O Pacto do Sigilo
4 A Sombra dos Mortos
No outro dia a notícia do fim do namoro de Murilo e Alexandra tinha se espalhado rapidamente pela escola. Quando Alexandra passava, percebia olhares de deboche, sussurros e risadinhas. Ela não conseguia entender o motivo deles rirem, só por causa do fim do namoro? Parecia que todos estavam torcendo para dar tudo errado na vida dela. Por que as pessoas gostavam de ver os outros se dando mal? Por que riam das desgraças? Ela que era a “Vampira Esquisitona” havia sofrido uma metamorfose e se transformado em uma linda garota e agora estava se sentindo novamente esquisita diante de tantas coisas.
Na noite anterior, Alexandra chorou muito no colo de sua vó e aquilo fez muito bem a ela. Há mais de um ano que ela não se cortava e sentiu necessidade de se auto-mutilar, mas o amor de sua vó fez que ela perdesse a vontade.
Alexandra entrou na sala e sentou em seu lugar, seus colegas de classe não paravam de fazer perguntas e ela não quis responder nenhuma. Ficou quieta e de cabeça baixa em seu canto até a chegada de Thais que trocou de lugar para ficar mais perto da amiga.
– Bom dia. – Era o professor Hugo de História. Com seus 44 anos, era baixo e careca, o pouco do cabelo que tinha era louro. Divertido e amigo, era o professor preferido da turma. Após colocar suas coisas na mesa, começou a fazer a chamada. – 22?
– Faltou – Respondeu Fabiano.
– Murilo faltou? Ele está doente? – Perguntou o professor se dirigindo a Alexandra. Murilo quase nunca faltava.
– Não sei. – Respondeu ela de cabeça baixa.
– Hum. – O professor olhou desconfiado, porque não sabia de nada, e continuou a chamada. – 23?
Após as aulas, Alexandra ligou para Joana, pedindo permissão para faltar no trabalho novamente.
– Alex, você já faltou ontem. Entendo que está triste com o término do namoro, mas você não pode ficar faltando no trabalho assim. Estamos cheios de tarefas para fazer e Charlie já ficou nervoso ontem, se ele souber que faltará novamente, ele vai querer te demitir.
– Desculpa, Joana, mas vou no Doutor Crove. Por favor, converse direitinho com o Senhor Charlie.
– Tudo bem, vou ver o que faço, se cuida, Alex.
– Obrigada. Tchau.
Alexandra foi para o consultório do Doutor Crove, chegando lá a recepcionista pediu para ela aguardar que o doutor estava com um paciente. Depois de quase 20 minutos, a porta do escritório se abriu e de lá saiu um garoto ruivo.
– Tchau, Márcia, até semana que vem. – O garoto passou e seus olhos azuis se demoraram em Alexandra.
– Tchau, Guilherme.
Logo após, o doutor saiu.
– Olá, Alexandra. O que te traz aqui?
– Oi. Queria conversar com o senhor, será que é possível?
– Está no meu horário de almoço agora, mas se você quiser, podemos ir ao restaurante e conversar.
– Não, não quero atrapalhar. – Disse Alexandra recolhendo sua mochila da escola.
– Que isso, Alexandra, não tem incomodo algum. – Disse o doutor. – Márcia, vamos ter que aumentar as consultas do Guilherme, coloque nas terças e mantenha nas quintas. E se a Mariana chegar antes avise a ela que não me demoro.
– Ok, Doutor. – Márcia estava no computador arrumando a mudança da consulta. Alexandra e o doutor Crove se despediram da recepcionista e foram para o restaurante.
Foram para um dos restaurantes mais caro da cidade e por cortesia o doutor iria pagar o almoço de Alexandra. Pegando o almoço eles começaram a conversar sobre Murilo.
– Como você sabe, os pais de Murilo me procuraram no começo do ano, pois ele estava tendo pesadelos e não conseguia dormir direito. Você sabe o que poderia ter causado isso nele?
Alexandra sabia exatamente o que havia ocorrido, mas estava um pouco receosa e o doutor percebeu.
