O Passado Sempre Presente.
14 Capítulo 14
Vitória, após um banho, vai para a cama com a cabeça borbulhando, tinha sido um dia muito longo, e não pela horas normais de um dia, mas pela intensidade em que ele foi, olhou na mesinha de cabeceira da cama um porta retrato dela segurando Emília ainda pequena com um pequeno sorriso nos lábios, as bochechas rosadas, os cabelos castanhos um pouco encaracolados, era um bebê lindo, quantos sonhos tinha naquela época para ela, para elas, e analisando tudo o que sua filha disse, sabia que de fato ela tinha razão, que ela não sabia o tamanho do sofrimento pelo qual Emília tinha passado, as frustrações que teve, os desejos comum a uma menina que nunca foi realizado, em parte por decisão dela tudo foi alterado, pela primeira vez se questiona se realmente estava valendo a pena a sua volta, se realmente fará mais bem que mal, que feridas fechadas nem sempre precisam ser reabertas, sabe que está confusa e abalada com tudo o que passou, que está um pouco irracional devido às emoções dos últimos dias, e pelo que ouviu, nem fala pela volta de Alberto, sabe que isso poderia mais cedo ou mais tarde acontecer, não quer pensar muito nele. Apesar da tranquilidade que o seu casamento tinha no começo, depois de um tempo esfriou, sabia que tinha culpa primeiro por seu ciúme, que era um pouco possessiva, depois por sua frustrações por não conseguir engravidar, achava que como aconteceu com o sua irmã, o problema era com ela,algumas brigas entre eles eram inevitáveis, Alberto sempre foi paciente, ela foi sempre a explosão. Por isso quando descobriu a traição dele, a surpresa não foi tão grande, porque no fundo ela sabia que ele preferia fugir, omitir que enfrentá-la, nas brigas deles Alberto preferia calar e ouvir a ter um confronto, estavam em uma situação crítica quando enfim ela descobriu estar grávida, foi um alívio não só para ela, como a ele e a toda a família, o casamento parecia ter voltado ao seu curso normal, a gravidez foi comemorada com festa, a única que mesmo demonstrando alegria,compreensão e a ajudava em tudo, Vitória jamais esqueceu do olhar de Zilda sobre ela, foi um olhar que durou um segundo, um olhar não de inveja , mas de amargura, de sofrimento, foi tão rápido, mas ela jamais esqueceu, anos depois quando recebeu a notificação que ela tinha pedido a guarda de Emília, Vitória lembrou imediatamente daquela cena.
Mesmo ainda estando escuro, mas está sem sono, decide descer ao jardim, quem sabe ele poderia devolver a paz que ela precisa para descansar, as rosas sempre foram um acalanto para ela, ao passar pelo quarto da filha para por um instante, encosta a mão a ponto de bater, desiste e põe a mão na maçaneta, a tentação para abrir a porta é grande, mas reflete por uns instantes e desiste, passa a mão suavemente sobre a porta como se fizesse um carinho no rosto da filha e saiu, desceu as escadas e vai para o jardim
Emília não permitiu-se ficar mais tempo que o normal na cama, Vitória a fez esgotar todas as suas energias, dizer o que sempre pensou, o que sempre carregou em seu coração foi um alívio até o momento em que pôs a cabeça no travesseiro, nem o banho quente e demorado a livrou da tensão do embate com a mãe, cenas de sua infância e do ocorrido a noite misturavam-se, fazendo com que ela não dormisse bem, mas pior que isso foi a última frase dita pela mãe sobre não ter sido dela a decisão de deixá-la, que teria que falar com a tia. O que Vitória quis dizer com isso, não sabia, mas temia que iria se machucar com o que viesse a descobrir, mas queria sim falar com a tia. Ao se olhar no espelho suas olheiras são visíveis tenta mascarar o melhor que pode com base e corretivo, sempre gostou de maquiagem leve, e assim faz, pega os óculos escuro, isso irá ajudar a esconder a noite mal dormida.
Desce e a mesa já está pronta para o café da manhã, sem sinal da mãe e com a barriga exigindo alimento, pois não come desde o almoço, fato esse que só percebe ao ver a mesa farta, dá graças por não ter passado mal. Senta e Anitta logo aparece.
