O Plano B
26 XXV - Start a fight, you won't win
Notas iniciais
O Plano B — Capítulo XV- Comece uma briga, você não vai ganhar.
Ali estava L.
Pálido, com as mesmas roupas ordinárias e o mesmo olhar de quem sabe de todas as coisas do mundo. Em suas mãos ossudas, tinha um revólver carregado, o qual estava apontado confiantemente na exata direção em que Raito estava.
Ele, por sua vez, também tinha ficado pálido, e estático, com os olhos arregalados quase saindo das órbitas; tinha as mãos trêmulas e suadas, que o fizeram derrubar o livro que estivera folheando, segundos antes. Por alguns minutos, sua boca se abriu e fechou várias vezes, querendo romper o silêncio. E fracassando.
—Eu fiquei me perguntando qual seria a sua reação quando me visse, aqui, com você, nesse lugar. -Diante de nenhuma resposta, o moreno resolveu começar. Havia um toque de ironia palpável em seus lábios, e acidez em seus olhos. -Mas não imaginei que fosse ficar estático sem dizer nada por tanto tempo.
—O-onde está...? -Raito ignorou o comentário de L, finalmente conseguindo fazer a voz soar através da garganta, diante da constatação óbvia, que só tinha feito agora, de que seu comparsa havia desaparecido pela porta,. – Onde está Mikami...?
—O belo jovem que atendeu a porta? -L inquiriu, mordaz. -Digamos que eu tomei conta dele... -Um esboço de sorriso tomou conta de seu rosto, como se lembrasse de uma cena muito, mas muito, satisfatória. — Mas essa deveria ser a última das suas perguntas, Raito-kun. Eu sei que você tem muitas...
Inconformado com a resposta que recebeu, o garoto apenas revirou os olhos com indiferença.
A afronta de L não o assustava.
Claro, talvez, em um primeiro momento, tivesse ficado apavorado em vê-lo ali, pois não imaginava que teria que passar por esse tipo de situação, diante dos recentes acontecimentos: um pedido de casamento e a declaração de sua inocência pela Regra. Estava confortável e seguro com sua situação, desfrutando da sua vitória com Mikami. E de repente, o castelo de cartas desmoronara.
Aquilo o pegou intimamente desprevenido.
Demorou algum tempo até perceber que, na realidade, o castelo de cartas nunca tinha existido. Tudo não passara de um desenho que L pintara para ele. Por isso estava estático. Mudo. Demorou para acreditar que tinha falhado em seu raciocínio, e para concluir que tinha caído em alguma espécie de plano maléfico do detetive.
A vitória que estava comemorando havia sido apenas ilusão.
Não era como se a ideia de ser tudo um plano de L não tivesse passado pela sua cabeça, mas até aquele momento não acreditava que ele pudesse ser tão bom ator.
Entretanto, aquilo fazia sentido.
Vencê-lo devia ser a sua tarefa mais árdua, custar de si até a última sinapse, e tudo que tinha exigido eram apenas suas habilidades de mentir e hackear computadores. Era natural que fosse custar mais. Era o esperado.
Fora gostoso sentir o sabor da vitória por antecipação, sim. Ter provado um gole, ainda que falso e precipitado. Seria como o seu tira-gosto para quando realmente conquistasse o que queria. Mas era justamente por isso que não podia vacilar demonstrando ou mesmo sentindo o fracasso subir-lhe à cabeça. Sua única chance de sair vivo agora era bolar um contra-ataque imediato para aquele golpe imundo.
—Na verdade, não é nem um pouco intrigante o fato de você ter me chamado de Kira, e estar apontando essa coisa para mim, como se eu fosse acreditar que você tem bolas o suficiente para atirar. -O rapaz deu de ombros, acentuando sua indiferença quanto a ameaça que o outro representava. -Deve ser só a centésima vez que você me incrimina, L.
—E, no entanto, é a primeira que falo isso com 100% de certeza de quem você realmente é. Acabou, Raito. Você perdeu. -O tom de L era seco, como se ele não fosse aceitar objeções. Olhou o mais novo, bem dentro dos olhos, por longos segundos, e foi como se carvão queimasse em brasa quente. -Mas você tem razão... Não vim aqui para enfiar uma bala na sua cabeça. Pelo menos não antes de termos uma longa conversa... Afinal, eu ansiei por esse momento por muito tempo para me poupar tão facilmente de desfrutá-lo, te matando agora.
—E pelo que exatamente você ansiou, Ryuuzaki?
