Na escola, Murilo se despedia dos colegas.

– Murilo, vamos pra minha casa jogar bola pra dar uma curtida básica no meu aniversário, quer ir cara? – Convidou um garoto do time de futebol.

– Nem rola, Jaza, tenho um compromisso pra hoje. Mas valeu, outro dia quem sabe. – Murilo se despediu e pegou o caminho para a sorveteria. A pé ficava mais ou menos uns 15 minutos.

Quase uma hora da tarde e Murilo chegou, Thiago já estava esperando tomando um Milk Shake.

Murilo se sentou com uma cara séria e deixou a mochila que carregava em uma cadeira vazia na mesa.

– Olha... – Começou Thiago.

– Se você me chamou até aqui para brigarmos, então é melhor eu ir embora do que perder meu tempo novamente.

– Não, Murilo, espere! – Disse Thiago

– O que então? – Disse Murilo suavemente.

– Gostaria de me desculpar por tudo, fui um completo idiota. Você não teve culpa alguma naquele dia. – Enquanto Thiago falava, Murilo prestava atenção espantando com o orgulho que Thiago havia deixado de lado. – Acho que não era pra tanto eu ter feito tudo aquilo depois.

– Sabia que um dia você ia entender.

– E outra coisa... Lamento pela morte da Alexandra. – Murilo o fitou. – Depois que ela morreu, seu espírito veio me atormentar ontem de noite.

Murilo arregalou os olhos.

– O espírito dela?

– Sim. Não sei se foi um sonho ou se ela realmente apareceu, só sei que foi assustador. Ela disse que me atormentará todas as noites pelo o pacto que fizemos e que se você, Thais e Yasmin morrerem por causa do pacto, vocês também irão me atormentar.

– Mas por que ela apareceu apenas para você?

– Porque eu sou o dono do pacto. Eu que o apresentei a vocês. – Thiago arregaçou as mangas revelando a cicatriz em seu braço. – “Anima”, significa alma, todos vocês estão de certa forma ligados a mim. Não a mim, não sei explicar. É muito complicado.

– Entendi, você não se importou por ela ter morrido, não é mesmo? Você está apenas preocupado com você. – Murilo balançou a cabeça. – Você me dá nojo.

– O de sempre Murilo? – Era uma mulher da sorveteria.

– Hoje não, Olga, já estou de saída. – Murilo se levantou e colocou a mochila nas costas e já ia embora quando Thiago começou a falar:

– Quero quebrar o pacto! – Murilo parou onde estava e virou para ele. – Como você disse, pode mesmo ser egoísmo da minha parte, mas quero logo acabar com isso.

Murilo voltou e sentou, chamou Olga e pediu uma taça de sorvete.

– E o que você pretende fazer?

– Não sei.

– Ótimo! Vamos começar bem em. – Disse Murilo se largando na cadeira.

– Calma. Vou conversar com Conceição, talvez ela tenha alguma ideia. – Disse Thiago terminando seu Milk Shake.

– Conceição? E o que ela tem a ver com isso? – Conceição era uma empregada antiga da família de Thiago.

– Eu peguei o livro de magia negra dela. Ela que gosta desses lances, uma vez eu a vi fazendo uma espécie de remédio para um dos cachorros de minha mãe ela ficou louca quando me viu observando.

– Eu me lembro que você disse que ela havia te ensinado. – Disse Murilo.

Thiago não falou nada e abaixou a cabeça.

– Você mentiu sobre isso também? Não acredito nisso, você nos meteu em uma coisa que nem sabe direito como funciona. – Disse Murilo zangado.

– Eu pensei que era fácil fazer o pacto, e na verdade, até que foi, mas pensei que era um pacto que envolvia um Ceifador, e não um ritual de invocação e controle sobre ele.

– Mas então quer dizer que você pode controlá-lo?

– Não sei. – Thiago disse e Murilo se largou de novo na cadeira bufando. – Mas eu li algo no livro da Conceição que é possível sim controlá-los.

– E qual vai ser o primeiro passo então?

– Falarei com Conceição para ver o que podemos fazer para reverter tudo.

– Tá, vou voltar pra casa, qualquer coisa me liga. – Murilo se despediu de Thiago e foi para o caixa.

