O Plano B
21 XX- The apple of your eye, the rotten core inside.
Notas iniciais
De qualquer forma, eu estou aqui, ressurgida das cinzas, e com o rabinho entre as pernas, tentando me desculpar pelo sumiço -e por ele não ter sido nem ao menos antecipado.
Não sei se a maioria dos que leem OPB também são escritores, e se estão na idade de prestar os vestibulares, mas mesmo que não sejam e não estejam, vocês com certeza conseguem imaginar o quanto é difícil conciliar o mundo da escrita com o dos estudos, porque ambos exigem demais das pessoas -mas não só isso, exigem demais tempo delas, de todo o preparo e cuidado que elas possam nutrir. E também suponho que dê para imaginar que quando as pessoas ficam doentes, a mente delas começa a funcionar de outra maneira, tirando todo o foco que elas tinham. E que quando se soma tudo isso a inúmeros conflitos familiares e a falta de um computador decente nada pode ser facilitado...
Bem, é claro que a culpa de tudo isso não é de nenhum de vocês, e que vocês não deveriam ser penalizados, esperando por algo que nunca vem, sendo que acompanham a tanto tempo e com tanto carinho, e que têm o direito de receber atualizações periódicas. O problema é que tudo isso que eu disse vem acontecendo comigo, e eu passei meses sem entrar no Nyah, cheia de problemas, doente, enterrada nos estudos, e com uma depressão que me fazia perder o pique até de respirar, e mais ainda de escrever... :/
Eu também tinha de pensar numa maneira de manter o ritmo da escrita, de não deixá-la desgastada ou algo como "não é a mesma coisa de antes", e infelizmente, depois de tanto tempo, não sei se encontrei essa maneira.
Eu ainda estou com todos esses impasses, entretanto passei a sentir que nada valeria a pena se eu não tivesse tudo isso de novo -eu nunca deixei de amar essa fic e todos que a leem-, portanto essa é minha tentativa de retomar de onde paramos e embarcar com força total... Para eu parar de me esquecer de como escrever é algo feliz~! ~~ e agradeçam minha linda beta porque ela sempre faz questão de me lembrar e de me animar, e sem ela essa fic nem existiria. :3
Queria agradecer muito àqueles que, nesse meio tempo, ficaram esperando por atualizações, e mandaram reviews (acabei de lê-los, toda empolgada e feliz, pois eles sempre são meu combustível máximo õ/) e recomendações (em especial, a Sekkai, a quem dedico o capítulo toda lisonjeada)...
Permitam-me um pequeno surto: MAIS DE 230 REVIEWS E 9 RECOMENDAÇÕES nesse período de ausência...Vocês são o máximo! Sério mesmo... Meus olhos ficam brilhando por horas quando me dou conta de tudo isso, e vou aproveitar para pôr toda essa felicidade no papel, escrevendo mais ;33
Finalmente: Eu sinceramente espero que o capítulo não esteja ruim, que valha alguma coisa pelo tanto de espera, e prometo me esforçar o máximo para não repeti-la. E recomendo, se necessário, dar uma lidinha nos capítulos anteriores (porque nem eu me lembro direito deles kk) para uma melhor compreensão dos acontecimentos :3 Por favor, não estranhem a passagem temporal, ela faz parte das loucuras que virão!
Mil beijos nos kokoros de vocês (e saibam que senti muitas saudades T-T)
L.B.
Quatro dias depois.
Não era nada surpreendente para L que Kira tivesse desencadeado um padrão totalmente diferente de assassinatos, nos últimos quatro dias, conforme a tela de seu notebook vinha registrando. Somente inquietante, pois as datas “acidentalmente" batiam com aquela fuga de Raito do QG. O que, claro, nunca seria o suficiente para afirmar qualquer coisa. Até porque ele nunca fora o tipo de detetive que gostava de impor hipóteses sem fatos substanciais — embora as teorias fossem uma parte inerente à complexa rede que formava seus pensamentos.
