O Plano B

25 XXIV- You think you've won this fight, you've only lost your mind


Notas iniciais
Eu nem preciso falar nada sobre a demora, né. Gostaria de escrever essa história 30 vezes mais rápido, mas não consigo.Desculpem-me. Se não for pedir demais, por favor, comentem. Ter gente lendo É o único combustível que me impulsiona a continuar escrevendo a história. O título do capítulo é em referência a uma música na qual ela é baseada. Adoro vocês ♥

CA

Foi uma tarefa quase sobre-humana para Raito segurar a imensa gargalhada que estava coçando a tempos em sua garganta, pedindo pela liberdade culposa de sua existência. Tudo o que queria fazer, desde que começara a ouvir os pedidos de desculpas de L, era rolar no chão de tanto rir do quanto ele era idiota e patético.

E mais do que isso, debochar do verdadeiro incompetente que era na investigação do Caso Kira.

Evidentemente, não podia fazer o que seu corpo pedia.

Obrigou-se a agir de acordo com o seu familiar teatro de bom garoto, bancar o arrasado cujo coração fora despedaçado, e cujo perdão o detetive teria que lutar veementemente para conseguir.

É claro que Raito queria que L se sentisse mal, como se fosse só mais um mentiroso sujo e barato que o traíra. Queria vê-lo se lamentando e suplicando por uma nova chance, pela simples razão de pensar em acusá-lo, sendo eles namorados.

A ironia e hipocrisia nesse ato não só não lhe importavam, como até conferiam um certo grau de satisfação.

Na verdade, quando descobrira que as intenções de L durante todo aquele tempo de namoro e romance, eram simplesmente de ludibriá-lo quanto a investigação da Regra e de desmascará-lo, tinha se sentido exatamente como forjara durante toda essa conversa: decepcionado e traído. Justamente por isso fora tão fácil manter seu papel -e até derrubar uma lágrima.

Entretanto, agora que saboreava a vitória de ser decretado inocente, e de ver Ryuuzaki se esforçando para reconquistar sua confiança, esses sentimentos foram sendo gradualmente substituídos por pena e escárnio, até chegar em seu estopim, que era aquele presente momento.

L estava pedindo Kira em casamento.

Poderia existir coisa mais ridícula no mundo?!

Raito duvidava seriamente. Ainda bem que podia sorrir, porque se tivesse que continuar fingindo estar triste, simplesmente não iria conseguir.

—V-Você está falando sério?!

Que decepcionante.

Por mais que fosse estranho, Raito estava esperando que, no mínimo, L ainda desconfiasse um pouco dele. No fundo, queria que ele soubesse que poderia, com toda a sua habilidade e, devido a proximidade de seus computadores, ter conseguido fazer o que ele efetivamente fez — ter hackeado e colhido as informações sobre os criminosos que escreveram no death note, para então matá-los 13 dias depois e se inocentar.

Só que não havia nada no discurso de L que indicasse qualquer tipo de suspeita de que pudesse ser isso. Pelos céus, ele acabara de o pedir em casamento! Queria declarar seu amor para o mundo!

Era como se essa possibilidade de Raito ser Kira nem passasse mais pela cabeça dele… E tudo bem, fazia sentido, pois L não sabia que, por causa daquele seu aviso sentimental, o garoto acabara desconfiando da Investigação da Regra dos 13 dias e buscara descobrir seus planos...Mas mesmo assim, era tanta tolice que, se não fosse pelos olhos dele fitando-o sem piscar, iria achar que estava sonhando com aquilo.

Sabia que se L tivesse pensado nessa hipótese, não conseguiria agir daquela maneira tão apaixonada. E mesmo que isso fosse a melhor coisa que pudesse ter acontecido, para os seus projetos de construir um Novo Mundo, era simplesmente decepcionante. Porque, nem mesmo quando a intenção era fingir que não suspeitava mais dele, o detetive havia aberto mão do discurso de que ainda havia chances de que ele poderia ser Kira. Não havia aberto a mão de provocá-lo, como estava abrindo agora. E acima de tudo, nunca tinha admitido que estava errado.

E sinceramente, aquela autoconfiança de L era o que mais o excitava.

Vê-lo depositar a confiança em si, por outro lado, era totalmente broxante..

