O Plano B
22 XXI- Mirror's Secret
Notas iniciais
Raito mal conseguia acreditar na própria sorte.
Seria de se pensar que ele, eterno discípulo da inteligência e argúcia que lhe eram próprias, nem mesmo considerasse a possibilidade de sorte existir. Mas ela existia. A verdade era que um tipo de jogo como aquele dependia, sim, do destino. Mais precisamente, do lado em que a sorte decidisse se posicionar.
E como os fatos estavam comprovando, sequencialmente, ela optara por ficar ao lado de Kira.
Kira estivera dançando com L à beira de um precipício por muito tempo, e isso não era novidade para ninguém. O Yagami sabia que pelo menos do 1% de suspeitas o detetive não abriria mão até que o verdadeiro Kira fosse capturado. Mas até alguns dias atrás, ele não fazia ideia de que não era o único que ocultava as intenções de fazer o parceiro de dança pisar em falso e cair para o abismo da morte. Antes que L cometesse um pequeno deslize, em um dos momentos mais apaixonados que haviam compartilhado durante aquela semana, o garoto estivera confiante de que a Regra dos 13 dias estava garantindo a sua proteção e confiança. Acreditava que seria assim por tempo suficiente para por o seu plano B em prática e dar ao detetive a morte que ele merecia. Achava que estava, pelo menos parcialmente, a salvo.
Mas ele não podia ter estado mais enganado.
Se tivesse demorado um pouco mais de tempo para perceber o que havia por trás do deslize de L, ou então se L não houvesse cometido deslize algum, aquele teria sido o seu fim.
Felizmente, a perfeição do Plano B havia atuado, e não havia permitido que isso acontecesse. O coração do detetive estava total e completamente sob seu jugo. Analisando por um ângulo diferente parecia que, justamente por isso, essa parte frágil e não-detetivesca de L queria salvá-lo ou, no mínimo, alertá-lo sobre o perigo que corria.
“Deveria ter medo, Raito-kun. Esse relacionamento é perigoso demais para você.” Ele dissera com um tom de voz obscuro e o brilho dos olhos arrefecido, como se de repente, o mundo todo pesasse sobre suas costas. O que de certa forma, era verdade. Foi uma frase fatídica, dita com uma profundidade melancólica, que no momento, teve o seu significado oculto passado despercebido para Raito. Se ele não fosse Kira, simplesmente não teria nada para se preocupar. Mas como ele era, depois de refletir sobre o assunto, não demorou muito para que ele somasse dois mais dois. Chegou à conclusão de que, indubitavelmente, durante aquele tempo todo, o detetive estivera mentindo para ele e para o resto da equipe no QG.
Não, ele não tinha apenas 1% de suspeitas sobre Raito. Não, ele não estava convencido de que a Regra dos 13 dias era verdadeira. Não, ele não achava que ele e Misa deveriam ser inocentes. L não gostava de perder, e não, L não ia se dar por vencido só porque um caderno -ainda que fosse um caderno da morte que pertencia a um Shinigami– dizia que ele estava errado.
Era óbvio que não.
L apenas queria que eles pensassem que tinha se dado por derrotado. Aquele ar despreocupação e indiferença, não era nada mais, nada menos, que um teatro. E aquela frase havia sido o erro da cena, o único momento em que a máscara havia deslizado para o lado. Depois daquilo, Raito foi capaz enxergar a verdade.
Para L, ele ainda era o suspeito principal. O detetive não poderia acreditar na Regra dos 13 dias, porque ela desafiava sua lógica e as evidências de que Misa foi o Segundo Kira.
L estava agindo às escuras. Ele provavelmente tinha um plano, que até onde sabia, podia estar em ação naquele exato instante. Bastaria que ele realizasse um teste com o Death Note para saber se a Regra dos 13 dias era ou não verdadeira. E se fosse provado que ela era Falsa, Raito e Misa teriam que ser presos de novo, mantidos em vigilância e interrogados. Seria coincidência demais a Regra Falsa ser justamente a que beneficiava os dois.
Sendo feita essa descoberta, Raito precisou tomar fôlego, e colocar um plano em ação, que fosse ao mesmo tempo urgente, cauteloso e sigiloso. A sua melhor chance, naquele momento, era utilizar suas incríveis habilidades de hackeaemento.
