O Passado De Um Mordomo
3 3ª Noite
Notas iniciais
obs: sei que o nome do Sebastian não era esse, mas se eu colocasse outro nome, iria ficar difícil até para mim saber quem é ele e acabaria ficando uma história original. Então optei por deixar como no anime.
Não sabia onde aquele shinigami pretendia levá-lo, mas como não disse o lugar que queria ser deixado, não era para menos que não teve o direito de saber. A última coisa que viu naquela noite, foi um imenso oceano e as palavras do homem que lhe carregava: “Boa noite, Sebastian Michaelis” ainda naquele tom incrivelmente debochado que irritava o garoto. Quando abriu os olhos, estava em uma cidade desconhecida, onde meninos corriam animados e gritavam coisas que ele não entendia, naquele momento, percebeu que não estava mais na França, o desconhecido cumpriu sua promessa e o levou para longe.
O moreno resolveu andar um pouco na tentativa de achar algo que pudesse comer, mas as pessoas naquele lugar não queriam lhe dar nem um pão mofado, algumas ainda falavam algo, mas como não entendia, as deixava falando sozinhas mesmo sabendo que era falta de educação. Com o passar do tempo, a fome foi aumentando e se tornando um incômodo, felizmente estava acostumado, pois em sua antiga casa, era contada a quantidade de comida que lhe era oferecida, apenas o suficiente para não desmaiar, nada mais que isso. Se não fosse por esse fato, provavelmente estaria roubando, mas ainda tinha dignidade para se negar a fazer isso. Até que viu alguns garotos dando piruetas no meio da rua, logo as pessoas os cercaram, umas aplaudindo, outras jogando dinheiro. Talvez fosse uma boa ideia... Foi até outro ponto e tentou se lembrar das brincadeiras que fazia com Jean quando eram mais novos, adoravam dar piruetas e estrelinhas, quem sabe isso fosse útil agora.
O resultado foi bem satisfatório, viu os desconhecidos se aproximarem sorrindo, alguns ele já reconhecia por ter pedido algo para comer mais cedo, outros eram simples estranhos. Não demorou e começaram a jogar moedas no chão, como se dissessem: “Não pare macaquinho!” Era assim que Sebastian se sentia ao ver o dinheiro. Quando a quantidade que jazia aos pés das pessoas tornou-se significativa, parou com as piruetas e foi recolher suas esmolas, de cabeça baixa, isso não era digno, mas não tinha roubado. Depois de comer pão, sim, muito pão, continuou andando, mas não por muito tempo. Um homem estava o observando desde que acordara e parecia satisfeito com a habilidade que o jovem tinha para conseguir dinheiro e agradar as pessoas a ponto de deixá-las querendo mais. O homem gordo com um cachimbo na mão era o dono de um circo, e estava em busca de novos talentos para seu espetáculo. Em bom inglês, chamou atenção do pequeno:
-Meu jovem, siga-me – o pequeno não sabia se era com ele, mas não estaria perdendo nada com isso – Tu tens talento, queres ganhar dinheiro com isto? – A cabeça do moreno se inclinou para o lado, o que aquele senhor queria dizer com aquelas palavras estranhas?
- Eu... não entendo.
- Oh, um francês! Louis, venha aqui! – Em um segundo, apareceu um garoto ruivo com roupas maiores que seu pequeno corpo – Fale com este menino! – Ordenou o gordo.
- Desculpe-me pela arrogância desde homem, sou Luis. Creio que ele estava te chamando para vir conosco no circo – Sebastian não tinha prestado muita atenção no que ele disse, estava só aliviado em finalmente ouvir alguém falar sua língua – Mas sua família não deve permitir isso. Para trabalhar no circo, não deves ter família, estás de acordo?
Família? Que ironia perfeita! Quer dizer que para trabalhar no circo não precisaria ter família? O pequeno teve a impressão de achar o trabalho perfeito. Além disso, aquele garoto ruivo e com sardas no rosto o deixava calmo, e Sebastian confiava plenamente no seu instinto de classificar as pessoas.