Acabava de notar que as coisas ficavam extremamente sem graça quando sabia que tinha ganhado, quando L o pedia em casamento.

Não que tivesse deixado de amá-lo por ser um idiota, claro que não.

Infelizmente, aquela pedra no seu caminho era também o amor da sua vida, de forma que uma grande parte sua se sentia aliviada e namorava a possibilidade de não ter mais que matá-lo diante das circunstâncias... Mas sem dúvida alguma o fogo de sua paixão que ardia, flamejante, algumas horas atrás, enquanto estava atrás daquelas barras, isolado do mundo, e achando que ia ser condenado, arrefecera consideravelmente.

Talvez – apenas talvez- esse sentimento também fosse oriundo do despeito que acabara de sentir por L dizer que não o amava, ainda que indiretamente. Ele havia dito que não amaria Kira. Então, portanto, que não o amava.

Mas o garoto preferia não pensar nessa possibilidade de ele mesmo ser tão sentimental e patético.

—Mas é claro que estou falando sério. — O detetive revirou os olhos, tirou um anel do próprio bolso, e estendeu na direção de Raito. Era realmente lindo com aqueles olhos pidões e o sorriso esperançoso, e o ouro reluzente fazia contraste com ele. -Você aceita?

A resposta veio quase instintivamente.

—Sim. É claro que eu aceito me casar com você, Ryuuzaki. -Raito aproveitou sua vontade de gargalhar para dar o sorriso maior e mais engraçado que conseguiu.

x-x-x

—Estenda a sua mão.

Quando Kira estendeu a mão, e L finalmente colocou a aliança de compromisso ao redor do anelar dele, pela primeira vez naquela noite sentiu-se respirar de verdade. A tensão, que antes deixava seus músculos retesados, agora parecia abandonar seu corpo.

“Você caiu no meu teatro, assassino. E agora vai me entregar seu verdadeiro consorte...”

O detetive sorria para Raito falsamente, agradecendo pelos longos dias em que estudara linguagem corporal para não denunciar o desgosto que estava sentindo daquela situação. “É tão falso, mas você nem consegue perceber, já que essa é a única língua que você sabe falar, não é mesmo, Yagami-kun? Você é fluente em mentirês...”

Quando o Yagami inclinou-se na direção dele para beijá-lo, L jurava que ia sentir náusea. Imaginava que teria que controlar o impulso de vomitar na boca dele, assim que seus lábios se encontrassem, pois até então estava sentindo nojo do quanto ele conseguia ser dissimulado.

O que aconteceu, no entanto, foi muito ao contrário.

Todo o ódio raivoso que estava sentindo, toda a frustração torturante, e todo o desejo de vingança acumulados dentro de si tornaram-se pó e dissolveram-se ao entrar em contato com o oceano de sensações maravilhosas provocados por aquele encontro fascinante.

O lábio de Kira não era áspero e seco, como devia ser o de um assassino em série, e sim liso e úmido. As palmas das mãos dele, que seguravam seu rosto de uma forma extremamente romântica, não estavam manchadas de sangue e entortadas pela crueldade, mas sim cobertas de suor frio e uma suavidade mansa. A língua dele não era gosmenta como as mentiras que articulava e sim macia e delicada. Seu perfume não era da morte de seus inimigos, e sim o do mais belo despertar de vida. O seu gosto não era azedo ou amargo, mas sim doce.

E L amava doce.

L amava Kira.

De repente, toda a cólera que sentia transformou-se para uma angústia imensa. Assim como tudo que era ódio transformou-se em lástima, e tudo que era frustração e raiva em dor e tristeza. Até aquele momento, não tinha doído, como ele tinha previsto que doeria várias vezes durante aquela semana. Todo o ódio que sentiu até aí era uma perfeita capa protetora, que justificava suas ações e o entorpecia para qualquer outro tipo de sentimento que nutria por Kira, prevenindo-o de sentir a mágoa, tornando-o forte e imbatível para dar continuidade ao seu plano e consertar as falhas que havia cometido se apaixonando. Mas ao beijá-lo, ficou nu, foi como se a essência da saliva dele dissolvesse sua proteção do ódio.

Não conseguindo mais odiar, ficava frágil e mais perdido do que jamais esteve.

