Notas iniciais
Olá minna-sama ♥ Não demorei tanto, né? É o feriado, huhu õ/ Finaaaalmente um tempinho sem escola! E só por isso estou postando um capítulo enormeezãooo! Eu ia dividi-lo pela metade, mas daí quis ser generosa... >. Então, eu sei o que nariz de vocês quer (e o meu também kkk) U-U mas apenas peço um pouco de paciência, tá? ;D Gostaria de agradecer MUITOOOOOO a MizoreYuno-san, que fez uma recomendação super linda para OPB! Dedico o cap. a tu, flor ^^ E obrigada também a vocês que deixam reviews lindjos e estimulantes! Não sei o que seria de mim sem meus 15%... Enfim, espero que gostem *o* Beijins, L.B.

—Raitooooooooooo! ♥ -Ele já conseguia ouvir os gritos histéricos mesmo quando dentro do prédio, e estava quase convicto de que não poderia ficar pior...

Até ir para o lado de fora e escutá-los pessoalmente.

A criatura loira saltitante parecia ter saído do manicômio direto para direção dele, correndo desgovernada como se não houvesse amanhã e fazendo um contraste bizarro com o Shinigami sarcástico, que voava calmamente atrás de si.

Yagami teve que se segurar para não instalar sua cara de desprezo instantânea quando ela veio agarrá-lo, sem se importar com as devidas cortesias nipônicas -colocando os dois braços ao redor de seu pescoço como se nunca mais quisesse soltá-lo, enquanto enchia de beijos os dois lados de seu rosto.

A única coisa que conseguia consolá-lo era a expectativa de L estar assistindo toda a cena pelas filmagens da câmera, e consequentemente remoendo-se de ciúmes, mas se isso não estivesse acontecendo, todo o sacrifício seria em vão –uma ideia que não lhe era nem um pouco reconfortante.

E Ryuuku, só para variar, dava risinhos de sua situação tenebrosa.

Quer dizer, quando fora que os abraços de Misa haviam se tornado tão intoleráveis? Lembrava-se de detestá-los antes, e de como eles pareciam grudentos e irritantes, mas agora a sensação havia tomado proporções catastróficas.

—Já chega, Misa. –Raito foi afastando a garota do próprio corpo, tomando cuidado para seus gestos não serem demasiado violentos.

Lançou um olhar pejorativo para Ryuuku,-por este ter rido de sua desgraça-, e depois suspirou, segurando-se para não evidenciar sua aversão à loira. Por mais que detestasse o fato, era Ela quem estava sendo a aliada de seu sucesso e inocência, atuando como Kira longe dos olhos de L. Mas talvez, em breve, não precisasse mais ser vítima daquela sessão de beijos e abraços indesejados...

—Ah, chega nãooo! A Misa-Misa sentiu tantaaaas saudades do seu Raito! Não consigo ficar sem abraç-

—É, eu sei, mas agora precisamos ir andando. –Ele a interrompeu, antes que ela dissesse o que já era previsível demais. -Vamos deixar para conversar assim que voltarmos para o seu apartamento, ok? –Aproximou-se de seu ouvido esquerdo para sussurrar. –Nós não queremos ser vigiados...

Os olhos castanhos da loira ganharam um brilho excepcional com essa sentença– provavelmente imaginando que Raito queria ficar em um mundo particular ao lado dela, para dizer (e fazer) coisas românticas, como se fosse a pessoa mais importante do mundo para ele, quando na verdade tudo o que ele queria era poder fazer era falar livremente com Ryuuku e fazer perguntas com garantia de não-monitoramento, além de dar ordens sobre como Misa deveria agir dali em diante.

Murmurando alguns sons estranhos de felicidade, a loira assentiu e prosseguiu andando de mãos dadas com ele — o que era bem menos do que poderia querer, mas talvez mais do que poderia se esperar de alguém como ela.

