O Padre

2 Não tem volta


A exaustão a que meu corpo e minha mente haviam sido submetidos não me permitiu pronunciar uma única palavra com ele e calado fui levado para casa. Os primeiros raios solares já despontavam no horizonte quanto finalmente cheguei a casa e com uma mistura de realidade e ilusão, literalmente apaguei.

Pesadelos horríveis com o padre da cidade me fizeram acordar aos gritos. Coração acelerado, pupilas dilatadas, mãos e pés suados misturavam-se com meu desespero diante de tanto sofrimento que mais parecia uma maldição repentina. Meu irmão, que já se preparava para ir trabalhar, veio rapidamente ao meu encontro, pedindo para que eu me acalmasse e que descansasse o resto do dia, pois ele resolveria eventuais pendências no escritório.

Sozinho, em casa, resolvi tomar um banho, mas a água que caia do chuveiro parecia pedras que despencavam sobre minha cabeça. Meu corpo inteiro doía. Depois, vesti uma roupa mais leve e segui para a cozinha e fui tomar café. Em seguida resolvi ler o jornal na varanda da casa. Na capa do matutino uma matéria me chamou a atenção. Falava de assassinatos misteriosos de várias pessoas e que os crimes geralmente aconteciam na madrugada, quando a cidade dormia.

Mal terminei de ler a matéria, um corvo de olhos vermelhos posou em meu colo, o que fez meu coração disparar de forma frenética, trazendo-me a lembrança da madrugada anterior, quando centenas dessas aves, enlouquecidas, voaram em minha direção no momento em que eu estava à porta do cemitério. Em um movimento brusco com a mão direita, fiz o corvo ir embora e saiu voando em direção à igreja.

Como o sol estava brilhante e fazia um calor agradável, além de estar toda a cidade na sua rotina normal para um dia de semana, resolvi caminhar um pouco para descontrair e, talvez, esquecer tudo o que havia passado nas últimas horas.

Comprei algo para ir degustando ao longo do percurso e fui até à praça da igreja, onde fiquei observando o velho sino. Ao olhar com mais atenção, percebi novamente a presença do padre misterioso, que me fitava a distância. Tentei, em vão, ver seu rosto. Sua fisionomia estava sempre oculta. Neste instante, sem que eu percebesse, um corvo surgiu de repente e feriu minha mão com seu bico, provocando uma dor insuportável, o suficiente para que eu perdesse a atenção no padre e, enquanto eu olhei para minha mão ferida, ele simplesmente desapareceu.

Resolvi me aproximar da igreja e, através de uma fresta, passei a observar o interior do local. Percebi a pouca luminosidade, vindo de alguns candelabros. O teto em péssimas condições servia de morada de morcegos e aranhas, as estátuas ali existentes, espalhadas sobre pedestais desalinhados, estavam cobertas por panos escuros e até mesmo a enorme cruz de madeira, instalada no centro do altar, parecia despencar a qualquer momento.

No altar vi o padre, de costas para mim, não notou minha presença e ali eu fiquei por alguns minutos lhe observando. A dor na minha mão, em face do ferimento provocado pelo corvo, começou a aumentar, mas esse incômodo se tornou pequeno diante de uma sensação ruim que tomou conta do meu corpo e da minha alma repentinamente. Comecei a ficar tonto e para não cair me apoiei na porta da igreja, já pelo lado de dentro, provocando um rangido sinistro, suficiente para chamar a atenção do padre, que agora vinha em minha direção, trazendo nas mãos uma cruz que, misteriosamente, se transformava aos poucos em um punhal dourado.

Tentei me afastar, mas minhas pernas pareciam congeladas. O padre chegou bem próximo de mim e levantou o braço com o punhal, fazendo um movimento rápido de descida, momento em que senti que alguém me tocou o ombro. Olhei rapidamente para trás e constatei que era meu irmão que havia retornado do trabalho para almoçar. Sem raciocinar voltei meus olhos para o frente e, para minha surpresa, o padre novamente tinha desaparecido em questão de segundos.