Raito interrompeu o beijo ao sentir a umidade tocar-lhe a face.

—Ei, o que aconteceu?

—Eu… Eu estou chorando de felicidade, Yagami-kun, apenas isso.

“Recomponha-se, Lawliet, ou ele vai desconfiar que alguma coisa está errada e você nunca vai conseguir obter seu nome de volta.”

—Tem certeza?

“Você não o ama. Você o despreza. Você quer capturá-lo, ele e o comparsa dele. E para isso você precisa fingir que está tudo bem, e que você quer casar com ele. É o único jeito de consertar essa bagunça que você fez se apaixonando e sendo estúpido. Dessa vez, você precisa fingir direito que não desconfia de nada, não pode dar dicas de que alguma coisa está errada e se autosabotar. Pense no quanto ele deve estar rindo nas suas costas, nesse exato momento, desse pedido de compromisso, antes de estragar tudo pelo seu sofrimento. Você acha que ele te ama? Você acha que Kira é capaz de ter qualquer tipo de sentimento? Ele te despreza, e a única resposta que você pode dar a isso começa com vingança.”

—Uhum. — O detetive enxugou as próprias lágrimas, e forçou o sorriso mais convincente que conseguiu. Céus, não ia ter jeito de prosseguir com aquilo. Precisava evitar contato físico com o mais novo, a qualquer pretexto, de outra forma iria acabar se entregando da pior forma possível: esperneando e gritando e colocando tudo a perder. — Mas eu realmente preciso ir agora. Vou até a Central de Investigações para conversar com os outros representantes da segurança internacional sobre a dissolução das minhas suspeitas contra você e a transferência das investigações para cá. Amanhã o dia será longo… Por que você não descansa um pouco? Aposto que dormiu mal naquela cela, deve estar exausto...

—O quê?! Não estou cansado, não. Achei que iríamos comemorar o nosso noivado…! -O Yagami protestou, puxando L para perto e pressionando contra a coxa dele sua ereção recém-formada por causa do beijo caloroso de poucos segundos atrás.

Finalmente o nojo veio. Por horas tentara entender como Raito conseguia fingir estar louco de desejo e sentir tesão por ele, na sua farsa de bom garoto apaixonado. A resposta mais óbvia é que o tesão não era forjado. Ele sentia, sim, prazer naquilo, mas não porque sentisse qualquer coisa por L, e sim pela mesma sensação de poder que um assassino tem quando manipula sua vítima. Para ele, o sexo devia representar a total humilhação e subjugação, e dava nojo saber que era isso que o excitava, em vez de sentimentos de carinho e paixão, como acontecia consigo. Dava nojo saber que nenhum daqueles momentos, tão românticos e perfeitos, tinha sido qualquer coisa além de uma patética mentira.

Mas ainda assim, com a respiração dele no seu pescoço, sua pele estava arrepiada. Seu coração tintilava como uma torneira aberta pingando. O calor dele em sua coxa subia como um choque elétrico até sua espinha, causando calafrios.

Por apenas um momento, fechou os olhos e fingiu que nada havia mudado.

Fingiu que ainda era ontem, que ainda não sabia, com 100 % de certeza, que seu namorado era o assassino em série que vinha tentando a meses capturar. A ignorância era uma benção, uma blindagem amena... Permitiu-se fingir que estava tudo bem e apalpou-o entre seus dedos, deixando o desejo escorrer através do seu braço para todo o resto do seu corpo. Ele gemeu. Como era uma doce redenção senti-lo duro, feito concreto, pronto para tê-lo. Será que era um pecado tão grande sim, que essa parte sua quisesse ainda ser dele? Que conseguia se tornar ignorante a tudo isso, e quisesse apenas se entregar? Ainda havia tempo para desistir de tudo... Ninguém sabia que Raito era Kira, a não ser por si mesmo. E o mais novo, por sua vez, havia escolhido mantê-lo vivo até agora e não parecia ter nenhuma pressa em matá-lo. Talvez pudessem continuar mentindo um para o outro, para o resto de suas vidas, no altar e além...

Mas esse foi um pensamento que durou só até abrir os olhos novamente.

—Vamos ter tempo para isso depois, meu amor. Amanhã. Prometo.