— Bom dia Anitta.
—Bom dia Emília.— ela está com uma bandeja pré-preparada, ela pega mais algumas coisas da mesa.— Estou preparando o café de dona Vitória.
— Hmm— Emília que está de boca cheia nem tem tempo de perguntar pois a empregada foi mais rápida.
— Ela está bem abatida, a encontrei a pouco indo para o quarto, parece que estava no jardim. — ela vai falando e colocando alimentos na bandeja, Emília finge falta de interesse, mas não resiste em perguntar.
— Ela estava no jardim ?— ela toma um gole de suco, limpa a boca com o guardanapo— Digo ela não dormiu?
— Acho que não, pelo menos era o que aparentava, fiquei preocupada com ela, parecia estar muito cansada— Anitta diz pois queria muito ver elas duas de bem, claro que ouviu a discussão das duas, era impossível não ouvir e se sensibilizar com as duas, muita mágoa e mal entendido havia entre elas, se puder de alguma forma ajudar é o que fará, e continua— Acha que devo acrescentar algo na bandeja?
— Deixa eu ver— Emília olha, saber que a mãe tinha passado a noite em claro, forma um nó em sua garganta, olha para a bandeja e diz— Ela gosta de maçã, coloca uma.
E assim ela faz, e sobe as escadas com cuidado, Emília termina o café apesar de o nó ainda estar ali, pensa que poderia subir até o quarto da mãe, mas decide deixá-la descansar, já tinha sido muita coisa no dia anterior, sai da mesa e pega sua bolsa põe os óculos e sai, Ariel já a espera pronto ao lado do carro, após os cumprimentos ele abre a porta para ela.
— Seu Ariel um minuto— ela diz ao ver o motorista dar partida no carro, ao ouvi-la ele para instantaneamente, uns segundos de silêncio, ela pensa em ir a casa da tia, tirar o que a mãe disse a limpo.
— Dona Emília. — Ariel gentilmente a chama.
— Nada não seu Ariel, podemos ir para a empresa.— desiste pois lembra que tem uma reunião logo cedo com os advogados, mas no fundo ainda não estava preparada para debater com a tia.
Na empresa o tempo parece voar a reunião com os advogados mostrou que de fato Bernardo era mesmo filho de Marina,a mulher que o pai se envolveu, e que Alberto mais tarde reconheceu como filho. Emília tenta não demonstrar o quanto isso a toca, deixa a pasta com informações dele de lado. Ela dá a reunião por encerrada e um dos advogados pergunta.
— Devemos ligar para o senhor Bernardo?
— Como assim?— ela diz, está ainda um pouco confusa pela confirmação sobre a vida de Bernardo, ter convivido com o seu pai, por de certa forma estar no lugar que era dela, era um pouco infantil pensar dessa forma, mas não podia evitar.— Não acha que seja preciso.
— Se ele veio até a empresa como representante do senhor Alberto, vai querer estar presente, vai querer estar por dentro de tudo o que passa aqui, afinal deve ser esse o motivo de ter vindo, e não podemos negar isso visto que a documentação que ele trouxe é legal.— o advogado de longa data foi crítico e claro em dizer, ela sabia que ele estava certo, por mais que não queira dar o braço a torcer, finaliza.
— Deixa que eu ligo para ele e descubro o que quer.— eles se despedem e o advogado se retira. Carola entra com alguns papéis e Emília pede algo para comer ali mesmo, pensa em como deve estar a mãe, pega no bloco de anotações o número de Bernardo, ainda pensando na mãe, pega o telefone, disca, toma um susto quando ao telefone do outro lado da linha é atendido e ao invés de ouvir a voz de Bernardo ouve a voz de Anitta.
— Anitta? — Emília diz surpresa.
— Sim, Emília? — a empregada diz, então Emília dá conta da confusão que fez, por estar pensando na mãe, acaba ligando por engano para casa.
— Oi Anitta.— meio sem jeito continua.— Como estão as coisas aí?