– Tudo bem Alexandra, vamos pensar que essa é uma consulta só que não no meu escritório. Sigilo entre médico e paciente, ok? – Disse o doutor sorrindo e Alexandra assentiu. — Então, você sabe de algo? – E deu um gole em seu suco.
– Bom, vou contar tudo.
Alexandra contou sobre Yasmin, de como os cinco adolescentes se tornaram amigos, do bullying e sobre a mudança de cidade de Yasmin.
– Entendo, mas e aí, o que aconteceu nessa festa?
Alexandra respirou fundo e começou a falar:
– Não sei exatamente, lembro de ter entrando junto com Murilo na piscina e de nos beijarmos. – Ela deu uma pausa. – Acho...acho que foi um acidente, eu não sei. Apenas me lembro de ter escutado os três pulando na água e um estrondo, de repente a água começou a ficar vermelha por causa do sangue e Luisa estava boiando.
– Então foi isso que aconteceu com Luisa? Ela não desapareceu, ela morreu.
– Sim e depois Murilo e Thiago enterraram o corpo dela. – Alexandra começou a chorar. – Não tivemos culpa.
– Mas vocês deveriam ter contado as autoridades sobre isso! – Disse o doutor com uma voz rígida. – Onde vocês enterraram o corpo?
Antes que Alexandra pudesse responder, as luzes do restaurante começaram a piscar e o estabelecimento ficou frio. As conversas sofreram um aumento de volume de pessoas desesperadas, os pêlos da nuca do doutor se arrepiaram. Alexandra se lembrou daquela noite, de como essa sensação que estava sentindo era quase igual à daquele dia.
Um homem apareceu ao lado do doutor, ele era pálido com muitas veias em seu rosto, cabelos brancos prateados e penteado para trás, vestia um sobretudo preto com golas grandes e segurava uma bengala. Alexandra se assustou e gritou, começou a apontar para a figura, mas parecia que só ela conseguia enxergá-lo.
O homem se aproximou dela, levantou a bengala e Alexandra pôde ver que havia grossas correntes com símbolos estranhos gravados nela, elas prendiam os braços do homem a algo. Com a aproximação, Alexandra sentiu que suas forças eram sugadas e sem alternativa ela saiu correndo em direção a porta do restaurante.
– Alexandra, onde você está indo? – Perguntou o doutor se levantando da mesa.
Em resposta ela gritou:
– Esse homem estranho está tentando me matar!
Todos do restaurante olharam para o doutor, pensando que era ele o tal homem, porém o dedo de Alexandra estava apontado para outro lugar que estava totalmente vazio. Ela saiu do restaurante e disparou pela rua, sem saber para onde ir ela foi em direção a biblioteca, mas o homem misterioso barrou sua passagem e ela teve que mudar de direção.
Não adiantava, para onde ela ia o homem estava sempre atrás dela, era como se ele flutuasse, não como um fantasma, era um flutuar mais leve, mais delicado, porém assustador para quem via. Não era preciso que o homem flutuasse, ele poderia simplesmente aparecer do nada ao lado dela, como ele fez na sua primeira aparição no restaurante, mas as correntes que o prendia o impedia de tal habilidade.
Alexandra corria o mais rápido que podia e gritava pedindo ajuda, várias pessoas perguntavam-na o motivo e ela não podia parar para explicar. Conseguiu alcançar sua casa e sem tempo de pensar em pegar sua chave, ela começou a gritar pedindo para sua vó abrir o portão. Dona Thereza, que já estava com a idade avançada, não conseguia correr para ajudar sua neta, e sem entender nada ela tentou abrir o portão e ao abrir viu a cara de espanto de sua neta antes de o homem levantar sua bengala, revelando uma foice, e puxar para si a alma de Alexandra. O corpo sem alma da garota caiu nos braços de sua avó. A expressão facial do homem, que era fria, não mudou em nada e ao seu lado apareceu Alexandra com o corpo totalmente enrolado por uma corrente. Não, não era Alexandra, era sua alma que estava aprisionada ao homem, os dois olhavam para Dona Thereza que abraçava e chorava sobre o corpo de sua neta. A alma de Alexandra chorava com aquela cena, chorava sangue.