L sabia que deveria esperar e aproveitar da maneira mais deleitosa possível o resultado das verdadeiras investigações, e que não deveria se torturar elaborando estatísticas ou porcentagens... Até porque, quando menos esperasse, a Verdade estaria em suas mãos.
Faltavam apenas dois dias.
Dois dias para saber se a Regra era Falsa ou não.
Para sentenciar Raito como culpado ou inocente.
O tempo era um verme rastejante, que se infiltrava entre eles de forma processual e pouco perceptível, quase passível de esquecimento. Porém quando fosse perceptível, e quando L notasse que o tempo era, muito mais do que qualquer outro, seu pior inimigo, o verme já teria corroído tudo. Quando só restassem as feridas, talvez ele se arrependesse de não conseguir ter simplesmente desfrutado cada segundo enquanto podia.
Eles tinham desfrutado, é claro, com episódios parecidos com aquele do banheiro (quando ninguém parecia vigiá-los e com uma frequência quase assustadora). Mas o problema, conforme já citado, continuava sendo sua mente. Ela gostava de trabalhar as possibilidades e ponderar sobre o engenho que havia por detrás de cada morte a que assistia. Era praticamente involuntário.
Parecera-lhe que agora Kira ia preenchendo com nomes de criminosos japoneses uma página de caderno por dia, e em ordem alfabética.
Se Raito não fosse Kira, por que e qual era o objetivo daquele novo padrão de assassinatos que ia se criando?
E se ele fosse, o que ele desejava com aquilo, como Misa competia em ser tão metódica, e como ele conseguia esconder tão perfeitamente bem suas reações?
Acima da lógica, havia os sentimentos, e eles o infectavam por inteiro. Iam antecipando situações desconfortáveis, cenas, atos -que ele desejaria muito poder evitar-, mas também iam planejando gestos, movimentos -o que era obtuso, porque L nunca planejara o que faria em determinada situação com relação ao que sentia (talvez porque seus sentimentos sempre foram irrelevantes em desfechos criminais) e agora isso se desenvolvera com certa frequência.
O que diria para Raito se ele fosse condenado?
O que faria com ele?
O que sentiria por ele?
Essas eram perguntas que se infiltravam no meio da lógica em busca de uma tangível resposta.
Uma vez que sempre soube que ele era Kira, era injusto dizer que, nesse caso, se sentiria desiludido. Poderia dizer que se sentia traído, mas e se os sentimentos de Raito fossem verdadeiros, e só tivessem tido a infelicidade de serem direcionados a quem tentava destruí-lo? Nesse caso, a traição seria sua, não dele. Afinal, havia investido contra ele, e se ele fosse provado Kira, o certo seria que pagasse com a própria vida pelos seus inúmeros assassinatos. Para isso já se prevenira, alertando-o nas entrelinhas que ele corria os riscos.
Mas como lidaria com o fato de amar um assassino?
Pensaria que isso era irrelevante, pois Kira tivera boas intenções, ou continuaria enxergando-o como seu lado detetive sempre enxergou?
Como seria não ter 99, mas 100% de certeza, de que dividia os lençóis com um inimigo? Veria-o mesmo como um inimigo?
E ele, como será que o veria? Será que ele teria sido sincero aquele tempo todo ou a confirmação da identidade dele traria para o que eles tinham toda uma ideologia de farsa, somente um jogo entre Detetive e Suspeito?
Apostava com intensidade no não, porque depois de tantos momentos que salvavam tudo que um dia poderia ser chamado de felicidade, essa era a perspectiva mais horrível e sufocante que existia. Mas caso a Regra dos 13 dias fosse Falsa, e conseguisse prová-lo autor do maior caso de assassinatos em série que já existira, de certo L olharia nos olhos de Raito. E faria questões, que não poderiam ser mentiras, sobre os sentimentos dele. E com essas respostas, descobriria seus futuros sentimentos. Eles seriam a chave para guiar todas as suas reações.
