O Pequeno pedaço do céu
2 O Paraíso acha que sou louco
Notas iniciais
Verde. Verde. Verde. Verde.
Os olhos dela eram verdes. Olhos lindos, tão lindos. Grandes, enormes. Eu amei seus olhos no momento em que os vi. Eram tão expressivos. Lindos.... Ela era meu pedaço do céu! Eu queria ela para mim. Toda. Minha.
Ela olhou para mim por pouco tempo. Por segundos. Por que ela parou de olhar para mim? Queria prender seus olhos na direção do meu rosto. Precisava gravar na mente os detalhes de cada traço delicado de suas feições.
Ela parou de gritar e se abaixou no chão. O pedaço do Paraíso ficou de joelhos. Os olhos lindos e verdes, muito verdes, começaram a derramar lágrimas.
Ela chorou. Chorou. Paraísos conseguem chorar? Eu não queria que ela chorasse. Eu queria ela. Queria o pedaço do céu para mim. Ela tinha que sorrir! Precisava fazer ela parar de chorar!
— Não precisa chorar. — Murmurei apesar de ainda estar com medo dela me bater de novo. Continuei abraçando as próprias pernas, a olhando. Ela devolveu o olhar. — Você é linda.
Linda. Linda. Linda.
Queria repetir a mesma palavra mil vezes seguidas. Se o pequeno pedaço do paraíso soubesse como era linda, não choraria. Se ela soubesse que era perfeita, não ficaria triste. Se ela fosse minha, eu a faria sorrir.
Os verdes de seus olhos estavam voltados para mim. Os lábios grossos, muito grossos, infinitamente grandes, estavam espremidos. O cabelo ruivo, tão ruivo, era lindo. Alguns fios eram dourados, loiros. Parecia que alguém tinha espremido morangos em cima de sua cabeleira, formando aquele tom.
Ela continuou chorando. O pedaço do céu não parou de derramar lágrimas. Mas ela ficou de pé. A primeira mulher do mundo se ergueu do chão e andou. Andou na minha direção!
Linda. Ela era linda e parou a minha frente. Eu estava encolhido no chão e ela estava erguida, linda. Tão linda. Mesmo com ela em pé, percebi o quanto era pequena. Eu poderia envolver todo seu corpo com meus braços. Eu queria fazer isso. Precisava.
Ela ia bater em mim se eu tentasse abraçá-la?
— Quem é você? — Ela estava brava. Brava comigo. Mas sua voz era linda. Linda como seu rosto. Linda como os misteriosos seios. — Por que eu estou aqui?
Arregalei os olhos quando ela gritou a última frase. Apertei os braços contra minhas pernas e me arrastei no chão. Parei quando a parede entrou em contato com minhas costas.
— Quem é você? — Ela repetiu a pergunta. Eu queria que ela falasse mais. Precisava ouvir melhor a sua voz.
Olhei para suas mãos. Mãos pequenas. Tão menores do que as minhas. Eu poderia esmagar seus dedos. Poderia fazer com as mãos dela se unissem as minhas e sumissem debaixo das minhas palmas.
— Stiles. — Respondi baixo. Bem baixinho. — Stiles Stilinski.
Eu sabia meu nome. Sabia meu sobrenome.
Alex nunca me contou! Eu descobri sozinho. Já sabia como ele devia me chamar. Sabia como o mundo devia me conhecer. Mas não existia ninguém no mundo. Só eu e Alex.
Porém, isso foi antes do pequeno pedaço do céu chegar. Ela era uma mulher! E era real. Não era um sonho. Não era uma alucinação. Ela existia. Se ela surgiu no meu quarto, ela era minha. Tinha que ser! Eu queria ela para mim.
Não ia deixar Alex bater nela. Nunca. Nunca ia deixar. Ela era minha. Ela era linda. Ela era mulher! Uma mulher de verdade, com seios de verdade. Eu queria levantar o vestido que ela usava. Queria ver seu corpo. Precisava ver.
Você sabe como são os seios? Já viu com seus próprios olhos? Não, você não deve ter visto. Se eu nunca vi, não teria como você ver. E ela é a primeira mulher do mundo! Antes dela cair do céu, só existia Alex. E eu. Eu também existia.
— O que você quer comigo? Por que eu estou aqui?
Ela parecia confusa. Muito confusa. E irritada, triste, preocupada. Ela estava com medo. Eu não queria que ela tivesse medo! Não parava de chorar e eu queria enxugar suas lágrimas.
