O Pincel Mágico
2 1º Capítulo – O início da tela
1º Capítulo – O início da tela
O mundo em que vivo é construído com cores. Elas enfeitam a divisão onde vivo. São o alicerce e o telhado. São as paredes e o chão que piso. Cores são a minha vida. Chamo-me Shin Koyama e tenho 18 anos. Estudo numa escola normal mas aquilo que realmente gostaria de aprender era arte. Poisar o pincel sobre a tela com destreza e pintar. Pintar lindas paisagens, pintar sonhos e pintar a realidade. Apenas pintar… Porém… o mundo não é só feito de cores. Nele também existe escuridão. Eu gosto de retratá-la nos meus quadros mas não gosto de vê-la nos meus sonhos. O negro afoga qualquer outra cor que tenha existido antes dele. Ele cobre, sombreia, mancha e digere a bonita coloração que antes existia naquele mesmo lugar. Realmente gosto desta cor. Ela dissolve qualquer imperfeição que antes possa ter existido. Ela delineia e escurece. Com ela represento a noite e o amanhecer. --- Enquanto as cores são eternas, a inspiração não o é. Sentia que a tinha perdido após ver aquela linda rapariga a atravessar a estrada. Pintei-a naquela tela e aqui estou eu a olhar para ela. Quem me dera que esta obra de arte também pudesse se tornar realidade. Ah, esqueci e mencionar… Possuo um pincel mágico que me foi oferecido pelo meu avô. Não sei de onde veio nem como foi parar às mãos do velho homem que adoro. Assim que ele deixou de ter forças nas suas mãos para o segurar, ofereceu-me no meu 16º aniversário. Quando digo que é mágico, é porque é mesmo mágico. Qualquer coisa que desenhe na tela com ele vira realidade, se assim o desejar. E agora, aqui estou a desejar que aquela rapariga possa sair do quadro. --- Gosto de escolher com cuidado o material que uso. Tudo tem de estar em perfeição para o resultado também ser perfeito. Por isso visito sempre a mesma loja. O vendedor já me conhece e sabe que habitualmente pinto com aguarelas. Reserva sempre duas caixas por semana porque sabe que é o que eu gasto. Esta semana as minhas aguarelas começaram a acabar. Gosto de ter sempre uma caixa salvaguardada para uma emergência. É por isso que estou neste momento a caminhar para a loja. — Bom dia! — Oh Shin, bom dia. Aguarelas como de costume? — Claro. O vendedor desapareceu pela porta dos fundos para ir buscar a minha encomenda. Fiquei a ver alguns pincéis em exposição na montra da loja. De várias grossuras e aparentemente maleáveis, pareciam pincéis com uma boa qualidade. — Aqui está. Só uma caixa hoje, não é? Já guardei a próxima. Mais alguma coisa? — Estes pincéis aqui. Queria um mais grosso, o mais fino e um intermédio. — O pincel mais fino costuma gastar-se mais rápido que os outros. — Sim. Mas não costumo usá-lo muito. Abri a carteira para pagar quando, de repente, alguém entrou a correr pela porta. Não lhe dei atenção porque estava concentrado no pagamento mas senti a agitação que trouxe consigo durante a corrida. — Queria um estojo de pasteis de óleo. — Só um momento Kaoru. Deixa-me atender aqui este rapaz. — Claro, tio. Era uma voz infantil a daquele cliente. Estava excitado e parecia feliz. Pasteis de óleo… realmente é algo que odeio. São tão imprecisos e toscos, deixando uma textura desagradável para trás. Entreguei o dinheiro e peguei no saco. Quando me voltei, o meu olhar cruzou com o da pessoa que tinha acabado de entrar. A primeira coisa que vi foram os seus longos cabelos castanhos-claros a baloiçar à minha frente. Uma visão? Realidade? Seria possível que o meu pincel também pudesse criar uma pessoa? Porque a mesma pessoa que desenhei no quadro ontem está aqui à minha frente. Fiquei a olhar para aquele vulto, perdido nos meus pensamentos dispersos. A minha nova fonte de inspiração materializara-se do quadro para a realidade. Os poderes daquele pincel eram, incrivelmente, reais. Ele deve-se ter apercebido do meu olhar porque se virou para trás. — Ainda precisas de mais alguma coisa? O vendedor da loja regressou com o estojo pedido e sorriu ao ver que nos fitávamos. — Ah… Shin, esse rapaz é o meu sobrinho Kaoru. Kaoru, este rapaz é um artista e faz belos quadros. Os meus olhos arregalaram-se assim que percebi que não era uma rapariga mas sim um rapaz. O seu corpo magro assentava bem com a sua altura. Era um pouco mais baixo que eu e o seu rosto era, misteriosamente, feminino. Os seus olhos cor de mel ainda o tornavam mais belo. Era decididamente um rapaz mas dei por mim a corar e a desviar a cara. — Apenas gosto de pintar. — O Kaoru também gosta de pintar. Porque não lhe mostras alguns desenhos teus. De certeza que ele poderá dar a sua opinião e ajudar-te a melhorar. O rapaz assentiu e pegou no seu estojo de pasteis. — Virei mais tarde tio. Adeus senhor artista. Acenou para mim e retirou-se da loja novamente a correr. — Não corras, ouviste? Ai, aquele rapaz nunca me dá ouvidos. E assim parecia. Despedi-me e sai da loja. --- E novamente no atelier. Pintando e pintando. Atrás de mim, aquela figura me fita alegremente. É incrível como são tão parecidos. A única diferença é que pintei uma rapariga e conheci um rapaz. Mas não teria sido antes eu a conhecer um rapaz e a retratá-lo como uma rapariga? E se tivesse antes desenhado um rapaz e por gostar tanto dele desejara que fosse uma rapariga? A verdade… é que mais uma vez este pincel realizou um desejo meu.
--- Cor sobre cor e uma nova cor criada. Texturas combinadas, emoções e imagens na minha cabeça. Agora estou pintando aqueles dois olhos tão bonitos. Misturar castanho com branco. Adicionar água. Cobrir com mais branco. Delinear com castanho. Mais água e mais branco. E assim nascem aqueles olhos cor de mel. Poiso o pincel e fico a fitá-los. Não está bom. Não parecem tão belos quanto os originais. Observo o pincel. É um dos que acabei de comprar. Ainda está pouco maleável mas ao fim de algum uso vai ficar flexível. Quando ficar assim, de certeza que o usarei até que o seu traço se torne imperfeito e tenha de comprar outro. E cor sobre tela, de modo a dar vida aos meus sonhos, continuei a desenhar. Não eram só os olhos, eram também os seus cabelos, a sua cara, o seu corpo. Quadro após quadro, a mesma imagem preenchia todos. Já não preciso usar mais aquele pincel neste momento. Porque o meu último desejo já se tornou realidade. Sem que me apercebesse, este era o começo da palavra “amar”.Fim
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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