– Pode deixar que eu pago, eu que te chamei aqui. – Thiago abriu a carteira e pagou a taça de sorvete de Murilo.

Ao sair da sorveteria, Murilo ficou pensando na conversa que teve com Thiago. Pelo menos ele teve a certeza que não estava ficando louco.

– Louco? — Teve uma ideia, a única pessoa com quem ele poderia conversar no momento.

Chegando no consultório do doutor Crove, Márcia não atendeu a porta e sim Mariana, a filha do doutor.

– Murilo, quanto tempo. – Disse envergonhada ao ver o garoto. – O que faz aqui?

Mariana tinha 16 anos, era a filha mais nova do doutor. Era branca, tinha cabelos longos e negros e uma franja para o lado, seu rosto era delicado, tinha os mesmos olhos acinzentados de seu pai, seu sorriso era grande e revelava dentes tão brancos quanto sua pele, mesmo usando aparelho.

– Oi. Vim conversar com seu pai umas coisas. Olá, Márcia. – Entrou e cumprimentou a secretária.

– Meu pai está em horário de almoço agora. Mas se você quiser esperar. – Disse rápido ao ver a expressão de Murilo.

– Não tenho muito tempo, amanhã na minha consulta eu falo com ele. – Mariana não escondeu sua cara de tristeza. – Até mais.

Mariana se despediu toda desastrada e gaguejou ao se despedir de Murilo.

Márcia começou a rir.

– O que foi Márcia? – Perguntou Mariana sem entender.

– Você gosta do Murilo né?

– Eu? É claro que...é claro que não! De onde você tirou isso? – Perguntou nervosa.

– Nada não. É coisa da minha cabeça. – Márcia disse ainda rindo e digitando no computador.

Mariana havia gostado de Murilo logo no primeiro dia que se conheceram no consultório. Ela não morava naquela cidade, estava morando com seu pai por três meses enquanto sua mãe tinha ido viajar a negócios.

Ela nunca gostou da cidade quando vinha passar alguns dias com seu pai, achava tudo aquilo um tédio, mas depois de ter conhecido Murilo, ela mudou completamente sua opinião, agora tinha algo que a prendia na cidade.

Nunca havia revelado seus sentimentos a Murilo, porque na época ele ainda namorava com Alexandra, o que gerou algumas discussões entre o casal por causa de Mariana.

**

Thiago terminou de tomar outro Milk Shake e pagou. Saiu da sorveteria, pegou sua bicicleta estacionada e voltou para sua casa. Estava disposto a falar com Conceição para resolver o problema que tinha criado.

Chegando, seu pai estava no escritório no centro da cidade e sua mãe na manicure, Conceição estava arrumando o café da tarde.

– Conci, posso te fazer uma pergunta?

– Acabou de fazer. Faça outra. – E deu uma risada que mais parecia um ronco. Conceição era uma senhora com seus quase sessenta anos, bem miudinha, seus cabelos não eram pintados e cuidados, estavam presos em um coque, usava óculos fundo de garrafa e suas mãos estavam castigadas devido tanto tempo que trabalhava como empregada.

Thiago limpou seus óculos em sua camiseta e pediu para que Conceição sentasse com ele na mesa para conversarem.

– Ah não Thiago, empregada não se deve sentar na mesma mesa que seus patrões.

– Não há nenhuma diferença entre nós, a senhora foi praticamente uma segunda mãe para mim. Sente-se, por favor. – Ouvindo essas palavras, os olhos de Conceição se encheram de lágrimas, retirou os óculos para enxugá-los e não pôde mais negar o pedido de Thiago para se sentar. – É que, a senhora se lembra daquela vez que a vi fazendo uma mistura no quartinho para o Bill? Então, depois esperei a senhora ir embora para mexer em seus livros.

– Por que foi mexer em minhas coisas? Poderia ter pedido! – Era a primeira vez que Thiago via Conceição nervosa.

– Desculpa, Dona Conceição, eu só fiquei curioso.

Conceição zangada se levantou da mesa e começou a lavar a louça, ela já não olhava mais para Thiago.

– Você mexeu em mais alguma coisa?

– Depois daquele dia, mexi mais uma vez pra fazer um pacto. – Conceição derrubou um dos pratos.

– Que tipo de pacto?

– Peguei um livro de capa escura com um símbolo na capa, algumas velas e um pote transparente para fazer um pacto de sangue.

