O Plano B

20 XIX- Paradox.


Notas iniciais
‭Olá, amorezinhos *-* Dessa vez não demorei, não é mesmo? Nesse capítulo, como disse para Bells (obrigada, como sempre, Bells ^^), eu estou preparando o terreno para os acontecimentos futuros...Que serão, digamos, os meus favoritos e os mais emocionantes da fic kk Espero que gostem, vocês são uns lindos *-*
‭Ah...Dedico o capítulo inteiramente a Cerejinhah, que fez a oitava recomendação de OPB, muito perfeita e inspiradora, por sinal...Obrigada, querida leitora, pelas suas palavras e pelo carinho que tens pela fic... Espero não desapontá-la, jamais! ((:

‭Sugooii Kissus pra vocês,

‭L.B.

"Vai acabar..."

Raito só parou para refletir no quanto isso estava óbvio depois que tudo findou, e o detetive se refugiou em seus braços, deixando-se cerrar os olhos e consequentemente o mar de indagações que eles sempre traziam consigo.

"Vai acabar logo..."

Olhando para o espelho acima de suas cabeças, era possível assistir a cada movimento.

A pele dele era tão branca que facilmente poderia se misturar àquele amontoado de espuma que os contornava, e às vezes era difícil definir se isso era belo ou doentio, ou se seus olhos acatavam a primeira opção por vontade própria.

Mas era meio inédita a visão daqueles cabelos negros molhados, e eles faziam um contraste absoluto com tudo ali dentro, como cascatas de petróleo.

Os traços dele pareciam esboços delicados, como se o corpo de Kira fosse o leito mais apropriado para descansar, ainda que ele não soubesse disso — ou, nesse momento, fingisse não saber. A respiração dele era tão leve que mal existia, calidamente acariciando seu pescoço...

E muito em breve, tudo isso deixaria de existir.

"L, meu amor... Como você gostaria de morrer?"

Não havia nada que Raito pudesse desejar mais do que a morte de L.

Exceto, talvez, estar naquela banheira com ele. Vivo. Respirando. Em seus braços...

Nunca.

Ao lado do Novo Mundo, a morte de L estava no topo daquilo que Raito almejava. E ela aconteceria, independente do que estivesse achando que estava sentindo. Somente achando.

Seria tolice imaginar que, de uma hora para outra, seus objetivos estavam se desequilibrando, só porque seu corpo implorava pelo dele e seu coração batia mais forte quando ele estava perto. Ou porque sua mente cronometrava os segundos para estar perto do detetive e a agonia de visualizá-lo desfalecendo parecia ser quase palpável. Nem havia sequer uma razão discernível para ter tais sensações diante daquele detetive orgulhoso e infantil. Quer dizer, talvez até tivessem, mas não era como se Raito quisesse levá-las em conta. O Plano não podia ser como uma colisão perfeitamente elástica. A energia tinha que findar em L. Tinha que atingi-lo, e jamais voltar para quem o enviou.

Afinal, Kira nunca se deixaria envolver pelo próprio feitiço. Quem sabe pudesse adiar o ato final, apenas por uma questão de prevenção e prazer... Mas este era o máximo, e nem iria acontecer, pois L nunca estivera tão... Vulnerável.

Essa era a palavra certa para descrevê-lo à mercê de suas vontades. Das vontades de Kira. Não restavam dúvidas de que ele já não era mais tão inatingível como outrora parecera ser. Ele podia dizer que continuava suspeitando, mas o que isso significava quando ele estava preso em seus braços, daquela maneira tão... sua?

Raito já se sentia suficientemente certo de que havia algo como confiança entre os dois. Além de L nem poder declarar as malditas suspeitas abertamente, por serem contra as regras do Death Note.

O plano B era um sucesso.

Contanto que permanecesse no QG, L não se incomodaria com nada. E portanto, esse era o momento perfeito para levar seus planos adiante e conseguir uma maneira ‘inocente’ de matá-lo. Já que não podia ser colocando Misa em risco, uma vez que as ameaças de Remu o impediam de investir nessa causa, era só retomar do mesmo ponto que havia sido deixado invicto no passado... Aquela vez, um pouco antes de Misa e L se encontrarem pela primeira vez, na Universidade de Tóquio. Quando a própria Shinigami dissera que mataria L, por mais que não simpatizasse com Raito. Isso para ter Misa segura e garantir sua felicidade.

Agora, isso podia acontecer.