Levou aprovimadamente 2 dias inteiros para conseguir invadir a segurança do computador de L, e mais 1 para encontrar o que estava procurando. No entanto, poderia ter sido bem pior. Para burlar os sistemas de segurança do computador de alguém importante como L, imaginou que fosse demorar no mínimo 5 dias. Porém, Raito estava grato que havia demorado apenas 3. Se tivesse levado mais dois, teria que tomar medidas drásticas para descobrir alguma coisa, como arriscar falar com Remu dentro do QG. Falar com a Shinigami era praticamente uma missão suicida; quando Raito tentara, para ver se poderia negociar com ela a morte de L conforme havia planejado, foi surpreendido por seu pai vigiando-a em turnos revezados com os outros ex-agentes.
Mas apesar disso, mais uma vez, a sorte sorria para ele.
Havia uma pasta nomeada como “Death Note” e lá havia registros da formação de uma nova equipe de investigação com membros altamente especializados e selecionados de diferentes países, que iria realizar testes com o caderno a comando de L, para medir seus poderes e capacidades, visando à captura de Kira.
Havia uma seção concernente a Raito Yagami e Misa Amane e a Regra dos 13 dias; ela era a primeira que estava sendo testada, pois inocentava os que haviam sido os suspeitos principais antes dela. Três criminosos condenados haviam escrito no Death Note o nome de outros em semelhante situação. Faltavam dois dias apenas até o décimo terceiro dia, em que ele deveria morrer, segundo a Regra do Death Note. Caso morresse, e a Regra fosse Verdadeira, Raito e Misa seriam realmente inocentados. Caso fosse falsa, L forjaria para Raito Yagami um novo teste da Regra dos 13 dias, usando outro criminoso condenado. Esse criminoso não teria escrito no Death Note de verdade, mas L o faria acreditar que tinha. E então, caso morresse, deduziria-se que Raito era Kira e o matara para se inocentar.
Ah, o Yagami tinha que admitir. Era um plano lindo. Atingiria o alvo em cheio, se não fosse por aquela interferência do destino.
Ele não tinha dúvida de que, se L chegasse para ele e os outros ex-agentes do grupo e dissesse que iam fazer um teste da Regra dos 13 Dias, fornecendo o nome do suspeito a ser utilizado, mandaria Mikami escrever o nome dele no Death Note, com toda sua confiança e sem um pingo de hesitação.
Mas graças Plano B, e ao amor que L agora nutria por ele, eram os nomes do Teste verdadeiro e realizado às escuras, que seriam escritos no Death Note, mantendo a Regra dos 13 dias invicta. Graças ao Plano B, podia enviar as fotos desses criminosos para Mikami, e permanecer inocentado até que Kira tivesse todo o poder e pudesse se revelar como o Deus do Novo Mundo.
Graças ao Plano B, L havia perdido.
Mais do que isso, L morreria.
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Um dia depois. A véspera.
L não estava gostando nada daquilo. Um pressentimento ruim começou a se apoderar dele enquanto se movimentava pelas ruas de Tóquio, rumo ao endereço que Raito havia lhe passado.
Depois da insistência ferrenha para que ele o encontrasse naquele lugar desconhecido, e diante da incrível capacidade de convencimento e persuasão que o garoto possuía, Lawliet não tivera opção a não ser atender àqueles pedidos suplicantes e vestir seus odiados calçados para se colocar nas ruas.
Na realidade, o que pesara mais em sua consciência para aceitar o pedido do Yagami não foram somente essas coisas, e sim o fato de que o dia seguinte era o décimo terceiro dia, desde que o teste secreto havia começado.
Se ao passar da meia-noite, a Regra não se confirmasse, Raito não estaria mais livre das acusações de ser Kira, e voltaria a ser o principal suspeito do caso.
Na verdade, não haveria mais desculpas para que ele não fosse Kira, uma vez que ele e Misa eram os únicos beneficiários dessa Regra. Se ela fosse falsa, logicamente teria de ter sido inventada por Ele para usufruir dos benefícios da inocência, em vez de uma amigável coincidência do destino. Qualquer idiota perceberia isso.