– E para quê?

– Para guardar um segredo.

– Você sabe como isso é grave? Mexer em coisas que não são do seu entendimento?! Uma criança... – Conceição tinha dado um tapa na mesa assustando Thiago.

– Queria que a senhora me ensinasse a quebrar o pacto com o Ceifador. – Disse Thiago em tom de medo.

– Não tem como quebrar um pacto com Ceifador, porque não existe esse tipo de pacto. Você fez uma conjura. E é muito complicado de desfazer.

Conceição não terminou de lavar a louça e saiu da cozinha.

– Onde a senhora vai? – Perguntou Thiago seguindo a empregada.

– Vou arrumar minhas coisas para ir embora.

– Não, por favor, não vá embora por minha causa.

– Você quebrou minha confiança Thiago. – Conceição começou a subir as escadas.

– Dona Conceição, por favor, preciso da ajuda da senhora. Eu e meus amigos corremos perigo por causa do pacto. – Conceição parou de subir

– Tudo bem, Thiago, amanhã vou fazer o possível para tentar te ajudar e depois vou embora. Mas saiba que você foi muito imprudente.

Conceição desceu as escadas e voltou para a cozinha sem olhar para Thiago que subiu para seu quarto e ligou para Murilo.

– E aí? Conversei com Conceição e ela disse que nos ajudará amanhã.

– Amanhã?

– Sim, por que você não pode? – Perguntou Thiago.

– Tenho consulta no psicólogo às duas da tarde. Mas assim que eu sair vou pra sua casa. – Depois de mais algumas conversas eles desligaram.

Thiago arrumou sua mochila para ir à escola no outro dia, colocou música no último volume e começou a dançar. Passou a tarde toda em seu quarto dançando e cantando, até seu pai chegar e pedir para ele abaixar o volume e descer, pois a janta já estava pronta.

Conceição tinha preparado toda a mesa na sala de estar para a janta de seus patrões. Após a janta, ela se retirou para o quartinho sem ao menos dar boa noite ao Thiago como fazia.

Já de noite, Thiago deitou para descansar, mas novamente não conseguiu. O quarto esfriou e Alexandra fez mais uma aparição para atormentá-lo por mais uma noite.

Dessa vez, à luz da televisão, Alexandra estava visível, estava pálida e com olheiras, seus olhos estavam fundos, usava a roupa de sua morte, o uniforme da escola e estava acorrentada por uma corrente.

– Essa será a última vez que nos veremos. – Disse Thiago com um sorriso desdenhoso.

– E por quê? – Perguntou Alexandra calmamente.

– Achei um jeito de acabar com tudo.

**

“E hoje foi mais uma segunda-feira cansativa, aquelas duas aulas de Geografia realmente acabam com qualquer um. Depois subimos pro Laboratório fazer os trabalhos de Química, até que foi legal, o Lucas conseguiu explodir seu experimento e o Cássio ficou nervoso com ele e tiveram que fazer outro.

Logo mais tem Vestibular e provas na escola, também preciso trabalhar, é muita pressão pra uma cabeça só. Crescer dá muito trabalho, agora entendo Peter Pan e os Meninos Perdidos.

Foi aniversário do Jaza, zoamos muito na hora do intervalo e nem deu pra ir na casa dele bater uma bolinha com os moleques.

Fui me encontrar com Thiago, ele me ligou de manhã para conversarmos [...]”.

Depois de escrever o que tinha acontecido no dia, Murilo respondeu algumas mensagens em seu celular e assistiu um pouco de televisão antes de pegar no sono.

No outro dia, o celular de Murilo não despertou e ele não acordou a tempo de ir para a escola. Nervoso, passou a manhã toda estudando ainda mais.

Depois foi para sua consulta com o doutor Crove. Chegando lá, teve que esperar o doutor voltar do almoço, esperando também, estava um garoto ruivo que Murilo tinha visto algumas vezes nos corredores da escola.

Murilo sentou ao lado do garoto e perguntou:

– Você estuda no Monte Paulo não é?

O garoto estava lendo um livro, marcou a página e falou:

– É a única escola por aqui, então acho que é meio óbvio. – O garoto era muito branco, como grande parte das pessoas da cidade, seus olhos eram azuis muito claros e usava um pequeno alargador preto.