A parte do Yagami nesse trato já havia sido feita. L se preocupara mais em desvendar suas intenções por trás de cada ato 'amoroso' do que com suas contramedidas. Se ele morresse, uma vez que Misa havia abdicado e não havia qualquer prova, nunca poderiam culpá-la. Remu podia matar L sem medo das consequências. E como L era um ser humano qualquer para ela, isso não traria sua própria morte. Era o acordo perfeito, só precisava ser negociado antes que L resolvesse fazer alguma investigação contra a Regra dos 13 dias...

E ele não iria fazê-lo, certamente. O caderno continuava na posse da Central.

Embora devesse ter pensado nisso antes, pois agora que parara para analisar, bobear nesse ponto seria algo realmente arriscado. Se L já desconfiasse da Regra dos 13 dias, a morte dele durante um processo de investigações que invalidariam sua inocência, seria quase como uma auto-denúncia. Imaginariam que Raito o matara apenas para que não desse prosseguimento a elas, e se elas já estivessem em andamento, uma confirmação acabaria com tudo.

Mas elas não podiam estar em andamento, poderiam? Era bobagem se preocupar com isso. L havia dito que acreditava no Death Note, e desde a morte de Higuchi vinham investigando baseados no princípio de que Yagami e Amane eram inocentes, caso contrário estariam mortos...

Se bem que, se parasse para refletir agora, nada disso fazia sentido. As suspeitas dele, pelo menos sobre si, ainda existiam. Não era do feitio de L não querer investigar mais a fundo, só porque iriam dizer que ele estava sendo teimoso...

Ele era sempre um baita de um teimoso e nunca dava a mínima.

Além disso, havia aquela frase. “Esse relacionamento é perigoso demais para você.”Aquela conversa sobre medo. Todo aquele ar sombrio que ele cultivara naquela noite, antes de chegarem a isto...

E se fossem deslizes do detetive? L podia cometer deslizes? E se, por estar apaixonado, ele acabara por se denunciar? E se ele também tivesse um plano escondido, e aquelas eram as pistas, que iam se desdobrando em frente aos seus olhos, só porque agora estavam tão próximos?

A mera perspectiva de estar sendo investigado pelas costas era o suficiente para deixar Raito perplexo e ansioso. Não acreditava na possibilidade, que era quase nula, mas nada podia dar errado no processo da morte de L. A morte dele jamais poderia acabar por acarretar a sua. Assim, prevenção nunca era demais.

Arranjaria um modo, nos dias que se sucedessem, de verificar se estava sendo investigado e de firmar o acordo com Remu... Porque precisava firmar um acordo, não precisava?

Já chegara onde queria com o plano: tinha certeza que L o amava, e por causa desse amor, ele nunca estivera tão fraco ou apto para ser atingido. Era só uma questão de se prevenir, mirar e puxar o gatilho. Não podiam ficar nessa doce paz para sempre... Quer dizer, talvez até pudessem, mas isso não seria nada bom para Kira... Era melhor simplesmente cessar os riscos. Impedir os sentimentos de falarem mais alto.

De novo: Nem sequer devia ter sentimentos pelo detetive.

Se tivesse sido na época em que era só um colegial, ou na época em que perdera as memórias, poderia até ser compreensível... Pelo fato de L ser... Bem, tão genial quanto ele.

Raito não era orgulhoso ao ponto de negar essa verdade.

Mas sentir algo por L sabendo quem verdadeiramente era -Kira- e que havia se aproximado somente por interesse -matá-lo- era algo que... Chegava a ser ridículo.

E mesmo assim... Isso não mudava o fato de que sentia aquilo, aquela espécie de amor por L, e sentia cada vez mais forte. E, uma vez que sabia quem verdadeiramente era e o porquê de ter se aproximado, a explicação de isso acontecer somente porque L era alguém como ele não se encaixava com exatidão.

O detetive dissera que essa era a razão de ele ter se deixado, pela primeira vez se envolver com alguém, mas para Raito...

Só podia ser o oposto disso. Só podia ser o paradoxo...

–Preciso saber de uma coisa, L. –Raito pontuou, num tom de voz extremamente sério e focado, indiferente à qualquer respiração ofegante de outrora, os olhos apreensivos ficando quase compulsivamente piscantes, enquanto se acomodavam de uma maneira que pudessem fitar-se um nos olhos do outro, sem se afastarem muito. –Posso?

–É claro. –L não titubeou. Era patético que, depois de tudo aquilo, Raito ainda hesitasse em lhe fazer qualquer pergunta. Não obstante, talvez fizesse o mesmo, se estivesse na pele dele.


–O fato de você me amar...


–Hm?


–É só porque, como você disse, pouco tempo atrás... Eu sou igual a você? O único igual a você?


