Logo após o médico sair, Vitória posiciona a poltrona que ali tem ao lado da cama da filha, decide não ligar para a irmã, afinal Emília está bem, e quer tentar cuidar da filha sem a interferência e presença de Zilda, apesar de agora Emília estar levemente sedada, pois o médico disse que ele acordou estava muito desequilibrada e nervosa, arrancando o soro diversas vezes, tentando sair da cama, ele aplicou um calmante que a faria dormir por algumas horas e assim e assim se recuperar mais tranquilamente.


Vitória levanta o lençol que a cobre e pega em sua mão, percebeu as marcas roxas onde foi aplicado o soro e a filha tirou, faz um afago ali, Emília sempre teimosa, mesmo dormindo ela tem uns sobressaltos, balbucia o nome do pai e de um desconhecido “Bernardo”, Vitória não sabia quem era, mas o nome não soa estranho, quem será que era? , mas esquece pq Emília diz e chama mais de uma vez pelo nome do pai, Vitória acaricia o rosto e cabelos da filha para tentar acalmá-la, o que será que tinha acontecido para ela estar assim, não sabia, conhecia tão pouco do ser que cresceu dentro de si, lembra de uma música que cantava quando Emília era pequena, começa timidamente a cantar, a filha parece ouvir e a ter o sono mais calmo, mais sereno.


Estava amanhecendo quando Emília desperta, o lugar onde se encontra tem uma claridade suave, não percebe de imediato onde está, mas é o cheiro inconfundível que a faz perceber que está em um hospital, há algo segurando sua mão, olha para o lado e vê a mãe dormindo, por um segundo ela se comove por esse gestos, muitas e muitas vezes quis ter essa cena para si, sua mãe a beira de sua cama cuidado dela, moveu-se inquieta, um gesto que faz Vitória despertar, olhando automaticamente para a filha, sorri levemente ao ver que ela já acordou, aproxima-se mais da filha.


— Oi minha filha, como está se sentido?— Vitória toca o rosto da filha, Emília se surpreende pela suavidade do toque, olha para os olhos da mãe, seus olhos tinham a mesma cor, sabia que tinham a mesma intensidade, foi por alguns segundos que ficaram assim, se olhando, Emília tenta sentar.— Cuidado minha filha, cuidado.— mas a filha não dá ouvidos e mesmo com um pouco de dificuldade consegue sentar.

— Estou bem— diz rispidamente sem olhar para a mãe, vê que recebe soro por um de seus braços.— O quê aconteceu?

— Você desmaiou na escada, estava com princípio de desidratação— Vitória não tira os olhos da filha, — Ficou muito tempo sem comer e principalmente sem beber líquidos.— diz com um certo tom de cobrança.

— Que horas são agora? — Emília tenta desconversar.

— Ainda está muito cedo — Vitória olha no relógio — 5h30 da manhã.

— Preciso ir embora. — Emília diz puxando o lençol.

— Não mesmo, você não pode. — Vitória tenta repor o lençol na filha.

— Ah eu posso e eu vou sim. — Emília toca a campainha, ela sabe que isso vai fazer uma enfermeira aparecer logo, ela volta a tirar o lençol do corpo, e põe as pernas para fora da cama.

— Emília minha filha, você tem que repousar. — Vitória tenta mas Emília parece não lhe dar ouvidos e levanta mesmo assim da cama.

— Eu tenho que ir. — ela sente uma tontura ao pôr os pés no chão, mas disfarça e apoia-se no porta soro — Onde está as minhas coisas? — ela vê um armário e vai até lá

— Você precisa da alta do médico e…

— Mesmo sem autorização eu irei sair — ela pega as sua roupas e com dificuldade vai em direção ao banheiro.

— Emília…Não. — Vitória vai até ela e tenta pegar as roupas da mão dela, Emília puxa de volta. — Emília …

— Solta… — ela tenta manter as roupas consigo

— Emília…

— Mãe…. — e elas param o puxar a roupa, pois Emília percebeu que era a primeira vez que a chamava de “mãe” espontaneamente sem ironia ou sarcasmo, ela fica sem ter o que dizer, Vitória se emociona mesmo sem querer lágrimas formam em seu olhar.


O momento é quebrado pela porta que abre e a enfermeira que entra .

— Com licença, mas está tudo bem?

— Sim está — Emília é rápida em dizer — Estou bem e gostaria de receber minha alta.

— Só o médico pode fazer isso, após uma avaliação na senhora.

— Por favor, pode chamá-lo. — Emília tenta não olhar para o olhar que Vitória tem sobre ela.

— Mas senhora Beraldini não acho…

— Seu nome?

— Clara.

— Pois bem Clara irei sair desse hospital com ou sem autorização do médico, vou entrar no banheiro e me trocar e gostaria de que ao sair ele esteja aqui, muito obrigada por sua atenção e cuidados. — sem esperar por resposta da enfermeira ou por protestos da mãe entra no banheiro.