– Verdade. – Murilo riu com sua burrice. – Também sou de lá, meio óbvio. Eu me chamo Murilo.

– Sou Guilherme. Você é o Murilo ex daquela garota que morreu?

– Alexandra, sou sim. Você é de qual série?

– Fiquei sabendo, sinto muito. Era uma das melhores jogadores de vôlei da escola. Sou do 2º. Mas, e aí, por que vem ao doutor?

– Uns problemas aí, estava tendo pesadelos. – Respondeu Murilo.

– Só por isso? – Guilherme deu uma risada de deboche.

– Não, estava com problemas de relacionamento com meus pais e Alexandra, tendo pesadelos, tinha brigado com meu melhor amigo, e outras coisas. E você?

– Eu que pedi para ter consultas, não sou de conversar muito com meus pais e sou fechado, desconfio de todos. Tenho um certo trauma de infância, tento resolver isso com o doutor. E mais um motivo aí.

– É raro encontrar alguém que queira ir ao psicólogo por vontade própria.

– Pois é, as pessoas pensam que só vai ao psicólogo quem é louco – Guilherme fez o sinal de aspas na palavra ‘louco’ – e se enganam completamente.

O doutor chegou e chamou Murilo para sua consulta.

– O que achou do Murilo? – Perguntou Márcia.

– “Legalzinho”. – Respondeu Guilherme voltando para seu livro. – Já terminou de ler o livro que te emprestei?

– Ainda não.

– Olha – Guilherme se levantou e mostrou o livro que estava lendo para Márcia, sua capa tinha uma cor de areia e tinha um grande símbolo estranho que ocupava tudo. – Esse é o terceiro livro de uma saga de alienígenas que vêm para a Terra, logo após seu planeta ser destruído e têm que se esconder. É muito legal, foi lançado o filme, só que é totalmente diferente.

– É muito difícil uma adaptação ser fiel. Pode me emprestar o primeiro livro depois? Eu estou amando Extraordinário, já estou no fim, mas devido ao trabalho ainda não terminei.

Márcia e Guilherme começaram a conversar.

Guilherme gostava muito de ler, comprava diversos livros e depois os doava para a biblioteca.

Murilo ao terminar sua consulta com o doutor se despediu e foi para a casa de Thiago para tentar quebrar o pacto. Chegando, foi atendido por Conceição.

– Boa tarde Dona Conceição. – Disse Murilo sorrindo.

– Murilo, Thiago está te esperando no quarto dele. – Disse a empregada friamente. Murilo apenas olhou para ela e sem falar nada e subiu para se encontrar com Thiago.

Ele bateu na porta do quarto.

– Sou eu.

– Pode entrar, está aberta. – Thiago estava no computador. – Por que não foi hoje pra escola?

– Me atrasei. Conceição está estranha.

– É, ficou brava quando contei que mexi nas coisas dela.

Depois de algum tempo, Conceição bateu na porta e falou:

– Vamos logo acabar com isso. – Thiago desligou o computador.

Murilo e Thiago foram com Conceição para o quartinho que ficava no fim do corredor.

A única janela do quartinho estava fechada com a persiana, no chão havia um grande pano preto com um pentagrama branco com diversos símbolos e em cada ponta da estrela havia uma vela. Conceição estava segurando um livro grande e surrado, sua capa era preta e desbotada, nas pontas parecia que tinha aço. Murilo não conseguiu ler o nome do livro, pois além de estar desbotado estava em uma língua que ele não conseguia entender.

– Onde a senhora conseguiu essas coisas? – Perguntou Murilo.

– Meus ancestrais são de Gilbratar e há muito tempo eles foram descobertos e foram para Portugal e de lá vieram para o Brasil. Para não perder as crenças, as mães ensinavam para seus filhos bruxaria e passam de geração para geração os livros. Esse – mostrou o grande livro negro – foi trazido pelo meu Tataravô em uma viagem que fez para Turquia, não é o original, mas contém várias escritas em hebraico.

– Bruxaria? Pensei que essas coisas não existiam. Tipo, pensei que o Ceifador não tinha nada a ver com isso.

– Sim e não. Por magia dá para prender e selar alguma criatura. Bruxaria normalmente serve para rituais mágicos, ou invocatórios, poções para cura, algo relacionado a natureza. Mas muitas dessas magias só funcionam para quem acredita.