De todas as perguntas que Raito poderia fazer a L, essa era a única que desejava que ele não fizesse.


Porque L sempre tinha na ponta da língua a resposta para todas as perguntas, a não ser que fossem sobre o desconhecido.


E dessa vez, era exatamente esse o caso.


–Eu não sei, Raito-kun. –Ele se limitou a encolher os ombros.


–Você deveria saber.


–Por quê...? Não acho que mudaria nada. E eu simplesmente não sei.


–Pois então escute o que vou te dizer. –Demorou um pouco mais que alguns minutos de profundo silêncio até que Raito se empertigasse, e resumisse por entre os lábios o paradoxo que havia encontrado nas sombras das inexplicáveis razões. Razões de amar o detetive. –Mais do que amo nossas igualdades, L... O que realmente me faz te amar são as nossas diferenças.


–As nossas... diferenças?

–É. Tenho certeza que você sabe ao que me refiro. –O Yagami não teve medo de proferir essas palavras, mesmo sabendo que isso era mais do que ir até a borda do precipício e se inclinar para ver o que havia lá embaixo. Se L o inquirisse, é óbvio que negaria que estava se referindo ao fato de Ryuuzaki ser L, e Raito ser Kira, portanto diferentes, portanto inimigos. E consequentemente, ao fato de amar essa rivalidade. Atribuiria suas palavras a alguma trivialidade tosca. Mas enquanto estivesse por debaixo dos panos, metáforas poderiam vingar. E não temia que o detetive fosse bom em decifrá-las -queria que as decifrasse, e que se lembrasse delas mais tarde.

Quando o matasse...

–Eu sei. E, infelizmente, você não poderia estar mais certo. Embora seja pelas nossas igualdades, eu não poderia me apaixonar por um clone... –O olhar do detetive fugiu, vagamente. Passou então a devanear, por alguns momentos. Pensou em Beyond Birthday.

Por que Lawliet sempre escolhia as pessoas erradas para amar?

E obrigava L, aquele ser tão impenetrável, a se sacrificar de inúmeras maneiras?

O que fizera hoje definitivamente fora um sacrifício; uma rendição aos sentimentos, e ao mesmo tempo um golpe no orgulho. Dar aquelas dicas para Raito; dizer que ele deveria temê-lo; alertá-lo. Para que se ele fosse Kira, não fosse pego de surpresa. Era uma alegria em seu coração, mas uma lástima em sua carreira.

Fora como percorrer por livre e espontânea vontade os passos que faltavam para o precipício, ficando a apenas um passo, agora, e à mercê do vento.

Raito era o vento.

Podia soprar para frente, empurrando-o para o abismo, como Kira deveria querer. Ou soprar para trás, salvando-o dele, como seu amor queria. Mas também podia não soprar, e então suas posições inverteriam; voltariam a ser o que eram antes de Lawliet querer mudar o destino, avisando-o.

L só podia soprar Raito para frente; como detetive, era sua obrigação atirá-lo no abismo, se ele fosse quem tinha certeza de que ele era. Uma certeza inquietante, às vezes confortável e às vezes enlouquecedora, mas ainda assim uma certeza. Que só fazia com que pudesse soprá-lo para o abismo, quando tivesse provas dela.

Mas Lawliet quisera dar a oportunidade de Raito ser o vento, também. E fora exatamente isso que fizera naquele dia. Se Kira não desconfiasse, depois de todos aqueles alertas, de que se não movesse suas peças, e fizesse alguma coisa para impedir que a Regra dos 13 dias fosse comprovada falsa, seria definitivamente pego, não havia mais nada que pudesse fazer.

Apesar de tudo, ele ainda era só uma parte que vinha lutando dentro do maior detetive do mundo, que queria acabar com seu suspeito à custa de tudo e de todos. Só uma parte...


–x-


Havia uma voz, ressoando incessantemente dentro da cabeça de Mikami, que dizia, mais ou menos nestas palavras: “Volte para casa agora; desista, é apenas mais uma brincadeira de mau-gosto. Não vale a pena perder seu precioso tempo com isso.”

Mas esta voz que, aos olhos de alguém que observasse a situação de fora, poderia soar convincente e sensata, transformava-se em cinzas, se comparada com os gritos de uma outra voz, que dizia mais ou menos assim: “Você pode confiar em Raito Yagami. Ele é aquele pelo qual você esteve esperando a sua vida inteira.”