Era meio que apenas masoquismo tentar planejar o que ia fazer.
Ainda havia a possibilidade de ele ser inocente. Devia ser a perspectiva mais maravilhosa (e improvável) possível, mas seu desencanto por ela era, se não incompreensível, muito patético.
–Em que mundo você está, Ryuuzaki?
Não era a primeira vez que ele fazia aquela pergunta.
E também não era a primeira vez que L se abstinha de respondê-la.
–Isso na sua mão, Raito-kun... –Mudar de assunto era sempre muito mais favorável. E uma vez que o detetive fazia sua inspeção demorada no mais novo toda vez que ele lhe dirigia a palavra, o detalhe de que seus dedos habilidosos e compridos envolviam algo não lhe passou despercebido. – É uma maçã?
–É. –Raito confirmou, com certo toque de desdém, trazendo a fruta à altura dos olhos e fitando-a.– Excelente observação, detetive. –Havia sarcasmo no elogio, é claro, mas L não estava prestando atenção o suficiente para apurá-lo, ou se estava preferia concentrar as atenções no brilho quase ofuscante que a fruta refletia.
Vermelho como sangue.
–Você vai comer a maçã.
–Nossa. Excelente dedução, agora. –Como que para dar ênfase às condições referidas, o familiar barulho de mordida ecoou no vazio da sala quando os dentes de Raito se fincaram em uma das paredes sanguinolentas.
Parecia algo completamente inocente de se fazer.
Exceto pelo fato de que...
–O que está olhando, L?
Ele perguntou assim que terminou de mastigar o primeiro pedaço, e o detetive teve de concluir que algo em sua postura estava óbvio demais para ele ter deduzido que aquela contemplação não era uma simples contemplação, e que algo de perverso poderia estar correndo no labirinto de seus pensamentos.
–Nada. –Ou talvez a convivência tivesse oferecido certa familiaridade nessas situações. –Apenas lembrei de algo um tanto quanto curioso envolvendo exatamente isso.
–O quê?
L friccionou os pés.
Parecia estar mais frio e escuro na Central de Operações, talvez por estarem explorando outra madrugada de investigações, sozinhos... Como daquela primeira vez, e não fazia tanto tempo assim, em que os primeiros tijolos que construíram o que eles tinham se empilharam. A temperatura baixa sempre favorece proximidade.
Não obstante, seus pés continuaram frios. E a resposta continuou pendente.
–"Você sabia, L...?" –O detetive entoou repentinamente; e de certa forma misteriosamente, já que parecia mais estar falando consigo mesmo, do que respondendo à aclamada questão. O mistério, por sua vez, fez Raito franzir o cenho, mas só até escutar o que ele veio entoando depois: –“O Deus da Morte só come maçãs."
Quando os ouvidos dele foram tocados por essa frase, toda a postura duvidosa que estava lhe cobrindo foi instantaneamente trocada por descrença e insatisfação.
–Por favor, detetive. –O tom do Yagami surgiu trincado, quase beirando à indignação. –Se fosse algo sobre Adão e Eva, ou Paraíso, ou sei lá... Seria clichê, mas até compreensível. Só não me diga que você está usando minha fome para aumentar suas suspeitas de que eu sou Kira.
Ele fazia de propósito, enfatizava as sílabas mais certas para fazer tudo soar infinitamente patético. Não que L estivesse de fato querendo sugerir que uma maçã poderia implicar em suspeitas.
Afinal, era só mais uma coincidência inexplicável, de uma lista imensurável de coincidências inexplicáveis.
–Eu não disse absolutamente nada, Raito-kun. Além disso... –O olhar do detetive assumiu aquela forma que lhe fazia parecer um espectro. –Eu jamais consideraria Kira um Deus.
Era incrível como L jamais perdia as esperanças de vê-lo mudar de postura, mesmo que minimamente, em frases como essa. Mas ele sempre lhe respondia com sorrisos.
