Zero

Chovia. A chuva estava chorando todas as suas mágoas, fazendo suas gotas baterem agressivas contra a janela fechada. De qualquer forma, chovia. Eu relanceei meu olhar para a porta, contando cada rachadura, remoendo o fato dela ainda estar fechada. Cadê? Cadê ele? O piano jazia no canto. Provavelmente era a única coisa na casa toda que não estava coberta por uma camada de poeira, mais grossa do que eu gostaria.

A parede era azul e coberta por várias fotografias. Os porta retratos também tomavam todos os espaços livres, nas estantes, sob a lareira fria, em cima de mesinhas aqui e ali. Era como se a casa fosse toda feita de lembranças.

Perto da janela grande tinha um armário, com álbuns e mais álbuns. Eu não sabia por que tínhamos essa fascinação por arquivar cada coisinha, cada momento, mas tínhamos. Talvez alguma paranóia de esquecer. De simplesmente acordar num dia frio e não lembrar de mais nada.

Então, fotografávamos.

O violino estava em algum lugar mais pra dentro. Da alma, da casa, não sei. Estava guardado, no quarto, provavelmente.

Mas ele não estava em casa. Eu olhei, nervoso, para a porta. Cadê? Toda sorte de desgraça me parecia plenamente possível. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. E a porta ainda tava lá, com todas as suas rachaduras e escritos particulares. Nossa alma em forma de palavras. Mas tava fechada. Por que tava fechada?

Suspirei, me desenrolando da coberta e indo em direção a janela. Ainda chovia. Tava tudo alagado do lado de fora, mas eu abri. Por quê? Eu queria que alagasse minha vida. Alagasse minha casa, alagasse minhas memórias. Alagasse as fotos. Olhei pra baixo, e parei. Fechei a janela com um estrondo, meus braços estavam molhados.

Voltei a me enrolar no cobertor e esperei.

Notas finais
Eu comecei a escrever, simplesmente. Sem motivos e sem explicação. Comecei essa fic, e agora é hora de ver se eu consigo ir até o final. Espero que sim.
Espero, também, que vocês estejam comigo até lá.
Mas ainda é o começo, é cedo.
Tomara que gostem.
Dite.