Estavam entre quatro paredes, cerca de trinta minutos depois –o tempo que demorava para chegarem lá andando.

Yagami sabia que seus últimos segundos sem ser torturado por aquela voz infinitamente aguda haviam se findado assim que Misa fechou a porta, com um sorriso mais que esperançoso sublinhado no rosto.

Mas deu as costas para ela, e começou a caminhar até o sofá mais próximo, inspecionando o ambiente devagar e fazendo a única pergunta que realmente lhe interessava: em que lugar daquelas quatro paredes estava escondido o seu precioso Death Note.

—Está guardado no fundo falso daquela gaveta... -A loira indicou a escrivaninha no canto da sala com o indicador, não parecendo desapontada por Raito ter ido direto àquele assunto -ainda que por alguns minutos tivesse cultivado a esperança dele querer vê-la mais do que queria certificar-se de como estava o Death Note. A verdade era que, independente das circunstâncias, ela era fascinada por tudo que ele fazia, e faria tudo por ele, contanto que ele fosse o seu Raito. Seu knight. Agora, com a memória revivida, todos os gestos dele como Kira eram ainda mais estonteantes –ela se honrava demais em lhe ser útil. – Está reforçado com o mecanismo de segurança que você me ensinou a acionar. Se quiser pode conferir. Eu sei que a ordem era para jamais me afastar do QG, mas acontece que-

—Se sabia, então por que não se afastou...? –Yagami cruzou os braços, demonstrando com acidez que não tolerava transgressões estúpidas como aquela.

—Eu precisava muitooo ver você.

Qualquer coisa poderia esperar. Eu disse que ia vir vê-la, tão logo quanto pudesse, Misa. Não tinha necessidade de você ir ao QG ao longo dessa semana. Devia ter ficado aqui, efetuando os julgamentos como Kira.

A garota abaixou a cabeça, um tanto quanto entristecida. Odiava desapontá-lo. Não podia nem sequer pensar em fazer algo que o prejudicasse.

—Mas por que você não veio ver a Misa-Misa antes? Foi o Ryuuzaki mais uma vez? -“Não, fui eu mesmo que não quis vir olhar essa sua cara de barbie oxigenada.” Era algo mais ou menos assim que se passava pela mente do rapaz, e embora quisesse demasiadamente dizer isso a Misa, o ideal seria se refrear. Mais um pouco e ela estaria à beira das lágrimas, e o que menos precisava era disso para dar suas próximas instruções. –Aquele detetive bobo continua suspeitando de alguma coisa? –Ela quase parecia estar irritada com L. -Aposto que ele ficou triste por ter que tirar as algemas do meu Raito. Eu bem disse que ele jogava no outro tim-

—Pare de falar asneiras, Misa. –Yagami corrigiu, impedindo que a loira insinuasse coisas que poderiam não ser tão distantes assim da realidade, ou até mesmo fazer o seu sangue esquentar. – A coisa que L menos é, é um “detetive bobo” e eu tenho estado ocupado demais tentando despistá-lo, por isso não tive tempo de vir aqui antes. É claro que não colaborou nada você ter ido ao QG pela quinta vez essa semana. Mas pelo menos você cumpriu sua tarefa. Certo, Ryuuku?

Pela primeira vez deu o ar da graça para o Shinigami, que ficou nitidamente contente em ter sido incluído na conversa.

—Raito...Heh. Ela não parava de escrever os nomes no Death Note, um atrás do outro. Tanto que ficou um tédio tão grande quanto o do Mundo dos Shinigamis, com a única vantagem que aqui as maçãs são bem mais suculentas. Quando é que vou ver a ação acontecendo?

—O mais breve possível, se depender de mim. –O rapaz permitiu-se esboçar um ar sombrio, como se planos extremamente maléficos estivessem rondando sua imaginação. – Pretendo voltar a ser o proprietário do Death Note que Misa possui, então logo você poderá ver de perto a disputa entre L e Kira. Se é que se pode chamar de disputa, quando já se sabe quem é o vencedor... –Deu um sorrisinho de canto lábio perverso.

