O Plano B
11 X- Checkmate.
Notas iniciais
O silêncio pesava no ar, enquanto mais uma vez eles se viam presos no elevador. É claro que, dessa vez, com os ânimos muito menos exaltados do que na de antes. Para falar em termos críticos, a frustração –advinda de ambos os lados- era tão onipresente quanto inexplicável.
Certamente, era para ambos estarem felizes, depois de todo o ocorrido no quarto.
L, por ter conseguido sua vingança, e consequentemente poder continuar com as suspeitas (ou certezas), sem pendências a quitar. E Raito, por ter conseguido provar, da maneira mais convincente possível, o seu suposto grande amor pelo detetive.
Só que eles não viam esses pontos como verdadeiros méritos, uma vez que, para Raito, sua dignidade fora pisoteada sem sequer receber um indício palpável da reciprocidade de L; e para L, a vingança não trouxera a chave para curar os pontos doentes de seu orgulho e seguir como se nada tivesse acontecido, e sim, exatamente o contrário, uma grande oportunidade para Kira se armar de inocente, e não só isso, bagunçar sua lógica nas suspeitas e também abrir a trava enferrujada do seu cofre de sentimentos. Não que essa parte importasse tanto, pois uma coisa estava explícita, tanto para si mesmo quanto para Yagami: sentimentos não mudavam nada.
Os dois haviam acordado algo entre si, antes de descerem para a central: Ninguém poderia, em hipótese alguma, saber o que tinha acontecido.
Na verdade, Ryuuzaki arregalara seus olhos de panda quando viu que Raito estava demorando muito mais que o esperado para concordar com essa condição, mas por fim, ele assentira com uma naturalidade um pouco incomum –e um pequeno repuxar de canto de lábio, que sugeria que em breve poderia mudar de opinião. Não que L pudesse temer alguma chantagem –além dele não ter provas, aquilo estaria acabado em...O quê? 15 dias?
Era esperar demais que fosse algo diferente disso.
Mais rápido do que poderiam imaginar, já estavam no andar da Central. L foi à frente, descendo as escadas silenciosamente, com Raito em seu encalce.
Já estava praticamente tomando seu lugar –leia-se: “sentando-se” na cadeira principal do QG- quando sua presença foi notada. Sinal de que todos estavam extremamente focados na tarefa que lhes fora atribuída – o que era uma pena, visto que tal função seria totalmente inútil, no futuro.
O único que parecia perdido era Matsuda, porém, ao colocar os olhos em Raito, este foi tomado por um ânimo incomum:
—Ryuuzaki! Raito-kun! Finalmente voltaram! A Misa-Misa está do lado de fora do QG, já faz um bom tempo. Não queríamos interromper o diálogo de vocês para perguntar se ela podia subir até aqui, então...
—Amane, novamente? –O detetive suspirou- seu tom de voz inclinando para um tédio ainda mais intenso que o normal, cortando o agente com uma frieza intolerante.
Matsuda assentiu com a cabeça, clicando em um dos inúmeros botões do painel –o que fazia conexão com a câmera da fachada do prédio.
Nas telas da esquerda, subitamente estava a imagem de uma garota loira produzida, sentada nos degraus, enquanto parecia esperar afoitamente por alguma coisa.
Esta, que se dependesse de L, ela jamais viria a receber.
—Por que você não termina de vez as coisas com essa garota, Raito-kun...?
Não era muito do feitio de L agir pelo próprio impulso, mas esta foi uma das poucas vezes em que se viu atuando por instinto -pela própria vontade de dizer algo incômodo sem nem cogitar as suas consequências.
—Er... Com licença, Ryuuzaki? –Yagami tossiu –L conseguia enxergar seu reflexo pelo monitor- sustentando uma pose indignada, os olhos deslizando perplexos do vídeo para o detetive. Mas era totalmente nítido que as palavras obtidas de L conseguiam deixá-lo coberto de prazer. –Você disse mesmo terminar?
—Ora, Yagami-kun. –L deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do planeta. Agora que havia começado, não tinha porque querer se impedir. -É de conhecimento geral que os sentimentos afetivo-românticos de Amane Misa não são nem um pouco recíprocos de sua parte. Nada mais justo do que cortar as ilusões dela, terminando o que quer que vocês tenham, antes que seja tarde demais. Você está trabalhando no Caso Kira. Não é como se tivesse tempo para gastar com namoradas...