Se Raito soubesse o quanto aquela promessa era vã, talvez tivesse aproveitado o momento para agarrar o detetive e não soltá-lo nunca mais, por nenhuma loucura do mundo. Talvez tivesse segurado em sua mão e falado para fugirem para algum lugar muito longe de tudo, um paraíso perdido, onde suas identidades não significassem nada. Talvez deitado seu corpo em cima daquela mesa e o possuído para si lenta e apaixonadamente. Talvez até mesmo tivesse confessado todos os seus pecados e pedido perdão.

Mas uma vez que estava relaxado, e não sabia de nada, apenas beijou a testa dele e deixou-o ir, sem saber que o sabor da vitória em sua boca em breve se transformaria no sabor do arrependimento.

x.x.x.x.x

O amanhã.

Raito desfrutava da liberdade como um cego que voltasse a enxergar a luz. Agora que estava 100% absento das suspeitas de L, conseguia andar pelas ruas quase como uma pessoa normal. Antes, ao fazer isso, ficava toda hora verificando se não teria algum sujeito suspeito o seguindo. Mas agora, apesar de não perder o hábito, conseguia sentir-se muito mais relaxado, como se tivessem tirado um grande peso de suas costas.

O único peso que restara era o da aliança em seu dedo.

Não fazia ideia do que ia fazer em relação a isso. Aceitara se casar com L. Firmar o compromisso do tipo mais sério que poderia haver entre duas pessoas.

E ainda não decidira o que diabos ia fazer com ele.

No presente momento, estava andando com pressa para a casa de Mikami. Apesar de ter dado instruções claras para que, uma vez colhido o nome de L, o moreno voltasse para casa e não fizesse nada, no fundo do coração de Raito havia o medo de que seu súdito pudesse desobedecê-lo, por alguma razão infantil, e matá-lo. Por isso tinha pressa em revê-lo: primeiro porque não sentiria o sabor da vitória se não tivesse o nome de L para si, segundo porque tinha medo do poder que ele tinha de matar a única pessoa que Raito já amara na vida.

Uma coisa era certeza...Por mais que L não representasse uma ameaça agora, uma vez que a Regra dos 13 dias provada verdadeira o havia inocentado, isso não significava que L não voltaria a ser uma ameaça. Ele estava em posse de outro Death Note, o que pertencera a Misa, e Raito, não conseguindo se comunicar com Remu, ainda temia o que ela poderia dizer ao detetive. A Shinigami estava sempre sendo vigiada.

Além disso, o Caso Kira iria continuar sendo de total responsabilidade de L. O garoto sabia que se quisesse operar na construção de seu novo mundo, facilitaria muito para a manipulação das entidades governamentais, que ele mesmo assumisse o lugar do detetive, depois que o matasse.

De qualquer forma, L só não era um problema agora, mas quanto tempo tinha até o moreno voltar a suspeitar dele, conforme as evidências fossem se acumulando em sua direção? Cinco dias? Duas semanas? Não dava nem um mês para que ele mudasse de ideia e traçasse algum outro plano para capturá-lo.

Não, não podia se dar ao luxo de deixar L continuar respirando. Não enquanto estava vencendo triunfantemente e tinha a ocasião perfeita para liquidá-lo.

Não podia se dar ao luxo de imaginar essa vida onde L era menos inteligente do que ele, e não igualmente perspicaz. Uma vida onde, de fato, poderia se casar com ele e perseguirem “Kira” juntos, conforme fazia quando não tinha lembranças de sua própria identidade. Não podia se distrair com os toques, com os beijos, com o sexo, e com todo o sentimento incompreensível que nutria por aquele maníaco por doces… Tudo aquilo que o fazia esquecer de qual era o seu objetivo final, e de que era um Deus.

Não podia fraquejar agora, diante de seu lado humano.

A decisão tinha que ser tomada.

E Raito sempre soube, desde que percebera que o plano B tinha o revés de também afetá-lo, que a paixão não teria como evitar o inevitável: a morte.

Iria matá-lo no dia de seu casamento: daria o gosto da felicidade para o detetive se saciar, antes de ceifar sua vida. Seria uma oportunidade de se exporem ao público, e criar um cenário mais provável para um assassinato.

