O Plano B
13 XII. -Just say the words he needs to hear.
Notas iniciais
Enfim, espero que não achem o capítulo confuso ou podre. Eu betei apenas superficialmente, e se vocês não entenderem o motivo de algo estar acontecendo, ou acharem incoerente, me perguntem e fiquem tranquilos, que eu especificarei depois (haverá alguns flashbacks, talvez ^^)
E obrigada a todos aqueles que mandam reviews. Eu não só escrevo rápido quando os recebo, como também fico feliz feito um tomate (: ~tomates são felizes, há~
Beiijiinhos e boa leitura, õ/
Quando se tratava de ser persuasivo, Yagami Raito mais do que sabia que tinha um talento nato. Um dom. Talvez fosse o cuidado de escolher a dedo cada uma de suas palavras, ou talvez fosse o ato de proferi-las como os versos de uma partitura, mas os poucos, inevitavelmente, o espectador ia cedendo diante de seu sorriso convidativo, e recuando sob seu ar de eterno garoto prodígio.
Nunca fora necessário mais que um esforço mínimo de sua parte para dissolver no céu da boca todos os argumentos que um oponente poderia nutrir para contradizê-lo.
Exceto se esse oponente fosse também o maior detetive do mundo.. Aí sim, as coisas realmente tornavam-se complicadas, a ponto de conseguirem driblar os limites da vasta paciência de Yagami.
Mas não a ponto de minimizar suas glórias ou diminuir suas conquistas.
Para aquele caso em específico, ele tivera alguns coringas muito eficazes em suas mangas. Provas substanciais de seu amor. Provocações, que só aqueles dignos de experimentá-las e que ainda conseguiam manter o fôlego intacto poderiam dizer o quanto eram perigosas. E um ultimato.
Yagami Raito dera um ultimato para L.
Mas quatro dias já haviam se passado, e nada do irredutível detetive abrir mão de continuar de lutando na defensiva. Ele simplesmente insistia em manter erguidos seus estandartes de indiferença, e o rapaz, mesmo com toda sua autoconfiança, já não sabia dizer quanto tempo mais seria capaz de suportar.
Sabia que, por seu orgulho, iria resistir até o fim, mas foram quatro dias em que as únicas palavras trocadas entre eles além de meras menções de bom dia e ocasionais como você está? tinham haver com o Caso Kira.
E a impressão que Raito começara a ter, na madrugada que completava aqueles quatro dias desde que o condenara ao precipício da solidão, é que alguma coisa estava muito errada. Muito.
Sequer conseguia dormir direito, pensando no que poderia ter feito de errado. Tinha certeza de Ryuuzaki não conseguiria resistir por muito tempo, e acabaria cedendo rapidamente às suas condições.
Não podia ter tecido uma linha lógica incoerente, podia? Aqueles meses de convívio mútuo e mais o que haviam tido- tinham lhe dado um bom ponto de partida, uma boa visão de como deveria prosseguir em seu plano B. A barganha, sem dúvida, era a melhor maneira de idealizar suas ações.
Mas então... Será que quatro dias era um período aceitável, quando se tratava do detetive que cultivava a máscara mais fria e inexpressiva do mundo?
Talvez fosse.
Na verdade, eram três dias, quatro se completariam apenas quando chegasse a noite.
Mas era horrível suportar a agonia de toda aquela indiferença, por detrás daquelas espessas muralhas como se nada de novo tivesse acontecido no relacionamento de ambos.
Quer dizer, horrível por conta de Kira, logicamente. Por conta da sensação de que estava perdendo tempo um tempo que não podia se dar ao luxo de gastar, pelo seu Novo Mundo.
Certamente, não era porque a ideia de L realmente não sentir alguma coisa o assustava ou afetava seus sentimentos mais íntimos.
Era só... Frustração.
No nível mais intenso que ela poderia assumir.
Mas que foi nitidamente abalada, quando ouviu o barulho de batidas violentas na porta do quarto, e arrastou-se da cama para girar ir a maçaneta, e abri-la.
Seus olhos, inicialmente sensíveis à luz, assustaram-se ao deparar com a figura imóvel, pálida e latente de L, encurvado, vagamente apático e com as mãos nos bolsos do jeans. Ao contrário de Raito, que usava seu pijama cinzento, não parecia conveniente ao detetive usufruir qualquer muda diferente de sua usual...
