O Palacete
3 Johanna
A senhora estava devidamente sentada em um banquinho de madeira e o sol fazia seu vestido de seda brilhar:
– A América me pareceu bem agradável — dizia ela — Mas nada como voltar para Inglaterra.
– É verdade, senhora — seu gentil criado respondeu — Já não suportava mais aquele clima estranho.
– Você acha que ainda demorará mais para chegarmos — ela perguntou em dúvida — Sinto que o navio está navegando um tanto devagar.
– Acho que não, senhora — ele respondeu — Acho que chegamos em Londres ainda antes das seis.
Lewis era seu criado á muitas decadas, mas o tempo havia o transformado em seu amigo, seu fiel conselheiro. E era Lewis também que tratava de acalmar as pessoas quando ressurgiam os dons de clarividência da senhora.
– Sra. Johanna Macintosh — um dos tripulantes do navio chamou — Acompanhe-me por favor.
Ela rapidamente retrucou:
– Chame-me de senhorita, já sou viúva, sendo assim é como se nunca tivesse um homem.
Ela saiu o seguindo, seu criado Lewis vinha logo atrás. Andaram por alguns minutos, até que o tripulante parou em um balcão.
– Senhora, sinto ter que lhe incomodar — ele se desculpou — Mas acho que não quitou todas as suas dívidas neste navio.
– Ah, é questão financeira. Porque não avisou antes, assim não precisaria vir ? — ela perguntou retoricamente — Lewis, seja gentil e apanhe a bolsinha.
– Sim senhora.
Lewis então tirou de seu bolso, uma bolsinha de cor lilás, que fechada parecia não ter valor algum, porém aberta se enxergava todo o dinheiro guardado lá. E a senhora Johanna parecia ter muita confiança no seu criado para deixar ele guardar todo o seu dinheiro.
– Pague o que o moço pede — ela ordenou.
Johanna então se virou de costas como se não quisesse participar da situação. Depois de todo o pagamento ser feito, ela se virou de volta na direção do tripulante, como se algo nele a chamasse atenção. E então silenciosamente e com uma voz eterea ela disse:
– Chester Phillips.
O tripulante a olhou boquiaberto:
– Senhora, como sabe meu nome ?
Foi Lewis quem respondeu:
– Ela tem o dom da clarividência. Eu sei que pode parecer loucura mas ouça-a. Ela sempre acerta.
O homem não soube o que dizer e Johanna continuou:
– Chester Phillips, oh querido Chester, você tem um passado negro, eu sei. Feridas que não se curam rondam a sua vida. Mas daqui pra frente tudo ficará melhor, você encontrará a luz, basta acreditar.
Ela se virou para seu criado Lewis:
– Agora vamos! — ela ordenou.
Lewis a seguiu como um cachorrinho, como sempre fazia. E o tal tripulante foi deixado para tras ainda impressionado. Mas a frente o criado perguntou:
– O que havia no passado dele ?
– Ora, Lewis — ela respondeu — Não vamos passar a tarde falando do drama de um homem, vamos ?
Lewis não respondeu nada. Depois de voltar a sentar em suas respectivas cadeiras, com a vista do oceano, a senhora e seu criado passaram a maior parte da tarde conversando. A conversa pareceu tão boa, que quase não notaram o tempo passar.
Quando o navio ancorou na bela cidade de Londres já era quase noite, mas ainda deu tempo de ver o por-do-sol londrino.
– Eu não disse, antes das seis — o criado retrucou.
– Ah, finalmente, não aguentava mais ficar naquele navio — ela respondeu.
E os dois seguiram a pé, pela cidade londrina. Johanna ia na frente, como sempre, o criado Lewis ia atras carregando toda a bagagem. Entraram em uma carruagem puxada a cavalo. O homem que a conduzia, perguntou a Johanna.
– Senhora, por que motivo não vieram de trem ?
– Você sabe — ela respondeu — Não me sinto muito a vontade neles, prefiro o leve tremor das águas.
Ela então continuou:
– Ficaremos hospedados na casa de minha filha Julie, em Greenwich , cocheiro, está aqui o endereço.
Johanna o entregou um pedaço de papel.
– Pois não, senhora — ele respondeu.
A viagem foi breve e quase silenciosa, não fosse pelas tentativas de Lewis de puxar assunto com o cocheiro, na expectativa de quebrar o silêncio.
O céu já estava totalmente escuro, quando chegaram na casa. O cocheiro e a carruagem se retiraram. Bem a frente do tal casebre, se encontrava uma mulher muito bonita com aparência de trinta anos, umas crianças quase adolescentes e uma outra mulher mais jovem. A mulher bonita foi a primeira a falar alguma coisa:
– Que bons ventos o trazem, mamãe.
Johanna prosseguiu dando-a um abraço.
– Oh, Julie, querida, vejo que o tempo só tem feito bem a você — ela afirmou analisando sua filha dos pés a cabeça — Já a mim, não posso dizer o mesmo. E então como andam as coisas por aqui ?
– Tudo na mesma, mamãe. Bom aqui estão: Emily, Kevin, Stephen e Harriet — Julie falou indicando seus quatro filhos, de acordo com a idade — Cumprimentem a sua avó, andem.
Todos eles levantaram suas mãos aguardando um cumprimento.
– A benção, vó! — Stephen foi o primeiro a dizer.
– A benção, vó! — os outros repetiram quase que em coro.