—Ah, você sabe. Pelo fim da farsa. Para ver a sua máscara caindo na minha frente... Ansiei por uma conversa em que não precisasse haver mais mentiras entre nós... Mas antes, por favor, sente-se. -O detetive indicou com a arma a poltrona verde em que Raito estivera sentado momentos antes, em circunstâncias e sensações completamente distintas. Ele o obedeceu, sem replicar. Não porque tinha recebido uma ordem, mas porque realmente estava interessado em ter aquela conversa. O moreno sentou-se no sofá a sua frente, da sua maneira tradicional, com os joelhos dobrados. Em nenhum momento o gatilho deixou de mirar o cérebro de Raito. Respirou fundo e soltou o ar devagar. Em seguida, pegou da mesa o uísque que o mais novo estivera tomando e, segurando o copo de forma peculiar, com as pontas dos dedos, sorveu um grande gole. Balançou a cabeça, com o ardor que veio após o gesto. Finalmente, olhando o garoto nos olhos outra vez, começou. — A primeira coisa que eu quero que você entenda é: eu ganhei quando descobri que você era Kira. Sei que você vai querer inventar mil desculpas, vai chorar e se fazer de coitado e de inocente, dizer que me ama e todo o resto das porcarias mentirosas que você inventa. Por favor, poupe-me desse lixo. Acabou. Eu sei que você é Kira, com provas irrefutáveis, e você não precisa mais fazer nenhum tipo de teatro barato para me convencer de que eu estou enganado. Eu tenho certeza que se eu subir dois lances de escada vou encontrar o death note que Mikami estava usando para matar os criminosos por você. Confesse, de uma vez. -Nesse momento houve uma pausa, em que L esperou pacientemente pela confissão de Raito. Uma vez que ela não veio, depois de decorrido um longo minuto de uma troca de olhares intensa, com o garoto apoiando o queixo na mão e sustentando a expressão mais entediada do mundo, o detetive desistiu temporariamente e continuou a falar. — Vou responder sinceramente a cinco perguntas suas, antes de eu começar a fazer as minhas. Aconselho você a usá-las bem.
Raito franziu as sobrancelhas. Finalmente, a parte que lhe interessava havia chegado.
—Você me seguiu até aqui?
—Tecnicamente. Na verdade, você é uma pessoa que sempre sabe quando está sendo seguida, por isso é difícil fazer isso na prática. A aliança no seu dedo possui um chip rastreável.
—O pedido de casamento foi uma farsa, então?
—Apenas queria que você usasse a aliança. E consegui.
—Quanto à Regra dos 13 dias...?
—É tão falsa quanto você. Tão falsa quanto tudo o que eu disse na reunião do QG. No entanto, só eu e Watari sabemos disso. Ninguém na Central de Investigações descobriu, ainda.
—Você sabe que só a Regra ser falsa não significa nada, não é? Isso não é uma prova contra mim, só deixa de me inocentar.
—Não é uma prova, de fato. Mas eu já disse que tenho provas irrefutáveis contra você.
—Você me odeia?
Até que enfim uma pergunta que fez L pensar. Todas as outras ele havia respondido de forma direta, sem hesitar nem por dois segundos. Dessa vez, porém, ele precisou pausar e refletir, antes de formular uma resposta.
—Eu não sinto absolutamente nada. Por você ou por qualquer outra pessoa. Eu sou L, sou melhor detetive do mundo. Não posso me dar ao luxo de ter emoções. – Seu tom parecia encerrar o tópico para discussões futuras a respeito.
—Não é uma questão de escolha.
Não, não era. E era óbvio que L não queria falar sobre aquilo. Expressar seus sentimentos em voz alta, para si mesmo e para ele, era a última das coisas que desejava fazer. Desde que descobrira a identidade de Raito, estava evitando fazer isso, refletir sobre as implicações daquela revelação em suas vidas. A relação deles parecia algo distante em sua mente, uma vez que vinha mantendo uma camada de pedra, de pura frieza, em volta de seu coração. Nem ele mesmo sabia como se sentia. Sua melhor opção era sempre apelar para a indiferença, embora, lá no fundo, conseguisse ouvir gritos de desespero e dor de sua alma se corroendo em angústias.
—Minha vez. Mas antes, é claro, estou esperando você confessar sua identidade.
—Você está apontando uma arma para a minha cara, L. Não acha que qualquer confissão nessas situações seria injusta? Além disso, quero saber do que se tratam essas provas irrefutáveis antes de falar qualquer coisa sobre as suas acusações...
L ficou pensativo. Colocou um dedo na boca, e sugou.