Seria apenas uma questão de realizar mais um último decisivo teste. Forjaria-se com o pessoal do QG um novo teste da Regra, em que a identidade do criminoso que iria escrever no Death Note seria fornecida apenas ao Yagami. Só que na verdade, esse criminoso não teria escrito absolutamente nada, e se ele morresse, seria a prova de que fora a comando de Raito. Com a Regra sendo falsa, todas as peças se encaixavam na teia de pensamentos de L, porque havia provas substanciais de que Raito e Misa haviam sido, respectivamente, o Primeiro e o Segundo Kiras. No caso de Misa, até evidências físicas. Ambos haveriam perdido a memória sobre Kira, e a recuperado futuramente, e como era possível matar em pequenos pedaços de papéis, como já havia comprovado um teste realizado pela Central Secreta de Investigações a comando de L, seria possível explicar assassinatos cometidos por Kira em circunstâncias aparentemente impossíveis. A Senhora Shinigami havia se recusado a cooperar ou explicar com consistência as Regras, o que fez L questionar, além da sinceridade dela, o quanto ela não poderia esconder a favor de algum ser humano de sua preferência.
Caso a Regra fosse falsa o Caso Kira estaria em seu fim, e algo, que Lawliet definitivamente não queria que acabasse, também se encontraria terminado.
Não tinha a menor possibilidade de L continuar amando Raito, se ele de fato fosse Kira. Aqueles sentimentos tão bons e aconchegantes, como carinho e intimidade, aqueles toques tão confortáveis e acolhedores, como seu abraço e o gosto de sua boca, passariam a ser apenas um motivo de lamentações e angústias, e seriam substituídos por ressentimento e ódio.
Afinal, ele não seria mais o seu Raito, e sim um assassino em série. Tudo o que tiveram seria interpretado como um plano malicioso, manipulador e nojento, pois um psicopata não poderia ter sentimentos como aqueles, e aquilo tudo seria só um erro de que o detetive se arrependeria para o resto de sua vida. Bom, pelo menos era isso que ele achava que sentiria. Racionalmente. Logicamente.
E é por isso que ele tinha que ir encontrar o Yagami, que se recusava a permanecer no QG como ele queria. Era para aproveitar enquanto o que sentia de bom e aconchegante por ele permanecia inalterado, na dúvida do que estaria por vir. Queria desfrutar, como se fosse para sempre, das melhores sensações que já havia experimentado, ao lado de seu melhor (e único) amigo.
O fato é que ele estava evitando pensar, apesar da ansiedade estar corroendo suas entranhas, que o dia seguinte iria definir tudo da relação dos dois. Por hoje, ele estava apenas acreditando, que o teste certamente confirmaria a veracidade das Regras do Death Note, e por mais desentendimentos que ele e Raito pudessem ter, por L duvidar de sua inocência, ainda haveria um futuro para os dois. Voltaria a trabalhar com os oficiais japoneses de sua confiança e juntos capturariam Kira. Um cenário que, por mais que ferisse seu orgulho detetivesco, era consolador, deixava seu humor estável e sua pulsação ritmada.
Porém, depois de alguns passos, o pressentimento ruim defitivamente se instalou. Alguma coisa não parecia certa, e ele estava se arrependendo de ter prometido a Raito que marcaria presença naquele endereço. É claro que tinha sido cauteloso o suficiente para avisar Watari onde iria, além de ter um GPS que indicava sua localização preso em suas vestes inusuais e escuras. Ele também usava um tecido que cobria metade de seu rosto, para não ser reconhecido -ou ter seu rosto fotografado no caminho.
Mas aquilo tudo era simplesmente muito desconfortável para ele, e somado àquele desconforto crescente em seu estômago, só fazia crescer sua vontade de dar meia volta. Além disso, não aceitara bem que Raito não estava indo junto com ele -tinha dito que precisava estar no local indicado bem antes do horário que pedira para L se apresentar lá, pedindo sua liberdade da Central logo que os primeiros raios de sol surgiram, a pretexto de terem uma noite perfeita, ao que o detetive concedeu a contragosto. Por mais que soubesse que Kira nunca seria burro o suficiente para tentar matá-lo quando havia outras pessoas que sabiam exatamente com quem ele estava e em que lugar, não conseguia deixar de achar aquela insistência de Raito um tanto quanto suspeita.
Qualquer noite em que estivessem juntos era perfeita.
Não precisava de um lugar perfeito para isso também.
Quando finalmente chegou no local indicado, depois do que pareceu ser a caminhada mais demorada de sua vida, L não conseguiu evitar que seus lábios, sob a máscara, ficassem abertos num “o” gigante. Em seguida, seus ombros relaxaram, enquanto o “o” ia sendo substituído por um pequeno sorriso. As sensações de desconforto e temor que estavam invadindo suas entranhas foram substituídas por euforia.
