O Pequeno pedaço do céu
15 O mesmo assassino
Notas iniciais
Terceira Pessoa
Noah Stilinski perdeu a mulher e o filho em uma única noite. Desde então, ele nunca mais foi o mesmo homem. Passou a sorrir menos, parou de sair nos finais de semana e dedicou toda a sua vida ao trabalho.
Todos os dias ia para a delegacia de Beacon Hills e parava em frente ao quadro pregado na parede de sua sala. Ali, ficava fotos de pessoas desaparecidas.
Apesar dos anos que se passaram, apesar de estar quase totalmente convencido da morte do filho, uma foto de Stiles Stilinski continuava pendurada com um alfinete. A foto era antiga e estava presa naquele quadro há muito tempo.
Uma fina camada de poeira cobria a fotografia que já tinha suas extremidades amareladas, gastas com o passar dos anos em que permaneceu ali, exposta na sala do xerife.
Noah assoprou em uma tentativa de expulsar a poeira da fotografia. Passou dois dedos no lugar em que estava estampado o rosto de Stiles. Na época, o menino tinha em torno de três anos. Sorria para foto de um jeito infantil e estava agarrado a um enorme ursinho de pelúcia azul.
— Por que eu não acho você, Stiles? — Foi o sussurro do homem torturado.
Ele suspirou, passou as costas das mãos na testa e olhou para a foto que recentemente, tinha sido pregada ao lado da fotografia de seu filho. Ali, tinha a foto de uma garota ruiva e sorridente, com olhos verdes chamativos. Lydia Martin.
Cansado das noites mal dormidas, Noah se afastou do quadro. Pegou sua caneca cheia de café e começou a ingerir o líquido enquanto sentava em sua cadeira de rodinhas.
— Eu vou solucionar o caso de vocês. — Mais uma vez, o xerife falou consigo mesmo. Tentando não pensar em Stiles.
Seus olhos claros focaram nos arquivos espalhados pela mesa de madeira. Todas as folhas ali relatavam sobre Natalie e Lydia Martin. A menina mais nova, Lydia, foi a primeira a sumir dentro de sua própria casa.
Noah ainda tinha pesadelos sobre o dia em que recebeu uma ligação desesperada de Natalie, dizendo que Lydia tinha desaparecido. No início, o xerife e toda a cidade tentaram manter a esperança de que a menina tinha apenas ido para alguma festa escondida durante a noite, mas então, o tempo passou.
A pequena cidade se reuniu em busca da filha de Natalie. Policias, cães farejadores e até moradores tentaram buscar evidencias da menina. Porém, ninguém achou.
Passou a primeira semana, a segunda. O primeiro mês. E foi aí, quando completou pouco mais de um mês após o desaparecimento de Lydia, que Natalie também sumiu.
O sumiço da mãe foi completamente diferente do da filha. Lydia não deixou nenhum rastro, como se simplesmente tivesse desaparecido do universo. Já Natalie, deixou uma casa revirada com evidencias de luta e além disso, a porta da sala estava arrombada.
O xerife olhou para o relógio em seu computador e logo em seguida, para o horário definido como o provável momento em que Natalie foi sequestrada. Tinha acabado de completar treze horas sem nenhuma pista nova sobre o paradeiro dela.
Batidas na porta fizeram Noah desviar os olhos do papel. Ele endireitou a coluna na cadeira e tentou recompor a expressão. Não queria demonstrar fraqueza.
— Pode entrar. — Disse com a voz rouca que denunciava o tempo que estava sem nem cochilar.
— Xerife, você tinha razão! — Foi a primeira frase do policial, Parrish, ao entrar na sala de Noah.
Ele era alto, magro e apesar de ser talentoso em trabalhos de campo, parecia muito desajeitado ali, na sala do xerife. Segurava em uma das mãos, uma pasta repleta de folhas que ameaçavam a desabar no chão a qualquer momento.
— Feche a porta, Jordan. — O homem orientou, os olhos sérios e expressão determinada.
O jovem policial fechou a porta e hesitou, olhando para o xerife. Jordan Parrish estava suando mais do que gostaria, mostrando seu nervoso. Querendo tentar disfarçar, levou uma mão fria até a testa para recolher algumas gotículas do suor e logo depois, esfregou os dedos na calça do uniforme que usava.
— Você tinha razão. — Jordan repetiu com lentidão, os olhos meio arregalados e agitados.
Noah suspirou impaciente e pegou a caneca que soltava vapor. Bebeu mais um gole de seu café e se ajeitou na cadeira, tentando não demonstrar sua falta de paciência.
Jordan era novo demais. Novo na idade e novo como policial, mas era um bom homem, podia ter futuro na carreira assim que deixasse para trás o excesso de insegurança. Por isso, Noah fazia o possível para ser paciente e ajudá-lo.
— Sobre o que eu tinha razão? — Foi a pergunta do xerife enquanto cruzava os dedos das mãos apoiadas sobre a mesa de madeira.
— Eu achei evidencias que podem provar q-que... — Jordan não conseguiu terminar a frase. Gaguejou e forçou uma tosse, tentando limpar a garganta.