Foi difícil controlar a surpresa, mas logo esse primeiro baque foi suprido pelas teias do raciocínio.
Ele estava ali.
Finalmente estava.
–Ryuuzaki... Raito proferiu o nome com altos níveis de descrença, como se não pudesse realmente acreditar no que seus olhos estavam vendo. Esfregou-os, desferindo um pequeno relance para o relógio, que marcava nada menos que três horas e vinte e sete minutos, e os palpites que imediatamente vieram à sua mente devido àquela visita inesperada fizeram com que tivesse de refrear a malícia. -O que diabos está fazendo aqui?!-Perguntou, de maneira pseudo-indignada. Precisava ao menos fingir que estava sob repouso, e que aquela interrupção não lhe fora exatamente agradável. — É cedo demais para começar a investigar.
Raito tinha certeza de ter protestado em japonês, até notar que L o olhava como se tivesse sido em sânscrito ou qualquer língua que o valesse, e que ele pudesse responder com um dar de ombros sem significado, no limite máximo de sua indiferença.
–Precisava falar com você, Raito-kun.- Simplificou, num tom de voz que não admitia rebeliões.
Invadiu o quarto de Raito como se afirmasse que, diante daquilo, ele não possuía nenhuma escapatória.
–E não podia esperar nem que a manhã chegasse?!- O garoto fez questão de parecer ofendido, fechando a porta com ar de imenso rancor- mas seus atos e seus sentimentos remontavam uma esplêndida contrariedade: ele estava tão alegre por acordar e por L estar lá, que só faltava sair distribuindo vivas e fogos de artificio, enquanto corria saltitante pelas ruas. -Eu estava descansando.
–Sei... -Aparentemente, L estava meio sem paciência para suportar aquele tipo de informação. Como se só o fato de ouvi-la fosse o suficiente para arrefecê-lo.- Lamento muito. -Talvez Raito não fosse o único mentiroso circulando por ali.
Talvez não: com certeza.
–É alguma coisa sobre Kira...?
–Não.
–Mas para atravancar o meu sono dessa maneira-
–Quieto. -L o interrompeu. -Você não devia fazer reclamações. Estava se revirando nos lençóis, e eu sou o seu grande herói por tirá-lo desse terrível mundo onírico...
–Ahn...- Yagami não podia negar que fora pego de surpresa com a petulância na assertiva de L, e que fora preciso alguns segundos de reflexões para deduzir como ele conseguira fisgar tantas informações a respeito de seu sono. -Nem perto disso. -Na verdade, levou mais do que alguns segundos. E a única alternativa possível, naquela teia de raciocínio, ainda lhe parecia um tanto quanto indiscreta. Quer dizer, não que L realmente se importasse com discrição. -Que indelicado, detetive, ficar espionando os desacordados, por aí...
–Eu não estava fazendo isso, Raito-kun.
–Ah, não?
–Era apenas um monitoramento pelas câmeras.
–Ah, sim. -O detetive cruzou os braços, visivelmente ofendido com qualquer possibilidade de ser algo diferente do que estava falando, como o tom audacioso de Raito claramente pretendia sugerir.- É claro. -E o brilhante gênio já parou pra pensar que um é o eufemismo do outro?
–Quando L ia revidar o sarcasmo, Yagami o impediu de falar, balançando a cabeça de um lado para o outro.
–Tanto faz, Ryuuzaki. O fato é que eu continuo morrendo de sono. E eu prosseguir nessa rotina de 3 horas diárias não vai ser só no sentido figurado da coisa... -Raito forçou-se a forjar preguiça, e em seguida começou a caminhar de volta para onde estava sua cama, contemplando-a como se nunca tivesse visto nada tão irresistível na vida. -Se não é sobre o Caso Kira, nada pode ser tão importante quanto isso... -Atirou-se no colchão, de uma maneira boba e espalhafatosa, que quase não fazia jus ao seu modo sempre tão bem disciplinado de ser.
Em seguida bocejou.
L parecia prestes a revolucionar todas as técnicas de homicídio mundiais, sendo capaz de restringi-las a um único olhar -potencialmente redutor de tecidos musculares a pó.
–Nada?! -Se sua reputação era a de um detetive inexpressivo, e na maioria das vezes calmo, nenhum desses adjetivos poderia ser aplicado agora, visto que os decibéis acentuados em seu timbre contrariavam nitidamente todas as leis. -Ah. Que ótimo. Finalmente confessando que eu não valho mais do que uma hora ou duas de repouso pra você, não é, Raito-kun... ?