Ryuuzaki sabia que suas palavras deviam estar fazendo o ego de Raito crescer em anos-luz, já que certamente, a primeira coisa que ele poderia pensar era que, depois de tudo aquilo, L estivesse mordendo a si próprio de ciúmes da garota loira Amane.
Tudo bem, não era como se fosse totalmente mentira- afinal, era um pouco irritantemente nauseante pensar em Misa e Raito trancados juntos em quarto, se abraçando- mas também não era o único motivo para querer vê-los separados, sem nenhum motivo a mais para precisar ver um ao outro, terem contato telefônico, ou qualquer outra coisa do gênero.
O motivo principal para este desejo, era que tal rompimento seria uma solução perfeita para diversos problemas que estava tendo em relação a Ela, como consequência de suas suspeitas caladas– aquelas que ninguém desconfiava que ele estava tendo... ou melhor, não só tendo, como expandindo e desejando provar sua veracidade.
O fato era que L, que tanto desprezava aqueles que mentiam, tinha que mentir se quisesse continuar investindo em uma possibilidade x – que era o plano ideal para provar a verdadeira identidade de Yagami Raito. Tinha que mentir se não quisesse que ele armasse um contra-ataque que destruísse tudo que estava tão perfeitamente planejado.
A verdade era que, diferentemente do que todos pensavam, desde que haviam tomado o caderno de Higuchi (antes mesmo dos assassinatos voltarem a acontecer e de ser confirmada a existência de outro Death Note no Mundo dos Humanos), L já sabia que não podia confiar plenamente nas Regras que o Caderno da Morte apontava. Sendo mais preciso: já sabia que não podia confiar na Regra dos 13 dias — aquela que deixava Yagami Raito e Amane Misa totalmente inocentados.
Era simples como pôr açúcar no café: dizer que aquela Regra era real seria como destruir todas as teorias que L tecera a respeito do Caso Kira, até então. Ou como afirmar que ele inserira todas as peças do puzzle em lugares errados –algo que nunca faria, visto que era o maior detetive do mundo.
Ou seja, mais precisamente dizendo: acreditar piamente na Regra dos 13 dias era algo inaceitável. Principalmente porque Raito e Misa haviam sido o Primeiro e Segundo Kiras– havia provas. Se segundo as Regras do Death Note, eles já deveriam estar mortos por causa disso, então as Regras eram Falsas.
Agora, até Raito sabia que não estava mesmo livre de suas suspeitas. Era algo que L precisara revelar, naquele momento, para ver se máscara dele se sustentaria. Sustentou-se. Mas, ao menos, fizera com que ele acreditasse que essas suspeitas tinham como resultado apenas uma vigilância mais apurada.
Raito não sabia, e nem poderia saber, que já L havia calculado tudo:
A Regra dos 13 dias era Falsa.
Raito era Kira e Misa, o Segundo Kira.
Para se livrar de suspeitas, Raito havia passado o Death Note adiante. Assim, ele e Misa poderiam estar presos, e sobre vigilância constante, que os assassinatos não iriam deixar de ocorrer.
Depois de Higuchi morrer, provavelmente pelas mãos de Raito, e de ambos terem sido libertados, ele havia entregado para Misa outro Death Note, de origem desconhecida.
Ou seja, Amane era o Kira que efetuava os julgamentos atuais, a comando de Raito.
E Raito era Kira.
Xeque-mate.
Não havia lógica mais impecável do que esta. E agora, tudo o que precisava era provar ao Mundo que a Regra era Falsa. Algo que Watari já estava providenciando – negócios sigilosos com a polícia para realizar testes com os criminosos e desconfirmar a Regra.
Essa era a verdadeira investigação. As ocorrências do QG eram puro fingimento. Só que fingir implicava certos sacrifícios. E era aí que entrava a necessidade de Raito e Misa romperem.
Devia ser a quinta vez durante todos aqueles dias que a garota vinha até o QG, exigindo ver o “namorado” -o que era extremamente irritante, visto que Raito quase nunca queria descer para vê-la, e L quase nunca estava disposto a deixá-lo ir, temendo o que ele poderia fazer fora de seu alcance. Aí entrava uma questão complicada: Por que não deixá-la subir até o QG? Se ele quisesse fingir perfeitamente, não haveria porque impedi-la. Mas com a suspeita de que ela era a nova proprietária do Death Note, ela poderia ter negociado os olhos de Shinigami, ver seu rosto, e isso era arriscado demais.