E aquela era sempre a melhor resposta.
–De fato. Mas o próprio Kira certamente deve se considerar assim.
–Você se considera mesmo?
–Não! Quer dizer... –Raito passou as mãos pelo cabelo. Depois provou que até o mais exímio dos autocontroles tinha limites, quando posto em teste tantas e tantas vezes. –Você simplesmente não consegue parar, não é? –Repousou a maçã na mesa adjacente, e com seu andar despojado percorreu a distância que o separava do detetive, encapuzado por aquele ar sombrio, quase violento. –Quando é que vai admitir que ainda almeja com todas as forças que seja eu? Mesmo com todas as evidências?!
Mais uma vez, ainda que o aumento do tom de voz quisesse sugerir o descontentamento que um inocente tinha de ser indiciado como assassino ao invés de frustração de um assassino por ter que lidar com a constante suspeita, os mínimos gestos, desde o movimento dos cílios de Raito até o tremor no canto de seu lábio esquerdo (perceptíveis para L, agora que ele fizera questão de impor a proximidade, com seus rostos frente a frente), sugeriam essa última tese como muito mais provável.
E mais uma vez, isso não significava nada; era só um adendo ao estoque de teorias arquivadas pela mente do detetive.
E ele ainda precisava notificar que a provocação fora bastante intensa.
Não que sentisse remorso, é claro.
–Desculpe. –Mas foi essa palavra, que quase nunca encontrava brecha no incolor de seus lábios é que veio à tona.
Talvez com uma inclinação um pouco desdenhosa demais, o que não tornou a retratação surpreendente, e sim passível de suspeitas.
O Yagami se limitou a cruzar os braços.
–Você vai ter que fazer algo melhor se quiser se retratar.
–Algo...?
–... Que não tem nada a ver com o que você está pensando, pervertido. –Raito censurou assim que cruzou com a malícia que deixava os olhos de L ainda mais negros. –Embora... De certa forma...
–Diga logo, Raito-kun.
L sabia que ele fazia aquilo de propósito. Fingia que ia falar, e depois hesitava, arriscava um sorriso ou mordia o lábio.
Era uma espécie de charme. E funcionava. De forma irritante, porém plenamente eficaz.
Só depois que se passaram os 15 segundos mais longos de sua vida é que ele resolveu lançar os dados.
–Quero que você vá a um lugar comigo, amanhã. –Mas nenhuma aposta seria vencida com aquele pré-discurso, ou pelo menos foi isso que L pensou, tal a aversão que sentiu às palavras assim que elas vieram, embora se mantivesse inviolável a elas. – Somente nós. Tenho uma... surpresa, para você.
–Parece tentador... –Uma linha sinistra, quase insinuando um sorriso, surgiu no canto dos lábios incolores dele. –Mas não, obrigado.
E dentro de um milésimo de segundo sumiu, como se nunca antes tivesse estado ali.
–Espere... Como assim?! –O Yagami não conseguiu controlar a insatisfação. Certo que não se deixaria enganar tão fácil por aquele semi-sorriso sádico, mas era nítido que uma reação tão monótona e uma resposta tão direta não tinham sido previstas em seu script. –Você nem pensou duas vezes antes de simplesmente rejeitar a ideia, Ryuuzaki!
–É claro que eu pensei. –Justificou-se L, num tom que praticamente dizia que ele era, indiscutivelmente, o dono da razão. –E disse que era tentador. Mas também digo que não, obrigado. –E voltou suas atenções à tela do computador.
Raito bufou.
–Posso ao menos saber qual é o motivo dessa recusa tão sem precedentes?
–Não gosto de sair às ruas. Sinto-me desnecessariamente exposto. –O detetive se explicou como se não gostasse de tocar naquele assunto, ou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, ou talvez um pouco dos dois. –Além do mais, tenho certeza de que poderíamos aproveitar de maneira equivalente aqui dentro do QG.
