O Passado Em Uma Pena

1 Lugares, passado, e pessoas que foram esquecidas


Notas iniciais
Primeiro capítulo criado em fevereiro de 2013, enjoy it.

Era um lugar em branco, eu não fazia a mínima ideia de onde estava. Simplesmente estava ali, caída no chão, no meio do nada.

Eu não me lembrava de nenhum sórdido detalhe da minha vida, nem de quem eu era, ou do meu passado. Era como um filme, onde a garota bate com a cabeça e adormecia profundamente, e depois acordava em uma dimensão nova, onde tudo era branco.

Eu me levantei e andei de um ponto ao outro, procurando uma saída. Mas era estranho: Eu não queria ir embora. Ali era o lugar mais calmo que eu conhecia, e embora eu não gostasse de calmaria, estava adorando a sina do lugar. Era como se eu precisasse estar ali, como se tudo fosse friamente calculado e estivesse nos planos de alguém.

Assustei-me ao ver uma sombra cinza. Mas o que aquele tom de cinza estava fazendo em uma imensidão branca? Eu não pude perceber sequer um feixe de luz.

Conforme a sombra se aproximava, formava-se uma forma dedutivamente humana de um homem, que caminhava em minha direção. Tinha jeito de vilão de novela, um sorriso maldoso, mas com um olhar calmo. Sua pele bronzeada, beijada carinhosamente pelo sol.

Ele se aproximou de mim, abriu um sorriso cheio de malícia e sentou-se num banco – pelo qual eu não havia percebido a presença.

– Você parece preocupada… – A voz dele era abafada, e desafinada, em busca de puxar um bom assunto. Tentativa falha.

– Estou bem, obrigada. – Eu realmente estava preocupada. Afinal, estava conversando com um rapaz que não fazia ideia de quem pudera ser, em um lugar onde móveis apareciam sem eu ao menos perceber. Sem contar que era um local em branco, totalmente vazio, parecendo fruto da minha imaginação. Isso não era normal.

– Você não parece bem. Qual é o problema?

Eu poderia dizer que a presença do homem estava atrapalhando a primeira vez na vida em que eu me sentia em paz, mas resolvi encará-lo. Fazia muitos anos que eu não conhecia pessoas novas, e agora soava como a chance perfeita.

– O que você tem a ver com os meus problemas?

– Talvez eu seja o fim deles.

Respirei fundo. A ousadia do estranho estava começando a me perturbar. Pessoas curiosas me rondavam há muitos anos, e a minha falta de respostas tornava-me distante de novas relações.

– Quem é você? – Eu perguntei realmente intrigada.

– Esta é uma pergunta que eu sempre me faço. Para quê dar descrições se as pessoas tiram suas próprias conclusões?

Ele calou-me com facilidade. Interessei-me na laia do rapaz e sentei-me ao seu lado.

– Tudo bem. Você pode ao menos dizer-me seu nome? De onde vem?

– Sobre você. Sei mais sobre você do que sei de mim… Lastimável você não lembrar-se daqueles tempos difíceis.

O rapaz não sabia nada da minha infância. Não era possível, nem eu sabia. Depois de perder meus pais, tive quedas psicológicas onde perdi a memória. Quando era criança, ouvi as freiras do orfanato a qual eu pertencia, que pela quantidade de remédios que eu tomava, seria realmente impossível de me lembrar de qualquer acontecimento. E certamente, eu não havia lembranças. Nem sobre alguma casa, um vestido ou um passeio no parque com a minha família. Nada restara. Então quando completei dezoito anos, despertou em mim uma vontade de descobrir quem eu era. Corri atrás de parentes — os mais distantes que pude — e a única lembrança que recuperei, estavam em formatos de desenhos que eu fazia em tardes chuvosas.

– Você não sabe nada sobre mim. Você não pode saber. – Eu o encarei com um olhar desafiador

– Sei sim, mais do que você imagina. Observei-te de vários ângulos naqueles tempos. Tu se lembras de algum Ariel?

Ele não poderia estar falando sério. Quando eu era pequena, tinha em torno de uns cinco anos, eu desenhava. Modéstia parte desenhava muito bem. Era um meio de eu escapar das guerras e conflitos que o meu país estava vivendo, escapar das mortes incontáveis que atingiam a minha família, escapar da fome, da tristeza, da solidão. Ariel estava em todos os meus desenhos, era o meu melhor amigo. Pena que eu nunca o vi, nem de corpo, nem em sonhos, nem em nenhum outro lugar. Apenas em meus desenhos, meus refúgios.

– Claro que lembro. Como o conhece? — o medo tomou conta de mim. O rapaz desbloqueou muitos pensamentos antigos sobre o tal Ariel.

– Prazer em finalmente conhecê-la, Mariana. Meu nome é Ariel.

– Não pode ser. – comecei a rir – Isto é um sonho, não é? Ninguém conhece o meu Ariel, eu era apenas uma criança. Ele não existe, muito menos esse lugar.

– Eu existo sim, menina teimosa. Você que não era capaz de me ver. Agora que libertou-se do medo e consegue voltar, vai abrir mão da sua paz?

– Me dê uma prova.

O homem que dizia ser Ariel tirou do bolso um desenho que fiz num pedaço de madeira. Lembrei-me instantaneamente daquele vestígio, como se ele tivesse colocado tal lembrança em minha mente. Eu estava prestes a morrer, então fiz meu último desenho, com o meu próprio sangue numa casca de madeira que estava em meu alcance. Estava lá eu, Ariel, mamãe e papai. Os dois tinham asas, pois eu acreditava que pessoas mortas viravam anjos.

– Mas como…? – Eu fiz uma pergunta, mas para dizer a verdade, pela primeira vez não procurava uma resposta. Eu me sentia nas nuvens, era tão bom reencontrar um amigo. Ele me deu um abraço. Quase me sufocou. Estávamos há anos sem nos ver, quer dizer, eu não o desenhava há anos.

– Você se lembra, Mari, de quando você me desenhava, ficava contando-me sobre o quão complicado era a sua vida? Com apenas cinco anos de idade?

Era muito bom desenhá-lo, e agora sentir os braços dele me envolvendo, era melhor ainda. Uma mistura de felicidade e tristeza, para dizer a verdade. Tinha grandes chances de tudo aquilo ser um sonho.

– Então tudo isso é um sonho? Desenhos não viram pessoas… Viram?

– É um sonho sim. Mas sou real, eu existo. Você acreditou tanto em mim, que conseguiu me fazer viver, em seus sonhos. Assim que você acordar, vou sumir. Tudo aqui vai sumir. Mas se você se concentrar como fez da última vez, tudo pode reaparecer. Inclusive eu, se quiser.

– Mas é claro que eu quero! – Eu dei um sorriso de orelha a orelha. Até que tudo sumiu e o clarão da manhã invadiu o meu quarto.