O Passado Sempre Presente.
12 Capítulo 12
E como o tio tinha falado, os advogados confirmaram, que os papéis eram legais, não demorou muito para chegarem a essa conclusão, um pouco antes do almoço a legalidade dos documentos foi oficializada, Emília mesmo assim pediu uma investigação sobre a vida de Bernardo, a desculpa era para saber se ele era mesmo filho de Alberto, Luís não gostou nada disso, mas se manteve calado, sentia ter algo a mais nessa história.
— Quero tudo isso na minha mesa amanhã — os advogados apenas confirmam com a cabeça, os anos trabalhando para Emília sabiam que não adiantava argumentar que o prazo para tal atividade era curto demais — Por hoje está tudo encerrado. — todos se retiram.
Carola entra com alguns documentos para ela assinar, só quando entrega os papéis para a secretaria que percebe o tio ainda sentado na mesa de reuniões.
— Obrigada Carola.
— Dona Emília, sua mãe ligou e perguntou se a senhora almoçou...
— Diga a ela que sim.
— Eu disse, mas ela não acreditou em mim, quer falar com a senhora.
— Depois ligo para ela — Emília olha para o tio que a olha de volta com um semblante sério, fazendo-o que ela repense — Carola espera, peça algo que vou comer e por favor, algo leve, obrigada. — a moça sai
— Diga Luís. — ela fala sem tirar os olhos dos papéis que está avaliando.
— Você não deveria estar aqui, passou a noite no hospital.
— Estava esperando quanto tempo o senhor iria demorar para indagar isso — ela sorriu ainda olhando para a papelada—Na verdade eu jurava que iria ver o senhor e tia Zilda no hospital.
— Não fomos avisados. — ela olha para o tio surpresa — Vitória disse não ser nada grave por isso preferiu tomar conta da situação sozinha…
— Sim como uma boa mãe — Emília interrompe o tio e levanta da cadeira.
— Não é hora para ironias Emília e nem tente mudar o rumo da conversa, conheço os seus truques, você deveria estar em casa.
— Como minha mãezinha disse não foi nada grave.
— Emília…
— Tio eu fiquei sem comer e desmaiei, só isso — ela se posiciona atrás da cadeira do tio, colando as mãos em seus ombros. — Não há porque ficar preocupado. — e dá um beijo carinhoso na cabeça daquele que sempre terá um carinho de pai.
—Qualquer ida ao o hospital é motivo de preocupação e cuidado, portanto por mais birra que tenha de sua mãe, almoce, alimente-se, aliás você sempre foi boa de garfo. — ele sorri e ela dá uma gostosa gargalhada, ele puxa a sua mão e a conduz na cadeira ao lado da sua, Emília tem o rosto corado, mas uma tristeza no olhar que ele sabe que ela tenta disfarçar, com a mão dela ainda na sua, ele pergunta — Como você está?
— Estou bem, foi só um susto, vou comer direitinho, prometo — ela diz cruzando os dedos e pondo sobre os lábios, um juramento que os dois faziam.
— Você sabe que não falo disso. — ela dá uma respirada profunda, e fecha os olhos — Você disse algo a Vitória?
— Não tem muito o que eu dizer para ela, que a muito deixou a empresa de lado assim como fez com a filha. — diz com a mágoa de sempre, tentar tirar a mão que o tio prende entre as suas, mas ele a segura com força.
— Emília, por mais irritada que você esteja com ela, e que você tem as ações da empresa, ainda assim Vitória tem o direito de saber, porque a vinda de Bernardo significa que seu pai de certa forma voltou.
— Eu sei mas….
— Eu pediria a Zilda para fazer, para ter tal conversa, mas sua mãe a menospreza e a humilha de uma forma, que uma conversa desse tipo entre elas faria muito mal a sua tia.
— Pois diga o senhor, não me importo.
— Essa é uma conversa que diz mais a respeito a vocês duas, que eu acho que será difícil, mas importante…
— Mas tio… — alguém bate na porta, Emília autoriza a entrada e Carola entra com o almoço dela.
— Sei que você irá se sair bem — ela dá um beijo na bochecha da sobrinha — Se precisar depois que falar com ela, podemos conversar, tchau. — e ele sai a deixando com a cabeça fervendo.
Bernardo chega a clínica, já é conhecido pelas pessoas que ali atende, vai direto para o quarto. Seu pai dorme, não é um sono sereno, é agitado, com algumas palavras que ele não consegue decifrar, ele toca as mãos do homem que ama, seu pai, não pode deixar de pensar no quão forte e ativo ele era, apesar de suas crises e oscilações de humor, ele foi um ótimo pai, o melhor que podia e queria ter, lembra das vezes em que o pai ensinou algo, ou as conversas que tiveram, o conselho quando ele foi para a faculdade. A esse pensamento não pode deixar de pensar no que Emília não teve, o que ela perdeu, ele não pode deixar de ficar um pouco triste, nem Bernardo nem ela, tiveram culpa de tudo ter sido dessa forma, olha o pai que ainda dorme, pensa no olhar de tristeza que ele tinha às vezes, e como foi ouvir dele a primeira vez sobre Emília e a história que ele carregava sobre os ombros.