Não queria pensar no quanto iria doer ver a luz sair daqueles olhos que tantas vezes contemplara brilhantes. Vê-los resplandecerem pela última vez, felizes, numa despedida silenciosa, cerrando-se para sempre.

Mas a dor de perdê-lo não devia ser maior que a felicidade de alcançar os seus sonhos. Apaixonar-se, podia acontecer de novo, mas futuro só havia um. Ninguém seria como L, disso Raito tinha certeza, mas sem dúvida havia substitutos carnais para isso.

Com essa ideia, Raito finalmente cruzara a última esquina que dava até a casa de Mikami. Era uma residência grande, com uma fachada sóbria branca e preta e janelas grandes de vidro. Estacionou-se bem em frente e apertou a campainha.

Em precisamente 2 minutos, Mikami estava à porta, vestido todo de preto e pronto para recebê-lo.

—Yagami Raito-sama... você chegou. Queira entrar, por favor.- O moreno fez uma reverência exagerada, em seguida jogou o corpo para o lado e abriu passagem para Raito, que adentrou sem pestanejar no hall iluminado por lampiões de mesa. Nunca havia estado na casa de Mikami, mas pela mera disposição dos objetos naquele pequeno recinto já poderia ter adivinhado que pertencia a ele. Entretanto, seus olhos mal começaram a mapear o lugar quando, depois de duas respirações suas, foi bombardeado pela ansiedade do mais velho. – Você está bem? Como correram as coisas? Algo deu errado no nosso esquema? O plano que L havia tramado contra você…

—Falhou, é claro. -Raito o interrompeu, irritado e revirando os olhos, como se tratasse do óbvio. Não gostava da ousadia de sair bombardeando-o com perguntas quando mal o havia instalado ali dentro, e a porta ainda estava aberta.

—Nunca duvidei de você, Kira-sama.- O moreno provavelmente percebeu sua irritação, e se conteve. Trancou a porta, e em seguida apontou para o aposento a frente. — Vamos para sala. -Mikami o conduziu, em seguida, para um cômodo grande, com diversas estantes de mogno perfeitamente lustradas com prateleiras preenchidas por livros sobre direito criminal, aparatos com taças de cristal e garrafas de bebida, três sofás e uma poltrona verde, ao redor de uma mesa com uma televisão moderna. —Sente-se, por favor. — Pediu, enquanto indicava a poltrona verde, que parecia ser a mais confortável do aposento. — Quer comer alguma coisa? Beber alguma coisa?

—Você sabe muito bem porque estou aqui e não é por nenhuma dessas coisas. —Raito replicou, com um mau-humor que não sabia da onde estava surgindo dentro de si, agora que já tinha sido adequadamente recebido, mas que não conseguia controlar. Talvez toda aquela adoração do moreno fosse um tanto quanto irritante. Apesar disso, devia manter em mente que não devia tratar Mikami mal, pois ele era o seu mais fiel e necessário aliado. Forçou um sorriso de canto de boca. -Porém uma dose do seu melhor uísque cairia bem.

Mikami retribuiu o sorriso, feliz, e em seguida, deslocou-se através do aposento, até o móvel da sala, pegou um copo de vidro baixo, examinou algumas garrafas, e depois de alguns minutos derramou um líquido cor de mel nele, finalmente dirigindo-se de volta para o lugar onde o garoto o aguardava, para então servi-lo comprazendo-se.

— Aqui está, conforme o senhor pediu.

Raito sorveu um gole da bebida, que atravessou a sua garganta como se estivesse em chamas, o que, na ansiedade em que estava, provocava um estranho relaxamento.

—Muito bom. -Anuiu. — Bem... Pode me entregar agora.

Não foi preciso que Mikami perguntasse ao que Raito estava se referindo. Ele retirou do bolso de dentro do terno um papel dobrado e entregou nas mãos do Yagami.

“É agora.” Raito pensou, quando sua pele entrou em contato com o papel. Ao desdobrá-lo, seu coração estava disparado como se estivesse correndo uma maratona. Ao lê-lo, seu pulmão pulou uma respiração. “Então o nome dele é, de fato, L. Não era um pseudônimo. L Lawliet.”

Silêncio contemplativo.