–Você não me deixou terminar... -Yagami retrucou, maravilhado com o sarcasmo no tom de voz dele -uma prova nítida de que ele se deixava sim ficar frustrado com a sua indiferença e que não conseguia nem sequer se impedir de demonstrar. Além disso, mais surpreendente do que a frustração em si, era o fato do quanto ela conseguia deixar L atraente... Ou talvez isso fosse apenas um fruto de sua imaginação. -Eu estava dizendo que nada pode ser tão importante quanto Kira... Exceto você. Que é mais. Isto é, se tivesse vindo aqui para me dizer algo, em especial... O que eu realmente sei que não vai acontecer.
–Como assim não vai acontecer? -Ryuuzaki, aparentemente, detestava pessoas que tinham uma confiança quase tão intensa quanto a sua -principalmente no que tangia aos seus próprios atos e procedimentos. — Como é que você pode ter tanta certeza?!
–Você nega? Yagami ergueu a sobrancelha esquerda, concluindo que a situação finalmente suplicava por um de seus sorrisos escarnecedores.
–Não.
–Então aí está. Não, na verdade um sorriso era pouco demais. Queria mostrar todos os dentes, expressar sua glória no limite máximo do repuxar dos lábios. -Sinta-se à vontade para falar o que quiser, detetive. Sem se incomodar com os lençóis. Eu até o convidaria para partilhá-los comigo, mas temo que você seja um tanto inerme demais... Entende?
O tom irônico que Yagami utilizou para fazer a provocação pareceu dançar diante dos dois, tornando-a pouco mais violenta do que qualquer outra que tivesse sido feita, até então.
L se limitou a bufar.
–E eu temo que nem um quinto do que você acha que sabe sobre mim esteja correto, Raito-kun... -Se fossem outros tempos, a partir do momento em que o garotinho mimado ousasse chamar o detetive de covarde, L o ensinaria a não sorrir daquela forma petulante. Mas não eram, de modo que a perspectiva de surpreender Raito cumprindo seu desafio parecia ser bem mais... Excitante. — Vá mais para o lado. -Resmungou, antes de dar alguns passos e se juntar ao conforto do colchão, mas Raito não o obedeceu, de modo que quando se deitou seus corpos ficaram incrivelmente próximos, a meros milímetros de se encostarem.
Merda.
Somente quando os olhos de Yagami cintilaram e ele aproximou os lábios de seu ouvido direito, com a voz mansa e atrevida, é que L — perguntando-se se a presença dele não estava começando a deixar seu raciocínio tardio- cogitou a hipótese de este ter sido o plano, desde o princípio.
Aposto que sei exatamente o que você pretendia dizer vindo até aqui, Ryuuzaki.
–Aposta quanto?
–O que você quiser que eu faça.
L quase riu. Ora, era divertido demais pensar na possibilidade de Raito não ser mais falso, ou na chance dele cumprir uma ordem sua, sem a manha de distorcê-la a seu bel-favor.
–Só quero que você admita que é Kira e jogue seu maldito caderno de lado. Pode ser?
–Hahá. Como você é hilário, detetive. Yagami rolou para o lado da cama, de repente não suportando ser analisado por aquele olhar inquisidor, que provavelmente ansiava por uma confissão — mas L estava totalmente enganado se pensava que poderia consegui-la, ou até intimidá-lo com a mera insinuação. — Extremamente cômico...
Era preciso muito sarcasmo para não transparecer os verdadeiros motivos de ficar aborrecido. Leia-se: tinha que forçar sua expressão a não parecer irritada, e sim magoada.
Mas aparentemente, o detetive não tinha mais sugestões.
Ficou com os olhos de panda vidrados no teto, fingindo que não sentia Yagami voltando a virar do seu lado, um pouco menos ressentido, enquanto inclinava a cabeça para inspecioná-lo.
Poucos segundos de silêncio se seguiram.
Até Raito sugerir uma coisa, como se essa fosse a proposta mais natural do mundo embora, para L, fosse talvez uma das mais ameaçadoras.
