O Pequeno pedaço do céu
26 Odeio palavras novas
Notas iniciais
Eu preciso ter raiva da Lydia, preciso odiá-la. Odiar muito, demais. Queria afastá-la de mim, evitar seus olhos. Seus lindos olhos. Não posso confiar nela.
Não era minha Lydia. Não era meu pequeno pedaço do Céu. Era só Lydia, a que mentiu. Mentiu como o Alex. Ela me arrancou do mundo, me enganou.
Ela me levou para um mundo que eu não conhecia.
Depois que a Lydia nasceu no meu pedaço do mundo, achei que nunca mais me sentiria sozinho. Porque eu a ganhei, ela era minha. Ela não me batia como o Alex e não sumia. Era meu Paraíso, minha companheira. Ela conversava comigo e nunca me machucava.
Achava que não existia solidão pior do que quando só era eu e Alex no mundo. Achava que nada doía tanto quanto ficar sozinho no quarto, sem ter o que fazer. A solidão era tão grande que eu esperava por Alex, até mesmo ansiava por ele, desejava que aparecesse apesar de sentir medo dele. Muito, muito medo.
Mas foi quando o Céu me tirou do mundo que descobri o que era me sentir verdadeiramente sozinho. Foi muito pior do que antes dela nascer, doía muito mais porque eu já não lembrava como era viver sem ela. Não sabia como suportar.
Antes, o vazio e o tédio faziam parte de mim, eram tudo o que eu conhecia. Quando a Lydia nasceu, ela me transformou, mudou tudo em mim e tudo nas sete partes do mundo. Então eu a perdi no momento que descobri que tinha sido enganado.
Pude beijar os lábios de um pedaço do Paraíso e de repente, ela foi arrancada de mim.
Eu estava tentando ser forte, muito forte. Mesmo sabendo que sou fraco, Alex sempre me lembra disso, falando como eu sou fraco, burro e incapaz. Mas eu tentei, tentei demais me afastar da Lydia. Tentei parar de pensar nela como Céu e como minha. Porque ela não é.
Deixar Lydia me ajudar no banho atrapalhou muito a minha tentativa de odiá-la, mas não tive escolha, precisava me lavar. E quando fiquei limpo, ela me surpreendeu ao mostrar como é o corpo de uma mulher.
Nunca vi nada parecido, nada chega perto de tanta beleza, tanta perfeição. Linda, linda, linda. Tão linda que meus olhos doeram. Os misteriosos seios eram perfeitos, muito diferentes do meu peito reto e sem graça.
Eu sempre fui feio e ela é linda. De todas as sete partes do meu mundo e até mesmo de outros mundos, tenho certeza de que ela é a parte mais bonita. Nada se compara a Lydia. Nada nos três livros me prepararam para o que vi.
Não sei descrever o corpo da primeira mulher do mundo. É muito diferente do meu... e do Alex. É único.
Apesar de muito magra, o corpo era cheio de curvas. Curvas nos seios, na cintura, no quadril, nas pernas. E o fazedor de xixi era o mais diferente, escondido no meio das pernas, quente, úmido, cheio de divisões, curvas que eu não conhecia.
Toquei naquele corpo perfeito sem que nenhuma roupa atrapalhasse. Ela era macia, confortável e cada vez que a tocava ela soltava sons lindos. A voz aguda tremia, falhava, me enchia de prazer. Era bom brincar com o seu corpo. Muito bom, maravilhoso. E ela também brincou com o meu fazedor de xixi.
Com a água caindo sobre mim e com Lydia em meu colo, eu me senti completo. O vazio dentro de mim foi esquecido, só conseguia pensar nela. Brincar com a Lydia era muito mais gostoso do que brincar sozinho. Muito, muito melhor.
Depois que o líquido branco saiu de mim, nós ficamos abraçados. Aquela sensação boa no corpo, por dentro e por fora, com certeza é a melhor coisa que sou capaz de sentir. Não mereço isso. Não mereço porque não sou bom o suficiente e também, não devia nem querer falar com ela. Então é claro que não devia ter a beijado, nem ter brincado com ela.
Mas foi tão bom...
— Isso foi ótimo, Stiles! — Como se lesse meus pensamentos, Lydia falou com a voz que eu amo.