–Não. E você não estaria exposto, L. O lugar onde eu queria que fôssemos não é público, e tampouco é longe do QG. Você poderia voltar em minutos.
–Interessante... –L acariciou os lábios com o indicador. –Mas continua sendo não.
–Eu vou ficar realmente chateado, se você não for. É um convite irrecusável.
–Não.
–Seriam só algumas horas, e eu juro que não te traria arrependimento algum...
–Não insista, Raito-kun.
–Por favor.
Raito soube que tinha acertado o alvo, mesmo que às custas do orgulho, quando viu o detetive mudar de postura, repentinamente, como se tivesse levado uma descarga elétrica ou algo do gênero. Não era uma interpretação equivocada relacionar àquilo a uma mudança ideológica, porque L não abandonava sua bizarra forma de sentar por qualquer coisa.
E bons segundos se passaram sem que ele devolvesse seu louvado ‘não’.
–... Por que seria isso tão importante para você? –Em vez de contestar, cedeu a tal pergunta.
Havia sido curioso, realmente curioso, como aquele convite só se tornara suspeito e passível de investigações mais elaboradas assim que o “por favor” moldou-se à voz do Yagami. Não que houvesse deixado de negar a proposta porque tinha sido comovido por ele, mas sim porque suas sinapses passaram a tecer outras espécies de teorias, como lhe era familiar.
Amanhã, afinal, não era um dia qualquer. Amanhã era a véspera da verdade. E o que ele pretendia se referir com o termo surpresa? L detestava ser surpreendido. Em surpresas, ele era sempre o último a saber, e isso era tão incomum e incabível em sua realidade que acabava por incomodá-lo a níveis grotescos. Mas é claro que havia a chance de ser só algo inocente...
E ao considerar a possibilidade de estar em um lugar sozinho com o Yagami, sem correr o risco de ninguém os atrapalhar, e aproveitando cada segundo até o décimo terceiro dia, nada pareceu tão tenebroso assim, mesmo que suas raízes pudessem ser perversas.
–Você vai saber, se for junto comigo. Só diga que sim... –O garoto se atreveu a ultrapassar os limites, e percorrer com os dedos a gola da camisa de L. Em seguida contornou-a, puxou-a, expôs a pele e aplicou um ligeiro ósculo. Os lábios dele eram mornos sobre sua pele gélida, o que infelizmente resultou num arrepio. Certamente Raito estava ciente de que isso favoreceria os ímpetos de exploração da perfeição presente na maciez dos toques mais mínimos, como se fossem impulsos elétricos nadando no sangue do detetive, e em resumo, fazendo-o desistir. –Sim?
–Esse lugar é mesmo aqui nas redondezas?
–Aham.
–E é certo para você que eu não me arrependerei?
–Tenho certeza absoluta.
–Nesse caso... –Seguramente não haveria problemas em abrir uma exceção sobre nunca abandonar o QG, ainda mais quando isso poderia favorecer eventuais investigações, ou somente representar um momento de deleite e redenção antes do décimo terceiro dia, também como uma metáfora simbólica ao cumprimento de um último desejo do réu. –Vou pensar melhor.
Os olhos de Raito faiscaram, e ele provavelmente tentou esconder o quanto aquelas palavras assumiram dimensões de preciosidade... Mas não foi muito bem-sucedido.
–Acho que é o suficiente, por enquanto. –Ele voltou a andar com um inevitável sorrisinho no contorno do lábio, até chegar no lugar de onde saíra, a cadeira giratória, na qual ele se acomodou relaxadamente, em seguida pegando uma caneta, e olhando notebook enquanto a girava entre os dedos.
L acomodou-se novamente também, para que seu potencial de raciocínio não fosse prejudicado, e descansou as mãos sobre os joelhos. O canto de seu pescoço que ele beijara estava formigando, ou talvez fosse armação psicológica.