—Hm, mal posso esperar...Humanos são tão...Interessantes.

—Mas você vai ficar com o caderno agora, Raito? –Quis saber a garota, confusa sobre os novos planos de ação de seu amado.

—Não, Misa, ainda não. Preste muita atenção no que vou dizer agora. Não vou poder repetir depois. –Ele fez uma aceno para que ela se aproximasse, e a garota o seguiu, sentando-se diante dele com as pernas cruzadas, obedientemente, e prestando atenção em seus lábios como se estivesse diante do som mais importante de todo o mundo. — Amanhã, quando acordar, arranque duas folhas do Death Note e mantenha-as guardadas em algum lugar seguro; pode ser o esconderijo da gaveta, tanto faz, o importante é garantir que elas ficarão a salvo por quatro dias. Em seguida, vá até o mesmo lugar onde desenterrou o Death Note, e enterre-o novamente. Procure estar atenta a qualquer sinal de espionagem, e tente sempre ser o mais discreta possível. Não acho que L está monitorando você agora, porém ele já me disse que ainda cultiva suspeitas, o que abrange um largo contingente de possibilidades. Então, tome cuidado. Em seguida, volte para cá e continue efetuando julgamentos por quatro dias, escrevendo exatamente uma página de nomes por dia. Em algum momento, no final do quarto dia, eu lhe enviarei um sinal. Pode ser uma mensagem, um e-mail, uma ligação...Qualquer coisa, mas haverá palavras em Romaji, e se essas palavras juntas conseguirem uma repetição de duas vezes da letra A, esse será o sinal. Significa que, à meia-noite do quarto dia, você deve abdicar a posse do seu Death Note. Se tudo correr bem, no quinto dia você já não terá suas memórias, então será importante deixar um recado para si mesma, atentando para esperar que eu a procure, ao invés de ir me procurar, desesperada. Você acha que conseguiu compreender cada detalhe?

—Hai. Sim, eu compreendi perfeitamente. –A garota assentiu, preocupada em demonstrar competência. Em seguida, abaixou o tom de voz e começou a repetir pausadamente as instruções, para que ele as conferisse: — Irei pegar duas folhas, enterrar o Death Note, escrever os nomes, aguardar pelo sinal do quarto dia e então abdicar. –Yagami ficou até um pouco impressionado com a facilidade com que ela absorvera as informações, confirmando todas um maneio de cabeça. -M-mas você tem certeza de que é disso mesmo que você precisa, Raito? A Misa não está sendo mais útil enquanto trabalha como Kira?

—Não. É arriscado demais que você continue desempenhando esse papel. Não posso ficar à mercê, esperando por um ataque de L que estrague tudo. Por mais que a Regra dos 13 dias que Ryuuku escreveu esteja ao nosso favor, é impossível decifrar o que aquele detetive alucinado pensa.

—Certo! Mas e a Remu?

—Ela saberá de tudo, e vai ficar satisfeita com o método. Afinal, ele é preciso para garantir a sua segurança.

—Oh. Então você também está preocupado com a minha segurança, é isso?

—É evidente. –“...que não”. Chegava a ser engraçado o quanto Misa conseguia acreditar nessas mentiras tão óbvias, e se apegar a essas ilusões de príncipe encantado. Mas ao menos lhe poupava o trabalho de ter que fazer algo mais elaborado. — Mas, bem, já se passou muito tempo, eu preciso fazer algumas coisas, e logo retornar para o QG.