Ela ainda segurava meu cabelo e minhas mãos apertavam seu quadril. Era tão bom de apertar, de sentir! Como me afastar? Como ia conseguir odiar a Lydia? Como não desejar que ela fosse minha?
— Eu quero fazer de novo. — Pedi tímido, desesperado por mais da sensação boa. Não queria pensar em nada, falar nada.
— Stiles...
Ela soltou meu cabelo e se afastou de mim. Eu quase reclamei, quase, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, percebi que a distância fez com que conseguisse ver seus seios de novo. Os misteriosos seios já não eram tão misteriosos para mim. Agora eu os conhecia com os olhos, com as mãos e com a boca.
— A gente precisa conversar. — Quando ela voltou a falar, neguei com a cabeça várias vezes. — Por favor, Stiles. — Ela suspirou e mais uma vez me surpreendi porque tudo nela é bonito, até mesmo o suspiro. — Eu estou com muita vontade de brincar de novo com você, mas antes precisamos ter uma conversa.
Mesmo sabendo que ela olhava para mim com os lindos e enormes olhos verdes, eu encarava os seios. Só ergui a cabeça quando ela disse que queria brincar de novo. Será que era verdade? Ela mentiria para mim? Ela já mentiu antes.
— Vamos sair daqui. — Ela se mexeu no meu colo e eu desejei ser capaz de colar seu corpo no meu, não queria me afastar jamais. Ainda assim, deixei que ela saísse por saber o quanto era ruim ficar preso.
Ela levantou e mais uma vez o vazio me engoliu.
A água do chuveiro parou de cair. Fiquei de cabeça baixa, fechei os olhos e continuei assim ao ser tocado nos ombros. Suas mãos pareciam queimar meu corpo. Queimar de forma boa e ruim.
— Vem, Stiles! Vou ajudar você.
A voz era tão doce que eu obedeci. Ela envolveu meu corpo e eu me apoiei na banheira, lutando para levantar. Doeu muito e demorou tempo demais para ficar de pé porque Lydia não aguentava meu peso e meus machucados me atrapalhavam.
Quando finalmente saí da banheira, encostei na parede e vi Lydia pegando as roupas jogadas no chão, ela escolheu a blusa e a calça mais limpas entre as peças. A blusa foi para ela e a calça para mim.
— O resto depois eu vou lavar para a gente ter roupa limpa. — Explicou quando seu corpo já estava escondido dentro da minha blusa. Ela era tão mais baixa que a camisa cobria até parte de suas pernas.
— Tudo bem. — Falei olhando para baixo, terminando de colocar com dificuldade a calça. Observei por algum tempo meu peito nu, odiando estar preso dentro daquela pele. Tudo em mim causa raiva, nojo e vergonha.
Sabia que ela me observava, porém não devolvi o olhar. Tudo doía, os pés, as pernas, a cabeça. Precisava muito sentar, mas não precisei dizer em voz alto porque Lydia me entendia. Ela abraçou a minha cintura e com passos lentos, doloridos, voltamos pelo mesmo caminho naquele mundo desconhecido.
Sentar no chão de madeira provocou novas ondas de dor, porém mordi a boca para não reclamar. Assim que sentei, estiquei as pernas para frente e apoiei o corpo na parede. Arfava por causa do esforço.
— Eu sei que você está irritado comigo e não quer conversar, mas por favor, Stiles, me ouve. Se não quiser falar nada ou não quiser responder, está tudo bem. — Era horrível ver a Lydia triste e preocupada daquela forma. Eu gostava de vê-la sorrindo, mas continuei calado. — Você precisa dar uma chance para o Céu, só preciso que me deixe explicar.
Eu a amava e sempre confiei nela, desde que nasceu no mundo. Sabia que Alex era ruim e que mentia, então como poderia dizer não? Mesmo cansado, esperei a respiração acalmar e respondi:
— Pode falar, Céu. — A palavra brotou da minha boca e eu me odiei por isso. Burro! Burro! Não podia ficar a chamando daquela forma.
Pensei em me corrigir, mas então eu a vi. Ela sorriu daquele jeito lindo, que fazia com que as bochechas fossem coloridas de vermelho e deixava tudo a sua volta mais bonito. Ela estava feliz por causa de como eu a chamei, feliz por minha causa. Lydia se ajeitou ao meu lado e pegou minha mão. Eu amava quando ela me tocava e a reação que provocava em mim.