— As coisas aqui ?.— Anitta estranha a ligação e mais ainda a pergunta da patroa, mas percebe que ela ligou para saber da mãe e está tímida, mas ela não vai entregar de bandeja as informações, quer ouvir ela formatar a pergunta.— Está tudo bem, Rosa quer saber se quer algo em especial para o jantar e Ariel está lavando o carro— Anitta diz coisas comum de uma casa, o que Emília não está nem um pouco afim de saber.
—Diga a Rosa que ela pode seguir com o cardápio normal, e não quero saber do carro.
— Desculpa quando perguntou das coisas aqui achei ser isso que queria saber— ela diz inocentemente e com uma vontade enorme de rir, mas se controla..
—Vitória,como ela está?— com um suspiro ela fala, antes de perder a coragem.
— Ah, dona Vitória, ela tomou o café da manhã, ajudei ela a trocar o curativo da mão, e ainda dorme, logo mais vou acordar-la para que coma mais alguma coisa.
— Está bem, muito obrigada Anitta.
— Mais alguma coisa?
—Não obrigada— antes de desligar ela pede— Anitta qualquer coisa sobre ela pode me ligar, até mais.
Emília desliga o telefone e não se permite pensar mais nisso, pega novamente o telefone e liga para Bernardo, determinada. No segundo toque ele atende.
— Alô.— e aquela voz ao seu ouvido, trás a mesma sensação do hotel, involuntariamente, seu corpo prende o ar, e seu coração dá uma leve acelerada, mas a sua razão se sobressai.
— Bernardo é Emília Beraldini.— diz querendo ser o mais impessoal possível.
— Olá Emília Beraldini, como vai?— ele fala com o tom travesso.
— Então liguei para marcar uma reunião entre nós.— ela propositalmente ignora a pergunta dele sobre seu bem estar.— Podemos marcar amanhã se não tiver problema para você.
—Por mim pode ser hoje mesmo, estou com o tempo livre.
— Mas eu não…
— Aposto que será só alguns minutos, visto que você só vai afirmar o que eu já tinha lhe dito, que a documentação é legal e posso representar meu..o Alberto— sabe que chamá-lo de pai só vai irritar mais ela.
— Que seja, vamos dar andamento isso de uma vez, só um minuto.— ela consultou no computador sua agenda, realmente não há muita coisa marcada, mas não dirá isso a ele.— Vou remarcar um compromisso para amanhã, pode vir lá pelas 16h.
— Então combinado, estarei ai.— ele não perde a oportunidade e completa— Agora responda a minha pergunta.
— Que pergunta?
— Se você está bem, sua voz está diferente.
— Diferente? como pode saber disso se mal me conhece.
— Mas o pouco que conheço, lembra de uma voz tão doce quando o perfume que usa, ou tão suave quanto o toque dos seus dedos…
—Até mais Bernardo.— ela sem esperar ele terminar desliga o telefone, como ele pode falar assim com ela, como era audacioso, e prepotente, se ao telefone ele era assim imagina o que esperava por ela nessa reunião.Carola bete e a porta com a refeição dela.
Bernardo estava mais ansioso que gostaria quando chegou a empresa, foi levado prontamente a sala de Emília quando se identificou. Carola o recepcionou, bateu a porta da patroa e minutos depois ela permitiu a entrada dele. Com passos decididos ele adentra a sala dela, que está sentada à sua mesa, cabeça baixa lê um documento, óculos de grau que ele não sabia que ela usava, mas que dava um charme a mais a ela que assina rápido o um documento.
— Olá Emília.— ela levanta a cabeça para olhá-lo, tira o óculos, ele percebe leve olheiras, mesmo ocultas pela maquiagem, e não sendo um expert em pele de mulher percebeu, sinal que ela estava preocupada ou dormindo pouco.
—Oi, pode sentar, por favor— ela faz um gesto com a mão para a cadeira a sua frente, ele senta, o telefone dele toca, Bernardo pega e olha para a tela, Emília fica olhando por uns segundos para ele, não podia deixar de sentir um frisson por o ter tão perto, ele desliga o aparelho.
— Desculpas.— ele guarda o celular.
— Tudo bem, aceitar beber alguma coisa.
— Não obrigado.
— Bom Bernardo, pedi que viesse aqui para perguntar o que deseja?— ela fala sem rodeios.
