O Pianista E O Violinista

2 Primeiro Ato - O para sempre. E amém.


Notas iniciais
Playlist do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=AzBBGBrjQ7g&list=PL7WEOtDMu8PE-hY79EclwLlibm_UgvGAQ&index=1&feature=plpp_video
Não obrigatória, mas altamente recomendada. Dá um tom meio diferente à história. Espero que gostem. ♥

Primeiro Ato – O para sempre. E amém.

Alguns provavelmente o acham muito antipático. Indiferente, frio, quase um cadáver. Outros jurariam que, bem, ele morreu. Morreu. Mas... Eu não sei. As coisas começaram a tanto tempo que eu sequer me lembro da minha vida antes dele. Suponho que era diferente. Se bem que, talvez, acho que não. Talvez.

Pelo menos não havia a espera e a porta fechada.

Eu sou o pianista. Ele, o violinista. Nós tocamos numa sinfonia destoada, sem sentido, desesperada. Nós somos os instrumentos, nós somos a alma, nós somos...

Uma pausa.

Eu não sei mais viver sem encarar a porta escrita.

Começou há anos, muitos e muitos anos. Éramos só aprendizes de uma arte que ainda estávamos longe de dominar, mas eu não sei. Talvez devesse ter sido assim. Uma lista de talvez pode matar um homem, se quer saber. Não sei como ainda respiro. Minha vida é feita de incertezas. Seria engraçado se não fosse trágico. Mas é tão, tão, tão triste.

É infinito.

A janela está tampada por grossas cortinas. É tentador. É de propósito, acho. Quem somos nós no mundo? Daria quase tudo para que alguém pudesse me dizer, exatamente, como vim parar aqui. Onde errei, acertei. No que isso refletiu. O que mudou.

Eu queria ter feito várias coisas diferentes.

Eu queria, quem sabe, que a porta se abrisse. E ele sorrisse. E iluminasse o mundo.

Mas algumas coisas na vida são simplesmente esperar demais.

X

Um profundo suspiro e eu sinto como se estivesse vivo. Eu posso ouvir o som do violino vindo do quarto, eu acho. Vem de lá de dentro. Da casa, da alma. Bem. Eu poderia sorrir, levantar as mãos até o seu rosto e sorrir. Talvez eu seja dependente de você – talvez eu seja dependente do seu toque. Talvez.

Você surge no corredor, acena e volta pra dentro. Quer me tranqüilizar. Dizer que não vai ir embora de novo. Você sabe que eu me preocupo. Muito, quase paranóico. Neurótico. E eu sinto como se pudesse tocar meu precioso piano de novo. E é o que eu faço. Aquela nossa harmonia destoante que preenche tudo, preenche as coisas todas, as almas todas. Vamos continuar assim infinitamente, num ciclo sem fim, a espera, o violino, o piano. A espera, o violino, o piano. Mas vale a pena. Porque, no final, é quase como se vivêssemos.

Acho que a ideia central de contar nossa história é não esquecer. Como aquelas fotografias que tomam toda casa. Uma vez disseram que os porta-retratos eram a única coisa que fazia, realmente, parecer que alguém vivia ali. E o piano. E o violino.

Era só o mais importante. A única coisa sem poeira.

-Toque pra mim. – minha voz estava rouca, fazia dias que eu não falava. E estava frio. A minha vida estava fria. Fazia tempo que aquele cobertor deixou de ser o suficiente. Ele me olhou com aqueles seus olhos aquosos, emoldurados por cílios muito, muito longos, como os de uma criança. E assentiu, começando a tocar. Pra mim. Só pra mim. Porque ele era meu. E eu era dele.

Quando ele terminou, sorriu de lado e me estendeu a mão, no que eu entrelacei nossos dedos, me aproximando e deitando minha cabeça em seu ombro. Ele ainda tinha o mesmo cheiro de sempre. Neve, chuva e pinheiros. Era uma das coisas imutáveis. Seu cheiro seria sempre o mesmo – até o fim dos tempos.

-Como você está?

-Bem. – suspirei. – Ou quase isso. Como foi o concerto?

-Reconfortante, eu diria.

E seguimos por mais um tempo nessa conversa banal. Quando notamos, estávamos deitados na cama, e ele passava os seus dedos longos suavemente pelo meu cabelo escuro. E falava. Tagarelava infinitamente sobre coisas sem valor, que eu sinceramente prestava atenção. Todo aquele falatório fazia da minha vida o que ela era.

O violino jazia esquecido num canto. E o piano, também.

X

Eu estava picando um legume qualquer enquanto ele dava um jeito no arroz. Cozinhávamos juntos sempre que ele estava em casa, era como um ritual. Eu amava a rotina, e eu o amava, então pequenas coisas assim eram... Mágicas. Quase palpáveis. E de vez em quando ele olhava por cima do ombro e me lançava um sorriso, antes que eu o repreendesse por quase deixar o arroz queimar.

Éramos um casal daquela nossa maneira estranha. Era a espera torturante, os risos, as brincadeiras e o permanente cheiro de comida recém feita.

Depois, íamos até a porta e deixávamos alguma coisa escrita lá. Só uma palavra. Naquele dia, a minha foi viver. A dele, real.

A janela enorme estava aberta e o vento entrava, esvoaçando as cortinas. Ele estava lá, fumando, segurando o cigarro em seus dedos longos. E eu o observava, parado perto do corredor. Sorrindo. Porque ele era a única coisa pela qual eu vivia, e eu sabia o quanto isso era errado.

Porque quando ele se fosse definitivamente, eu iria também. Só que, no meu caso, para algum lugar além daqui. O céu. Ou o inferno.

X

-Quando tudo chegar ao fim, o que vai acontecer?

-Ora. Vai ser o final.

-O que isso quer dizer? O que diabos é o final? – ele me olhou, antes de levar a mão ao meu rosto e deixá-la deslizar.

-É o the end ao final do filme, meu amor. É o you’re dead do vídeo game que jogávamos quando éramos adolescentes. É a nossa última sinfonia.

-Juntos?

-Vamos tocar para sempre juntos. Até que a última estrela desapareça do céu.

-Para sempre é simplesmente muito tempo.

-Eu sei. Mas é a verdade. O para sempre é nossa eternidade. Nosso infinito. É sagrado, ou quase isso.

-Amém?

-Amém.

Sorri para ele e fui retribuído. O barulho da rua estava infernal, mas eu não ouvia nada. Éramos só nós dois, sentados no sofá e enrolados numa coberta, fazendo mil planos para um futuro não muito distante que nós nem sabíamos se chegaria. Era como o começo de tudo outra vez. Porque, sempre que ele voltava, era esperança.

Ele era a minha alma, minha parte boa. Ele era meu final.

Notas finais
As coisas são diferentes nessa fic. É difícil de explicar. Tem hora que eu sinto vontade de parar de digitar, sorrir e dizer "é isso". Mas não é isso. A história do nosso pianista e do nosso violinista é muito extensa. Ela tem começo, meio e fim. Ela tem um passado, um presente e um futuro. E é uma história que só vai acabar com a morte.
O the end no fim da tela.
E não, isso não é um spoiler, hahahaha.
Eles vão continuar infinitamente, até seu final.
Para sempre e amém.
Dite.