Ela ficou calada por tanto tempo que pensei que tinha desistido da ideia de conversar. Os dedos pequenos, bonitos, faziam carinho na minha mão. Tinha vontade de suspirar de satisfação, mas me controlei.
— Sexo é quando a gente brinca com o corpo de outra pessoa. Têm várias formas de fazer isso. — Essas foram as palavras de Lydia. Surpreso, arregalei os olhos e virei a cabeça para ela. Não imaginava que a conversa fosse começar assim.
Eu já tinha ouvido aquela palavra, mas Alex nunca teve paciência de explicar as coisas para mim. Ele brigava tanto, que eu quase não fazia perguntas. Tinha medo de apanhar.
— Tipo o que a gente acabou de fazer? — Perguntei inseguro, com medo de estar falando algo estupido.
— Sim, Stiles, foi uma forma de fazer sexo. — Ela estava vermelha, muito vermelha, porém, não entendi o porquê ela sentia vergonha. — Quando a gente mexe no... no fazedor de xixi com as mãos, se chama masturbação. Isso faz parte do sexo, dá para fazer sozinho como você sempre fez e tem como fazer com outra pessoa, como fizemos na banheira.
— Masturbação. — Repeti a palavra com lentidão e o som saiu tão engraçado da minha boca que eu esqueci de tentar ficar com raiva. Acabei rindo. — Masturbação! É uma palavra esquisita.
Ela sorriu, mas enxerguei tristeza nos olhos verdes. Por que ela estava triste? Tentei pensar se eu tinha dito algo ruim, algo errado.
— Essa brincadeira é uma forma de receber e fazer carinho, é também um jeito de mostrar o quanto gosta de uma pessoa, assim como o beijo. — Ela voltou a falar, o rosto lindo franzido e ainda muito corado. As palavras saíam com timidez e receio.
— Só tem brincadeira com as mãos? — Não queria parecer burro, apesar de ser e por isso sempre fico com vergonha de fazer perguntas. Mas a Lydia costuma me explicar, ter paciência e eu fiquei muito curioso.
Fiquei feliz porque a conversa não estava sendo ruim como eu pensava. Ela não estava falando sobre o Alex ou sobre os mundos, só estava me ensinando palavras novas.
— E-eu... eu não sei como explicar isso! — Ela colocou uma mão sobre o rosto, a outra ainda fazia carinho em mim. Suspirou pesado e eu me arrependi de ter perguntado.
— Desculpa, eu sei que sou burro.
Rápido demais, Lydia tirou a mão do rosto e segurou meu maxilar, me puxando para um pouco mais perto. Prendi a respiração, surpreso e me perdi nos olhos verdes lindos. Ela era linda demais! Não sabia como reagir.
— Você não é burro, Stiles. É a pessoa mais inteligente e mais corajosa eu já conheci na minha vida. — Apesar das palavras impossíveis, havia muita verdade em sua voz. Como ela podia dizer aquilo? — Você aprende tudo rápido, só não conhece tantas palavras porque o Alex...
Ela parou de falar do nada, parecia irritada. Encolhi os ombros e ela relaxou a mão no meu queixo, mas a outra mão, que antes fazia carinho em mim, apertou meus dedos com muita força.
— Eu sei que o Alex já falou várias coisas horríveis sobre você, mas não pode acreditar em nada do que ele falou! Não tem nada de errado ou ruim em você.
A boca linda, infinitamente grossa, beijou meus lábios feios. Foi rápido demais, mas foi o suficiente para meu coração acelerar dentro do peito. Eu amava ser beijado!
— Você precisa acreditar quando falo o quanto é lindo e inteligente. Acredite em mim.
A última fala fez com que eu me afastasse dela. Não queria fugir do seu toque, queria abraçá-la para sempre, mas precisei me afastar. Soltei sua mão e me arrastei com dificuldade para o lado. Todo meu corpo doeu com o movimento.
— Mas você já me enganou. — Disse cabisbaixo, desviando o olhar. Era horrível dizer aquilo.
— Só me ouve, Stiles, por favor. — Ela pediu e eu confirmei com a cabeça em silêncio. Não olhava para ela. — Têm muitos jeitos de fazer sexo, além de brincar com as mãos. Uma dessas formas é colocando o fazedor de xixi da outra pessoa na boca.