Raito então começou a rir, descaradamente, enquanto refletia sobre o nome daquele que era o maior detetive e maior gênio do mundo. Ou melhor, o segundo maior gênio, pois afinal era ele, Raito, quem estava lendo a palavra que nunca imaginara que conseguiria ler. Tinha ganhado. Mesmo que tudo desse errado, em relação a Regra dos 13 dias, e L, ao contrário do que acontecera, tivesse descoberto sua identidade, ainda assim teria ganhado, porque sabia o nome dele. A vida dele estava em suas mãos.

Como era irônico. Lawliet significava ausência de luz, que era exatamente o oposto do que significava o seu próprio nome.

Eles estavam fadados a ser opostos até nos detalhes mais pequenos.

— Quando pretende executá-lo? — A voz de Mikami parecia advir de uma realidade muito distante da sua, em que se deleitava pelo prazer e choque de descobrir o verdadeiro nome de L. Mesmo assim, conseguiu empurrar-se de volta a superfície. Haveria tempo para saborear sua vitória mais tarde, enquanto dançasse no túmulo dele.

Por enquanto podia usufruir de novas distrações.

—Em breve. Mas isso não é da sua conta, Teru. Não faça nada que eu não lhe mandar fazer, está certo? — Se Mikami matasse L antes do casamento, toda a graça se perderia. Ainda queria desfrutar todos os momentos que tinha com aquele detetive antes de abatê-lo, como uma criança caçadora que brincasse na floresta com um coelho que sabia que teria que matar para comer.

—Nunca. Jamais sequer me ocorreu fazer algo que não seja uma instrução direta de Kira. Eu sei como seus passos são minuciosamente planejados.

—Sim. É bem isso. Mas, tenho que admitir que, sem você, eu não teria conseguido chegar onde finalmente cheguei. Você tem sido muito útil para mim. E Kira recompensa aqueles que bem o servem. – Raito amassou o papel entre os dedos, e içou-se da poltrona verde. Seus olhos dissecavam Mikami como se o cobrissem de ácido.

—Não fiz nada além da minha obrigação.

—Sim. -Concordou. E no que o fez, aproximou seu corpo do dele em um único e curto passo. Inclinou-se para perto de seu ouvido esquerdo, afinando sua voz rouca e suave. — Mas eu ainda acho que você merece essa recompensa...

Raito mordeu o lóbulo da orelha esquerda dele.

O moreno se arrepiou da cabeça aos pés.

—Oh, mestre… Eu não sabia que… O senhor apreciava- O garoto pousou o dedo no lábio do mais velho. Estava cheio de tesão, agora que tinha o nome Lawliet debatendo-se nas paredes de seu cérebro e ouvir Mikami falar era demasiado inconveniente. Avançou e sugou o lábio dele, fechando os olhos para poder apreciar a sensação peculiar que era a de trair seu noivo, numa zombaria luxuriosa.

Quando o moreno finalmente saiu de seu transe inicial, e começou a corresponder ao beijo, no entanto, foram interrompidos pela campainha, preenchendo todo o ambiente com seu som de sino escolar.

Raito suspirou.

—Atenda. -Demandou. -Não queremos que desconfiem que tem alguém aqui.

Mikami assentiu. Ainda um pouco atordoado, pelo que acabara de acontecer, retirou-se da sala, para ir até o hall receber quem quer que fosse que miseravelmente havia atrapalhado seu momento com Deus.

Raito o observou partir. Primeiro esperou sentado seu retorno, mas quando viu que ia demorar mais do que estava imaginando inicialmente, aproveitou a oportunidade para fazer uma inspeção mais minuciosa das coisas dele. Checou seus móveis. Analisou o brilho descomunal das taças. Bebeu mais um gole de uísque.

Alguns minutos se passaram.

Estava despreocupadamente folheando um livro de direito penal estrangeiro quando o barulho a suas costas o fez se virar-se para a entrada da sala. Esperava ver Mikami sorrindo e ansioso por sexo. Em vez disso, deparou-se com a última pessoa que ele esperava ver ali naquela sala, naquela situação.

—Bom dia, Raito-kun. Ou será que eu devo dizer...Kira?

Notas finais
Eu sei que é um péssimo lugar pra parar e eu sou muito malvada. Sorry! ahhaha