Em seguida, suspirou longamente.
—Eu não ia te contar do meu plano, mas se você precisa disso para admitir quem você é... Eu digo que fui eu, desde o início, Raito. Você descobriu que eu estava investigando a Regra dos 13 dias porque eu te dei indícios disso. Eu plantei essa ideia na sua mente. Na verdade, eu queria que você fizesse exatamente o que você fez: Descobrisse e invadisse meu computador, para que rastreasse os arquivos secretos com as identidades dos presidiários que escreveram no death note. -L declarou, mentindo. Na verdade, ele não tinha essas intenções iniciais, quando alertou Raito sobre os riscos que ele corria. Aquilo havia sido uma falha de seu caráter como detetive, dada por seus sentimentos pelo mais novo. Mas é claro que ele não precisava saber disso. — Eu alterei os dados com o nome de Meredith Gaunt, uma mulher que jamais tocou no death note, em vez do nome de Akira Usui, o verdadeiro escritor. Quando ela morreu, e Akira ainda mantinha vida, eu pude concluir que você havia visto os arquivos alterados e usado o death note para matar os escritores, no décimo terceiro dia, na intenção de provar a Regra como verdadeira. Infelizmente você cometeu o erro de confiar demais nos dados do meu computador, e matou uma pessoa que não era escritora do death note, enquanto manteve vivo um que era. No final das contas, eu mesmo matei Akira com veneno... -Conforme L falava, um pequeno indício de sorriso, que começara a criar vida nos lábios de Raito, começou a crescer. A cada sílaba parecia aumentar mais, e ao final do discurso, seus dentes já estavam a mostra. -Decidi manter o seu segredinho a salvo, por um tempo a mais...
Raito contemplava L com as pernas cruzadas, os braços descansando sob a poltrona, relaxado. Ele jurou para si mesmo enquanto ouvia, mais de cem vezes, que não ia fazer aquilo. Não ia se confessar para L, dar a ele o que ele estava pedindo, o que ele vinha suplicando durante tantos anos que acontecesse... mas é que...num instante, tudo que estava acontecendo ficara absolutamente hilário.
De repente, não conseguia mais se controlar. Um riso começou a brincar em seus lábios. E esse riso se transformou numa risada, que no começo era tímida e discreta, mas depois expandiu-se como se Raito estivesse diante da piada mais engraçada do mundo.
Começou a gargalhar e se contorcer de tanto rir, até perder o ar, e se curvar, com a barriga doendo. Foi uma risada que durou longos minutos.
Tão subitamente quanto começou, porém, sua expressão voltou a ficar séria.
Seus olhos estavam vidrados na figura monótona de L e as pupilas estavam dilatadas, como se por um instante, tivesse perdido a sanidade.
—L Lawliet, meu querido L... – Era apenas um nome, mas já dizia muita coisa. Já revelava quem ele realmente era. Raito decidira que não tinha mesmo mais porque de manter a máscara. Ambos sabiam, de fato, a identidade um do outro, e mais nenhum teatro iria convencer do contrário. Havia chegado num ponto limite na relação de ambos, em que as mentiras que os sustentavam já não tinham mais pernas nem braços. Mas isso não era, necessariamente, algo ruim. Muito pelo contrário. — Você acha que eu estou triste com essas coisas que você está me falando? Você atuou tão bem no QG, que eu realmente acreditei que tinha passado por cima de você daquela maneira fácil. Apenas hackeando seu computador e matando alguns criminosos que escreveram no death note. Eu estava sinceramente decepcionado com a sua incompetência. Já não parecia mais um desafio para mim te derrotar. Acreditei que a Regra havia me deixado impune e que você não desconfiava de mais nada. Tanto que vim para cá despreocupadíssimo hoje, para foder com o Mikami e comemorar minha vitória. Quer saber qual foi o auge da minha decepção? O seu pedido de casamento. Foi uma performance e tanto. Mas nunca algo me deixou mais broxado na vida. Eu também, como você, sempre ansiei por esse momento... E estou rindo porque também estava cansado desse teatro. É, de certa forma, um grande alívio. Eu só tenho que agradecer a você, por tornar tudo muito mais fácil. E simples. -Levantou-se da cadeira e ergueu as mãos para cima, com tanto empenho que quase derrubou a poltrona. — Sim, eu sou Kira! Eu sou a Justiça, o verdadeiro Deus com o qual esse mundo foi abençoado... o novo mundo que eu vou construir, cujo o mal terá sido completamente extinto. Pois eu sou aquele que extermina. Sou o seu pior inimigo e também aquele que você está a anos tentando derrotar, de forma inútil.