—Mas jáaa?! Espere! Nem deu tempo de nós-

—Você tem tarefas a cumprir, Misa. Não há tempo para essas trivialidades agora. Estou planejando algo contra L, mas só irá dar certo se você me der a sua plena colaboração. Ok? –Pela primeira vez ela demonstrou estar verdadeiramente desapontada, mas foi extremamente simples para Raito consertar esse detalhe. Bastou apenas dar o seu próprio abraço nela e murmurar algo como “Deusa do Novo Mundo” para reacender a empolgação, e embora tivesse sido um pouco difícil fazê-la desgrudar depois disso (teve que suportar alguns insuportáveis beijos em seu pescoço), acabou conseguindo sair do apartamento, e garantindo a execução de seus planos perfeitos.

Só que seus deveres mal tinham acabado de começar. Agora, tinha que ir esquadrinhar aquele procurador que estivera investigando há algum tempo, e que podia ser o compatível com as suas idealizações. Precisava analisa-lo mais de perto, , antes de ter certeza, mas não era como se fosse difícil encontrá-lo, afinal, aonde quer que houvesse pessoas adorando Kira, ele estaria lá. Ele sempre estava.

—x-


O relógio no canto do monitor marcava precisamente cinco minutos para meia-noite, e o único som detectável no ambiente, além das próprias respirações, era o tique-taque lustroso do ponteiro girando...


E girando, e girando, e girando...

L se perguntava mentalmente qual era a necessidade do dispositivo horário estar ali, sendo que qualquer máquina fajuta poderia marcar os segundos de maneira equivalente, se não menos barulhenta.

Aqueles sons o incomodavam tanto, que era como se estivessem narrando que cada segundo era um a menos em sua expectativa de vida.

Não que ele temesse estar próximo à morte– isso seria ridiculamente patético, uma vez que sabia lidar muito melhor com ela do que com a vida.

Só temia não conseguir viver o suficiente para deter Kira.

Com uma conta simples, se fosse mesmo Yagami Raito (o que já era quase certo), dava até para calcular matematicamente os riscos de conviver com ele –e recentemente, mais que conviver.

E talvez essa ideia de cadernos da morte fosse um tanto quanto enlouquecedora, pois ao dispensar os membros da Equipe –alegando que se não descansassem não fariam um bom trabalho no dia seguinte- L convocara a Shinigami para lhe fazer uma pergunta bem particular: o que ela podia dizer sua atual expectativa de vida.

Mas ela não podia dizer nada, e mesmo se dissesse, não seria totalmente confiável, uma vez que a própria Remu dissera que a Regra dos 13 Dias não era falsa—o que implicava que ela poderia ser uma grande mentirosa.

Ademais, isso era algo que iria saber precisamente só dali 13 dias.

E era perigoso até pensar neles.

Fora quase impossível conseguir o aval das forças policiais internas de todos os países para testar o Death Note (uma vez que o poder dele já provara ser real), mas Watari finalmente conseguira negociar, usando algumas provas de caráter impessoal. A chave para colaboração fora dizer que se a regra se provasse falsa, seria o Fim do Caso Kira.

Então, segundo os relatos de Watari, tinham sido concedidos pares de dois sentenciados para o Teste. Um deles morreria amanhã, quando tivesse seu nome escrito no caderno. O outro seria solto, se dentro do prazo dos Treze Dias não falecesse por não escrever mais nomes.

E tudo seria feito dentro do próprio Japão, que era a localização secreta de L, mas a parte mais difícil de todo o trato fora conseguir enviar o caderno verdadeiro para lá –não podia mandar um excerto, sem saber se era realmente eficaz. Precisara de uma réplica perfeita, a fim de enganar Raito e a todos, e não podia deixar que ninguém tomasse conhecimento dessa troca – muito menos a Sra. Shinigami.

Mas ao que se parecia, tudo correra impecavelmente bem, e amanhã seria o dia que a história registraria como o “o início da queda de Kira”. Aquele que fora genial o bastante para competir com L, e patético ao ponto de querer sentenciar vidas humanas.