Bernardo lembra que foi logo depois de completar vinte anos, tinha voltado para a casa em um feriado e uma folga das aulas da faculdade. O pai estava na garagem, carregava um álbum de recortes, ele sabia quem estava naquelas páginas, Bernardo já sabia de Emília, mas mais pelo que lia e acompanhava no jornal, revista e notícias na televisão do que algo que o pai ou mãe tenham dito.
Ele aproximou-se devagar, via que o pai olhava calmamente cada página, alisando com carinho o rosto daquela menina que já se transformava em mulher, ela era dois anos mais nova que Bernardo, ele ouviu um choro, o que o deixou mais triste, coloca uma mão nas costas dos pai.
— Pai o que está acontecendo? — o pai deu um pulo da cadeira, assustado por ter sido “pego”.
— Nada meu filho, nada — rapidamente ele passa as mãos no rosto para limpar as lágrimas, Bernardo não vai deixar a oportunidade passar, pega uma cadeira e senta de frente ao pai.
— Por favor me diga, não deixa que eu fique com a versão que a mídia conta. — aquilo deixa Alberto mais espantado — Pai, eu quero que o senhor me diga tudo, não vou julgar ou condenar o senhor, a mamãe ou quem mais estiver no meio disso tudo, quero só ouvir o que o senhor tem a contar — ele vai às lágrimas novamente.
Bernardo o ampara em seus braços, os papéis se inverteram, não era Alberto quem o tinha em seus braços e o ajudava era o filho quem lhe estendia a mão. Jamais imaginou que o filho pudesse saber de algo de seu passado, mas que tolice a sua ele era um garoto esperto e a sua história a muito que estampou jornais e revistas, mas o que o deixou mesmo comovido e emocionado foi a forma madura que ele disse e o apoio que ele deu, digno de um homem, não era mais o seu garotinho, era um homem e de homem para homem ele iria conversar com ele sem esconder nada.
—Você bem sabe que quando eu conheci sua mãe eu era casado — começou ele, logo após a emoção passar. — Eu amo a sua mãe, amo você, mas antes de vocês eu tinha outra vida, outra esposa e uma filha, é Vitória o nome da minha ex-mulher e Emília o nome da minha filha — Bernado ainda lembra da sensação que sempre tinha ao ouvir o nome dela, ainda hoje tem esse frisson, ainda mais depois de estar com ela e de beijá-la, mas ele não deixa esses pensamentos chegarem e volta ao passado, a narrativa do pai. — Eu conheci Vitória muito jovem, foi uma paixão à primeira vista, hoje sei que foi por paixão que nos envolvemos rapidamente, que a paixão nos moveu a casar tão rápido,o pai de Vitória tinha uma empresa que não andava bem das pernas, após o casamento fui convidado a ajudar na administração, pois era a área em que tinha me formado, juntos erguemos e aumentamos os negócios, indiferente ao casamento adquiri uma pequena porcentagem ao qual ganho ainda hoje os lucros, quero deixar claro que não casei por isso, por dinheiro, se por um lado nos negócios as coisas andavam bem, em meu casamento nem tanto — ele faz um pausa, Bernardo não quer interromper e se mantém calado, com um olhar sereno, pois é disso que o pai precisa — Vitória sempre foi muito intensa, decidida, muito ciumenta e teimosa, quando colocava algo na cabeça era difícil tirar, antes da minha ida para a empresa do pai era ela quem o ajudava, depois que entrei ela saiu, deixando para mim, seu pai e seu cunhado que veio depois, ela disse que queria ser dona de casa, mulher de empresário, mãe de família, as duas primeiras coisas ela era, mas a terceira e mais importante, ser mãe, ela ainda não tinha conseguido ser, já estávamos casados a quase quatro anos, a paixão que antes me movia, já tinha amansado, deu lugar ao amor calmo, mas isso era só do meu lado, pois ela ainda tinha essa chama acesa acompanhada de um ciúmes que a cada dia estava maior que o amor que eu sentia e por essa paixão e esse ciúmes fazia loucuras e por isso estava desgastando o nosso casamento, junto com a frustração de não engravidar, ela estava em um estado em que eu chegava em casa e não sabia se sairia vivo, tudo em mim era investigado, minhas roupas, bolsos, pasta, tinha dias que nem tinha vontade de voltar para a casa, meu sogro achava que aquilo seria passageiro, que ela estava ociosa e quando engravidasse essa loucura acabaria. — Alberto tem um copo de água nas mãos, tenta não ficar olhando para ele, quer olha nos olhos do filho, a vergonha o faz desviar os olhar algumas vezes, mas ele continua. — Em uma viagem conheci sua mãe, senti algo diferente, não era uma paixão avassaladora, era mais em querer estar perto dela, consegui conversar com ela, enfim como deve imaginar nos envolvemos, foi um final de semana que mudou tudo, nunca tinha traído, e nem sei como consegui manter um caso, os primeiros meses foram os mais difíceis, sua mãe me pressionou a largar Vitória, eu mesmo não queria mais aquela vida dupla, aquelas mentiras, o casamento estava cada vez mais complicado, quando decidi pôr um fim nele Vitória anunciou a gravidez, meu mundo desabou, a gravidez dela era de risco ela não podia fazer qualquer esforço ou ter aborrecimentos, por isso não consegui me separar, sua mãe não aceitou, ficamos um tempo separados, voltamos a nos ver quase dois anos depois.