–Que tal um beijo...? -Quase deu um salto, mas já era tarde demais para fugir, porque quando recobrou a razão Yagami estava quase debruçado diante de si, e com os dedos, traçava um contorno lento e audacioso de seus lábios. — Aquele que você pensou que ia ganhar... -Sua voz se reduziu a um mero sussurro, e por um momento, L achou que nem seria preciso vencer a aposta, porque ele estava tão, mas tão próximo, que só mais um vacilo poderia lhe dar a recompensa. — Mas nunca veio, hm..?
Só que mais uma vez, ao invés de corresponder suas expectativas, Yagami deu um risinho daqueles bem maldosos- e tudo que L pôde fazer foi empurrá-lo, frustrado por parecer que ele tinha razão a respeito de como havia se sentido vulnerável, quatro dias atrás.
Em seguida revirou os olhos, bufando e embutindo uma expressão de preponderância no semblante.
-Eu diria que você é bem mais cômico do que eu, Yagami-kun, por sugerir que eu poderia almejar algo tão insignificante quanto isso. -Quase fez um tsc com os lábios, mas achou que seria exagerar demais sobre algo que sequer era verdade -mesmo que a possibilidade de deixar Raito furioso com o som fosse de todo tentadora. -Mas, tudo bem, só por falta de proposta melhor. Quero saber logo o que você achou que ia ouvir...
–Eu tenho certeza... -Raito apressou-se em dizer, corrigindo o achar de L, e mal se preocupando em contestar a mentira dele, porque o próprio fato de ele ter aceitado a aposta era uma contradição, e isso era óbvio demais para os dois. -... Que você ia dizer que não queria mais me ver fora do QG no período das investigações. E também ia alegar que não faz sentido que eu esteja ficando com Misa durante todo o meu tempo ausente. Como ainda estavam presos naquela barganha, era lógico que Raito tivesse aproveitado aquele tempo para cumprir suas tarefas longe do QG — principalmente aquelas que não poderiam ser monitoradas por L. Mas tinha certeza de que ele iria usar isso como desculpa, quando resolvesse se manifestar, pela primeira vez. Certeza absoluta. -Estou certo ou será que devo preparar meus lábios?
–... Idiota. -Era apavorante como parecia a L que Raito havia conseguido ler sua mente, em um átimo de instante. Certo que havia vários outros conflitos maiores envolvidos nisso, mas era exatamente algo do tipo que iria dizer. E não tinha nem como negar. -Hunf. Então, pelo menos, me responda. Que sentido faz você ficar querendo ver a Amane toda hora? Alguém que você sequer... gosta?
–Faz todo sentido do mundo, meu caro L. Estou impressionado que você não saiba até agora.
–Eu sei. Argumentou, tamanha era sua intolerância sob aquele ar de superioridade que Raito insistia em cultivar. — Mas é irritante demais para crer.
L não tinha ideia de como a agradava a Raito a ideia de ser irritante.
–Eu já disse que só vou parar de ver Misa quando tiver um motivo forte o suficiente. -Na realidade, ele nem estava saindo para encontrar a garota loira em seus períodos de ausência. Hoje mesmo poderia parar de vê-la se ela seguisse suas instruções com precisão. Mas é claro que não iria conceder aquele desejo de L, assim, tão facilmente. -Mas ainda não tenho.
Argh...
Era realmente inusitado ver Ryuuzaki grunhindo, com tamanho ar de inconformidade.
Quer dizer, não era como se ele fosse o tipo de pessoa que aceitava fácil as derrotas -Raito sabia bem disso- de modo que era raro demais vê-lo aceitando, ainda que a custo de um tremendo suspiro, que havia perdido a aposta e seus consequentes benefícios.
–É...Parece que não foi dessa vez que você obteve os lucros de uma vitória, Ryuuzaki...- Resolveu cutucar a ferida, apenas porque estava disposto a jogar sal em cima dela, diante de uma última tentativa, a qual temia que ele fosse ignorar pelo menos por mais alguns dias. -A não ser que esteja disposto a dizer mais alguma coisa... -Talvez apenas talvez- Raito estivesse um pouco chateado por ter vencido aquela aposta. E claro que isso era totalmente insano, já que, se L ganhasse, teria sido brindado por prêmios que não podia ter. Não enquanto continuasse irredutível. Mas isso não mudava o fato de Yagami estar frustrado... — O que eu duvido muito.
E duvidava como ninguém.
Afinal, ainda que fosse extremamente egocêntrico e autoconfiante, Yagami Raito sabia o quanto aquele detetive era complicado de ser persuadido, e temia que provavelmente não haveria beijos ou toques, por semanas, na condição de continuar com a barganha e de uma forma estranha, não sabia explicar porque lamentava tanto esse fato.