— Por que você não senta, Parrish? — Noah orientou, gesticulando para a cadeira que ficava a sua frente, do lado oposto da mesa.
O jovem policial concordou com a cabeça e ainda aflito, se jogou na cadeira dura e desconfortável. Ele apoiou a pasta que segurava sobre a mesa e foi rápido ao abri-la, tirando de lá as folhas que queria.
— Agora, respire e me conte desde o início o que você veio falar. — O Stilinski voltou a dizer, a voz em mostrava uma falsa tranquilidade.
— Natalie foi encontrada morta. — Jordan disse de uma só vez.
— O quê?! Quando?
A postura do xerife se desfez. Ele tencionou os ombros, arregalou os olhos e descruzou as mãos, as fechando em punho. Foi dominado por ondas de raiva e também, de tristeza.
— Há pouco mais de uma hora.
— E só estou sendo informado disso agora?! — Noah elevou a voz e ficou de pé no mesmo instante. Seus olhos azuis se tornaram perigosos. — Como...
— Patterson não quis contar, senhor. Ela disse que podia esperar você chegar na delegacia e...
— Desde quando Patterson manda em alguma coisa? — O Stilinski quase cuspiu o nome, raivoso e automaticamente foi em direção a porta, pronto para sair e brigar com a policial.
— Xerife! Não foi isso que vim dizer! — Jordan tomou coragem para também erguer a sua voz, mas não com irritação ou desrespeito, ele só queria chamar a atenção do Stilinski. — Tem mais que você precisa saber, eu ainda não falei com ninguém sobre isso.
— Fale logo, Parrish e eu espero que seja importante, porque com essa morte, eu tenho muito o que resolver.
— É importante, senhor. Eu garanto. — O jovem policial murmurou e receoso, também se pôs de pé, segurando duas fotos com as mãos tremulas.
— Jordan, eu não tenho muito tempo...
— Olhe essas fotos, xerife. Compare um corpo com o outro. — Parrish disse erguendo as fotografias que antes, estavam em sua pasta. Antes que o Stilinski as pegasse, ele acrescentou em voz baixa o nome das vítimas: — São os corpos de Claudia e Natalie.
Noah precisou engolir em seco e morder o lábio inferior para não demonstrar nenhuma reação ao ouvir o nome da esposa, Claudia, que foi morta na mesma noite em que seu filho desapareceu.
Com o rosto duro e olhos marejados, o xerife segurou as fotos e as observou, tentando ser imparcial. Por mais que ele mesmo tivesse encontrado Claudia morta e já tivesse visto aquela foto por diversas vezes, ele não conseguia se acostumar com a imagem da mulher que amava, sem vida.
Em uma imagem, Claudia estava jogado no chão, os braços e as pernas feridas, demonstrando sinais de luta e o maior ferimento concentrado no abdômen, bem abaixo do umbigo.
Na outra imagem, estava Natalie. A primeira coisa que o xerife percebeu foi que o corpo das duas mulheres estava à beira do mesmo lago de Beacon Hills. Depois, Noah notou que Natalie possuía a mesma grande ferida abaixo do umbigo. Um corte horizontal profundo que provavelmente, tinha sido a causa da morte da vítima, assim como foi a causa da morte de Claudia.
— Ela...ela também foi... — O xerife não conseguiu terminar a pergunta, engasgado.
Parrish abaixou a cabeça antes de responder.
— Os exames da autopsia que vão confirmar, mas sim, pelo estado do corpo, parecia que a vítima tinha sido violentada antes da morte.
Noah concordou com a cabeça, se sentindo tonto. Apoiou uma mão na parede e encostou o corpo ali, buscando sustento para não desabar. Fechou os olhos por poucos segundos e voltou a abri-los.
— Eu tinha razão — O xerife murmurou, finalmente entendendo o que Parrish queria dizer. — É o mesmo cara, não é? O mesmo homem que violentou e matou Claudia é o que fez isso com a Natalie.
Jordan ainda tinha mais o que falar. Queria mostrar para o xerife a rápida pesquisa que ele fez, fazendo mais comparações sobre os dois casos, porém, sabia que precisava ir com calma para Noah suportar todas as informações.
— E-eu... eu acho que Stiles ainda pode estar vivo. — O jovem policial disse bem baixo, os olhos voltados para o chão. — E Lydia deve ter sido pega pelo mesmo homem.
Os olhos de Noah pareciam ser capazes de desabar do rosto. Sentiu as mãos tremerem os pés começarem a formigar. Mais uma vez, tentou controlar a respiração e fechou as mãos em punho.
Ninguém mais acreditava na possibilidade de Stiles estar vivo. Ninguém.
Todos da delegacia, todos os familiares, todos os amigos, olhavam para Noah como se ele fosse louco toda vez que dizia que ainda ia encontrar o filho. Por isso, o Stilinski parou de dizer aquilo em voz alta e apenas deixou que a foto do menino continuasse no quadro de pessoas desaparecidas, mas dizia que só queria encontrar o corpo do filho para que pudesse enterrá-lo.