E foi por isso que, mesmo tendo hesitado por um período razoável de tempo, o moreno obedeceu às instruções de Raito Yagami, e foi até o endereço marcado no guardanapo. E não tão surpreendentemente, ao contrário do que aquele primeiro e irritante instinto dizia, que ir até lá seria somente uma perda de tempo, assim que encontrou o que deveria encontrar enterrado, a sensação que teve ao tocar aquelas páginas foi quase como um presságio, anunciando que um esplêndido e radiante futuro estava se moldando a sua frente...

Realmente, havia instruções. E não foi necessário lê-las mais de uma vez para efetuar seu primeiro teste. Depois o segundo. Depois o terceiro.

Todos exitosos.

Foi naquele instante, exatamente nele, que Mikami descobriu que o tempo de que desfrutara em sua vida fora menos do que uma faísca de nada. É óbvio que, sendo um oficial de justiça, tentara participar o mais efetivamente possível da construção do Novo Mundo. Do mundo limpo, daquele que almejava. Do mundo livre de todo aquele mal corrupto que, desde criança, fazia seu estômago se embrulhar. Mas era um trabalho que, se não ineficiente, não era tão eficiente quanto deveria ser. Como uma formiguinha, carregando um pequeno e diminuto pedaço de comida. A Justiça dos homens era tardia, lenta, maçante. A Justiça dos Deuses, no entanto... Era como desempenhar o papel de um milhão de formiguinhas.

Foi por isso que Mikami ficou tão imensamente maravilhado, fascinado, lisonjeado, simplesmente por poder fazer parte dela. Agora entendia como Kira agia, e desde que Kira surgira, todas as suas preces haviam sido atendidas. O Death Note era absoluto. Só não mais absoluto que o próprio Deus, e Mikami tinha certeza que era a pessoa mais privilegiada do mundo, pois não só tivera contato com Deus, como fora escolhido por ele.

Não havia regozijo maior ou mais pleno, nem prazer mais arrebatador ou estonteante. Sentia suas mãos tremerem, numa descarga de adrenalina, ou algo que o valesse, toda vez que pensava que havia chances de revê-lo. E ao mesmo tempo se sentia um imbecil por não ter adivinhado antes quem ele era, sendo que cada traço dele, cada mínimo gesto, sorriso, palavra, falavam por si próprios; ele era Luz, como o próprio nome anunciava.

A luz divina que estava sendo lançada sobre os horizontes novos de um mundo perfeito.

No dia que se seguiu, Mikami decidiu que toda sua vida seria dedicada àquilo. Deus queria que trabalhasse para ele, e se isso implicasse que deveria arriscar sua condição de ser humano e suas necessidades, arriscou que não faria a menor diferença. Ao mesmo tempo em que queria trabalhar de forma digna daquele que fora escolhido, e por isso tinha que ser metódico com aquele caderno de maneira que jamais fora metódico com quaisquer outras coisas, e o mundo bem sabia o quanto ele era metódico.

Não seguiria os esquemas de morte que Kira estava seguindo atualmente; todos morreriam de parada cardíaca, rápido como deveria ser, num horário x; um número x de nomes, suficiente para preencher toda uma página do caderno.

“Eliminar, eliminar, eliminar”.

Então era assim que Deus podia varrer a escória do mundo. Deus quisera partilhar uma mínima quantidade de seu poder com ele, porque Deus, definitivamente, confiava nele. E isso era mágico.

“Eliminar, eliminar, eliminar.”

–Olá. –Uma voz desperta das sombras, das paredes que o observavam, temperada de escárnio, sarcasmo, ou algo parecido, interrompendo seu ritmo impecável. E assim que ele tornou a cadeira para trás, o espanto que o dominou o fez ficar simplesmente estático na poltrona.

Um... monstro?

Seria essa a palavra apropriada?

Mikami sentiu uma ligeira pontada de decepção, ao constatar que a criatura deitada em sua cama, revestida de trajes negros, com o braço direito sustentando uma cabeça com olhos saltados das órbitas enormes, assim como uma boca que poderia muito bem ser análoga a uma fatia de melancia, poderia ser o Deus que tanto louvava, ao invés de Raito Yagami.

Embora continuasse extremamente entusiasmado, e não menos exultante com aquela repentina aparição.

–V-você seria... Deus?

–Deus? Sim, heh... Deus da morte. Shinigami. Ryuuku, o dono original do Death Note que você está aí usufruindo, com esse ar de felicidade. Espero que saiba que quem usa o caderno, depois de morrer, não pode ir para o céu nem para o inferno; não deu tempo de avisar antes...

O coração de Mikami se tornou uma pedra de gelo ao ouvir aquelas coisas.