— Como assim?— a forma direta com que ela fala o pega de surpresa
— Você veio até aqui por algum motivo, quero saber qual seria.
— Só vim para estar por dentro da empresa, sou formado em administração, acho que posso ser de alguma ajuda.
— Você acha— ela fala com desdém, ele sabe que isso é só uma defesa, uma forma de atingi-lo.
— Sim acho, ajuda nunca é demais, por mais forte que aparentamos ser contar com ajuda é sempre bom.— ela sente uma leve alfinetada no que ele diz.
— Conselho bom, quem te ensinou, sua mãe?— ela sabe o quanto isso pareceu birrento, mas não pode evitar, entre outros dons tirar ela do sério era o que mais fazia ela perder o controle.
— Não foi meu pai.— ele a vê arregalar os olhos e ficar marejados, ela levanta da cadeira.
— Lembro o quanto ele era bom em dar conselhos, pena que o principal que me deu não seguiu, o ser fiel.— fala isso e virá para a janela, para ter tempo de limpar os olhos.Ele entende bem o recado.
—Por que não pergunta de uma vez?
— O quê quer dizer?— ela vira para ele, que se põe de pé.
— Sobre seu pai, pergunta logo de uma vez onde ele está e acaba com isso.
— Acho que você não tem nada com isso.
— Estou nisso tanto quanto você.— Bernardo enfatiza, ela começa rir, ele fica sem entender.
— Você está mesmo se comparando a mim, — continua a rir, mas não é um riso de graça ele percebe ser um riso de desespero e se aproxima devagar dela— Você não sabe pelo que passei, as dores que sofri, as ausências de pai e mãe, saber que os dois me deixaram — o riso dá lugar a um chora que não pode segurar, ele chega bem mais perto e toca em suas mãos, ela segura, ele a puxa para um abraço, a aperta forte, ela não resiste, o que Bernardo entende como ela deve estar muito fragilizada.
— Desculpas— toca suavemente as mão nas costas dela por alguns minutos ficam assim, o choro vai acalmando, ele a senta em uma cadeira e vai até a secretaria e pede água, que prontamente foi atendido, ele não permite que ela entre e veja Emília daquele jeito, volta com o copo e fecha a porta, ela bebe pausadamente, assim ganha tempo para se recompor.— Você quer conversar?
— Não —ela levanta, coloca o copo sobre a mesa e senta em sua cadeira novamente— Mas obrigada— tinha que aceitar que mesmo a irritando ele a acalmava.
— Tudo bem — Bernardo prefere não insistir, não é o momento— Vamos combinar o seguinte, vou evitar de falar do meu...de Alberto, quando você quiser, você pergunta, não vou teimar nesse assunto, e evitar mencioná-lo, sei que isso é duro para você, só vou falar mais uma coisa sobre isso — ele já está sentado em frente a ela, que revira os olhos — Eu assim como você não sei de toda a história, eu só conheço o lado dele, assim como você só conhece o seu lado ou do que te falaram, em algum momento o querer esclarecer tudo vai falar mais alto em você, só não deixa ser tarde demais.
— Algum outro conselho ?— Emília pergunta querendo dar por encerrada aquele tipo de conversa, ele balança a cabeça.
— Não acho que já foi muito por hoje,você já voltou ao que era— Bernardo levanta, ela também, ele estende a mão— Amanhã volto aqui.— ela concorda, estende e segura a mão dele.
Ela e ele ficam se olhando, como ele conseguia isso, ser tão diferente de um segundo ao outro ou era ela quem estava tão estável Emília pensa, Bernardo não pode deixar de notar que ela novamente se fecha, pensa em quanto esforço tem que fazer para ter que ser durona em um momento assim, a vontade que tem é de abraçar e não soltá-la nunca mais, alguém bate a porta eles soltam a mão, Bernardo vai até lá e a destranca, Carola entra e com o olhar parece indagar se está tudo bem, afinal estavam a muito tempo a sós.
— Com licença, até amanhã Emília— Bernardo deixa a sala, com um suspiro Emília volta a sentar, sua mão ainda suando como se ainda tivesse a mão dele segurando a sua.
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