L ouviu o discurso atentamente, o discurso que sempre tinha sonhado em ouvir saindo da boca de Raito, a confissão que por tanto ansiara. Suas mãos repousavam a frente do corpo, cruzadas entre si. Também levantou-se do sofá onde estivera sentado.
Com tanto tempo para ouvir isso, ele esperava que no mínimo fosse sentir felicidade, após sentir a palavras.
Tudo o que pode sentir, porém, foi um vazio intenso.
Balançou a cabeça de um lado para o outro. Seu rosto não demonstrava surpresa, ou nenhuma emoção tangível. Mas quem ficasse perto dele poderia sentir o desgosto e o desprezo exalando de sua aura, como uma brisa cáustica.
—Você não é a Justiça. Esse é o papel que eu venho desempenhando, desde antes de você tirar as fraldas. Você não passa de um idiota infantil, metido a Deus, um assassino em série, ganancioso e viciado em matar. Quanto a te derrotar... A única coisa que me obrigou a manter seu segredo era precisar encontrar o seu ajudante, o que eu sabia que seria a primeira coisa que você faria assim que saísse do QG. Assim que sairmos daqui o mundo inteiro irá saber quem você é...
Raito inclinou-se para frente, e estendeu a mão para o uísque que L havia tomado. Tomou o copo entre os dedos, balançando-o, com sua expressão de desafio.
—E como você sabe se já não é um homem morto? Ou se não vai morrer até poder contar?
—Eu acho que se você me quisesse morto, eu já não estaria respirando há algum tempo. Eu não representava uma ameaça muito maior, fingindo que acreditava nas suas mentiras. Acredito que você decidiu poupar minha vida por algum tempo, para poder me torturar mais ... Mas de qualquer forma, se eu morrer, Watari sabe de tudo.
Raito deu um gole no líquido, ainda sorridente.
—Você está certo, mais uma vez, é claro. Seu nome ainda não foi escrito em nenhum death note. Mas os motivos estão errados. E você também está errado se pensa que eu me encontro numa situação de derrota, neste momento, só porque você descobriu que sou Kira.
Pela primeira vez na noite, o moreno demonstrou um sentimento externo a si. Franziu a sobrancelha, e seu lábio se frisou. Estava confuso.
—Receio não estar compreendendo você, Kira. Você não quer aceitar que perdeu ou é impressão minha?
—Eu perdi? -Raito riu. Bebeu um pouco mais de uísque, e depois riu mais. Aproximou-se de L, com as mãos para trás. Deu dois passos largos na direção dele. Este imediatamente passou a segurar a arma com as duas mãos, apontando para ele, como a dizer que em qualquer movimento em falso iria atirar. -O que está esperando, então? – Num passo adicional, sem olhar para a arma, e sim fixando nos olhos do detetive, Raito encostou seu peito no cano do revólver.- Aperte o gatilho. Ninguém vai julgá-lo mal por eliminar Kira, em um confronto direto. Você sabe que quando contar para o resto do mundo quem eu sou, vou ser preso e a pena que vou receber é a de morte. Você só estaria adiantando o processo. -Deu de ombros. — Vá em frente, atire.
Mesmo a alguns centímetros de distância, era possível sentir a tensão do mais velho. Sua mão começou, involuntariamente, a tremer, e embora ele claramente lutasse para refrear o impulso, e quisesse desviar os olhos, não conseguia.
—Eu prefiro não fazer isso. Meu papel é apenas capturá-lo, não matá-lo.
Raito deitou a cabeça para o lado.
—E o que te faz achar que eu vou me entregar vivo para você?
Uma faísca de compreensão pareceu acender nos orbes negros. E junto com ela, seu rosto se desmontou em uma mescla de sentimentos, entre os quais o mais notáveis, era o de apreensão e de dor.
Finalmente entendera porque Raito mantinha uma postura gloriosa e um sorriso no rosto: ele sabia ler suas fraquezas.
—Você não vai me dar escolha.
—Você precisa me matar, se quiser realmente me derrotar. -Inclinou o corpo, de forma a alcançar o ouvido inteiro do detetive, e sussurrou, com a voz cheia de malícia. O revólver estava completamente imerso em seu corpo agora. — Vai ter que ver a luz se extinguindo dos meus olhos. Sentir o cheiro do meu sangue escorrendo. Ouvir meu grito de agonia enquanto morro. E saber que foi você quem provocou tudo isso...
