que conseguiu plantar, de alguma forma, a ideia de que ela deveria ser dada ao orfanato, afinal qualquer lugar era melhor que ali. Houve relutância, mas ela foi, infelizmente, não encontraram nem ao menos um. Ela ficou constrangida em dizer que não havia pensado nem em pesquisar antes de ter a ideia. Suas ideias já não estavam mais influenciando sua mãe e por isso ela entrou em desespero, e o que se sucedeu depois disso eu já sabia.

Era uma longa e triste história, mas me senti relaxado, porque via em seus olhos um pouco de esperança, sentia o que ela sentia, fé. Ela queria, e teria, uma vida melhor, se dependesse de mim.

— Que silêncio... – A voz de Gisele ecoou. – Nem quando Carlos ta sozinho ele consegue ficar assim tão quieto.

Olhamos para ela com olhos um pouco arregalados, imagino eu que ela tenha tido até um arrepio.

— Qual seu nome, meu bem? – Ela estava tentando ser mais amigável, era óbvio, mas também era óbvio que ainda estava receosa. Fiquei curioso.

— Maria Eduarda – Disse Duda, com o mesmo tom de voz que usou comigo, no início de tudo. Gisele olhou para mim por um instante.

— E como você veio parar aqui hoje?

— Ah, Gi, isso eu posso explicar, ela estava...

— Não, deixe ela falar – Olhou de volta para Duda, senti a tensão voltar.

— É uma longa história – Duda disse lentamente, pelo que parecia, estava tentando ler Gisele. Era bem sinistro.

— Pode confiar em mim, estamos aqui para te ajudar – Ela segurou a mão da garota.

Eu olhei para Duda, tentando garantir a ela que Gisele era uma boa pessoa, de fato. Afinal, eu a conhecia desde criança, poxa, a primeira pessoa a quem eu recorreria a qualquer problema seria ela.

"Não apresse as coisas, sério, na real, só fica quieto!", eu ouvi sua voz, enquanto, na verdade, ela estava contando uma versão diferente dos fatos para Gisele. Ela era uma boa mentirosa, talvez pela vantagem de saber o que a pessoa quer ouvir e contar algo parecido e plausível.

Duda a contou que ela era uma órfã sem-teto, e acabou pedindo ajuda a mim, sendo eu um coração mole, acabei levando ela para casa, e disse que no dia seguinte ela iria para um orfanato e que estava transbordando de felicidade. Disse isso com tamanha convicção que até eu me surpreendi, com certeza até eu se não soubesse da verdadeira historia acreditaria, quando Gisele olhou de volta para mim, apenas fiz que sim com a cabeça, um pouco envergonhado.

— Nossa, que história. – Ela parecia realmente surpresa – Eu sinto até... Até um orgulho – Sorriu.

— Sim, eu senti que precisava ajudar – Respondi – Mas olha, a comida já está esfriando sabe, talvez você esteja com fome.

Gisele me respondeu com um sorriso gentil, Duda pareceu não gostar nada disso.

***

Tudo parecia mais ou menos encaminhado quando acordamos no outro dia, Duda havia adormecido no sofá, ainda não tínhamos quarto de hóspedes. Eu a levaria, assim que voltasse do trabalho, para algum orfanato, diria que ela era uma sem teto, sem documentos, e que eu não poderia cuidar dela para sempre, Duda disse que pesquisaria o melhor candidato a aceitar, algum orfanato que cuide de crianças por mais tempo do que os outros. Parecia que tudo daria certo, eu tava rezando para isso.

Na real, eu nem ao menos consegui me concentrar no trabalho, meus pensamentos voavam, até que eu realizei que não poderia ser demitido de jeito algum, concentrei-me mais. Duda estava sozinha em casa, e por algum motivo eu me preocupava muito com isso, repassava na cabeça as chances da polícia a achar, ou daquela velha doida que se diz mãe dela aparecer. Ai, eu estava morrendo por dentro.