Mas Johanna não se limitou a cumprimentos, ela deu um longo abraço coletivo nos seus netos.
– Eu não tenho ninguém a apresentar, o tonto do Lewis vocês já conhecem — Johanna disse indicando seu criado que trazia as bagagens.
Lewis, então acenou:
– Boa noite, senhores!
– Boa noite, Lewis — eles responderam.
– Falando nisso, mamãe, temos uma nova criada, esta é Emma — Julie indicou a moça timida que estava ao canto.
Johanna foi até ela. E com uma voz eterea, começou um discurso.
– Pegue leve com as bebidas, minha jovem, eu compreendo que é agradavel sair com os amigos, e tomar umas e outras. Mas continuando nesse ritmo logo, logo irá se viciar. E você não vai querer se viciar.
A timidez do rosto de Emma sumiu, e deu lugar a um tom de surpresa. A moça estava chocada.
– Não fique assustada — Lewis pôs-se a explicar — Ela possui o dom da clarividência.
– Aham, e é sobre exatamente isso que quero falar com você, mamãe — Julie falou em um tom meio enfurecido — Vamos, entrem.
Já lá dentro, a matriarca da casa continuou:
– Emma leve as bagagens de mamãe ao quarto de hóspedes, Lewis pode ajudá-la ?
– É claro, madame — ele respondeu.
– Meninos!
– Sim, mamãe — eles responderam.
– Vão procurar o que fazer! Preciso conversar a sos com mamãe.
Assim que os meninos se retiraram, Julie começou a conversa:
– Fomos convidados para um funeral, mamãe, amanhã bem cedo. E já que está aqui, eu suponho que nos acompanhe.
– Ah, é claro que vou — Johanna respondeu — Não perderia isso por nada.
– Está vendo ? É isso que me preocupa — Julie continuou — Um funeral é como um banquete para senhora. Não quero passar vergonha como das outras vezes. Então, nada de revelar segredos do defunto, nem de ninguém. Este é um momento de tristeza deles, eles não merecem isso. E além do mais, não é uma vergonha só para senhora, é também para mim, para meus filhos, para nossa família.
– A verdade a envergonha ? — Johanna perguntou — Esta é a verdade oculta, a verdade a muito esquecida.
– Não me importa se é a verdade — Julie respondeu — Contanto que guarde para você.
– E então, quem fez a viagem ? — Johanna perguntou, tentando não ligar para o sermão.
– Uma senhora bem velhinha, era nossa vizinha, seu nome era Maggie Oldman. Morava sozinha com sua neta no casebre ao lado. Ohhhh, pobrezinha!
– Quem ? — Johanna perguntou — A velha ?
– Não, a neta. É muito jovem, e vai ter que morar sozinha. Ouvi dizer que seu único irmão está lá na América.
– Ah, boa sorte pra ele — Johanna retrucou — Aquele lugar é o berço da loucura.
Depois de se refrescar tomando um bom banho, Johanna recebeu horas mais tarde o patriarca da casa Paul Carter. E juntos todos se juntaram a mesa para um jantar.
Na mesa, Lewis não parava de cortejar Emma com cantadas baratas. As crianças riam quase o tempo todo sem motivo aparente. Paul falava a Julie como foi no trabalho e Johanna parecia ter se inspirado com o tal funeral, pois não parava de falar sobre morte durante o jantar, os únicos que paeciam gostar do assunto eram o pequeno Stephen que adorava coisas macabras e Lewis que já havia se acostumado a assuntos como aquele.
A noite foi tranquila. Só Johanna que tivera uns sonhos estranhos sobre cair em um enorme buraco.
Na manhã seguinte todos tomaram café, se arrumaram e se retiraram rumo ao funeral, exceto Paul que teve que ir ao trabalho. Chegando lá Johanna não vira nada de diferente, pessoas com roupas e óculos escuros, um barulho de mil pessoas chorando ao mesmo tempo e uma música de fundo tão deprimente que dava até a uma senhora como Johanna vontade de cortar os pulsos. Apesar de nada de diferente, Johanna logo reparou em uma moça que recebia a todos aos cumprimentos, mas estava desesperada, não parava de chorar e nem saía de perto do corpo da senhora.
Lembrando o que Julie havia lhe dito ela procurou não dar vexame, foi até a moça chorosa, e com a mesma voz silenciosa e eterea, ela disse:
– Oh, pobre Jude Whigs.
– Desculpe, mas não me lembro da senhora — Jude respondeu.
– Como poderia lembrar, nem me conhece.
Jude não disse nada. Johanna continuou:
– Mas eu conheço o suficiente você, e sei tudo que sua avó passou. Ela amava você demais pra deixá-la sozinha nesse mundo, mas sabia que já havia feito sua parte. Você já está crescida, e pensando nisso sua avó não sofreu muito, ela está feliz do outro lado.
Jude permaneceu calada como se estivesse ouvindo uma canção suave ou o canto de pássaros. Johanna voltou a falar.
– Vejo uma escuridão em você, uma escuridão que só irá embora, quando a verdadeira luz chegar. E eu sei exatamente o que causou a morte de sua avó. Você viu uma coisa horrível, uma coisa perturbadora até mesmo pra pessoas da minha idade que já viveram o bastante. E se disser a alguém estará correndo risco de morte, assim como sua avó. Mas eu sei que quando a hora chegar você fará o que é certo.
Johanna deu um abraço na moça, que estranhamente parecia estar reconfortada com aquelas palavras. Johanna podia sentir.
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