O Pincel Mágico
1 Prólogo - Ganhando vida
Prólogo – Ganhando vida
O mundo está cheio de cores. Cores são a alegria da vida. Combiná-las, misturá-las e pintá-las. Um rapaz traçava na tela os riscos que via em seus sonhos. Esses esboços transformavam-se em obras de arte que aliviavam a sua alma. No final resplandeciam cores alegres e vivas, que eram pedaços das suas utopias. --- Shin Koyama era um rapaz vulgar. Tão vulgar que todos os dias ficava naquela sala do atelier do seu avô a pintar os seus quadros. Sempre que ia à escola, saía da sala de aula com o seu caderno de apontamentos em branco. Descia as escadas do terceiro andar com a mala aberta e desarrumada. Chegava ao cacifo e atirava tudo lá para dentro. Aquele cacifo só voltaria a ser aberto no dia seguinte, quando ele tivesse que regressar à aula. Voltava para casa, para o estudo de arte. Pintar era a sua vida. Porém, Shin não era um rapaz nada comum. Ele tinha um segredo. Nas suas pinturas mais refinadas usava o grande tesouro – um pincel que o seu avô lhe tinha dado há quatro anos atrás. Com esse pincel desenhava delineamentos que, em poucos segundos, ganhavam vida entre as suas mãos. Era um pincel mágico capaz de dar vida a qualquer rabisco que contornava sobre a tela com ele. E assim, flores materializavam-se naquela sala juntamente com as suas jarras, passarinhos brotavam da tela e esvoaçam num canto agradável, arco-íris exibiam majestosamente as suas cores no azul do céu num dia de calor. Toda a vida de Shin era revestida por cores. Baças ou brilhantes, elas ali estavam presentes em tudo. À sua volta, quadros revestiam aquela divisão com uma textura adocicada e harmoniosa. Cores… algo que jamais dispensaria e que sempre amaria. --- Porém… o dia chegou. Após pintar mais um quadro com uma paisagem deslumbrante, Shin apercebeu-se que já pintara tudo o que poderia pintar. Ele tinha as suas aguarelas e as suas telas, mas já não sobrava mais inspiração. A partir desse dia passou a escrever os seus cadernos brancos durante as aulas. Descia as escadas do terceiro andar com a mala arrumada e quando chegava a casa, atirava-a para cima da mesa frustrado. Precisava de algo… precisava de mais inspiração. --- E foi então que ele se dirigiu à varanda. Perscrutou o céu azul pintado com nuvens pelas mãos do criador da Natureza, que ele representava nos seus quadros. O olhar desviou-se para a pequena miniatura de um avião que atravessava o firmamento deixando um traço esbranquiçado para trás. Em baixo, árvores exibiam as suas copas majestosamente. Tudo isto já estava imortalizado nas suas pinturas. Precisava de algo novo… Fechou os olhos e sentiu a aragem a tocar-lhe na face. Os cabelos curtos e cinzentos foram levemente agitados pelo vento, num cumprimento amistoso. Após apreciar esta pequena tentativa de motivação por parte da Natureza, Shin abriu os seus olhos castanhos e viu. Era uma rapariga que atravessava a rua apressadamente. Os seus cabelos castanhos-claros e compridos deixavam-se arrastar ao sabor do vento. Ficou a vê-la a atravessar a estrada sem conseguir desviar os olhos daquela beleza. De repente, sentiu que a inspiração regressara. Virou-se, correu pelas escadas e abriu a porta da rua. Procurou mas não a conseguiu encontrar. Regressou a casa desgostoso e caiu novamente sobre a sua cadeira frente ao caixilho. Duvidosamente, pegou mais uma vez no pincel e desenhou. Primeiro saíram traços ao acaso e depois, gradualmente, ganharam formas. Quando estava terminado, a imagem daquela rapariga sorria por detrás das aguarelas. E deu por si a desejar que aquela obra pudesse ganhar vida.Fim
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