Deveria estar processando cada informação que tinha, e o fez, mas permaneceu perscrutando o mais novo com um olhar eventual, não tão intenso quanto desejava, mas eficiente para repercutir centenas de informações nas paredes de seu cérebro e milhares de dúvidas que tinha vagas esperanças de serem respondidas na imagem.
Muito embora ela apenas o confundisse, já que era a única que tinha a capacidade de fazer o que tinha guardado dentro do peito bater mais forte, tanto metafórica como fisicamente, e isso não era normal. Não para ele, ao menos. Fazia-o querer que permanecesse batendo, em vez de congelar. O que não era seguro, mas ele tinha de admitir que era melhor, pois o mantinha vivo. A subvida de outrora não deixava saudade alguma...Talvez apenas para o seu orgulho detetivesco. Que, por sinal, deu um súbito grito ao constatar algo que então lhe passara despercebido, e agora ressoava como um alarme de incêndio.
–Raito-kun?!
O Yagami virou a cabeça para o chamado, distraidamente. A voz e o espanto de L, no entanto, expulsariam qualquer distração que desejasse continuar mantendo, e ele estava apontando para o canto da mesa entre eles como se algo ali fosse surpreendentemente assustador ou estivesse incondicionalmente errado.
–O que foi, Ryuuzaki?
Só de bater o olhar Raito constatou qual era o motivo, e só por um átimo de segundo ficou apavorado, mas decidiu retrucar com uma desculpa ridícula, mas que por falta de explicações precisaria ser aceita. Com o cuidado de permanecer com ar de leigo e desdenhoso, durante todo o processo.
–Onde é que foi parar a maçã que você deixou ali?
Raito tinha muita certeza de onde ela havia ido parar -era a intenção, a princípio, até L pegá-lo com a fruta no flagra-, mas é claro que jamais deixaria o detetive imaginar que ela estaria no estômago de um Shinigami, bem como aquela frase perspicaz de que ele se lembrara havia sugerido, a princípio.
–Eu terminei de comer. –De todas as respostas, essa era a mais imbecil e infelizmente a única que seu cérebro pôde elaborar. O detetive, obviamente, sabia que não tinha ouvido mais barulhos de mordidas ou o visto com a maçã depois da conversa, mas se houvesse algo suspeito com tal sumiço, ele imaginaria que Raito teria ao menos o trabalho de inventar uma desculpa engenhosa. E era justamente por isso que ela era perfeita.
–Hm...
Isso.
Perfeito.
Tudo estava correndo exatamente como planejado.
-x-
Do lado de fora da janela, um pássaro batia suas asas, e Mikami não gostava de admitir, nem mesmo para si próprio, que a primeira ideia que teve ao ouvir o ruído foi que poderiam ser asas de Shinigami, anunciando o retorno de Ryuuku.
Evidentemente não era culpa sua a paranoia e o desejo incessante de obter informações e respostas. Porque não se tratavam de quaisquer informações ou quaisquer respostas, e sim das mensagens de Deus. Das instruções de que precisava para continuar se movimentando -ou melhor, existindo, já que se esquecera de que valia viver a vida sem essas pistas.
Sentia-se a peça num tabuleiro de xadrez que tivera a preferência de seu jogador, o mais brilhante estrategista de todos. Ele o havia movido para as casas mais precisas, e lhe conferido autonomia para que se movesse por contra própria e arrasasse os peões, enquanto pensava numa maneira de unir suas forças para dar Xeque-Mate. Com a adição de que quando ficava sem notícia alguma, essa autonomia tornava-se um fardo, e ele contava os minutos, segundos, até milésimos, para voltar a ser manipulado por seu soberano, pedindo aos céus para estar incluso nas investidas que Ele iria dar contra o Rei.
Repentinamente, um ruído que lembrava vagamente um riso de escárnio fez uma rachadura nos devaneios de Mikami. Ele olhou para o vidro da janela em que seu rosto estava refletido, e ao colocar os óculos conseguiu constatar que, dessa vez, não era uma ilusão.