Quer dizer, não era como se realmente quisesse estar com L, não é? Certo que o sexo não era de todo ruim quando era o ativo, lógico- mas aqueles momentos físicos deveriam soar como sacrifícios, e se não isso, ao menos algo que o valesse como tarefas e afazeres inúteis, mas não.
Não podia ansiar por aqueles momentos, como estava ansiando agora, por uma razão totalmente desconhecida.
Tentou se convencer que era mesmo apenas pela oferta de sexo mas é claro que a voz de seu inconsciente ficou martelando, dizendo que poderia ter isso com quem quisesse, e que antes de tê-lo com o detetive parecia ser uma coisa bem mais insignificante.
Então ficou olhando para ele olhando de verdade mesmo, como se pudesse fisgar qualquer coisa além daquela inexpressividade, dos olhos contornados por bolsas escuras, dos cabelos negros contrastando com a pele álgida e milhões de detalhes a mais. E acabou descobrindo que gostava do que via.
Realmente gostava.
–Você duvida tão errado, Raito-kun. -A voz rouca dele parecia pintar de expectativas aqueles horizontes novos que passara a contemplar, ainda que lhe tudo soasse como uma gigantesca contradição. -Eu definitivamente tenho mais o que dizer a você...
Yagami sentiu algo estranho, ao simples ressonar daquelas palavras. Talvez um certo aumento na frequência de seu sangue circular- e poderia jurar que viu um rastro de sorriso no canto dos lábios de L — um sorriso que não podia evitar enchê-lo de esperanças, ainda que não soubesse exatamente quais ou porquê de senti-las palpitando.
Bem, talvez estivesse mesmo sendo um tolo, achando que aguentaria se aquilo se estendesse por semanas. Tinha que confessar, ao menos para si mesmo, que não queria que acontecesse. Até facilitaria para L, se ele realmente necessitasse da ajuda...
–Então, diga. Diga, Ryuuzaki. Diga. São só três míseras palavras...- Que colocariam um peso enorme em suas costas, dando-lhe motivos dignos para se encurvar daquela maneira exagerada, mas se Raito pudera pronunciá-las, então, por que ele não podia também?. Três palavras para ter tudo o que você mais quer...
Ou talvez o que Raito quisesse.
De repente, desistiu de resistir àquela compulsão.
O impulso foi tão forte para ser inibido, que o rapaz se viu desprovido de ciência, até estar atraído para mais perto de L cessando a distância daqueles milímetros irritantes entre si- para se impor acima dele, joelho sobre joelho, tórax sobre tórax, pé sobre pé, mas sobrepujando tudo isso -todo o contraste de temperaturas e arrepios que os toques inesperados causavam- olhos sobre olhos, ônix sobre avelãs.
–Eu sei. E é por isso que... Raito-kun. -Aquela maneira diferente de L frisar seu nome com certeza tinha um significado oculto, embora, mesmo estando no limite máximo do olhar, Raito não conseguisse verdadeiramente decifrar. -Eu te... -Sua mente ficou conturbada, e seu coração no auge do pulsante. Era magnifico perceber que só faltava um único vocábulo para que suas ambições se materializassem; assim, como se estivesse na vivência de um sonho. Mas não. Tudo foi como luzir mil feixes de esperança e destruí-los em um átimo de segundo: -Odeio. -Foi essa a palavra que o detetive articulou. Essa, e não aquela, nem outra. O coração e a mente de Raito pararam juntos, e dessa vez, ele ficou tão embasbacado com as palavras que captara que quase se desfez em pó, com o ar faltando e a humilhação sobrando. -Odeio mesmo... — Ryuuzaki riu -como um verdadeiro sádico que ri da tragédia dos outros- e se não estivesse tão paralisado e amargurado pela decepção, Raito teria ímpetos de socá-lo, porém, não deu tempo nem de desenvolver a ideia. O riso de L se reduziu somente a um sorriso, mas era fácil notar que não havia sadismo ali — apenas uma outra espécie de diversão- e de repente os dedos enregelados dele tomaram coragem de encostarem-se à pele de seu rosto, dissolvendo quaisquer instintos assassinos que seu orgulho assumia. Era realmente difícil sentir qualquer coisa em paralelo àquele contato. Frio, mas sublime; inquietante e arrebatador. -Odeio por me ter feito perder a razão, e me apaixonar ao ponto de não