L engoliu em seco.
—Você acha que eu tenho medo da morte, Raito-kun?
—Você não tem medo da morte, é claro.
—Então por que está tão confiante?
-Porque eu sei que você tem medo de perder a única pessoa que você já foi capaz de amar.
Um pedaço de sua boca encostou no ouvido de L, que se arrepiou da cabeça aos pés, e recuou um passo para trás. Seus olhos ardiam como gasolina. Estava visivelmente irritado com aquela afirmação.
—Você está louco?! Eu não te amo. – L frisou, e parecia quase gritar, como se ele mesmo não conseguisse ouvir as próprias palavras. Sabia que aquilo era inconcebível, amar o próprio inimigo, e por mais que ele fosse uma pessoa perturbada, aquele limite não podia ser atravessado. -Você não passa de um assassino sujo. Eu nunca poderia amar Kira...! Nem em um milhão de anos!
O garoto, por sua vez, parecia irradiar felicidade.
Afinal, ninguém tinha necessidade de negar tão veementemente algo que fosse, de fato, verdadeiro.
—Você está tentando me convencer ou se convencer? Porque a mim, saiba que nada do que você disser vai me fazer acreditar. Eu achei que nunca poderia amar você, L. Mas eu sei bem como eu me sinto. -Kira voltou a se aproximar, lentamente, do detetive. Seus lábios se moviam devagar, e de repente L não conseguia tirar os olhos dele ou a cabeça da lembrança da maciez que eles possuíam. — Já passei, há muito tempo, do estágio em que era possível negar que eu te amo. E eu sei que você sente também. E é por isso que nessa batalha, eu sempre vou vencer. Eu venci desde o dia que concebi o Plano B.
—P-plano B? -O detetive estava inquieto pela revelação recebida, de que Kira o amava, e não conseguia falar ou raciocinar direito. Seu coração tinha começado a martelar no peito em mil pulsações por segundo, como se não quisesse mais ficar ali dentro.
Devia ser mentira. É claro que era mentira.
Mas como ele conseguia mentir daquele jeito tão perfeito? E se era mentira, porque Kira não o havia matado até agora? Por que continuava respirando?
—Sim. Hackear seu computador, matar os criminosos, inocentar-me com a regra...nunca nada disso fez parte do que eu planejei. Eu sabia que precisava atirar no seu coração primeiro, para te derrotar. E você estava derrotado muito antes de descobrir quem eu sou. -L não conseguia compreender como Raito havia conseguido chegar tão perto dele, agora. Jurou para si mesmo que iria matá-lo, caso ousasse fazer isso. De repente, ele estava mais perto do que jamais estivera naquela noite. Suas mãos trêmulas seguravam o revólver, com o qual ele parecia não se importar em ter fincado em suas roupas. Não conseguia processar direito o que ele estava falando, mas pela primeira vez na vida sentiu o medo deixar um nó em sua garganta. -No fundo, você sempre soube que amava Kira. E você amava isso. Você ama isso. – Amar Kira? O que Raito estava falando? Aquilo era um absurdo. Completamente inaceitável. Tinha certeza que não amava Kira, e tudo o que havia conquistado como detetive era muito mais importante do que qualquer sentimento tolo que seu coração pudesse achar que tinha. E, merda, ele achava mesmo, porque com a proximidade, não parava de bombear sangue para o seu corpo, inclusive para os lugares mais adversos. Como era possível que estivesse sentindo tesão em ouvi-lo falar aquelas coisas? Aqueles lábios macios...Aquele pele delicada....Aqueles olhos tão brilhantes...Aquele corpo quente... Tudo era tão, tão errado, tão proibido. -Sinta a sua derrota.... -Num movimento brusco e repentino, Raito bateu em sua mão que segurava o revólver. Seus dedos, há muito tempo frouxos e indecisos, a derrubaram no chão, a uns dois metros de distância. Em seguida, não deu tempo para que ele pensasse em se desesperar e recolhê-la. Avançou e mordeu seu lábio inferior com força e ferocidade, paixão e desejo. -Abrace-a... – E ele mesmo o abraçou, entrelaçando seu corpo no dele, enquanto colocava a língua dentro de sua boca.
O corpo de L pareceu assumir vida própria diante daquilo, tomar o lugar de sua mente, e corresponder ao gesto de maneira tão involuntária quanto necessária. É claro que sabia que estava tomando veneno, mas, subitamente, aquele era um veneno que ele queria tomar. Que precisava tomar.
E mais uma vez, o jogo ganho havia virado.
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