Ali estava ele diante de, nada mais, nada menos do que uma enorme... loja de doces. As vitrines estavam cobertas por cortinas, mas não havia dúvida de que era, de fato, uma loja de doces. Na porta trancada, havia um dispostivo eletrônico, exatamente como Raito dissera que teria. L digitou a senha decorada, com pressa, e a porta se abriu como se fosse feita de papel.
A visão que seus olhos tiveram quando penetrou o aposento quase o fez cair para trás enquanto se babava todo.
—Ryuuzaki. Até que enfim você chegou!
Prateleiras e prateleiras com maravilhosos bolos, tortas, cookies, gelatinas, frutas em caldas e outros tipos de confeitos estendiam-se por todos os cantos de um lugar claro, limpo e aconchegante. E no meio delas, o confeito que tinha se tornado o preferido de L nos últimos tempos…
Raito Yagami.
—Eu...Raito-kun...Como você…? -L não sabia nem como começar a perguntar. Ficara demasiado embasbacado diante de todo aquele açúcar. O Yagami apenas deu um meio sorriso diante da expressão que se alojara no rosto costumeiramente impassível dele e explicou, com eu tom de voz confiante de quem tinha entendido perfeitamente bem o que L queria saber com aqueles murmúrios.
—Esse lugar pertence a um amigo.Ele me deixou alugá-lo por um dia, com todos os doces inclusos, por um preço que com certeza valia a pena pagar pela felicidade de um certo detetive teimoso e irritante...
A indireta-super-direta não pareceu atingir L, que só soube fazer fechar os olhos. Depois os abriu de novo, como se quisesse se certificar de que não estava sonhando.
Voltou a sondar o ambiente com atenção e curiosidade irrefreáveis.
O aroma de massa de bolo fresca e quentinha somava-se com o de limpeza e móveis novos e inundava o lugar numa combinação harmoniosa. Mais ao fundo, havia cadeiras com almofadas vermelhas estofadas, que pareciam muito confortáveis, e pequenas mesas dispostas para uma parede circular de vidro, cujo exterior fornecia uma linda vista noturna da cidade. E os doces...ah, os doces.
Eles pareciam suplicar para que L os comesse.
—É perfeito, Yagami-kun. Eu simplesmente...Não sei o que falar.
Na verdade, L sabia exatamente o que queria falar.
Ele só não se sentia a vontade o suficiente para proferir.
“Ninguém nunca fez esse tipo de coisa por mim. Nunca. Em toda minha vida. Nem mesmo o Watari.”
—Hmm. Que tal um “obrigado, Raito, você é o melhor namorado do mundo. Desculpe por ficar te ameaçando a cada dois segundos e por ter sido tão difícil me convencer a aceitar o seu convite. Eu sou claramente um tapado. ”
O detetive riu.
—Quer que eu fique de joelhos e lamba sua cara também?
—Seria bom... Mas você pode começar tirando essa máscara rídicula.
—Tirar a máscara...?
— Pelos céus, Ryuuzaki, não sei como não te o algemaram enquanto perambulava pelas ruas...-O garoto cruzou os braços e balançou a cabeça para os lado, num tom repreensivo. -Com essas roupas e essa cara você parece pronto para assaltar um banco ou deflorar uma garotinha inocente!
—Obrigado, Raito-kun. Você é mesmo o melhor namorado. -L debochou, parafraseando-o sarcasticamente. — Entenda, eu não posso ter meu rosto registrado, nas atuais circunstâncias. Você mesmo me disse nas investigações passadas que o novo Kira também mata criminosos cujos nomes não são fornecidos na mídia. Isso sugere que ele também pode matar somente com um rosto...
—Todas as câmeras desse lugar estão desativadas. E, caso você não tenha se dado conta, Ryuuzaki...A única pessoa que sabe sobre a sua identidade por aqui sou eu.
Houve um momento de silêncio tenso entre os dois.
—Isso é um fato. E você não é o Kira.
Raito revirou os olhos.
—Obviamente.
—Você é apenas Raito Yagami. -O moreno afirmou num tom que não passava muita credibilidade. -E, como tal, você se importa muito comigo e com a minha segurança.
—Claro. Por isso tomei todas as precauções necessárias para que você estivesse seguro aqui.