O detetive não podia negar que estava ansioso para o momento em que todos notassem que estivera certo, sempre certo. Era infantil, mas queria ver as faíscas de ódio nos olhos de Kira, e queria vê-lo fracassando e perdendo a glória diante de si...

Ao mesmo tempo em que Lawliet não se sentia nada confortável com aquela emboscada, justamente pelo fato dela estar sendo direcionada a Yagami Raito. Temia que sua lógica mostrasse ser infalível mais uma vez, e que tivesse que encarar faíscas nos mesmos olhos que outrora o fitaram inocentemente, declarando seu amor. Era um tanto quanto nauseante pensar no quanto ele o odiaria, e pior ainda pensar que ele fizera e dissera tudo aquilo não porque realmente sentia alguma coisa, mas com o único intuito de enfraquecer seu inimigo.

Porque era exatamente isso que sentimentos eram: fraquezas, que o impediam de ficar feliz por estar a um passo de solucionar o Caso mais complexo de sua vida. E queriam por que queriam que estivesse errado, e confirmadamente errado, para que pudesse continuar ao lado dele, investigando com ele, demonstrando sua reciprocidade por ele, sem meditar sobre aquilo ser falso ou não: ter certeza e acreditar no que ele dizia. Tocá-lo sem sentir o sabor da mentira. Senti-lo sem tocar intenções escondidas.

Só que isso era egoísta demais: seu senso de Justiça era muito forte para achar preferível uma felicidade pessoal a ter milhares de vidas poupadas.

E essa duplicidade de anseios era realmente perturbadora.

Talvez devesse deixar que um deles sobrepujasse o outro –ser apenas o detetive frio e calculista, porque para ele só haveria lucros- mas não era como se fosse fácil. Continuava jogando com Yagami daquela maneira. Querendo-o perto, transcendendo todos os limites. E não achando ruim o fato dele não ter voltado até aquele instante para o QG porque temia suas atitudes como Kira, mas sim porque não queria vê-lo ao lado de qualquer outro alguém...

E como se fosse dar eco aos seus conflitos mentais, passos quebraram a monotonia sonora do QG.

Não era preciso nem se virar para saber que era ele –já memorizara os estrépitos daquele andar lento, assaz intimidante, e também não havia ninguém mais que pudesse estar desperto.

Sua distração momentânea o fizera ficar perdido com a imagem das câmeras, de modo que não o havia visto chegar, mas só podia ser Ele.

E a verdade era que L não sabia como confrontá-lo, agora.

Deveria ser ríspido, demonstrar o quanto tinha ficado enfurecido com seu longo período de ausência, ou era preferível apenas dar de ombros?

Acabou que nem precisou refletir muito, pois foi ele quem decidiu engatar uma conversa.

E muito descaradamente, por sinal.

—Ryuuzaki... –Ah. A voz dele. Como era inútil querer saber se ele também sentia tudo aquilo quando ouvia a sua voz. Não queria continuar brincando de se iludir, não era? . -Não posso dizer que estou surpreso em vê-lo por aqui... Você nunca dorme mesmo, né?

O detive mal se deu ao trabalho de virar para trás e encará-lo, e mal moveu-se quando sentiu o vulto dele atrás de si.

Hunf.

Ótima estratégia a de querer agir com naturalidade, como se não tivesse feito nada de errado.

Era uma pena que não fosse funcionar.

—Posso saber onde você esteve até esse horário, Raito-kun? –Girou a cadeira bruscamente, num descortês gesto de cortesia, e sondou-o com ameaça iminente nos olhos.

Por um momento ou dois até cogitara transparecer indiferença –como era de seu feitio.

Mas o problema é que não sentia a indiferença para poder transparecer.

—Onde mais?–Ele deu de ombros, e mais uma vez desafiou L com sua naturalidade. Era óbvio demais que ele estava apenas se divertindo à custa da própria culpa. -No apartamento de Misa, é claro.

—Aham. E você ficou lá esse tempo todo?

—Sim.