— Porque você acabou de nascer. — Expliquei com medo. Muito medo.
Ela era linda, muito linda. Mas eu não queria apanhar de novo. Não queria que ela batesse em mim. Por que ela tinha me dado um tapa? Eu queria tocar em seus seios, mas ela não deixou. Por que não?
Então, a raiva dominou seu rosto. Dominou toda sua feição bonita. A raiva pareceu cobrir todos os outros sentimentos. Suas mãos, suas pequenas mãos, se fecharam em punho.
Fechei os olhos, retrai os músculos. Esperei ser atingido por suas mãos. Alex sempre fechava as mãos em punho quando ia me bater. Sempre. Doía. Doía muito. Eu ficava com marcas roxas e pretas e amarelas e esverdeadas por todo corpo. Às vezes eu sangrava. Odiava sangrar!
— O que você quer comigo? Onde eu estou?!
Ela não me bateu, mas gritou. Com seu grito, pude perceber a raiva que ela sentia. Era muita raiva, muita. E muito medo, muito. Eu não queria que ela se sentisse assim. Por que ela estava tão assustada?
— Você nunca viu um homem? — Perguntei ainda mais baixo. Muito baixo.
Abri os olhos com medo, vi a confusão em seus olhos. Seus olhos verdes. Olhos lindos, muito lindos. Ela devia estar com vergonha. Vergonha de dizer que nunca viu um homem.
— O quê?
— Está tudo bem. Eu também nunca vi uma mulher. — Confessei um pouco mais alto. Tomei coragem para isso. — Você foi a primeira.
Ela franziu as sobrancelhas. Sobrancelhas ruivas. Ruivas como o cabelo. Isso era tão lindo. Tão diferente. Nunca tinha visto alguém com aquele cabelo, aqueles pelos.
— Você é maluco?
Reprimi o corpo com aquela ofensa. Fechei os olhos por alguns segundos e os abri. Eu não gostava de ser ofendido. Alex usava palavras ruins comigo. Muito ruins.
— Não.
Não podia ser grosseiro com ela. Não com uma mulher. Não com um pedaço do céu que caiu no mundo. Mas tive que responder aquilo. Tive que dizer “não”. Eu não fui grosso. Eu gostava dela. Gostava muito do meu pedaço do céu. Ela era linda. Eu ia cuidar dela.
— Preciso sair daqui!
Foi a minha vez de a olhar com confusão. A primeira mulher do mundo começou a andar de um lado para o outro. Ela voltou para perto da porta. Socou e chutou a madeira repetidas vezes. Ela não percebia que estava trancada?
— Preciso sair daqui! — Dessa vez ela gritou a mesma fala.
Soltei minhas pernas, movi o corpo. Ela achava que eu era maluco! Por isso ela queria fugir. Ela não queria ficar comigo. Meu pedaço do céu não gostou de mim. Ela não gostou de mim!
— Eu não sou maluco. — Tentei me defender com a voz baixa. Sempre baixa.
Ela olhou para mim.
Ela olhou para mim.
Para mim.
Aqueles olhos verdes. Aqueles olhos grandes. Olhos lindos. Eu podia mergulhar naquela cor? Queria deixar de existir. Queria desaparecer e me fundir com a íris clara de seus olhos.
— Por que você me sequestrou, Stiles?
Meu nome. Ela disse meu nome! A mulher. O pedaço do céu. Minha porção do Paraíso disse meu nome. E ela olhava para mim e eu queria tocá-la. Precisava tocar.
— S-sequestrar? — Sim, eu gaguejei.
Conhecia aquela palavra. Já tinha lido no livro. Um dos livros. Eu tenho três livros. Mas não entendi o motivo dela dizer aquilo. Como assim “sequestro”? Ela tinha acabado de nascer!
— Não foi você. — Ela ainda olhava para mim. Eu queria que ela continuasse olhando. Eu queria ela. Precisava dela. — Não pode ter sido.
O rosto lindo, muito lindo, se franziu. Novamente ela estava confusa. Queria tirar sua confusão. Queria afundar os dedos em sua pele. Ela parecia tão macia... ela era linda.
A porta do quarto abriu. Só uma pessoa podia fazer isso. Só uma pessoa decidia quando eu podia sair do meu pedaço do mundo. Alex. Era ele. Foi automático, fiquei de pé.
Meu pedaço do céu ia conhecer Alex.
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