—Uhum. Eu acredito. Mas com certeza você não iria se importar se,antes de tirar a máscara, eu verificasse se as câmeras estão mesmo desligadas, não é? Afinal, nunca se sabe. Kira pode estar infiltrado nos lugares mais inesperados. -L deu um sorrisinho de canto, como quem diz “ é agora que eu pego você.”
O garoto apenas bufou e cruzou os braços.
—Vá em frente. -Afirmou, numa tranquilidade meditativa.
O detetive mal conseguiu esconder a própria decepção.
Não que ele realmente quisesse que Raito fosse Kira e estivesse planejando filmar seu rosto às escondidas para matá-lo, veja bem. Era só a indiferença que o incomodava – havia esperado por uma reação mais explosiva. Mesmo assim, tirou do bolso de trás do jeans um detector de câmeras portátil. Ativou o aparelho, tirou os sapatos, e percorreu o ambiente todo, escaneando-o a procura de algum ponto luminoso que revelasse a presença de câmeras escondidas.
Não havia nem sequer um.
—Hmmm. -O detetive se deu por vencido, depois de alguns minutos frustrados de inspeção. -Realmente, este lugar parece estar seguro. -Raito apenas o olhou com uma expressão que dizia “eu disse que elas estavam desligadas, seu detetive babaca e paranoico”, enquanto Ryuuzaki abaixava o tecido que cobria metade de sua face e a esfregava lentamente. -Ah, estou grato por isso. Você não imagina como é chato ter que respirar por debaixo dessa coisa.
—Suponho que esse seja o preço a pagar por ser o melhor detetive do mundo. -O Yagami disse. L reparou que os olhos dele haviam começado a brilhar intensamente, chamando sua atenção. -Também sou grato por isso. Estava com saudades do seu rosto...
O ar apaixonado com que ele proferiu aquelas palavras fez o detetive parar o que estava fazendo e franzir o cenho, num ar desconfiado de quem duvidava daquilo até o último fio de cabelo.
—Não exagere nos elogios, Yagami-kun. É forçado. Você o viu hoje de manhã. E no final das contas, são as mesmas olheiras e a mesma palidez de sempre. Nada de que se possa efetivamente sentir saudades.
—Ei! Eu não estou exagerando. -O garoto replicou num tom ofendido. Em seguida, caminhou alguns passos para onde L repousava com sua expressão desconfiada e parou somente quando estava a menos de um palmo de distância dele, que permanecia imóvel, encarando destemidamente o amendoado de seus olhos. Sem pedir licença, usou a mão direita para levantar o queixo do detetive, que por andar curvado, ficava alguns centímetros menos alto que o dele. Ele retribuiu seu olhar intenso, fitando-o como se pudesse enxergar seus pensamentos. E então, sussurou. -Você é lindo, Ryuuzaki.
L imediatamente corou.
Rompeu o contato visual, olhou para baixo e começou a atritar os pés.
—Pare de falar besteiras. -Apenas declarou, com um tom de voz monocórdio. -Isso não é verdade!
Qualquer um com mais de dois neurônios, conseguiria enxergar a verdade. Quem era estonteante de tirar o fôlego, com seus cabelos sedosos, sua expressão autoconfiante, seus sorrisos de canto lábio e seu físico impecável, era ele. Não L. L sabia que tinha um aspecto de alguém doente, mas na verdade, não ligava para isso.
Pelo menos não até aquele momento.
Raito suspirou.
O detetive ficou surpreso quando ele, subitamente, segurou a sua mão e o puxou. Por um momento, pensou que fosse abraçá-lo, mas na verdade ele se afastava enquanto caminhava para o que parecia ser o centro do aposento. Havia um lustre de cristal sobre suas cabeças, deixando aquele ponto bem iluminado. Pararam em frente a um balcão-vitrine de bolos muito suculentos. Atrás dele, havia um espelho de moldura dourada. O garoto fez um gesto, apontando para ele, e o moreno, sem pensar duas vezes, fitou a própria imagem.
—O que você está vendo ali, Ryuuzaki?
L revirou os olhos.
—Que pergunta mais estúpida, Yagami-kun.
—Apenas responda. -Raito não se deixou abalar.
—Nossos reflexos. No espelho. Estamos de mãos dadas. -Sumarizou num tom de voz extremamente enfadado. -Que romântico!
—E...?
—E o quê?!. -O detetive parecia estar começando a se irritar. — É só isso que tem ali
Raito suspirou. Sua expressão era a mesma de alguém que estivesse tentando ensinar Cálculo para uma criancinha de 5 anos.