Vizinhos que escutaram os gritos da garota saíram de suas casas para ver o que estava acontecendo e apenas viram a senhora idosa ao chão abraçando sua neta. Eles correram para ajudá-la, ligaram para o resgate e tentavam acalmar Dona Thereza.
O Ceifador e a atormentada alma de Alexandra observavam tudo, parecia que ele queria ver o sofrimento da nova alma que ele havia capturado.
Os dois levitaram e sumiram.
**
– Como? Impossível! Como... Como que...? — Yasmin não segurou as lágrimas ao telefone.
– Eu não sei, ela estava correndo de algo após ter saído com medo do restaurante onde estava com o Doutor Crove. – Disse Thais
– Quem é ele? O que eles estavam fazendo juntos? – Perguntou Yasmin ainda chorando.
– Um psicólogo da cidade, eu não sei direito o que aconteceu, Yasmin. Você vem para o enterro dela?
– Vou tentar fazer o possível para ir. Ainda não acredito que a Alex...
– Sim, uma tristeza. Só liguei para avisar isso mesmo, Yasmin. Espero que possa vir, estou com saudades. – Disse Thais.
– Também estou com saudades, Thais. Beijos. – E desligou o telefone, ainda com as lágrimas rolando ela se lembrou do beijo que teve com Thais e sua garganta ficou seca.
Mauro chegava do supermercado.
– O que aconteceu, filha? – Perguntou largando as sacolas no chão.
– A Alex, pai, ela morreu. – Disse Yasmin não conseguindo conter as lágrimas.
– Mas como?
– Não sei pai. Ninguém sabe. É um mistério até para a polícia. – E o pai a abraçou. – Pai, será que podemos ir para lá? Hoje será o velório.
– Até arrumarmos nossas coisas, iria demorar a chegar. Como amanhã é domingo e não trabalho vamos acordar cedo e ir para a cidade.
– Obrigada pai.
– Então já vai arrumando suas coisas. – Yasmin ia subindo as escadas quando seu pai a chamou novamente e deu um beijo em sua testa.
Após arrumar suas coisas, Yasmin deitou em sua cama e ficou relembrando os momentos que tivera ao lado de Alexandra, deu algumas risadas e voltou a chorar ao lembrar de que nunca mais poderia ver a amiga. Deitada em sua cama e relendo as mensagens de seu celular, acabou pegando no sono de tão cansada que estava.
**
Murilo colocou seu terno e passou o perfume que Alexandra mais gostava, ele havia chorado muito com a notícia da morte de sua ex, embora tivesse terminado com ela, ele ainda gostava dela. Junto com seus pais, foi ao velório que seria realizado na casa dela, pois Dona Thereza não tinha condições para fazê-lo em outro lugar. Ele e sua família se puseram a disposição da velha senhora e pagariam tudo, mas ela se recusou.
Havia muitas pessoas, a maioria vizinhos que gostavam das duas, alguns colegas de escola, os bibliotecários, Charlie e Joana. Murilo não pôde deixar de notar que o relógio antigo da sala havia parado.
– Murilo?
– Ah, oi Thais. E aí, tudo bem?
Ela deu ombros e fez a mesma pergunta a ele.
– O que você acha? – Lágrimas tímidas deslizaram por seu rosto e Thais o abraçou o mais forte que pôde e foi retribuída. – Ligou para Yasmin?
– Sim. Ela disse que talvez viesse. – Thais enxugava suas lágrimas. – Avisei pro Thiago também, mas ele nem se importou.
– Típico. Tão idiota que nem ligou para a morte de sua amiga.
Dona Thereza estava sentada ao lado do caixão da neta, inconsolável e não aceitava que havia perdido mais uma pessoa importante para ela.
– Minha filhinha que cuidei por 16 anos agora se foi. Minha filhinha que eu queria tanto que se formasse em uma boa faculdade. – A senhora estava chorando muito.