Então, Noah não podia acreditar que depois de tantos anos, alguém mais acreditava que seu menino, seu filho, ainda podia estar vivo em algum lugar.
— Por quê? Por que você acha isso? — Foi a única coisa que o Stilinski pode dizer.
— Eu posso mostrar. — Jordan disse sugestivamente, erguendo uma mão para a mesa onde estava sua pasta repleta de arquivos e fotos.
Noah concordou com a cabeça e ainda zonzo, foi em direção a sua mesa. Escutaria tudo que Jordan Parrish tinha para dizer.
**
Se passou duas semanas desde a morte de Natalie. Completou dois meses desde o sumiço de Lydia e, já tinha se passado dezesseis anos desde que Stiles desapareceu.
Nas últimas semanas, Noah estava trabalhando ainda mais do que de costume. Ele comprou um enorme quadro de vidro com duas faces e a posicionou bem no meio de sua sala de xerife. Para isso, empurrou todos os outros objetos do lugar para os cantos.
Naquele quadro, ele e Parrish montaram uma grande investigação. Juntaram fotos, documentos de autopsia e reportagens. Tudo era ligado com linhas de barbantes grudadas com fita adesiva.
— Fale as informações que temos até agora, Jordan. — Noah murmurou enquanto analisava o quadro com sua típica xicara de café em uma das mãos.
Parrish estava sentado na mesa de madeira do xerife, segurando um grosso relatório que reunia todas as informações que eles buscavam com desespero para resolver aquele caso.
— Natalie foi violentada por um homem que a abordou na rua. Ela não viu o rosto do agressor porque ele usou uma máscara. Depois, ele tentou matá-la, mas ela conseguiu fugir com vida. — Jordan disse com pesar aquela sequência de atrocidades. — Natalie registrou o caso, mas a polícia nunca conseguiu prender o homem.
Antes de voltar a falar, Jordan bebeu um gole d’água do copo que estava ao seu lado. Noah continuava de costas para ele, encarando apenas o quadro.
— Depois dessa violência sexual, Natalie acabou engravidando do agressor e optou por não abortar a criança. — Parrish lambeu os lábios e coçou a nuca, desconfortável. — O plano inicial era dar o bebê para adoção, mas ela acabou criando a filha.
— Lydia Martin. — Noah murmurou o nome da menina que ele conheceu a vida toda apenas de vista.
— Lydia sumiu exatamente dois meses atrás, sem deixar nenhuma pista e a mãe, Natalie foi morta há duas semanas. — O policial continuou murmurando as informações que tanto ele como Noah, já tinham ouvido muitas vezes. — A autopsia que confirmou que Natalie lutou contra o assassino e há evidencias que de houve tentativa de estupro, no entanto, ela morreu antes.
— Natalie foi encontrada no mesmo lugar que estava o corpo de Claudia. — Dessa vez foi Noah que falou, suspirando baixo de tristeza. — E morreu da mesma forma.
— Isso levanta as suspeitas de que foi o mesmo assassino, ou um imitador dele. —Jordan completou a frase, ainda focado nos papeis que lia. — Stiles Stilinski estava com a mãe na noite em que ela foi morta. Os dois estavam indo para o cinema, mas nunca chegaram lá. — Enquanto falava, Parrish não teve coragem de olhar para Noah. — O corpo de Claudia foi encontrado e Stiles simplesmente sumiu.
— O casaco que ele usava estava no chão, rasgado. Ao lado do corpo de Claudia. — Noah disse enquanto segurava as emoções, sentindo os olhos arderem com lágrimas ao lembrar do pequenino casaco azul de seu filho, caído perto do corpo de Claudia.
— Nossa suspeita é que esse homem tenha sequestrado Stiles e... — Parrish suspirou, frustrado. — Porra! Não tem como a gente saber o que esse maníaco pode ter feito.
Noah finalmente olhou para trás, inclinando o corpo para olhar para o policial irritado. Ele sabia como o policial se sentia... frustrado, irritado e agoniado.
— Esse homem deve ter descoberto sobre Lydia, descoberto que era filha dele. — O Stilinski disse em um incentivo para Parrish continuasse a falar.
— Então ele sequestrou Lydia e matou Natalie. — Jordan concluiu sentindo a bile se formar e subir pela garganta.
— A gente precisa descobrir quem ele é. Rever os casos não solucionados de mulheres assassinadas e ver se há alguma evidencia que mostre que pode ser o mesmo homem!
— Se acharmos Lydia, vamos saber o que aconteceu com seu filho. — Dessa vez, Parrish olhava fixamente para o Stilinski.
Noah concordou com a cabeça e se permitiu, pela primeira vez, ter esperança de encontrar seu menino sumido desde os três anos.
— Ele não deve nem lembrar de mim. Faz tanto tempo... — Se lamentou enquanto descansava as costas parede e sentia pontadas de dor na cabeça. — Eu perdi meu menino com três anos e agora, se ele ainda estiver mesmo vivo, tem dezenove anos. Dá para acreditar?
— Se ele estiver vivo, nós vamos encontra-lo, Noah.
O xerife queria, mais do que tudo, acreditar na afirmação de Jordan.
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