— Como não lembro disso — Bernardo se vê obrigado a interromper.
— Você era pequeno, pouca coisa você se lembra quando tinha quatro ou seis anos, imagina com dois ou três no primeiro período que eu e sua mãe nos envolvemos.
— Está certo, continue pai por favor.—Bernardo pede, Alberto toma mais um gole de água, a outra parte seria mais difícil de contar.
— Quando Emília nasceu, Vitória se acalmou, eu voltei a ver o pouco da mulher pela qual tinha me apaixonado, mas não era a mesma coisa, não depois da sua mãe, mesmo sem nos ver, faltava algo em mim, o que vim achar quando nos encontramos, mas não conseguia sair do meu casamento, por causa de Emília, assim pensava, sua mãe mesmo pressionando, não me separei, sei que fui um canalha, um fraco, até mesmo sem caráter, se fosse hoje tudo teria sido diferente.
— O senhor ficou casado e com a minha mãe ao mesmo tempo? — Bernardo não se controla e pergunta.
— Sim meu filho, fui fraco, muito fraco, peço perdão a você assim como pedi a sua mãe e a Vitória. — ele percebe a decepção nos olhos do filho, mas resolve continuar — Foram quase dez anos nessa vida de mentiras, até que um dia Vitória descobriu, foi uma noite terrível, ela fez o inevitável me colocou para fora, não deixou eu ter contato com Emília, nunca mais, eu a via de longe, eu tinha uma restrição de não me aproximar, ela com os advogados que tinha, transformou-me em um monstro, eu tentava de todas as formas reverter isso na justiça mas era impossível, ela e a sua família eram influentes, foi a vingança dela, me atingir onde mais doía, um tempo depois, em uma tarde apareceu na casa em que morávamos, estava descontrolada, fez ameaças a mim, a você, sua mãe ficou furiosa, tive que tirar ela de casa para poder conversar com Vitória, foram minutos de agonia, mas que por ver como ela estava, eu tive esperança de poder usar isso contra ela no tribunal e poder ver Emília, mas horas depois soube que ela tinha sofrido um acidente de carro, e que Emília estava junto com ela, fiquei assustado mas aliviado por saber que as duas estavam bem, pude ver Emília mas ela estava dormindo profundamente por causa dos medicamentos, não me viu, mas só em passar aqueles minutos com ela foi o suficiente, por saber a forma como Vitória tinha saído de nossa casa, tinha certeza que a culpa era dela, pretendia levar isso ao juiz e reaver a guarda de Emília, mas para a minha surpresa ela me acusou de armar o acidente, no posto onde ela deixou o carro, uma testemunha viu uma figura desconhecida com um casaco parecido com o meu, claro que não era eu, que eu jamais faria isso, mas eu só tinha a Vitória como testemunha que estávamos juntos, eu a acusei por seu descontrole, o laudo do acidente foi inconclusivo. Os tios pediram a guarda de Emília, Vitória aceitou, eu não podia fazer muita coisa, aceitei também, estava com a minha honra e nome manchado, pedi a eles que não a deixassem procurar por mim enquanto eu não provasse a minha inocência, abri mão da coisa mais valiosa de minha vida, mas por toda essa história eu não poderia ficar frente a frente da minha filha e olhar em seus olhos.
Bernardo sente a mão do pai apertando as suas, o presente o trazendo de volta, ele olha e sorri para o pai, que sorri de volta.
— Oi pai — ele beija a mão do pai, que passa a mão em seus cabelos. — Como o senhor está?
— Ainda vivo — ele diz baixo — Se essas enfermeiras que me entopem de remédios permitir.
— Papai elas fazem para o seu bem. — ainda doente ele fazia graça, ele olha sério para o pai e desvia o olhar.
— O que está me escondendo ? — o pai o conhecia, não tinha como negar.
— Fui ver Emília.
Fale com o autor