Era melhor fazer papel de ciúmes –ainda que o sorrisinho de Raito fosse algo extremamente insuportável de se lidar- e pedir para que ele terminasse com a garota. Tudo que faltava era uma resposta positiva. Ele faria isso para demonstrar seu amor, não faria?
—Não... –Ryuuzaki arregalou os olhos. Essa palavra, dita em alto e bom som por ele, definitivamente não combinava o que estava esperando ouvir. – Não acho que ficar com a Misa seja um desperdício de tempo, Ryuuzaki. –Não achava? Ah, é claro. E ele evitava a presença dela justamente por conta disso. -Além do mais, eu não seria insensível a ponto de destruir as esperanças da pobre garota... –Aham. Não era insensível, e eliminava a sangue frio centenas de criminosos por dia. Naturalmente. -Não vejo problema em reservar um breve período das investigações para passar ao lado dela...Tipo agora. Afinal, já resolvemos tudo coisa no nosso diálogo particular, não resolvemos?
NÃO.
Nesse momento, todo e qualquer pensamento sobre suspeitas pareceu se dissolver feito 26 gramas de sal em 100 gramas de água.
Lawliet não queria que Raito pisasse um passo fora daquele QG, por motivos extremamente particulares, assim como queria aplicar uns golpes de capoeira dignos da Naomi Misora em sua cara.
Até Matsuda percebeu o quanto aquelas contestações tornaram o detetive tenso, aproveitando para colocar o açucareiro bem diante dele -numa tentativa um tanto quanto esperta de tranquiliza-lo- ainda que L não demonstrasse exatamente que estava furioso, sempre cultivando sua melhor expressão inexpressível.
Por dentro, estava xingando Raito de tantos nomes em tantas línguas diferentes, que era de certa forma humilhante que tais reações adviessem apenas do fato de ele tratar Amane Misa com tanto primor. De ele querer se encontrar com ela. Passear com ela. Argh. A ideia dos dois de mãos dadas andando pelas ruas lhe causava náuseas.
Mas por mais que desejasse dizer a Raito que ele não estava livre para sair, seu orgulho, assim como seu disfarce, o impediam de fazer isto.
O reflexo no monitor era tão prepotente que tinha vontade de esmaga-lo. Mais uma vez ele estava estragando suas intenções ocultas. E mais uma vez, ao lado daquela garota.
—Faça o que achar conveniente para você, Raito-kun. – A frieza no timbre do detetive era suficiente para criar uma calota polar. Mas a irritação dele era diretamente proporcional à satisfação de Raito. — Eu não deveria nem ter dado palpites. E não preciso mesmo da sua ajuda. –L apertou um botão vermelho, e inclinou-se para microfone ao abrir uma conexão com a sala de Watari. –Watari, preciso falar com você pessoalmente. Traga-me alguns doces, se puder, por favor. –Em seguida, girou displicentemente a cadeira para Matsuda. –Quero os relatórios dos progressos da equipe até esse instante.
—S-sim, Ryuuzaki. Vou pegá-los. – O agente deu um sorriso amarelo para Raito, acelerando para ir onde estava o Chefe Yagami – e provavelmente querendo fugir da abrangência da frustração de L, agora altamente perceptível a quilômetros de distância.
Raito observou a situação por mais alguns minutos. Rindo montes internamente. Quem mandara L ser tão irredutível e não querer admitir seu amor? Agora, nada mais justo do que usufruir das vantagens do ciúme...
Ryuuzaki estava diametralmente onisciente de tal inspeção, atrás de si. Uma ou duas vezes, pareceu até que Raito ia dizer alguma coisa para provocá-lo –ou talvez, para diminuir um pouco a gravidade a situação.
Mas desistira no último instante, virando-se de costas para abandonar a central -provavelmente muito satisfeito com os progressos que havia conseguido naquela discussão.
Hunf. Mal sabia ele satisfação duraria bem pouco.
Ia pagar caro quando ele e L estivessem a sós.
E como ia...
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