conseguir resistir a mais nada... -Embora Yagami sentisse sérias dificuldades para absorver o que L dizia -ainda um pouco chocado com o fora e hipnotizado com os efeitos do toque- elas conseguiram cruzar essas barreiras aparentemente intransponíveis, para se registrarem em sua mente como um monólogo de uma língua desconhecida. Que quando foi capaz de decodificar, tornou-se a coisa mais bela que já havia ouvido. -De não conseguir me impedir de acreditar no seu amor. E de ser simplesmente incapaz de ignorá-lo... -E agora que aquela luz clareara suas ideias, foi praticamente impossível refrear a comoção: o prodígio sentiu a respiração dificultar como nunca havia sentido nada na vida, assim como sentiu algo novo, diferente, algo que ele não saberia descrever exatamente o que era, mas que fazia seus lábios ficarem entreabertos de choque, seus olhos vidrados, e seus ouvidos atentos, como se nunca houvessem decifrado algo tão ilustre na vida. E provavelmente, nunca haviam mesmo. — Se você for Kira, meus sinceros parabéns, porque isso é bem mais do eu já senti por qualquer outra pessoa. Lamentavelmente para o orgulho de Raito, ele mal se lembrava de quem era Kira, naquele instante. Por mais insano e estúpido que isso pudesse parecer, afinal, era justamente Kira quem o levara a tudo aquilo. Era Kira que o fizera elaborar O Plano B. — Eu realmente amo você, Raito-kun...
Tudo de que sua mente parecia exprimir era a necessidade desesperadora de unir seus lábios àqueles que proferiam aquelas palavras irreais e onipotentes.
Amor...Essa sensação apenas se multiplicou quando conseguiu compreender o desfecho. Este que, de repente, tinha um sabor milhões de vezes melhor daquele que achava que teria, quando ainda se lembrava de quem era Kira.
Infinitamente mais intenso.
Essa foi a primeira vez que Raito fechou os olhos, por um motivo diferente de mera convenção.
Ele queria perceber o momento.
Queria que a visão abrisse espaço aos outros sentidos, para que pudesse minutar cada detalhe. Foi a sua vez de tocar o rosto de L, segurando o queixo dele abaixo de seus dedos -era como se mil partículas dançassem abaixo de suas digitais e com a intuição, guiou o rosto até o dele, fazendo com que seus lábios roçassem, na melhor tortura que ambos já haviam experimentado.
E se suas pálpebras não estivessem entrefechadas, era provável que não tivesse notado que, curiosamente, a pele dele emanava um doce amálgama de café e cinamomo, naquele momento.
Talvez também não tivesse percebido, ao impulso irrefreável de aprofundar o beijo, que suas bocas se encaixavam impecavelmente.
Quando seguiam a mesma partitura e eles definitivamente estavam seguindo, pois era inegável que os anseios de ambos transcendiam todas as barreiras desconfortáveis que os estavam impedindo, até aquele instante- o encontro de suas línguas era excepcionalmente arrebatador.
Envolviam-se com uma sintonia veloz e enlouquecedora, ultrapassando as noções do que era ou não proibido, sendo difícil demais permanecer apenas com toques suaves e tenros, agora. O detetive estendera as mãos para segurar sua camiseta, puxando-a para ele como se não se preocupasse em rasgá-la, enquanto as suas próprias, do queixo, haviam se estendido para toda nuca de L, manipulando os movimentos dele a favor de arraigá-los.
Aquilo era um abismo de sensações indescritíveis, e era lamentável, realmente lamentável, que tivesse de cessar. Se o dono do tempo-espaço perguntasse a Raito se ele gostaria de congelar aquele momento e cultivar o beijo, os toques, e o que sentiam ali, para toda a eternidade universal, ele não hesitaria em responder que sim.
Pois quando seus finalmente lábios se desataram, e ele fitou mais uma vez aquelas íris negras, ocorreu-lhe o furtivo pensamento de que elas não poderiam brilhar como brilhavam agora, se quisesse construir o seu esplêndido Novo Mundo.
Lembrou-se de quem era Kira, e lembrou-se exatamente de qual era sua missão. Mas o porquê parecia arrancar pedaços ter de cumpri-la, agora, Raito não saberia dizer.
Cumpriria do mesmo jeito.
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