O Passado Em Uma Pena
2 Ansiedade, Reinado e Promessas
Cinco da manhã. Eu acordei com um pulo na cama, como se estivesse caindo. Na última noite, sonhei com um amigo antigo.
Uma pena que eu não lembre muitos detalhes sobra a minha infância, pudera, a quantidade de remédios que afetavam o meu psicológico era vastamente incontável. A morte dos meus pais direcionou-me à um orfanato religioso, onde tive contato com muitas explicações — prefiro chamá-las de "suposições" — do que poderia ter acontecido comigo. Essa época foi silenciada pelo tempo, e despertada alguns minutos atrás, após o sonho com o meu único e fiel amigo, Ariel.
Levantei da cama e fui até a cozinha, tomei um copo d’água. Fiquei olhando o vidro da janela, procurando alguma coisa, ou alguém. Vi o Ariel lá, sentado na mureta que meu avô havia feito algum dia para mim. Não caí nessa ilusão. Eu sabia que quando estava com sono, sempre olhava pela janela e ficava procurando alguma coisa, e sempre encontrava. Ignorantemente, encontrava o que precisava. Seguiu-se então meu pensamento: Se eu quisesse vê-lo de novo, teria que procurá-lo em meus sonhos, e não no meu quintal. Voltei para a cama num pé só. A corrida pela casa à procura do meu quarto foi tão rápida que fez meu sono passar, voar para longe. Então foi a pior noite de todos os tempos. Fiquei revirando na cama até às sete da manhã, o horário em que o despertador tocava e me mandava voar para o trabalho.
Eu não tinha outra escolha, saí da cama e tomei um banho bem gelado, sem saber o que era real e o que era ilusão da noite passada. Há tempos eu havia trancado Ariel num baú. E prometi a mim mesma que nunca mais o veria de novo. Isso deu certo, e muito, até ele aparecer em meu sonho, madrugada passada. Qual era o meu problema? Eu queria ou não vê-lo? Eu não sabia de mais nada, e não conseguia me concentrar em nenhuma atividade. Nem nos relatórios do trabalho, nem ao mesmo quando fui me servir de café, na hora do almoço. “Mas que coisa horrível, Mariana. Mais atenção, por favor.”
O dia passou lentamente. Parece que quando temos um evento à noite que estamos eufóricos para ir, o dia não passa. Ver o Ariel era a única coisa que eu gostaria de fazer na face da Terra. Desmarquei todos os meus compromissos, as festas, as noites de estudo, tudo, só para vê-lo esta noite. Mas eu estava com medo. E se eu não conseguisse “me concentrar” para vê-lo de novo? Eu não poderia jogar tudo o que eu tinha pelos ares só para vê-lo de madrugada, num sonho sórdido. Mas eu faria tudo para ter mais alguns segundos da minha infância presente comigo outra vez.
Quando o relógio marcou 22hrs, fui para a cama. Revirei ali, revirei aqui, e peguei no sono por volta da meia noite. Lá estava eu de novo naquele cenário em branco. Mas não havia Ariel, nem banco, nem tons de cinza, nem esperança. Àquela altura eu tinha certeza de que era tudo invenção da minha cabeça, uma armadilha.
– Pensou que era ilusão, não é mesmo? – Ele apareceu atrás de mim. – Não lhe culpo. Eu também não acreditaria.
– É, acho que sim. Mas agora pode me contar o que nós fazemos aqui?
– Este lugar não tem nada de especial para pessoas comuns. Já para você, voltar aqui ocorreu um impacto profundo – “voltar?” pensei – É aqui a sua paz. Um lugar que você construiu quando era pequena, e talvez você não se lembre. Só veio aqui duas vezes, e em nenhuma eu estava presente.
– Então como sabe de tudo isso?
– Eu moro na sua mente, Mariana. Ninguém é capaz de me bloquear de seus pensamentos. Não adianta, vou assombrar-te para o resto de sua vida. – ele estava falando num tom sério. Ele percebeu que fiquei assustada e começou a rir – Vocês humanos não têm senso de humor, não é? Estava brincando, minha rainha.
– Rainha? Pare com isso.
– Você também não se lembra de que se desenhava num trono, com coroa, sendo nomeada rainha? Você era a “Rainha de Lugar Nenhum”. – Meu deus, que nostalgia! Eu me lembrava sim, “Lugar Nenhum” era o nome daquele lugar em branco. Eu era a rainha, e Ariel era como se fosse um “cavalheiro de companhia”. Era perfeito. – Me perdoe. Fiquei fora por muito tempo, não é?
– Talvez.
– Desde quando se tornou tão monótona?
– Desde quando quiseste voltar?
– Longa história. Talvez eu tenha percebido que precisaste de mim.
Ele era muito convencido. Falava firme, quase que um tom de arrogância, e eu odiava isso. Talvez porque não conseguia ser tão segura quanto ele. De repente, estávamos em uma praia. Descobri que tudo o que eu imaginava, pensava, aparecia ali. Então lá estávamos nós, sentados na areia de uma praia calma e vazia.
– Então não tem problema eu chamar-te de “rainha”?
– Por que teria? Você invade os meus sonhos! Dar-me um apelido não tem o menor peso comparado a isso. – Senti que fui grosseira. Eu não era assim. Que diabos estava acontecendo comigo? Ariel era tão importante pra mim, e agora eu o tratava como um nada…
– Tudo bem, se quiser que eu vá embora… – ele começou a dizer, se levantar, e eu logo o cortei:
– NÃO! Você me deve explicações…
– Tudo bem. Mande as perguntas.
– Em primeiro lugar, você se lembra do que aconteceu com os meus pais? – eu perguntei com tom triste, no fundo tinha medo de tal resposta.
– Claro. Os incêndios… – Mais uma lembrança chegara. Muito fogo. Minha família toda havia morrido em incêndios. Certa cartomante disse-me uma vez que era destino da minha família, como uma maldição. Meus avós morreram num incêndio de um hospital. Minha mãe morreu em um incêndio de carro, e meu pai morreu num incêndio em uma inauguração um restaurante, onde o fogo se espalhou rapidamente e matou 70% dos habitantes da minha cidade que estavam ali. – Eles levaram praticamente toda a sua família. Você é quase órfã, Mari.
– Quase? Perdi todo mundo. Pais, irmãos, avós, tios, todo mundo me deixou.
– E mais uma vez esqueceu-se de mim. Promessas foram feitas para serem cumpridas. – ele abaixou o olhar com tom de desapontamento.
– Promessas? O que eu prometi?
– Você não prometeu nada. Dia dezesseis de dezembro do último ano em que nos vimos você já estava sem parentes vivos, então eu lhe prometi que ficaria contigo até depois dos seus te abandonarem. Entendeu? Quem fez a promessa fui eu.
Eu havia formulado mil e uma perguntas para o Ariel, mas depois de ouvir isso esqueci todas elas. Pelas minhas contas, ele seria… A primeira pessoa a cumprir uma promessa para mim.
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