Costumava ser cético; jamais aprovaria a existência de um Shinigami no Universo, mas diante da figura exótica que seus olhos fisgavam... Não podia negá-lo. Então aquele era o Deus a que servia? Que viera, por meio da morte, alterar a podridão em que viviam os vivos?

Não importava para onde fosse depois da morte; queria ajudar a construir o Novo Mundo.

– Então você também é... Kira?

– Nah. Kira é o humano para quem eu entreguei esse caderno primeiro... É claro que não vou ficar dando informações sobre ele; se bem que, se você está com a posse do Death Note, deve conhecê-lo, ou ao menos ter falado com ele indiretamente... Er, será que tem alguma maçã sobrando por aí?

Os olhos de Mikami piscaram. Em seguida, ele ajeitou os óculos.

– Maçãs... Logo posso ver isso... Ryuuku. Mas então isso significa que Kira, o Deus que está realizando todo esse trabalho perfeito com os criminosos, é mesmo um humano? Que obteve a posse do Death Note por sua causa?

– Hm... Resumidamente, sim. Eu ainda não entendi o que ele está planejando dessa vez. Você provavelmente faz parte dos planos dele pra se livrar do L... Ahn, não poderia ver agora?

É claro! As ideias embaçadas no cérebro de Mikami iam se encaixando umas com as outras, tipo as peças de um quebra-cabeça. Isso só podia significar que Raito era Kira. O seu Deus, e que provavelmente estava inábil para continuar desempenhando aquele papel; com certeza havia pessoas o perseguindo, L e a Interpol, e por isso precisara recorrer a ele, um comissário. Ryuuku, por alguma razão, era um Shinigami que quisera dar a ele aquele caderno; provavelmente acreditara em seu potencial e o escolhera. E Raito, com toda sua onipotência e magnitude, decidira que precisava construir um Novo Mundo... Um mundo livre do mal.

Ah, como Mikami adoraria poder voltar ao tempo, e vê-lo de novo, registrar cada um de seus movimentos, como já havia registrado. Fazer mil e uma perguntas para ele. Ajudá-lo a se livrar dos apuros. Mas como poderia fazer isso? Tudo que tinha de vestígio da existência dele era um guardanapo, que em breve seria destruído com fogo.

–Espere. Isso quer dizer que eu preciso desempenhar o papel de Kira, certo? Tenho medo de fazer algo que possa desagradar a Deus... a Kira. Você tem razão, Ryuuku. Eu já falei com ele. Mas não faço a mínima ideia de onde ele está... Será que você saberi...?

–Eu sei onde ele está, é claro, hehe. Só não posso dizer a você. Quer dizer, poder até posso, mas... É bom que entenda uma coisa, agora que tenho que segui-lo, para onde quer que você vá, já que é o novo proprietário do Death Note: eu sou apenas um espectador. Imparcial. Não estou do lado nem de Kira e nem do lado de L. Além do mais, se Kira quisesse que você soubesse onde ele está, ele com certeza teria lhe dito, não acha?

O moreno franziu o cenho.

Ryuuku ser um Shinigami imparcial... Aquilo não fazia muito sentido. Mas de fato, ele possuía razão. Raito, se quisesse que Mikami pudesse contatá-lo, teria deixado algum rastro... No entanto... Havia aquele nó na garganta, aquele pressentimento. E estava começando a entender como precisaria lidar com aquele Shinigami a sua frente.

Era uma questão de barganhar.

–Hm... Ryuuku... Quanto você me pediria para... mandar uma mensagem para Kira?

O shinigami deu um risinho.

–Quantas maçãs você tem na sua geladeira, Mikami? –O moreno fez uma nota mental para perguntar para ele, depois da barganha, como ele podia conhecer seu nome.

E o porquê, é claro, daquela estranha fascinação por maçãs.

–Quantas você quiser que tenha. Se puder dar a Kira meu recado...

–Eu posso. –Ryuuku confirmou, com um sorriso, não menos que despojada e ansiosamente. –Acho que estou começando a entender porque o Death Note está com você. Raito naturalmente sabe como se faz uma boa escolha...

“Raito".

A simples menção do nome, pela voz rugida do Shinigami, fez os olhos dele brilharem e seu coração disparar, numa velocidade assustadora. Esperava que Raito não tivesse mentido sobre como se chamava. Era algo tão fascinante de se pronunciar quanto “Kira"... Ou talvez até mais.

Tão fascinante de se dizer quanto “Deus”.

“O meu Deus..."

E agora, Mikami finalmente poderia jurar lealdade a Deus.

Não havia nada que desejasse mais do que ser seu servo.

Absolutamente nada.