O Padre

3 Capitulo 3


Seguimos para casa e no caminho resolvi contar tudo o que estava acontecendo para meu irmão, entretanto, ele tentou me convencer de que tudo era coisa da minha imaginação e que talvez fosse estresse devido a grande quantidade de trabalho no escritório.

Depois do almoço, fui à biblioteca local. Iria fazer uma pesquisa detalhada sobre a origem daquela cidade, daquela igreja e daquele horrível cemitério. Entre as prateleiras empoeiradas, encontrei alguns livros antigos onde, em um deles, vislumbrei algo que me deixou surpreso: uma fotografia do misterioso padre. Na verdade ele não era novato na cidade. Teria feito quatro anos de seminário e há um assumido a direção da igreja. A vestimenta que usava não deixava qualquer dúvida; era a mesma com a qual se apresentou para mim nas duas oportunidades. Um texto em letras miúdas informava que o padre era órfão desde pequeno e cresceu em um orfanato, sendo portador de pequenos distúrbios mental.

Fui até o escritório e novamente tentei narrar os fatos para meu irmão, entretanto, mais uma vez fui orientado para esquecer os fatos, pois, segundo ele, nada daquilo existia de fato. Neste momento percebi que meu irmão aparentava um nervosismo indescritível, como se soubesse algo a respeito do padre. O comportamento dele me deixou intrigado.

Já em casa, vi quando meu irmão chegou para jantar. Olhando-me de soslaio, não demorou muito e foi dormir. No meu quarto, não consegui sequer fechar os olhos, pois as imagens da igreja, dos corvos, do cemitério e do padre surgiam na minha frente de uma forma bastante real.

Sem sono, fui até o porão e peguei uma lanterna. Estava decidido a ir até a igreja para esclarecer de uma vez todo esse mistério. O relógio soou meia-noite quando eu cheguei ao meu destino. Nuvens carregadas e raios que iluminavam a rua anunciavam a chegada de uma tempestade em breve. Abri a pesada porta da igreja e constatei que todos os candelabros estavam apagados. Somente o feixe de minha lanterna me permitia ver o que estava a dois metros a minha frente. Não encontrei o padre.

Atravessei todo o prédio e saí pelos fundos, desta forma chegando ao cemitério. Não fosse o uivo do vento se chocando contra um túmulo danificado, o silêncio era total. Nada de corvos, nada de morcegos. Nada de padre.

Finalmente alcancei a entrada do subsolo onde havia visto, na noite anterior, os túmulos escondidos. Neste momento os relâmpagos iluminavam o cemitério, ao mesmo tempo em que uma tempestade começou a cair e o barulho estarrecedor dos trovões deixava-me apreensivo.

Desci vagarosamente para o porão, onde vi algo assustador: uma mão, ainda suja de sangue, saía de um dos túmulos, afastando gradativamente a tampa do jazigo enquanto um cheiro de cadáver em decomposição tomava todo o ambiente. Neste momento eu só pensava em sair daquele local, subindo as escadas numa carreira frenética.

As ruas estavam tão escuras que minha lanterna não me ajudava. Os constantes relâmpagos iluminavam momentaneamente o meu percurso foi quando, bem na minha frente, surgiu o padre com sua vestimenta misteriosa. Roupas pretas, rosto indefinido e oculto pela escuridão da madrugada. Um relâmpago mais demorado me fez perceber o gume afiado do punhal que ele trazia na mão direita. Ele me fitava com um olhar gelado.

Iniciei uma correria em direção a minha casa. Uma dor insuportável na mão e o padre já no meu encalço. Quanto mais eu corria, mais parecia não sair do lugar. Quando alcancei o jardim da minha residência, senti algo sendo cravado nas minhas costas. No mesmo instante a dor que eu sentia na mão foi embora. Uma dormência inexplicável tomou conta de mim. Caí quase inconsciente no gramado.

Minha vista estava quase escurecendo quando percebi que o padre preparava uma nova investida contra mim. Eu não suportaria uma segunda lesão e, num gesto de puro reflexo, empurrei o padre com uma das pernas e novamente saí correndo, desta forma conseguindo entrar em casa.

Perdendo muito sangue e já fragilizado, observei pela janela que o padre ainda estava no jardim e exatamente naquele momento quebrou o vidro da porta e entrou na casa. Os trovões, os relâmpagos e a chuva eram as únicas testemunhas do meu sofrimento.

Antes que eu tentasse me esconder, fui surpreendido com uma forte pancada na cabeça e nesse momento perdi os sentidos. Tudo ficou escuro de repente e eu desmaiei.