- Eu estou interessado. Quando começo?
Um olhar de surpresa seguido por um sorriso tímido habitaram o rosto do ruivo por algum tempo, em seguida falou algo com o homem que ainda estava presente, vendo a conversa dos meninos. Ele disse algo ao jovem que logo repassou ao novo companheiro:
- Estamos partindo hoje, já podes seguir conosco. Venha – chamou fazendo um sinal com a mão.
O pequeno obedeceu prontamente, não sabia onde iria parar, nem tinha pensado na possibilidade de ser um golpe, mas o que fazer quando não se passa de um garoto de rua? O ruivo o levou para um local um pouco afastado, onde havia muitas carroças e pessoas de aparência peculiar. Todos estavam guardando algo e se arrumando para partir, o que tornava os fatos ainda mais confusos na cabeça do pequeno. Além disso, o olhavam com indiferença, como se o renegassem. “Não me olhem assim, por favor” ele não conseguia evitar esse pensamento, mesmo que os olhares de reprovação não fossem algo novo em sua vida. O primeiro que tinha recebido foi ao nascer, “ele não chora” disse a mulher banguela o fitando com nojo, depois foram as prostitutas que sua mãe chamava de amigas, e de seus pais adotivos, estes, nunca enviaram ao garoto um único afeto, nem com olhares tão pouco com atos. A vida nunca foi fácil para o jovem.
- Não te faças de rogado, não é para ti que estão olhando, mal sabem quem és – disse o acompanhante do pequeno, não estava com raiva, só um pouco desconfortável – Estão todos a olhar para mim, mas logo será para tu também, pois és francês – esse fato gerou uma enorme dúvida em sua cabeça.
- Vou ser mal visto por ser francês?
- Só se estiver na Inglaterra. E infelizmente é aqui – falou o pequeno olhando para o chão sem parar de caminhar.
“Mas que povo estranho!” pensou. Até naquela época, o ódio insano entre ingleses e franceses já era cultivado, mas para alguém que cresceu como um escravo, era totalmente absurdo ouvir tais afirmações. Afinal, não aprendeu a amar pátria nenhuma, apenas aprendeu a língua que lhe foi imposta, ou seja, nada além de cumprir ordens. Não tardou para chegarem a uma carroça velha de madeira, com um único jegue em sua frente. Na parte de trás, havia lençóis e alguns potes contendo água, alguns ruídos por ratos, outros pelo próprio ruivo. Este se sentou para guiar o animal que movia a velha carroça.
- Vem, beba um pouco e deixe para mim, ainda estou com sede, mas tu não bebeste nada.
- Como sabes?
- Meu chefe estava te vigiando desde manhã, por isso, tomei a liberdade de olhar por ti. Pode beber, não precisas ter vergonha comigo.
Sem mais cerimônia, pegou o pote velho que jazia perto de lençóis sujos e começou a beber o líquido sem medo, ficou aliviado por ter uma companhia em um lugar desconhecido. Depois de comer até mesmo as gotas que escorreram pelo rosto, sentou-se ao lado do ruivo que já batia no burro para saírem do terreno. Com um olhar sereno, virou-se para o moreno e perguntou:
- Aonde conseguistes essa cicatriz? – Apontou para a mão dele.
- Bom, isso é algo que não quero lhe contar agora, faça qualquer outra pergunta e lhe responderei com prazer.
- Sinto muito. Vamos para algo mais simples: como se chamas?
- Sebastian Michaelis, e tu?
- Louis. Apenas isso. Não me deram outro nome.
- E como aprendestes o francês?
- Meu pai é francês, minha mãe inglesa. Ele a cortejou durante um passeio a este país e acabou a engravidando, fugiram juntos. Até que ambos morreram e me trouxeram para meus avôs, que me rejeitaram e me venderam para o circo – o pequeno não tinha pedido um resumo de sua vida, mas o ruivo pareceu contente em responder suas perguntas. Durante muito tempo foi assim, Sebastian perguntava, Louis respondia. Até que essa regra foi quebrada por ele.