– É muito triste mesmo. Deveria ser proibido que os filhos morressem antes que os pais, eles sendo ou não de criação. – Disse uma senhora com um cabelo louro desbotado que parecia uma peruca, seu nariz estava vermelho de tanto assuá-lo.
Murilo se aproximou das senhoras.
– Oh Murilo, meu filho. — Disse Dona Thereza se levantando um dando um abraço no garoto.
– Dona Thereza, meus sentimentos. Desculpa-me por ter terminado com Alexandra e tê-la feito sofrer.
– Não há com o que se desculpar. Você foi um namorado perfeito para ela, e se terminaram, devem ter tido seus motivos. – Dona Thereza voltou a se sentar e a velha de cabelos louros observava Murilo com curiosidade.
Murilo se aproximou do caixão que estava localizado no meio da sala e lá estava Alexandra, mais branca que o normal, seus cabelos estavam alinhados e penteados, não estava usando seus piercings e estava coberta de flores. Ele não agüentou a começou a chorar, Thais se aproximou e levou o amigo para sentar.
A casa era pequena, porém aconchegante e estava iluminada. As pessoas estavam sentadas no sofá e nas cadeiras, Dona Joana que ajudara Dona Thereza a preparar e servir o café.
– Por que esse espelho da sala está coberto? – Perguntou Murilo.
– Não apenas esse espelho, mas todos da casa estão cobertos, por uma simples razão, há histórias de que se uma pessoa é morta dentro de sua casa em frente a um espelho, sua alma ficará presa dentro dele. Outras dizem que se algum corpo for velado dentro de sua casa, durante a encomendação da vida da pessoa sua alma se desprende e também fica presa em algum espelho. Mas são apenas superstições. – Explicou Dona Joana servindo mais café a Murilo.
Após a celebração de passagem, todos que vieram ao velório foram embora, com exceção de Murilo, Charlie e Joana, que decidiram ficar para que Dona Thereza pudesse descansar um pouco. Charlie pegou no sono no velho sofá e roncava muito, Dona Thereza foi ao seu quarto e baixinho chorava, enquanto isso, Murilo e Joana mantinham uma conversa sobre diversos livros.
– É muito bom, vale a pena ler esse romance entre uma mortal e esse anjo caído. – Sempre que falava sobre livros, Joana se empolgava e não parava mais.
– Ér...Dona Joana, na biblioteca tem todos os tipos de livro? – Perguntou Murilo.
– Sim, não há todos do mundo, mas há de diversos temas, muitos que não se encontram em bibliotecas grandes das cidades.
– Eu estava interessado em um tipo de livro, mas não sei se existe.
– Como que ele é?
– Bom, não é um livro de história, é mais sobre criaturas sobrenaturais, como fazer e desfazer pactos, essas coisas.
Dona Joana estudou Murilo por alguns segundos e curiosa lhe perguntou:
– Por que está tão interessado sobre esse tipo de tema?
– Só por curiosidade mesmo, queria saber se é verdade tudo o que dizem em filmes e séries.
– Entendo. – Disse Dona Joana desconfiada. – Acho que não temos livros sobre isso, procure nessa coisa que vocês jovens chamam de “Internet”.
– Vou procurar mesmo. — Murilo sorriu e deu um bocejo falso para se livrar daquela conversa. Ele já havia procurado na Internet, mas não havia encontrado nada de útil.
No outro dia, os pais de Murilo trouxeram roupas para ele se trocar e eles levaram Dona Thereza e os donos da Biblioteca para o cemitério.
Yasmin e seu pai já estavam lá, Murilo desceu do carro e correu para abraçar a amiga que não via há muito tempo. Logo em seguida Thais apareceu e toda sem graça deu um rápido abraço em Yasmin.
– Que saudades de vocês. É uma pena que nos reunimos em um momento como esse. Mas não está faltando alguém? Cadê o Thiago?
– Ele não veio. Poderia ter vindo por consideração pelo menos. – Respondeu Murilo.