Uma vibração no meu bolso me distraiu, era uma mensagem dela, de Duda. Dizendo que havia achado um lugar com descrição peculiar. "Lar Arsalein, para criança e adolescentes especiais em busca de ajuda", "Sim, Maria Eduarda, este provavelmente seja o lugar que você procura", exatamente isso. Bem, ela disse que enquanto pesquisava, só aparecera esse resultado, e em qualquer página de pesquisa, mesmo que pela palavra mais simples, apenas esse resultado aparecia, como se estivessem descaradamente querendo leva-la a ir a este lugar. Estava prestes a comentar o quão paranormal isso era, mas, cara, ela lê pensamentos, eu já estava começando a ficar saturado de coisas esquisitas acontecendo a minha volta.

Morar na cidade grande é bem divertido.

Voltei do trabalho o mais rápido possível, pelo mesmo ônibus de ontem, mas agora bem atento para não perder o ponto de casa. Corri até minha casa, abri a porta um pouco ofegante, estava muito ansioso, muito. Duda ainda estava lá, graças, e me recebeu com uma torrente de bons pensamentos e felicidade, como se transmitisse esse sentimento diretamente para meu corpo, ela parecia mais poderosa do que eu achava que era.

Depois de me recuperar de toda afobação, resolvi investigar que diabos de lugar era esse Lar Arsalein. Não era velho, não era proeminente, era apenas uma casa um pouco grande e simples, que inspirava ser uma antiguidade, mas que na verdade era bem nova. Tudo isso visto por imagens na internet, claro, não sabia como poderia ser o lugar de fato, mas se eles deram um jeito de encontrar Duda, então eles devem saber mais sobre esses poderes paranormais. Não acho que há lugar melhor de se crescer do que entre pessoas que a entendem de verdade. As chances de estarmos indo para uma armadilha? Eu não gostava de pensar nisso, sério, que escolha eu tinha?

Nos arrumamos, comemos e em menos de uma hora já estávamos pronto, claro que eu votava por esperar Gisele chegar, seu emprego não a deixava nem tocar no celular direito, não tinha como explicar para ela toda a situação, mas algo dentro de mim dizia que tínhamos que ir logo, estava ansioso. De um jeito sobrenatural. Fiquei imaginando se Duda estava tentando me influenciar, se eu tivesse sua idade e esses poderes, não sei o que faria. Ela estava me fazendo gostar dela?

Por que eu estava pensando nessas coisas? Duda estava me olhando com um rosto desanimado. Ótimo, tudo que eu precisava era que ela ficasse de mal comigo, merda.

— Desculpa – Eu disse, sem nem perceber – Bem, tente entender meu lado.

— É, eu entendo – Ela disse seca.

Apertei a bochecha dela, seu rosto viera junto com minha mão, foi uma cena hilária.

— Magrela, tô falando sério!

— Ah tá tudo bem okay só solta minha bochecha, porra – Ela fez uma cara feia fofa, massageando sua bochecha – E eu sei que você se arrepende, eu posso ver, lembra?... Tem o endereço do lugar ou tá aí parado só de brincadeira?

— Não se preocupa senhorita ranzinza. – Peguei um papel do bolso – Anotei justamente pra não perder, mas deixa eu perguntar, mesmo se eu perdesse, você poderia puxar ele da minha memória não poderia?

— Mano, como você é nerd.

— Sou mesmo, diga tudo.

— Provavelmente eu poderia sim – Ela olhou para cima – Talvez, sei lá, posso tentar?

— Por favor.

Duda olhou para mim com um olhar congelante, por um minuto, senti meu cérebro latejar. Fechei os olhos, mas a dor já havia sumido, quando abri novamente, Duda já estava com um sorrisinho aberto.

— Rua 6 de Agosto? Número..... 215, CEP 942...

— Tá tá, você venceu! – Eu disse, nossa, ela tinha achado mesmo, que garota! – Eu sou um pouco curioso, mas dessa vez me rendeu uma bela pontada na cabeça.

— Tive que ser um pouco agressiva pra achar uma coisa que você só tinha visto uma vez e anotado. Sabe o quanto é difícil? Ter que me esquivar de todas as pequenas cenas de você e sua namorada pelados debaixo do cobertor? – Meu rosto deve ter ficado um pouco vermelho, porque ela abriu um sorriso como se tivesse acabado de me pregar uma pegadinha.

— Hahaha, engraçado. – Desviei o olhar – Você não deveria saber dessas coisas, tem quantos anos? 10?

— Eu tenho 12 – Ela encheu de ar as bochechas – Quase 12... Parece não?

