O Palacete
4 Pierre
"A França é um dos melhores países do mundo, eu sei" pensou Pierre, "Mas, uma vez ou outra é bom visitar outro país, ainda mais esse país sendo a Inglaterra."
Pierre acabara de chegar em Buckingham com seu primo Antoine, e tivera que se virar com seu inglês péssimo. Antoine era fluente em inglês, mas por ter presenciado bem jovem a morte de sua mãe, acabou fazendo um voto de silêncio. Ele não dizia uma palavra, portanto sua fluência era inútil, exceto algumas horas antes na estação ferroviaria, quando Pierre se embaralhou todo falando com um inglês, e Antoine escreveu as palavras em um papel com uma pena.
– Agora vamos visitar o pálacio de Buckingham, é lá que mora a tão famosa Rainha Vitória.
Antoine escreveu em um papel com sua pena e tinteiro e mostrou a Pierre:
"De que vale tanta fama e poder, se você é feia e gorda?" se referindo a rainha.
– É verdade — Pierre concordou — Hahahahaha, só não fale isso na frente de ninguém por aqui.
Eles olharam tudo, fizeram a volta pelo castelo, ele era imensamente grande. A única vez que Antoine comentou alguma coisa no papel foi quando escreveu "O palácio de Versalhes é bem mais bonito". Pierre teve que concordar, não só por ser francês, mas também por não querer contrariar o primo.
Eles andaram pelo longo jardim em volta do palácio, olharam admirados para os guardas britânicos que assim como Antoine não costumavam dizer nada. E analisaram todos os detalhes mais simples do palacio, para que nada pudesse passar despercebido.
Horas e horas se passaram enquanto eles exploravam toda a imensidão do palacio real, mas o dia não parecia escurecer, esse fato só fazia Pierre concluir que poderiam ter mais tempo pra conhecer a cidade antes do anoitecer, e isso melhorava seu humor.
– Vamos tomar alguma coisa — sugeriu Pierre.
Antoine concordou com a cabeça.
Eles pararam em uma pequena cafeteria e tomaram o famoso chá britânico. Aquilo era uma das poucas coisas que os dois concordavam ser bom, não só o chá em si, mas todo aquele tempo pra reflexão, tendo a beleza de Buckingham como vista (pois mesmo sendo patriotas, os dois podiam admitir a beleza daquele lugar).
Pierre não parava de pensar que aquele era de fato um dos melhores momentos da viagem, e de alguma forma sabia que Antoine achava o mesmo.
– Vamos ! Ainda temos algumas coisas pra fazer hoje — Pierre alertou seu primo — O dia ainda não acabou.
Antoine tomou a sobra do chá as pressas, e se levantou marchando rumo ao desconhecido, logo atrás de seu primo.
– O que você acha de visitarmos alguns bazares por aqui ? — Pierre perguntou ao primo — Assim podemos comprar algumas lembrançinhas pra quando retornarmos a França.
Antoine concordou positivamente com a cabeça.
Com um espírito nobre de responsabilidade pelas pessoas, Pierre pôde sentir que Antoine aquela altura do dia já estava cansado, achou ruim pensar que aquele poderia ser o último passeio na cidade de Buckingham, mas procurou não ficar pra baixo.
Felizmente Pierre havia levado muito dinheiro para a viagem, por isso estava com o bolso cheio de libras.
"Vamos entrar nessa loja", "Essa aqui parece ser boa", "Olha essa !"
Essas foram as frases que se seguiram naquele fim de tarde, Pierre visitou quase todas as lojas que pôde, e comprou algo de cada uma delas. Umas trinta e cinco lojas depois, e os dois já estavam cansados, cheios de sacolas com produtos de todos os jeitos, cores e formatos. Pierre tinha comprado até as roupas de Buckingham, desde camisas dizendo: "Deus salve a Rainha", até uma calça cinza quadriculada que estava cheirando a mofo.
Antoine até tinha se divertido, mas a quantidade de produtos comprados o tinham deixado tão enraivado que teve que transferir sua indignação para um pedaço de papel:
"O que aconteceu com "algumas lembrançinhas" ?"