– Vocês ainda não se resolveram? – Perguntou Yasmin.
– Não. Eu tentei me aproximar dele, mas ele sempre ficava hostil e o Doutor Crove me fez abrir os olhos.
– Doutor Crove? Ele não estava com a Alex um pouco antes de sua morte?
– Sim. Ele é meu psicólogo, me ajudou quando eu estava tendo pesadelos.
– Ah, Alex me falou algo do tipo.
– Olha o doutor ali. – Disse Thais apontando para um homem de terno cinza.
– Então ele que é o tal doutor? Vocês não acham estranho ele estar com a Alex um pouco antes de sua morte? – Perguntou Yasmin.
– Pensei nisso também. – Disse Thais.
– Mas ele não faria mal a ninguém, ele é uma boa pessoa. – Completou Murilo.
Mauro chamou os adolescentes para ver o corpo de Alexandra ser enterrado. Na hora de repousar o caixão e a terra ser jogada sobre ele, Dona Thereza gritava e chorava, Yasmin colocou seus óculos escuros para esconder seus olhos vermelhos de tanto chorar, Murilo estava abraçado com Dona Thereza.
Após o enterro, Mauro foi para o carro esperar por Yasmin que ficou com Thais e Murilo observando o túmulo de Alexandra. Murilo retirou do bolso uma correntinha de ouro com um pingente de coração com o as iniciais dele e de Alexandra e abriu uma pequena abertura na terra e lá ele guardou o objeto de frente para a lápide. Em um abraço triplo, eles foram interrompidos.
– Com licença, poderia falar com vocês?
– Doutor! Claro que pode. – Disse Murilo ao doutor Crove.
– Prazer, Renato Crove. – Disse estendendo sua mão a Yasmin.
– Sou Yasmin. – Retribuiu apertando a mão.
– Então você é a Yasmin que a Alexandra me contou? – Perguntou o doutor e antes que ela pudesse responder, Murilo falou:
– Alexandra falou sobre Yasmin? O que vocês estavam fazendo juntos anteontem?
– Calma, Murilo. É sobre isso que eu gostaria de falar. – Ele olhou ao redor. – Bom, não era exatamente aqui que eu queria falar, mas ok. Alexandra veio me procurar para falar sobre você.
– Sobre mim? Por quê? – Perguntou Murilo.
– Era sobre o fim do relacionamento de vocês e ela acabou me contando sobre o possível motivo de seu trauma. – Ao ouvir, Murilo tremeu.
– E?
– Bom, me contou sobre a festa de despedia de Yasmin. – Os três adolescentes se entreolharam. – Sobre o que aconteceu naquela noite... sobre a morte de Luisa.
Silêncio. A única coisa que se ouvia era o farfalhar das folhas das árvores do cemitério.
– Sei que vocês não tiveram culpa.
– É claro, por isso ela morreu. – Disse Murilo.
– Desculpa? – Perguntou o doutor Crove.
– O pacto.
– Lá vem ele de novo com essas histórias. – Disse Thais revirando os olhos.
– Se lembram qual era um dos acordos do pacto? Não poderia revelar nada, pois a pessoa iria sofrer graves conseqüências.
– Doutor Crove, o senhor não fez um bom trabalho no tratamento. – Disse Thais ironicamente.
– Naquela noite, ouvimos aquela voz e tivemos aquela sensação. Coisas estranhas aconteceram, inclusive aquela cicatriz no braço de Thiago. – Disse Yasmin.
– Yasmin está acreditando nele? – Disse Thais nervosa.
– Do que vocês estão falando? – Perguntou o doutor que estava perdido na conversa.
– Durante o pacto sentimos algo estranho. Thiago me falou sobre Ceifadores e eu acabei pesquisando sobre isso, descobri que eles só podem ser vistos por pessoas que eles vêm buscar. – Explicou Murilo.
– No restaurante, Alexandra via um homem que só ela enxergava. – Lembrou o doutor.