Fecha a porta e se escora para poder se recuperar, a sua vida estava virando de cabeça para baixo, seus sentimentos pareciam andar de montanha-russa, estão fora de controle, consegue tirar o soro do braço, se despe da camisola do hospital e entra para debaixo do chuveiro, onde toma um rápido banho.


Mesmo Vitória não querendo e tentando persuadir, Emília aparentemente estava bem, era de maior e assinou o termo de responsabilidade, o médico faz várias ressalvas e uma hora depois elas estavam sentadas lado a lado no carro indo para a casa. Emília evitando olhar para a mãe, ao chegar em casa ela vai direto para o seu quarto, precisava tomar um banho decentemente no seu banheiro com as suas coisas. Vitória é abordada por Anitta.


— Dona Vitória, dona Zilda ligou e pediu para a senhora retornar a ligação o quanto antes, ela quer saber de dona Emília. — a moça passa o telefone para ela.

— Mas como assim saber de Emília?

— E que dona Vitória ela ligou para cá ontem de noite, logo após vocês saírem e acabei dizendo que tinham ido ao hospital — Anitta recebe um furioso olhar de Vitória, a moça tenta remediar — Me desculpa, mas...

— Tudo bem Anitta, tudo bem — a moça se retira, Vitória vai até o jardim para ligar para a irmã,que atende ao segundo toque. — Zilda bom dia

— Vitória graças a Deus, o que aconteceu? — Zilda trazia a preocupação na voz.

— Emília sentiu-se mal e levei ela ao hospital.

— E porque não me avisou , eu teria ido no hospital ficado com ela…

— Não havia necessidade Zilda, foi um pequeno mal estar e Emília estava com a mãe dela — Vitória não queria ter de dizer isso, mas quando disse a Zilda que tinha voltado para recuperar a filha isso era principalmente recuperar o seu lugar de mãe, e com Zilda presente seria impossível, seguiu um minuto de silêncio entre elas.

— E como ela está? qual o horário de visitas? se quisesse algo de casa eu teria pego não precisava sair do hospital.

— Sei que teria sido prestativa, mas você deve conhecer Emília e sua teimosia, quando acordou e percebeu estar bem, exigiu ter alta.

— Sim sei bem como ela é. — estava difícil para Zilda receber as alfinetadas da irmã, achou melhor dar o assunto por encerrado, depois ligaria direto para Emília — Então já que tudo se encontra bem nos falamos mais tarde, até mais Vitória.

— Sim até mais. — e desliga, ela fica pensativa olhando para o aparelho telefônico, sabia que deveria ter avisado a irmã, mas ela e Emília deveriam achar só um caminho para o entrosamento.

— Dona Vitória — Anitta a chama, ela se vira para a moça — A mesa para o café já está pronta.

— Sim obrigada, pode chamar Emília, por favor?

— Irei sim. — ela sobe as escadas e Vitória para a mesa.

Zilda faz o mesmo gesto da irmã olha o telefone.Luís chega de mansinho e põe suas mãos sobre os ombros da esposa.

— Então?

— Como foi informado no hospital, ela está bem e exigiu a sua alta. — Zilda diz triste para o marido, quando ela ligou para a casa da irmã na noite anterior e soube do que aconteceu com a sobrinha não sossegou até descobrir que hospital ela estava, conseguiu receber notícias, só não foi ao local porque Luís a impediu e antes de ligar para Vitória, tinha ligado para o hospital.

— E porque ligou para Vitória, se já tinha noticias?

— Queria que ela soubesse que eu estava sabendo do que aconteceu. — ela vira o corpo para olhar para Luís.

— Mas isso a deixou mais triste.

— E como não vai deixar Luís, Vitória nem se deu ao trabalho de me avisar,deixando-me completamente de lado, como se eu não tivesse o direito de saber o que passa com Emília, ainda mais algo relacionado a saúde, isso não se faz. — as lágrimas começam a vir sem que ela tenha o controle, o marido a abraça, dando o seu apoio.

— Eu entendo... — ele diz baixinho ao o ouvido dela, uns segundos depois percebendo a mais calma em seus braços, ele a puxa para olhá-la — Zilda devemos dar espaço a elas, sei o quanto é difícil para você, mas precisamos deixar Vitória tomar conta da situação e apoiar Emília. — novamente ela começa a chorar e Luís a puxa para um novo abraço.


Emília desce as escadas e vai em direção a porta, sai sem que a mãe perceba, não está afim de um novo debate e muito menos de ir tomar café com ela, entra no carro rapidamente e quando ele passa pelos portões da mansão e que ela olha para trás e vê Vitória para na porta com o rosto contrariado.

Ela pede a Ariel que pare em um lugar onde ela possa tomar o café da manhã sossegada, o dia será muito corrido e complicado.