No que Pierre respondeu:
– Ah, qual o problema, quando chegarmos em Londres compraremos menos. Lhe prometo.
Antoine voltou a escrever no papel:
"Tá, mais onde vamos guardar todas essas coisas ? Só temos duas malas."
– Daremos um jeito, querido primo — ele respondeu — Agora vamos, temos que nos hospedar em um hotel por aqui.
Depois de horas de caminhada, acabaram encontrando um palacete branco todo iluminado, que segundo a informação que tiveram de um inglês: Era o melhor hotel da região. O que era estranho, pois era um dos poucos que apresentava uma grande placa iluminada na frente dizendo: Há vagas!
Assim que adentraram o tal hotel foram atendidos por uma recepcionista de bela aparência.
– Boa Noite! Sejam bem-vindos ao Gold Holiday Hotel! Desejam fazer reserva ?
– Sim — Pierre respondeu.
A recepcionista então percebeu pelo sotaque que Pierre era francês, e começou a falar sua língua, o que facilitou muito, pois Pierre era péssimo em falar inglês, e Antoine era péssimo em falar.
– Desejo uma vaga para dois, em um quarto apenas, camas separadas, é claro — Pierre continuou — E somente por esta noite, pois amanhã cedo tomaremos um trem para Londres.
– Sim senhor! — depois de uma pausa, a recepcionista continua — Está feito, vocês ficarão hospedados no quarto 369, aqui estão as chaves! Carregadores, levem as bagagens dos senhores!
Foram preciso três homens pra carregar toda a bagagem de Pierre e Antoine. Depois de subir a longa escadaria, os franceses foram deixados no terceiro andar, bem na frente da porta 369. Pierre pegou as chaves, abriu a porta e adentrou o apartamento, seguido por Antoine, seu primo, os dois dividindo as bagagens.
Analisaram tudo, viram a sala de estar, sala de refeições, o banheiro, e por fim o quarto, mas este trazia uma grande surpresa, uma coisa que deixaria perturbado qualquer pessoa com estomago fraco.
No canto do quarto jazia o corpo de uma senhora morta, com aparência de uns 80 anos, ela estava nua, depilada, sem pelos, nem cabelos. Sua pele se encontrava, cinza, sem vida, sobre a cabeça careca havia um símbolo: uma linha torta em formato de "s", com um fim com duas pontas. Não havia sangue no corpo da senhora, nem no chão, o único lugar que havia sangue era na parede, onde o sangue tinha sido usado pra escrever uma mensagem oculta que dizia:
"Encontre a luz na escuridão"
Pierre não pensou duas vezes, saiu gritando desesperado pelo hotel.
– TEM UMA PESSOA MORTA NO MEU QUARTTOOO !!!!! TEM UMA PESSOA MORTTTAAAA !!!!!! SOCORROOO !!!!!
Enquanto isso só o que Antoine fazia era encarar aquele corpo sem piscar, de uma forma ou de outra parecia estar vendo sua mãe morta. Aquilo o tinha afetado como jamais poderia afetar alguém. Ele mantinha os olhos fixos na senhora morta.
De repente a recepcionista e meia duzia de funcionários invadiram o quarto:
– Pedimos desculpas pelo o ocorrido, senhor — a recepcionista disse em nome do hotel — Realmente não esperavamos por isso, tomaremos as devidas providencias, vocês serão encaminhados para o quarto 374.
Pierre não conseguia falar mais nada, puxou a mão de seu primo que mantinha os olhos fixos no corpo e levou em direção ao novo quarto, os carregadores levaram as bagagens atras.
Naquele fim de noite nenhum dos dois falou muito, Antoine não comeu nada, foi direto pra sua cama e Pierre comeu uma pequena quantidade de comida servida no hotel.
Aquele ocorrido parecia ter destruído a viagem deles, mas eles tinham que erguer a cabeça, pois no dia seguinte iriam a tão famosa Londres.
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