— Pra falar a verdade? Não – Ela tinha a aparência de alguém com 9 anos, sei lá como as garotas de 9 são, mas são com certeza baixinhas magricelas de cabelo cumprido. – É bem estranho, sério, talvez tudo o que você teve que lidar fez com que você amadurecesse mais rápido, porque sinto como se tivesse conversando com alguém da minha idade.

— Obrigado por falar que eu sou um adulto chato – Piadinha de mal gosto, não?

***

Já no ônibus, Duda sentava ao meu lado, olhando em volta, animada, empolgada. Conseguia sentir sua aura agitar. Dei a ela meu celular para que ela jogasse um pouco, talvez isso a distraísse. Enquanto eu, pensava no que iria encontrar quando chegasse nesse tal Lar Arsalein, que nome mais estranho. Era algo tipo, mansão do professor Xavier? Cheio de mutantes inteligentes ou brincalhões? Será que tinha um Logan ou um Charles para botar ordem na bagunça? Imagina que foda!

Claro que, provavelmente, não seria tão legal quanto na ficção, é sempre uma casa um pouco grande com crianças hiperativas, um pátio ou sei lá o quê pras pestes brincarem e uma improvisação de escola, era assim que eu imaginava casas desse tipo. Bem, fosse o que fosse, poderia dar um futuro a ela, melhor do que um cara quebrado como eu.

Espera, estava mesmo pensando em adotar ela? Será que seria ruim? No que estava pensando, claro que seria. Não tenho dinheiro nem pra mim, imagina pra dois de mim.

— Pra falar a verdade, eu não me importaria de morar com você, Carlos.

Aquilo me pegou desprevenido, estava perdido demais em mim para lembrar que ela estava escutando. Desvantagem 1: Ela vai ouvir, sempre. Imagina quando virar adolescente?

— Correção: Não quero mais morar com você, puta cara chato – Eu ri, ela me beliscou.

***

A condução que pegamos nos deixou bem perto do lugar, mais algumas quadras e estaríamos nessa tal casa, ou, se preferir, Lar. Devo admitir que o frio na minha barriga crescia cada vez mais a medida que nos aproximávamos.

— Sabe, queria que você tivesse tido mais tempo com Gisele, ela pode ter sido um pouco chata ontem, mas ela é uma ótima pessoa. – Eu comentei, tentando quebrar o clima ansioso.

— Com certeza ela é, sem brincadeiras, ela é uma pessoa legal, tem uns gostos doidos por música, mas é legal – Eu ri, isso era uma verdade – Mas ela também é muito lógica, realista, desde que me viu ficou julgando as possibilidades de se livrar de mim, com medo de que eu tivesse que ficar na casa dela por mais que uma semana – Fiquei... Fiquei chocado – Sua mente trabalhou tão rápido que até eu me assustei, ela é muito inteligente.

— Ela sempre foi a melhor aluna, com um futuro brilhante, até hoje não entendo porque ela me escolheu. Mas eu... Bem, ela é fria as vezes, mas...

— Não fique bravo com ela, ela é uma mulher ocupada, que não gosta da ideia de gravidez no momento. Ela se precavê todo dia, é uma mulher de carreira. Eu devo ter assustado ela – Ela sorriu fraco – Tá! Eu fiquei um pouco magoada, mas eu tento entender, juro.

Somos dois adolescentes tentando fazer a vida na cidade grande, claro que ter um filho agora seria um gigantesco problema, mas ela foi tão fria...

— A propósito – Ela começou a falar, e parou de andar – acho que não deveria te dizer isso... Não, esquece.

— Ora, vamos, diga logo.

— É que eu vi nela, não quero me meter na relação de vocês, mas achei muito errado e me segurei pra não falar antes.

— Então para de enrolação, diz logo – Estreitei os olhos.

— É que ela e um amigo...

Duda foi interrompida por um forte som de um carro dos bombeiros passando a toda velocidade, depois, outro, e então, uma ambulância. Estavam correndo na mesma direção que eu e ela caminhávamos, correndo com velocidade preocupante. Nós corremos para acompanhar o movimento, seria possível ser no mesmo lugar? Mas que porra! Viramos a esquina e lá estava.

O carro dos bombeiros jogava água em uma das janelas de um casarão, onde, na fachada, estava escrito "Lar Arsalein".

Era só o que me faltava.