Um zumbido agudo apitou em meus ouvidos. Fiquei tonto de repente e a vergonha queimou meu rosto. O calor foi insuportável. Balancei a cabeça, mexi no lugar. Apesar de saber que estava sentado sobre o chão de madeira, me senti em queda.
Não queria pensar naquilo. Não podia.
— Isso pode ser bom, Stiles. Pode ser gostoso, como o que a gente fez na banheira.
A voz de Lydia era distante. Quase não conseguia a ouvir por baixo do zumbido. Ela estava enganada! Tão enganada. Não era nada bom, era horrível. Só de pensar eu me sentia sujo. Muito sujo.
Era a pior coisa que Alex fazia comigo. Pior do que apanhar, do que não ter comida, pior do que ficar sozinho.
Odiava quando ele me obrigava a fazer aquilo. Eu chorava, implorava para ele ir embora, pedia para não me obrigar. Mas ele não parava. Ele já me forçou a fazer aquilo tantas e tantas vezes... o pior foi a última vez, porque ele fez isso na frente da Lydia. Só não durou muito tempo porque o Céu bateu nele.
Não conseguia mais ver Lydia. Tudo a minha volta era um borrão, minha pele queimava e congelava ao mesmo tempo. Senti meu rosto molhado, provavelmente de lágrimas. Levei as mãos ao cabelo e puxei os fios com força, desejando sentir algo que não fosse a dor que me consumia por dentro.
— Não, não! Isso é ruim, é muito ruim! — Não controlei minha voz. Eu sempre falava baixo, mas daquela vez falei alto o suficiente para me ouvir por cima do zumbido. — Não é parecido com o que a gente fez! É nojento, horrível.
— Stiles...
Não queria ouvir mais nada. A conversa estava muito pior do que imaginei. Só queria parar de pensar naquilo, odiava aquelas lembranças. Sempre fingia que aquilo nunca tinha acontecido comigo. Fingia e me obrigava a esquecer.
Eu conseguia esquecer, conseguia nunca pensar nisso. Até, é claro, Alex me forçar de novo, fazendo com que todas as lembranças e o medo voltassem. Perto dele eu sempre sentia medo.
— Se isso é sexo, eu nunca quero fazer! Machuca e é nojento! É horrível, Lydia. Você não tem ideia de como é! — Tive a certeza que o molhado em meu rosto era porque eu chorava quando senti o gosto salgado das lágrimas na boca.
— Só me escuta, Stiles. Por favor!
Eu amava a voz de Lydia, mas nem isso me acalmou. Eu senti raiva, muita raiva. Irritado com ela por falar sobre aquilo, irritado com Alex, irritado comigo mesmo por ser tão fraco. Não devia ter conversado com ela!
— Eu não quero falar sobre isso! Não quero ouvir! — Gritei aquelas palavras, mesmo odiando gritar.
Tentei ficar de pé, mas me arrependi logo em seguida. Assim que forcei as pernas fui tomado por dor. Muita dor, insuportável. Gemi, lembrando dos machucados e tombei de lado no chão, a visão embaçada.
Tudo dentro de mim estava desmoronando. Lydia me tomou nos braços e fez com que eu voltasse a sentir meu próprio corpo. Ela era muito menor do que eu, muito mais frágil, mas de alguma forma, fui todo envolvido. Meu corpo feio, nojento, foi acolhido por ela.
Eu esqueci de odiá-la e deixei que ela colocasse meus pedaços no lugar. Suas mãos, suas mãos pequenas e lindas tocaram nas minhas costas nuas e fizeram carinho. Não merecia aquele toque delicado, porém, não consegui me afastar.
Chorei em seus ombros, em seu cabelo.
— Stiles, me perdoa, por favor. E-eu não sei como falar essas coisas para você, me desculpa. — Tremi em seu abraço e agarrei sua cintura. Queria que ela sentasse no meu colo de novo.
— É horrível, não tem nada de bom nisso. Sexo é a pior coisa do mundo! — Choraminguei ainda tremendo, não sabia como parar de chorar.
Covarde. Burro. Feio. Medroso. Asqueroso. Por que eu não podia ser diferente?