O momento que estivera aguardando havia chegado, depois de tanta ansiedade.
–Finalmente você voltou. –O moreno permitiu-se suspirar de alívio, por apenas três segundos, antes de se levantar. As mensagens eram mais importantes do que qualquer necessidade, e foi justamente por isso que correu em direção ao Shinigami, como se corresse em direção a elas. –O que Deus disse?! Está tudo correndo como ele desejou?
Ryuuku estendeu uma de suas enormes mãos.
–Primeiro, minhas maçãs. Depois eu posso pensar se quero contar quais serão os planos de Raito.
A resposta facial de Mikami a essa resposta tão petulante não foi a exata definição de dócil, mas ele não se atreveu a contestá-la — até porque estava muito consciente do quão egoísta e debochado aquele Deus da Morte era, algo que qualquer um poderia deduzir passando poucas horas em sua companhia.
Também era muito claro que ele não estaria colaborando com qualquer coisa, se não fosse para seu próprio interesse. E mesmo sendo, ele poderia muito bem escolher ficar em silêncio, e era melhor não correr esse risco somente pelo prazer de dar uma réplica ao nível. Felizmente, três horas e cinco minutos atrás, Mikami havia se prevenido da barganha, e preparara uma cesta com as frutas mais doces e avermelhadas que conseguira achar no mercado.
Caminhou até o armário, onde a havia guardado, e em poucos minutos ela estava sob o domínio de Ryuuku, que começou a devorar seu conteúdo, sem pensar duas vezes, e com um brilho faiscante na íris.
Era torturante para o moreno, no entanto, assisti-lo em meio a esse processo, e depois de alguns minutos, como as perguntas já estavam ardendo em sua garganta, achou que não teria problema em deixá-las serem ouvidas, somando-se àquelas de início.
–Ele mandou mais alguma instrução, Ryuuku...? –Seu tom foi cauteloso, um pouco mais calmo que outrora, para não sugerir que ele estava à mercê da boa vontade de Ryuuku. –Tem alguma coisa errada no que eu estou fazendo até agora?
–Heh, pare de ser apressado. –O Shinigami repreendeu, balançando a face para os lados.
Aproveitando que a cama do quarto estava vaga, simplesmente deitou-se nela, usando um dos braços como apoio.
As veias de Mikami ficaram tão salientes e palpitantes com essa resposta, que a pressa que ele possuía poderia facilmente ter se redobrado.
E a vontade de ofender Ryuuku também.
–Não há pressa.
–Sei... É realmente divertido ver humanos nesse estado com coisas tão simples.
–Não há nada de tão simples nisso, Ryuuku. –A secura de seu tom de voz foi inevitável.
–Tem razão. É mais do que tão simples. –Retrucou o Shinigami, limpando sua enorme boca com as costas da mão, depois de mastigar o resto de uma maçã. –Bem... A partir de agora, você vai poder fazer contato direto com seu Deus. –Ele soltou a bomba com menos do que desdém. –Lamentável. Lá se vai um ótimo meio de conseguir maçãs.
–Kira vai fazer contato direto comigo? –Os olhos de Mikami se arregalaram de tal forma, sob os óculos, que eles nem fariam um grande contraste com os globos saltados das órbitas do Shinigami. E ele facilmente podia ter perdido a voz, se não fosse a pressa de perguntar, e a euforia que a fazia soar firme e perplexa.
–Sim.
O moreno queria mais do que qualquer coisa, mas não conseguiu acreditar de imediato na veracidade do simples vocábulo, que Ryuuku enunciara como se fosse qualquer coisa, mas guardava em si uma explosão de significados. Parecia ser tão onírico, tão maravilhoso, tão brilhante... E ao mesmo tempo tão inalcançável. Sim, era realmente surreal imaginar que, de um instante para o outro, poderia ter a honra de estar de novo frente a frente com Deus. Entretanto, não podia esperar menos... Diante da frequência dos contatos ao longo daquela semana, e conhecendo o alcance do poder e das estratégias dele, era nítido que ele conseguiria um meio. E se Ryuuku não estivesse apenas fazendo um deboche (o que era muito o estilo dele, porém não dessa vez), logo poderia ser brindado pela presença Dele. Era bom que nunca houvesse o subestimado. Mas queria conhecer os segredos de suas táticas, inevitavelmente.