– E o relógio antigo que Dona Thereza havia ganhado do marido, que estava na sala, tinha parado de funcionar. Quando Ceifadores matam uma pessoa os relógios próximos ao local param no exato momento da morte da pessoa. – Continuou Murilo. Yasmin e o doutor escutavam atentamente.
– Ninguém merece né?! Não existe esses lances de Ceifadores, isso são só Lendas Urbanas. O relógio já era muito velho, poderia muito bem ter parado de funcionar por problemas e não por coisas sobrenaturais. – Disse Thais impaciente.
– Se não acredita nessas coisas, então por que não contou nada a ninguém sobre a morte de Luisa? – Perguntou Murilo.
– Mano, eu estava bêbada e além do mais eu não sou dedo-duro.
– Isso não importa. Mas que a morte da Alexandra foi estranha, foi sim. Foi só isso, obrigado pela atenção. Murilo, nos vemos na terça? – Murilo assentiu e o doutor se despediu. O celular de Yasmin tocou e era seu pai a mandando ir mais rápido.
– Mu, vou deixar a Thais na casa dela, quer carona?
– Não, Ya, obrigado. Vou ficar mais um pouco aqui e depois vou pra casa andando e pensando um pouco.
– De boa. Vou ficar até de tarde na cidade, poderíamos ir na sorveteria.
– Nem dá, estou cansado e amanhã tem escola ainda.
Yasmin se despediu do amigo com um forte abraço e um beijo na bochecha, Thais só disse “Tchau” e foram para o carro. Murilo tirou a blusa e a estendeu no chão para poder sentar e ficar olhando o túmulo de Alexandra. Depois de algum tempo, percebeu que havia uma pessoa o observando e se levantou, a pessoa percebendo saiu correndo entre as árvores e Murilo foi atrás dela.
Murilo se atrapalhava com todas aquelas árvores e a pessoa que ele estava perseguindo também. Ela estava usando uma jaqueta com capuz e de costas não dava para vê-la, Murilo tinha a impressão de que já vira aquela jaqueta em algum lugar, ele então perdeu seu perseguido de vista.
O perseguido havia se despistado de Murilo e dado a volta, voltando para o túmulo de Alexandra onde ele sorriu e abaixou o capuz. Era Thiago! Thiago que estava observando Murilo e que estava sendo perseguido. Ele não havia mudado muito, apenas estava mais alto.
Ele então saiu do cemitério com pressa para não ser visto por ninguém e para Murilo não encontrá-lo. Voltou para sua casa, seu pai estava assistindo o jogo de Futebol na sala e sua mãe na área da piscina com seus cães.
– Voltei, pai.
– Hum. – Disse o pai sem tirar a atenção do jogo.
Thiago subiu as escadas, que davam acesso aos quartos, a mais um banheiro e ao escritório de seu pai. Entrou em seu quarto, era grande e iluminado, uma televisão de Led na parede, um computador e notebook. Thiago tinha a vida de que todos naquela cidade queriam, viagens, roupas caras e outras coisas.
Abriu o armário para guardar seu tênis e lá estava sua chuteira que não usava há muito tempo. Ele jogava no time da escola, só que desde o início do ano sua atuação piorou, ele já não se importava mais com o futebol como antes e acabou saindo do time.
Foi tomar banho para tirar o suor e as energias do cemitério. Parado em frente ao espelho e se olhando, ele disse:
– Uma não aguentou ficar de boca fechada e teve que contar. – Começou a dar risada. – Agora é só uma questão de tempo para os outros contarem e serem mortos também, afinal eles não acreditam nesses “bagulhos”. Por mim morriam todos de uma só vez. – Entrou no chuveiro.
O vapor dentro do banheiro aumentou muito e não era o vapor quente do chuveiro, era um frio. E uma sombra parecia vir em direção a Thiago que percebeu aquela aproximação e se assustou, pois a porta estava fechada, então ele desligou o chuveiro e mesmo com a espuma do shampoo em seus cabelos ele permaneceu imóvel dentro do Box. Thiago sem os óculos não enxergava praticamente nada, mas parecia que a sombra havia parado de se movimentar entre o vapor, o excesso de shampoo descia pelo seu rosto criando uma irritação em seus olhos, ele limpou e a sombra desapareceu. O vapor que, até então, estava todo concentrado no banheiro, finalmente achou a janela e saiu, Thiago esperou a grande quantidade ir embora para ligar rapidamente o chuveiro e terminar seu banho.
