O Padre

1 Capítulo 1


Já era madrugada quando eu terminei a última atividade do escritório. Embora cansado, com os olhos avermelhados e com o corpo doído, iria para casa a pé, como fazia todas as noites, pois a distância entre a minha residência o meu local de trabalho era de apenas alguns quarteirões.

Durante o caminho, senti repentinamente um vento forte e frio, que trazia um cheiro diferente e jamais experimentado, vindo da única igreja da cidade.

Passava da meia-noite e as ruas estavam desertas. Apenas morcegos me faziam companhia, sobrevoando a torre da igreja, para onde me dirigi movido pela curiosidade de saber de onde emanava aquele odor fétido de cadáver putrefeito.

Apesar de preservar sua aparência original, logo percebi que se tratava de uma igreja abandonada, com pinturas velhas e sem vida, que decoravam o ambiente destinado às missas. As portas já haviam sido parcialmente devoradas por cupins e uma enorme cruz de madeira já estava quase caindo do topo da torre, sendo sustentada por um sino velho e enferrujado que há anos não se movia.

Neste momento lembrei-me de que fazia muito tempo que não assistia a uma missa. Na verdade nunca fui a uma celebração com o novo padre, talvez movido pelos comentários de que, com a chegada dele à cidade, o fluxo de fiéis diminuíra drasticamente.

Ainda curioso, cheguei à frente da igreja e, repentinamente, senti um vulto passar do meu lado esquerdo, neste instante percebi que algo estranho havia naquele ambiente, pois um desejo de morte, que fez tremular minhas pernas e suar minhas mãos tomou conta do meu corpo, mas logo desapareceu, tão rápido quanto a passagem do ser misterioso.

Desesperado e desprotegido, perguntei em voz alta quem estava naquele local, quando percebi que, mergulhado na escuridão, havia algo que parecia uma pessoa encapuzada, com uma longa bata preta de padre, um manto escuro sobre os ombros e no pescoço carregava uma cruz brilhante. Não pude contemplar seu rosto, pois estava oculto na escuridão.

Diante daquela figura enigmática recuei, momento em que vi que o padre rapidamente foi em direção ao cemitério que ficava vizinho à igreja. Sentindo um frio na espinha, dirigi-me à necrópole, percebendo que além dos morcegos, corvos barulhentos voavam em círculos sobre minha cabeça, como se quisessem me avisar alguma coisa, ou me dizer que algo de terrível estava para acontecer. Era como se me mandassem ir embora dali.

Ao chegar à porta do cemitério, um vento rasteiro vindo de um dos túmulos me trouxe novamente a sensação estranha que há pouco havia experimentado. Uma placa quase solta e fixada no enorme portão já enferrujado indicava o nome do lugar “Cemitério Cavalo Negro”, construído no período em que uma guerra civil assolou a cidade.

O lugar era triste e mórbido, repleto de túmulos os mais diversos, onde ricos e pobres eram sepultados. Alguns jazigos chamavam a atenção pela beleza.

Os corvos aumentaram de número e estavam realmente me observando a cada passo que eu avançava. De repente, ao longe vi uma fumaça branca no interior do cemitério e logo tratei de conferir do que se tratava. Percebi que a fumaça vinha de um tumulo existente no subsolo, cujo acesso se dava por uma escada protegida por um portão sem cadeado. Resolvi entrar para me certificar da origem daquela fumaça estranha quando fui atacado por um bando de corvos, que pareciam querer me impedir de descer para aquele local escuro e mal cheiroso.

Tudo de repente ficou escuro e desmaiei. Não sei por quanto tempo fiquei desacordado, mas finalmente fui despertado por meu irmão e sócio do escritório, que de alguma forma me encontrou no subsolo daquele antigo cemitério.