- Fales da tua vida. Quero saber sobre ti, Sebastian – disse sorrindo. Seu sorriso era belo, típico de uma criança saudável cujos dentes não tinham apodrecido.
- Bom, creio que vou te encher com minha vida sem graça, mas como é de tua curiosidade, vou contar. Minha mãe era uma prostituta, pelo que diziam as freiras do orfanato em que vivi até os seis anos. Fui jogado no lixo quando era recém-nascido, mas me acharam e condenaram-na a morte. Depois, fui para várias casas, onde tive vários nomes, é capaz de tu me chamares de qualquer coisa, que eu responderei. Aos nove, fui adotado de verdade, e recebi este nome. Mas me fizeram de escravo desde então. Fugi ontem de casa com... – “a ajuda de um shinigami.” Não era uma coisa para uma pessoa sensata dizer. O que poderia falar para consertar esse erro? – a ajuda de meu irmão de criação. E aqui estou. – finalizou com uma bela mentira. Sentiu-se mal com isto, afinal, confiava na figura ruiva, queria que esta sentisse o mesmo por ele.
- Parece que estou diante de um guerreiro – falou Louis desestabelecendo o clima pesado que ficara no ar – És muito forte, Sebastian, quero que saibas disso. Aliás, quantos anos tens?
- Onze, mas não me pergunte quando nasci. Ninguém soube me dizer.
- Treze. Faço aniversário 14/05. Como assim não sabe? Isso é um absurdo! Pois de hoje em diante teu aniversário é um dia depois do meu!
Oh, sim, foram ouvidos risos, muitos risos da carroça velha que andava atrás de todos. Mesmo os ingleses sendo tão rigorosos e seu ódio pelos franceses fosse muito além da vida e da morte, quem não se alegra ao ouvir risos de crianças? Até mesmo os mais conservadores soltaram um sorriso discreto, lembrando dos tempos de menino. Todos ali eram do circo, sua função era a alegria dos outros, mas quando se tratava da sua alegria, se viam dominados pela ideia de apenas contentar o público, todos guardavam seus sorrisos para o espetáculo, onde sairiam com as bochechas doendo e inchadas. Mas poderiam dormir sabendo que fizeram o possível para ganhar sua merreca no fim do mês. Um pensamento triste para pessoas de circo? Talvez.
O dia foi dando adeus, a tarde fez o mesmo tingindo o céu com seu doce tom alaranjado para dar lugar a musa. A noite e sua fiel companheira: a lua, que ainda não tinha sua forma majestosa, ainda estava se recuperando da lua nova, que a faz ser esquecida. Os mais novos integrantes do circo se acomodaram na parte de trás da sua carroça e colocaram os lençóis velhos sobre eles, na esperança de não terem hipotermia em uma noite tão gélida como aquela. Para amenizar o frio dos corpos, chegavam cada vez mais perto um do outro, a ponto de ouvirem as batidas dos corações. Sebastian ouvia o coração do ruivo, era calmo, sereno, até poderia pensar que era uma canção de ninar, de tão aconchegante que era o barulho que fazia. Louis também ouvia o coração de seu novo amigo, tão agitado e tão forte, que parecia tambores tocados violentamente, mas ainda assim, o contato com uma pessoa, lhe deixava tranquilo a um ponto que poderia dormir ouvindo aquele som. Mas o pequeno ainda não tinha sono, estava de olhos bem apertos encolhido no peito do maior, tentando aquecer o frágil corpo. Olhou mais atentamente para cima e percebeu que o mais velho também estava com os orbes abertos, e, pela primeira vez, Sebastian voltou a sua atenção aos olhos do maior.
- São azuis – disse com a voz falha por conta do frio.
- o que?
- Seus olhos são azuis, mal tinha notado.
- É de seu fetiche gostar de olhos desta cor? – Seu tom parecia debochado, o que irritaria profundamente o outro por lhe lembrar do maldito shinigami, mas como era seu amigo falando, deixaria passar.