— Quando a pessoa é forçada a fazer sexo, isso deixa de ser sexo, Stiles. É uma violência. — Ela também chorava. Percebi pelo jeito que falou, as palavras confusas, a voz falha.
— O q-quê?
Inseguro, me afastei um pouco. Nossos corpos permaneceram juntos, mas consegui olhar para o seu rosto. Ela estava vermelha, tentava controlar o choro e parecia... concentrada, triste, apavorada, decidida, tudo ao mesmo tempo.
— No meu mundo isso é chamado de estupro. — Estremeci e fechei os olhos, odiando aquela nova palavra. — É algo desumano, horrível. As pessoas que fazem isso são punidas, Stiles. É um crime nojento, ele não tinha o direito de fazer isso. E-ele não podia machucar você dessa forma!
O choro dela aumentou e eu me odiei por não ter forças para tentar fazê-la sorrir. Não conseguia nem parar o meu próprio choro. Neguei com a cabeça, funguei e apertei sua cintura, a puxando para mais perto.
— Alex diz que eu mereço. — Confessei envergonhado, não queria que ela sentisse nojo de mim. — Já disse que não tinha escolha, que eu obrigava a ele fazer isso.
Nunca entendi aquelas palavras, talvez seja porque sou burro. Fiquei com medo de Lydia brigar comigo, dizer que a culpa era minha. O que fiz para merecer aquilo? O que eu fiz para obrigar Alex a fazer aquela coisa horrível?
— Alex mentiu, Stiles. Ele mentiu porque é um homem mau e você sabe disso. — Escondi o rosto no ombro dela e recebi carinho no cabelo. Era bom. — Você não merecia nada disso, nenhuma pessoa devia ser violentada dessa forma! Ele mentiu do mesmo jeito que mentiu quando disse que tinha monstros do outro lado daquela porta. Você está no meu mundo e até agora não encontramos nenhum monstro, certo?
Não consegui responder. Como podia tudo ser mentira? Eu achava que sabia tudo sobre as sete partes do mundo. Achava que sabia de tantas coisas. Nada daquilo que eu acreditava era real?
— Você nunca fez nada de errado, Stiles, não merecia nada disso. — Ela voltou a falar, as mãos gentis ainda em meu cabelo. — O único monstro que existe já morava com você, Alex sempre foi o monstro. Por isso que eu fugi, por isso pedi para você fechar os olhos e saí de lá. Eu tinha que tirar a gente do seu mundo, não podia deixar que ele continuasse nos machucando.
— Aqui ele não pode me encontrar?
Não conheço nenhuma palavra que explique como eu me senti. Não é o suficiente falar que me senti perdido, sozinho, confuso. Não é o suficiente falar que doeu, que foi horrível. Foi muito pior.
Fui quebrado e tentei de algum jeito me consertar ao abraçar Lydia com mais força. Queria que ela tirasse aquilo de mim. Precisava arrancar meus pensamentos, meu coração, meu corpo.
Desejei parar de existir.
Tudo era mentira. Tudo.
Eu não conhecia nada de nenhum mundo. Tudo que sempre acreditei, que aprendi, era mentira.
— A gente precisa continuar fugindo para ter certeza que ele não pode nos encontrar. — Havia tanto medo em sua voz... e eu só pude a apertar mais contra meu peito.
— Ele sempre disse que se eu tentasse fugir, mesmo se os monstros não me encontrassem, que ele ia me matar. — Quando soltei aquela confissão, consegui conter um pouco o choro. As lágrimas diminuíram.
A possibilidade de morrer não era tão ruim. Eu podia aguentar aquela ameaça. Tinha esperança de que ele tivesse falando a verdade, que se me encontrasse de fato me matasse porque sei que tem coisa muito pior do que a morte.
Pensar que ele poderia me manter vivo e me punir, era bem pior.
— Eu não vou deixar isso acontecer.
Lydia estava tão frágil, tão vulnerável que parecia que ia desaparecer em meu abraço. Ainda assim, acreditei nela.
— Não devia ter ficado com raiva de você, me perdoa. — Sussurrei com medo. Muito medo.
A resposta veio em forma de beijo. Beijo na boca, com língua. O meu choro se misturou ao dela. As lágrimas dela se tornaram minhas.
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