—Talvez eu devesse lhe dizer o que eu vejo. Afinal, você está completamente cego para realidade. -Afirmou, num tom de superioridade inquestionável, que nem mesmo L resolveu desafiar.- O que eu estou vendo, nesse espelho, Ryuuzaki, é o L. L, o melhor detetive do mundo. L, aquele que todos chamam quando estão em desespero. L, o único gênio capaz de se opor e de derrotar Kira. -O Yagami proferiu as frases com uma entonação que fazia parecer que ele estava falando sobre algum tipo de entidade sagrada. -O que são essas olheiras, senão sinônimo da sua inteligência aguçada incapaz de permitir que você descanse por mais de duas horas sem se agitar com uma nova ideia genial? O que é essa pele pálida, senão a sua abstenção em circular pelas ruas e sua dedicação ao seu trabalho de desvendar os crimes mais tenebrosos do planeta? O que é esse andar recurvado, senão o peso do mundo sobre os seus ombros? -Ele fez as perguntas, enquanto o encarava no espelho, parecendo muito admirado do que via.- Para mim, essas características que você pode considerar não-esteticamente belas, são o que tornam a sua beleza ainda mais especial. Seus lábios são doces e espertos. Seu cabelo é bagunçado e macio. Seus olhos... Eles são negros como um poço escuro ou um céu sem estrelas. E eles possuem uma sagacidade intrínseca que me fascinou desde a primeira vez em que você os pousou, desafiadoramente, sobre mim. Então, por favor, acredite quando eu digo que você é lindo. Porque para mim não existe verdade mais óbvia.
O detetive engoliu em seco. Antes mesmo de Raito terminar, havia perdido a voz.
Sentiu a respiração parar por um momento, enquanto involuntariamente, arregalava os olhos e pousava o polegar sob os lábios, tentando compreender o que estava ouvindo. Seu coração parecia ter o peso de meia dúzia de toneladas.
Ele não conseguia acreditar.
Aos poucos, sem que se soubesse o porquê ou pudesse reunir forças para evitar, sentiu algo que não sentia desde tempos imemoráveis:
Seus olhos se encherem de lágrimas.
Imediatamente, antes que alguma delas escorregasse pelos cantos, cerrou as pálpebras, e apertou firme a mão de Raito que ainda segurava.
O garoto acabara de fazer outra coisa que ninguém nunca tinha feito por ele.
As pessoas sempre haviam repudiado suas manias, sua aparência, seus hábitos, seu jeito de ser. Embora soubessem que ele era um gênio, tratavam-no com condescêndencia em todos os outros aspectos da vida, afinal “ele nunca teria nenhum traquejo social”. Nunca ninguém se perguntou se todo o seu jeito arrogante e seus vícios não eram uma consequência de sua sede insaciável de justiça e de consertar o mundo que eles faziam ser tão errado.
Mas Raito não só conseguira ler através das entrelinhas de uma pessoa fria, sem modos e impassível, como também revelava ter uma profunda admiração e enxergar beleza nisso.
Isso é, se tudo aquilo não fosse só mais um jogo, uma ilusão.
Se ele não fosse Kira.
Simplesmente doía demais pensar na possibilidade de que ele pudesse ser Kira. Doía de uma forma que o fazia perder a sanidade. Doía tanto que L gritaria, se pudesse.
Queria muito poder acreditar em tudo aquilo que ouvia. Afinal, como ele poderia dizer coisas tão profundamente belas se elas não fossem as verdades escondidas em seu coração? Como poderia ele ser um mentiroso tão perfeito?
Uma pequena lágrima conseguiu escapar. Mas antes que L pudesse estender a mão livre para secá-la, Raito se aproximou e pousou os lábios sobre ela, beijando-a, enquanto soltava sua mão e envolvia seu corpo num abraço delicado. Quando L estava prestes abrir os olhos para olhá-lo e agradecer, o Yagami passou a beijá-lo nos lábios. Aquilo quebrou todas as suas guardas; o detetive somente deixou-se derreter por dentro, enquanto retribuía, de maneira carinhosa.
Mal ele sabia que, por detrás daquele espelho, que era nada menos que um falso-espelho, havia uma figura de cabelos negros, olhos muito vermelhos, e um sorriso maníaco que acabara de escrever o nome “L Lawliet” num pedaço de papel.
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