- Não é por conta de preferências, apenas gosto de olhos azuis – disse parando de olhar para cima e se espremendo ainda mais contra o peito do companheiro.
- Algo deve ter para você gostar, tente se lembrar, Sebastian. Mas por hora, vamos dormir – abraçou a figura que estava tão próxima a ele e dormiu, ouvindo o som descompassado da batida de seus corações.
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- Bravo, Sebastian! Pule mais alto e tocará nos céus! – Disse o homem gordo se dirigindo ao moreno, que se sentia envergonhado ao receber tantos elogios.
- O-obrigado, senhor Jaimes – disse ainda encabulado.
- Não há de que, meu jovem! Continue assim, e não se esqueça de melhorar seu inglês!
Como o esperado, um elogio e uma crítica. Sebastian odiava críticas negativas, queria ouvir que era perfeito, que nunca fazia nada errado, por isso se esforçava o máximo para não errar, mesmo que isso fosse impossível para um ser humano. Mas assim conseguiu a atenção de todos no picadeiro, afinal, sua comida era muito valorizada por todos e a sua nacionalidade não importava quando servia verdadeiros manjares dos deuses. Não era muito querido, mas era aceito, o que lhe deixava confortável para continuar ali. Apesar de tudo, seu melhor amigo ainda era o ruivo, cuja apresentação era cuspir fogo, ele e mais dois homens deixavam o público espantado pensando que a tenda iria pegar fogo, mas era de uma habilidade sem igual no palco, o que o fazia ser extremamente respeitado. Para todos tinha uma cara séria e respostas prontas, o único com quem falava de igual para igual era Sebastian. Além disso, eles faziam muito sucesso entre as jovens das cidades, assim atraindo mais público para o espetáculo, e depois ganhando uma boa companhia. Mas nunca trocavam um ao outro pelas damas, mulheres poderiam ter em cada canto do mundo, mas um amigo era mais difícil.
A segunda pessoa que o pequeno mais admirava no circo, sem dúvidas era o mágico. Um senhor, que já não estava mais em seus anos de ouro, mas que esbanjada a sabedoria de uma vida inteira. O moreno o respeitava, pois ele não distinguia o caráter de uma pessoa pela sua nacionalidade, mas sim, pelo brilho dos olhos. Louis não gostava do velho, falava que era um farsante e que metade de sua vida foi uma mentira, mas o aturava ao ver a reação de seu amigo quando o senhor falava, ver os olhos de uma criança aumentaram cinco vezes era muito revigorante e engraçado de se ver. Em uma dessas conversas, o pequeno passou a admirar ainda mais o mágico:
-Sebastian, veja aquela estrela. – falou o velho apontando para a estrela Dalva que brilhava incessantemente – Vê como ela brilha? – o jovem fez que “sim” com a cabeça – Se tu seguir sempre em direção a ela achará um tesouro.
- Tesouro? Como sabes, Harry? Já tiveste o prazer de se deleitar com tal riqueza?
- Olhes bem para mim, meu caro. Tenho cara de quem já foi rico um dia? Nunca vi esse tesouro que não fosse em meus sonhos. Que tal irmos para lá um dia?
Os olhos do menor brilharam mais ainda, aquela era uma promessa de pai para filho? Nunca imaginou que poderia considerar alguém um pai, mas ele se encaixava bem na descrição que todos faziam, então por que não? Confiava nos olhos dele. Não eram azuis como os de Jean ou Louis, eram verdes como safiras, mesmo assim gostava da cor. A cada dia gostava mais dessa cor.
- Sim, seria fantástico, Harry!
E realmente, alguns anos mais tarde, o pequeno foi para tal lugar, guiado pela estrela. Mas esse é um fato que se torna relevante na atual situação, por que o futuro ainda estava longe demais para o jovem, tinha que aproveitar a sua fase da vida em que seus dias brilhavam e tudo parecia dar certo. Mas em um sorteio injusto do destino, parecia que sua vida estava declinada para a tragédia.
Notas finais
Obrigada por lerem, agora sabem o que fazer XD
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