–Eu não entendo. Ele não estava sendo altamente vigiado, 24 horas por dia? L não estava no rastro dele, tornando impossível qualquer comunicação?
–L. –Ryuuku pronunciou a letra com um ar lisonjeiro, e certo teor de escárnio, como se por trás da letra houvesse uma piada extremamente divertida (e para Ryuuku achá-la divertida, só podia ser de extremo mau-gosto) e particular. –É bem interessante a forma que Kira encontrou para se livrar da perseguição dele, hehehehe...
–Kira conseguiu se livrar de L?!
–Ele pretende fazer isso. Amanhã.
–Amanhã?
–Sim. Por isso ele pode entrar em contato com você muito em breve.
–Mas... Como Kira está planejando se livrar de L? Não é muito... arriscado?
Não era nada como se Mikami duvidasse da supremacia de seu Deus, nem por um segundo, mas ele não queria que tivesse a possibilidade de ele ameaçado pelos pagãos. Aquele detetive de influência máxima na Interpol e aqueles que o rodeavam sem dúvidas eram ameaças extremas para Kira, que dificilmente seriam sanadas de um dia para o outro... Ou talvez ele estivesse enganado, e isso fosse um pensamento fraco, guiado pelas suas falhas humanas de um mero instrumento divino.
–Digamos que ele não tem escolha. Ele pode tentar ganhar o jogo, que é o que ele vai fazer amanhã, ou pode simplesmente perdê-lo...
Ah. É claro, isso esclarecia muita coisa, e provava ainda mais para ele o quanto Kira era impecável. Deus jamais faria algo com pressa, como o tom de Ryuuku parecera insinuar, apenas por querer que as coisas caminhassem rápido; o fazia porque era uma medida emergencial, e mesmo sendo uma medida emergencial ele certamente tinha uma carta na manga, sabia exatamente como devia agir. Mikami conscientizou-se momentaneamente para parar de se preocupar, até porque toda ajuda que poderia dar já fora dada, e não havia nada que pudesse pensar que Ele já não tivesse pensado antes, logicamente.
–Compreendo. L armou uma emboscada para ele, mas ele vai tentar investir contra L antes que ele consiga, certo?
Ryuuku sorriu largamente.
–Gosto de você, Mikami. Você não me faz repetir as coisas. E repetir é entediante.
Mikami revirou os olhos.
–Em breve, você não precisará nem mesmo se dirigir a mim. Está claro que Raito vai conseguir. Deus é hegemônico, e seus planos devem ter sido elaborados mais que perfeitamente.
–É... Mas se Kira derrotar L, qual vai ser a graça que tudo isso vai ter?
–O mal vai ser abolido desse mundo pelas mãos de Kira, Ryuuku. Não é algo que precise ser engraçado. –E infelizmente, mesmo que L fosse levado ao fundo do poço (e ele seria levado, Mikami não tinha nenhuma dúvida quanto a isso), surgiriam mais pagãos que, como ele, tentariam caçá-lo ou corromper a verdadeira Justiça, com a lenta e ineficaz Justiça do mundo humano.
Mas era justamente por isso que Mikami estava ali. Deus não teria que perder seu tempo com tais adversários. Cavalos, torres e bispos seriam combatidos e eliminados enquanto tentavam defender seus peões. Pois Ele havia escolhido a peça certa para usar. Certa, com um Death Note e dois vermelhos e extremamente eficazes olhos de Shinigami, que haviam sido mais do que muito usufruídos, nos últimos quatro dias...
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