Terminando de se trocar, ele foi jantar e sua mãe estava na cozinha.
– Onde você foi de tarde?
– Saí andando por aí.
– Tá namorando?
– Estou mãe. – Disse ironicamente.
– Quem é a sortuda?
– Foi ironia mãe. – E começou a comer. Sua mãe tentou conversar mais, mas Thiago odiava comer e conversar ao mesmo tempo, ela então saiu da cozinha com um de seus poddles no colo. Terminando de jantar, ele colocou a louça na lavadora e sentiu um frio e arrepio, subiu para seu quarto. Passando pelo corredor, seu pai lhe disse:
– Vai logo dormir e sem ligar o computador!
Thiago fez uma cara feia. Ele não tinha mais uma boa relação com seu pai desde a confusão com Murilo que eles foram presos. Já de madrugada, ele desligou a televisão e tirou os óculos para dormir. Seu quarto estava iluminado apenas por um raio de luz da Lua que passava por uma pequena fresta de sua janela, sem enxergar muito bem, ele viu uma sombra na parede então ele virou de lado.
Sentindo um frio do nada e um movimento em seu quarto, Thiago pegou e colocou seus óculos e ao colocá-lo viu uma menina parada do seu lado, ele tentou gritar, mas a menina colocou um dos dedos na boca dele fazendo com que se calasse, seu dedo era frio.
– Não fale nada. – Disse a menina e Thiago reconheceu a voz.
– Alexandra, mas você, você...? – Disse ele espantado, por causa do frio, ele tremia e uma fumaça saia de sua boca.
– Estou morta e nada bem, Thiago. Tudo por sua culpa. – Disse ela calmamente.
– Minha culpa? Você falou sobre a morte da Luisa, quebrou o acordo do pacto.
– Tolinho você, não? Vejo que não sente remorso algum.
– Remorso? Por favor. Estou sonhando só pode. – Disse esfregando os olhos.
– Não está sonhando. Nunca mais você conseguirá dormir, Thiago, não deixarei.
– O que você quer dizer com isso? – Perguntou Thiago temeroso se cobrindo ainda mais com o edredom.
– Fui morta por razões sobrenaturais, por magia negra, ficarei vagando por esse mundo para sempre enquanto você estiver vivo. – A única coisa que Alexandra mexia era sua boca, ela falava e observava o terror de Thiago. – Seu medo me faz bem.
– Vai embora! – Disse Thiago.
– Essa cicatriz em seu braço “Anima”, prende as almas de todos aqueles que participaram do pacto daquele dia. Se os outros três morrerem por causa do Ceifador, eles e eu iremos te atormentar até você ficar louco, até você morrer. E depois disso, todos queimaremos no Inferno.
– VAI EMBORA!! – Gritou Thiago apertando os olhos e ao abri-los Alexandra já não estava mais em seu quarto.
Já de manhã, seu celular tocou para acordá-lo, sua cicatriz estava latejando e ele não sabia se tudo aquilo tinha sido real ou se foi apenas um sonho.
6:33 da manhã ligou para Murilo.
– Alô? – Uma voz atendeu o telefone.
– Ah, oi Senhor Roberto, é o Thiago, Murilo já acordou?
– Thiago? – Roberto ficou espantado com aquela ligação. – Está, só um momento. – Thiago ouviu Roberto falando com o filho.
– Por que está me ligando, preciso terminar de me trocar para a escola? – Perguntou Murilo que ainda estava com raiva de Thiago por ele não ter ido ao enterro de Alexandra.
– Não vou hoje para a escola, poderia me encontrar de tarde na sorveteria? Queria conversar.
Murilo achou estranho Thiago ligar querendo conversar, mas aceitou sem questionar.
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