Apenas ali?

—Exato. Mas também foi me dado o direito de ir e vir, não é? Se eu quisesse ir a outros lugares, suponho que não teria problemas.

—Não... –Sim. Tinha todo o problema do mundo. Raito era seu principal suspeito, e devia estar mais do que amarrado a seu lado como um cachorrinho. Devia ter cada mínimo gesto seu sendo monitorado, 24 horas por dia. Mas por causa daquela maldita Regra tinha que fingir que ele era livre para fazer o que bem entendesse, e seria perigoso que ele desconfiasse de algo se começasse a ser perseguido. Tinha que se contentar em ficar insatisfeito, e duplamente insatisfeito, porque ele definitivamente havia estado com Misa naquele período. Havia marcas de batom no pescoço dele –como que encobrindo as suas próprias marcas- e isso era motivo suficiente para querer atirar em alguém. — Mas o que você ficou fazendo com a Amane até agora?

—Ora, Ryuuzaki. Raito deu uma pequena gargalhada.—Coisas.

—Coisas?! Que tipo de coisas?!

—Hmm, somente coisas. Mas que interesse novo é esse pelo que eu faço, hein? –O garoto substituiu o sorriso petulante por um cruzar de braços, excessivamente indignado. — Por que eu deveria dar explicações a você?

—Não, não é nada demais. –L mal podia descrever a raiva que sentia dele naquele momento. Aquele ar de inocente lhe dava ímpetos de esganá-lo, e o pior de tudo era que tinha que fingir que estava tudo bem. E um fingir bem precário, porque não dava mesmo para disfarçar sua frieza. — Eu estava apenas curioso, mas você tem todo o direito de fazer o que quiser.

Ia quase girando a cadeira para dar de costas, quando foi submetido a uma interrupção, um toque -no seu braço esquerdo, para ser mais preciso- que o fez parar e encarar aqueles olhos amendoados que, de um segundo para o outro, se encontravam a centímetros de distância.

Assim como os lábios.

O formigamento onde terminavam os dedos dele e começava a sua pele era o menos humilhante, se comparado com a certeza de ter as pupilas dilatadas, num claro sinal de redenção.

Que ótimo. Um mínimo gesto estúpido desses e os resultados repercutiam até numa pulsação acelerada. Céus, como pudera decair até esse nível?

—Você sabe que as coisas poderiam ser diferentes se eu tivesse que dar explicações ao meu–ele se limitou a pensar uns dois segundos na palavra mais correta-... namorado, não sabe, L?

O detetive engoliu em seco -embora fizesse questão de manter a compostura- erguendo uma de suas sobrancelhas, sistematicamente.

—Aham. Isso por acaso foi uma indireta...?

—Hm...Não. Eu diria que foi um aviso. –Yagami corrigiu, afastando-se um pouco, e voltando a permitir que o sorriso lhe tingisse o rosto. -É que eu não veria problemas em me explicar ou aceitar pedidos de alguém que assumisse que me ama... –Fingiu que havia acabado de ter uma ideia. -Como deixar de ir ver Amane Misa, por exemplo.

Ah.

Toda a alienação e torpor que L estava sentindo, ante a presença e os toques dele, de repente, pareceram se dissolver, como se alguém tivesse dado um tapa em sua cara.

Chantagem.

Aquilo se chamava chantagem. Algo que Kira faria com certeza, para se aproveitar de todos os seus pontos fracos.

E mesmo que não tivesse nada a ver com Kira, não era assim que as coisas funcionavam por ali.

Afinal, por que ele não podia simplesmente deixar de ir ver a garota, já que agora ficara nítido que era um meio de provocação? E como ele poderia se achar no direito presumir (embora meio que corretamente) que havia conseguido arrematar L assim, com tão poucas palavras?