– Espera um pouco. – Disse Thiago. – Quer dizer que isso é bruxaria antiga, digo, daquelas feias com verrugas no nariz? E eu mexi com isso?

Conceição fez uma cara feia para ele e olhou acima de seus óculos.

– Vamos começar, Murilo você senta, Thiago ficará em pé. Não sei se dará certo, nunca fiz coisas assim, sempre criei remédios para animais e pessoas. – Conceição acendeu as velas e entregou o livro para Thiago. – Você que deverá ler esse texto em latim para invocar o Ceifador.

Thiago pegou o livro e olhou para Murilo que deu uma olhada o encorajando.

Thiago começou a recitar e as velas começaram a oscilar e as chamas mudaram de cor, assustado, Murilo fechou os olhos com força e Conceição ficou ainda mais concentrada.

Por um descuido, Thiago errou uma palavra e o Ceifador surgiu apenas para o garoto. Paralisado de medo, Thiago não conseguiu terminar e derrubou o livro que se fechou.

– Ele está diferente da primeira vez que o vi. – Disse Thiago em presença do Ceifador, seu sobretudo preto parecia agora de camurça e o preto dele brilhava com as chamas. – Ele está... Imponente.

Conceição tentou encontrar a página e Murilo em um ato de desespero derrubou as duas velas próximas a ele, as pequenas chamas começaram a queimar o pano.

O Ceifador se aproximou de Thiago que perdeu as forças e caiu de joelhos no chão, quando o Ceifador estava pronto para ceifá-lo, Conceição em um ato de desespero sem encontrar as páginas, começou a falar rapidamente em Latim, como ela não tinha começado o feitiço, o Ceifador deixou Thiago de lado e foi para cima da empregada que acabou tendo sua alma selada e o corpo caiu em meio as chamas que se alimentavam do pano que estava no chão.

Murilo e Thiago saíram do quartinho, Thiago ainda podia ver o Ceifador entre as chamas, a alma de Conceição estava ao lado, mas ele não podia vê-la.

– E o corpo da Conceição? – Perguntou Thiago desesperado.

– Não temos tempo para isso, vamos sair daqui. – As chamas haviam tomado conta do quartinho e se espalhavam rapidamente pelo corredor queimando a tapeçaria. Os garotos saíram correndo escada a baixo. – Onde você está indo Thiago?

– Vou salvar os cachorros da minha mãe.

– Seu idiota. – Murilo foi ajudar o amigo.

Após pegar os cinco cachorros, eles saíram e juntamente com uma multidão, ficaram olhando para a casa que pegava fogo. Os bombeiros chegaram e conseguiram controlar o fogo, mas nada mais dava para ser salvo.

– Então é isso, acabou? – Perguntou Murilo. – Ele foi destruído?

– Não, eu ainda o vejo ali na porta. – O Ceifador estava na porta com Conceição e desapareceram. – Acho que ele está esperando por mais um deslize nosso ou da Yasmin e Thais.

– Então quer dizer que isso nunca irá acabar não é? Conceição era a única que podia nos ajudar e agora ela está... – Murilo foi interrompido pelos pais de Thiago.

– Thiago, meu filho, o que houve? – Perguntou a mãe de Thiago abraçando o filho e pegando seus cachorros.

– No mínimo esse marginal estava fumando dentro da casa! – Disse o pai.

– Cala a boca, Marcos. Nossa casa foi destruída e poderíamos ter perdido nosso filho.

– Vai começar. – Thiago sussurrou para Murilo.

– Sofia, isso pode ter sido muito bem culpa desse seu filho.

– Nosso filho! – Ao perceber que todos estavam olhando para ela e para o marido, Sofia tentou encerrar o assunto por enquanto.

– E para onde vamos agora? – Perguntou Thiago olhando para a casa destruída.

– Para o nosso apartamento na praia, até comprarmos uma casa em outra cidade. – Respondeu Sofia.

A família de Thiago era uma das poucas naquela cidade que levavam uma vida boa, tinham um apartamento no litoral e já haviam viajado diversas vezes para fora do país. Moravam naquela cidade por causa do conforto e da vida mais calma que Sofia queria ter longe de trânsito e poluição.