—Você não acha que o seu ego é um pouco grande demais, Raito-kun? – Fez questão de exprimir sua dúvida, com ares de intenso sarcasmo. Só assim para entender parcialmente o que se passava dentro da mente que mais desejava desvendar. — “Alguém que assumisse que te ama”? Pff. O que te faz partir do pressuposto que só é necessário assumir, como se fosse implícito que o sentimento já existe?

Dessa vez, L pôde perceber que pegara o rapaz desprevenido.

Por uns bons momentos ele ficou meio que sem saber o que dizer, dividido entre uma mescla de confusão e indignação, que soavam uma mais divertida que a outra.

Só conseguia concluir que aquela uma das primeiras vezes que ele recebia uma espécie de “fora”, e portanto havia ficado desnorteado.

Mas aparentemente, Raito tinha o dom de encontrar bússolas, pois ele logo levou o assunto para algo mais delicado, mais real, que exigia muito mais do detetive do que uma simples negação estúpida.

—Você tinha dito para mim, Ryuuzaki, que por mais que ainda tivesse desconfianças quanto a Kira, não deixaria que elas interferissem entre nós...

“Eu sei. E é claro que eu menti. Não posso dizer eu te amo para alguém que é quase certo que é Kira. Alguém cuja armação que estou desenvolvendo é tão horrível, que só poderia desencadear pena de morte.”

—Não é essa a questão. –Mentiu. Não havia alternativa, diante da tentativa de Raito de demonstrar que sua falta de reciprocidade era fruto de suas suspeitas. -Eu apenas...Não sei como me sinto em relação a você. — E pela primeira vez, se sentiu frustrado em não poder dizer a verdade. Era simplesmente horrível dizer “não sei”. E Raito também não parecia apreciar a sonoridade de suas palavras. O que o fez tentar retificá-las, desesperadamente. -Mas eu não queria que você ficasse fora do QG até essa hora. E muito menos que precisasse ficar com a Misa...-Murmurou, dando ênfase ao muito menos, como que para demonstrar que se importava. Mas Raito não estava satisfeito só com isso.

Ele queria muito mais.

—Entendo. –Ele entendia? Como, se ele mesmo, que era a pessoa que sentia tudo isso ao mesmo tempo, se achava infinitamente incapaz de compreender? -Seria bom que você decidisse logo o que tudo isso significa, Ryuuzaki... – Raito voltou a se aproximar de onde L estava, inclinando-se lentamente para ele, que ao sentir aquele aroma familiar e o hálito roçando em suas bochechas, não pôde repelir o impulso de fechar os olhos, na expectativa de um beijo... Mas um beijo que nunca veio. — Eu sou orgulhoso, não gosto de me sentir em segundo plano, e não vou insistir em nada se não é para ser correspondido. Eu amo você, sim, mas está pedindo demais do meu ego se quer que fique satisfeito sem uma resposta... –O detetive não ousou abrir os olhos, até senti-lo se afastando, tomando a esquiva novamente. Maldita esquiva. Se tivesse olhado para ele, era bem capaz de ter tropeçado nos próprios sentidos, murmurando a resposta que o mentiroso tanto queria ouvir. E tudo para ele parar de ser difícil. Inferno. Por que diabos ele o tentava tanto assim, se realmente não queria insistir? Por que mexia justamente com as suas partes mais fracas e mais vulneráveis? Por que barganhava? Aquilo não era justo. Simplesmente não era. E ninguém odiava injustiças mais do que L. -Quando você descobrir o que sente, venha falar comigo. Vou ficar radiante em saber. Até então... –Ryuuzaki voltou a ouvir barulho de passos. Dessa vez fugindo. Dessa vez se distanciando. E se lhe perguntassem porque não gritou para impedi-los, provavelmente não saberia formular uma resposta adequada. -Aproveite bem a companhia de suas suspeitas...

“Fique sozinho...”

Notas finais
Disseram-me que mandar review ajuda a emagrecer uns quilinhos, sabe -qqqqqqqqqqq