Após terem resolvido tudo e respondido todas as perguntas, a família de Thiago e Murilo se despediram.

– Cara, me desculpa, não queria ter te envolvido em tudo. – Disse Thiago.

– Ah Thiago, eu estava na festa também, tenho uma parcela de culpa.

– Não, Murilo. Bem, isso também, mas não queria ter te envolvido naquela confusão da delegacia.

– Esquece, isso é passado, o que importa é que nos resolvemos. – Thiago apertou a mão do amigo e entrou no carro. – Adeus Thiago.

Murilo recusou que seus pais viessem lhe buscar e voltou andando para casa, no caminho encontrou Mariana. A menina ao vê-lo ficou paralisada e de olhos arregalados.

– Oi, Mariana.

A garota falou algo que era inaudível.

– Onde você está indo com essa sacola?

– Gui-Guilherme... livros. – Ela se enrolou toda.

– Quê? – Murilo não entendia nada.

– Essa sacola tem os livros que um dos pacientes do meu pai me emprestou. – A garota falou rápido, mas dessa vez Murilo conseguiu entender. — Você está bem? — Fiquei sabendo do incêndio em uma das casas e que você estava lá dentro.

– Fisicamente estou sim.

Mariana fez uma cara de consolo e mudou de assunto:

– Quer ir comigo levar esses livros? – O coração de Mariana estava muito acelerado e ela torcendo para que ele aceitasse.

– Demora muito a casa dele?

– Não, mais uns cinco minutos. – Murilo aceitou e pegou a sacola para levar e Mariana suspirou.

– Mas então, que livros são esses livros?

– Percy Jackson. É sobre mitologia grega, de quando os deuses desciam e namoravam com os mortais tendo filhos com eles.

– Ah, já foi lançado um filme né? – Perguntou Murilo ao abrir a sacola e ver o nome do primeiro livro.

– Sim. Só que o filme não tem nada a ver.

– Não sou muito de ler livros, leio forçado esses de vestibular. Estou com um primeiro de Harry Potter lá que está parado desde o ano passado, não tenho paciência, e já assisti os oito filmes mesmo.

– Eu amo os livros e os filmes, são incríveis e a escritora é excelente. Por causa disso quero ir pra Inglaterra.

– Gosta daquela saga dos vampiros que brilham? – Murilo deu risada.

– Se é vampiro, então ele só vai brilhar na hora de explodir ao ter contato com a luz do Sol, né? – Respondeu Mariana também dando risada.

– Todas as meninas gostam desses vampiros e lobisomens aí. Pensei que você também gostasse.

– Mas eu não! Não sigo modinhas e acho que esses livros acabaram com a lenda de vampiros. – Respondeu Mariana — Chegamos. – Ela apertou a campainha e Guilherme atendeu.

Guilherme corou ao ver a garota.

– Vim devolver seus livros, Gui. – Disse Mariana com um sorriso grande, Murilo entregou a sacola para Guilherme, os dois se cumprimentaram com um aceno de cabeça. – Obrigado, são muito bons.

– São mesmo. Incrível o escritor ter misturado Mitologia antiga com o mundo atual. Gostariam de entrar? Mari, você poderia escolher outros livros. – Guilherme perguntou esperançoso.

– Ah não, obrigado, daqui a algumas semanas minha mãe volta e vou ter que sair da cidade e acho que nem vai dar tempo de terminar de ler mais alguns livros. E o Murilo precisa voltar logo para casa. – Respondeu Mariana e Murilo percebeu que Guilherme havia ficado triste com a resposta da garota. – Nossa, sou muito idiota, Murilo esse é Guilherme, Gui esse é Murilo.

– Já nos conhecemos. – Os garotos responderam simultaneamente.

Mariana deu risada.

– De boa então. Bom, vamos? – Disse Mariana e Murilo assentiu. – Tchau, Gui, até quinta, talvez.

– Tchau, Mari, eu espero. Falou, Murilo. – Guilherme se despediu dando um beijo no rosto da garota e apertando a mão de Murilo. Entrou na casa e fechou a porta. – Seu sorriso é o mais lindo.

Já estava anoitecendo e Murilo acompanhou Mariana até a casa dela.

Notas finais
Apresentação de dois importantes personagens para a história. Espero realmente que estejam gostando do rumo que está tomando. Comentem o que estão achando.