O PESO DE UMA PROMESSA
3 CAPÍTULO 3- Regras da Casa Black
Elena Swan chegou dezessete minutos antes.
Naturalmente.
Alice havia previsto aquilo ainda no café da manhã.
— Sua entrevista é às dez.
— Eu sei.
— São oito e quinze.
— Eu sei.
Alice apoiou o queixo na mão e observou a amiga.
Calça social preta.
Camisa branca.
Cabelos presos.
Pasta com currículo.
Sapatos impecáveis.
Uma expressão tão concentrada que parecia estar prestes a negociar a dívida externa de um pequeno país.
— Você vai fazer uma entrevista para chef particular ou assumir a presidência dos Estados Unidos?
Elena conferiu os documentos dentro da pasta pela terceira vez.
— Pontualidade demonstra responsabilidade.
Bella apareceu na cozinha arrastando os pés.
— Chegar uma hora antes demonstra psicose.
Elena lançou-lhe um olhar.
— Obrigada pelo apoio.
— Sempre.
— Tem café.
Bella mudou imediatamente de expressão.
— Amo você.
— Eu sei.
— E ovos?
— Na geladeira.
— Amo mais ainda.
Alice cruzou os braços.
— Ela tem dezoito anos.
— Eu sei.
— Sabe usar um fogão.
Bella abriu a geladeira.
— Tecnicamente.
— Tecnicamente? — Alice repetiu.
— Eu sei ligar.
Elena pegou a bolsa.
— Isso não é saber cozinhar.
— Nunca disse que era.
— E não deixem louça na pia.
Alice sorriu.
— Sim, mamãe.
Elena parou.
O sorriso de Alice desapareceu no mesmo instante.
— Lena... desculpa. Eu não quis...
— Tudo bem.
— Foi força de expressão.
— Eu sei.
Bella aproximou-se e beijou o rosto da irmã.
— Boa sorte.
— Obrigada.
— E não fica nervosa.
— Não estou nervosa.
Alice e Bella trocaram um olhar.
Elena apontou para as duas.
— Nenhuma palavra.
Saiu.
A porta se fechou.
Alice esperou dois segundos.
— Está apavorada.
— Completamente — Bella respondeu.
Elena soube que estava entrando em outro mundo antes mesmo de chegar à porta.
O endereço do anúncio a levara a uma região residencial onde as casas pareciam ter sido construídas especificamente para fazer pessoas comuns questionarem todas as decisões financeiras que haviam tomado desde o nascimento.
Ela conferiu o número.
Depois conferiu novamente.
— Meu Deus.
Não era uma casa.
Era uma propriedade.
Um jardim enorme e perfeitamente cuidado cercava a construção de linhas modernas, madeira escura, pedra e vidro.
Tudo parecia organizado demais.
Bonito demais.
Caro demais.
Elena olhou para os próprios sapatos.
Depois para a entrada.
— Não encosta em nada caro.
Respirou fundo.
— Você cozinha. Pessoas ricas comem. É uma relação comercial perfeitamente normal.
Deu dois passos.
Parou.
— E se quebrar alguma coisa, foge.
Tocou a campainha.
Uma mulher de aproximadamente cinquenta anos abriu a porta. Tinha cabelos escuros presos, postura elegante e uma expressão que transmitia cordialidade e autoridade na mesma medida.
— Elena Swan?
— Sim.
— Sue Clearwater.
Estendeu a mão.
— Sou secretária pessoal do senhor Black.
Elena apertou-a.
— Prazer.
— Entre.
Sue conduziu-a para dentro.
Elena tentou não olhar demais.
Falhou miseravelmente.
A sala era enorme.
Madeira.
Pedra.
Vidro.
Móveis elegantes.
Obras de arte.
Pouquíssimos objetos pessoais.
Era bonita.
Impecável.
E estranhamente fria.
Parecia uma casa esperando alguém começar a morar nela.
— O senhor Black mora sozinho? — Elena perguntou.
Sue olhou para ela.
— Isso é relevante para a preparação das refeições?
Elena entendeu imediatamente.
— Não.
— Ótimo.
Continuaram andando.
Elena decidiu que gostava de Sue.
Ou tinha medo dela.
Provavelmente os dois.
Quando chegaram à cozinha, entretanto, toda cautela desapareceu.
— Nossa.
Sue observou.
— Algum problema?
— Nenhum.
Elena caminhou alguns passos.
Bancadas enormes.
Fogão profissional.
Dois fornos.
Geladeiras embutidas.
Uma ilha central de mármore.
Utensílios que ela só havia usado nos laboratórios da faculdade.
Abriu uma gaveta.
Facas perfeitamente alinhadas.
— Absolutamente nenhum problema.
Sue quase sorriu.
— Imaginei.
Elena passou a mão pela bancada.
— Quem cozinha aqui atualmente?
— Ninguém.
Ela virou-se.
— Ninguém?
— O último chef pediu demissão.
— Por quê?
Sue fez uma pausa.
— Divergências profissionais.
— Com o senhor Black?
— Sim.
Elena hesitou.
— Ele é difícil?
Sue sustentou seu olhar.
— Senhorita Swan, vou lhe explicar exatamente como funciona esta vaga.
Elena endireitou a postura.
— Isso foi um sim diplomático?
— Isso foi eu ignorando a pergunta.
— Entendi.
— Ótimo.
Sue retirou algumas folhas da pasta.
— O senhor Black possui uma rotina extremamente organizada. Não gosta de alterações e não aprecia improvisações desnecessárias.
— Certo.
— Existe uma lista de alimentos permitidos e refeições habituais.
Entregou as folhas.
Elena começou a ler.
E continuou lendo.
Virou a página.
Depois voltou à anterior.
— Isso é tudo?
— Sim.
— É uma lista um pouco...
Sue ergueu uma sobrancelha.
— Restrita — Elena concluiu.
— Funciona para ele.
— Frango.
— Sim.
— Carne.
— Sim.
— Salmão.
— Sim.
— Legumes.
— Sim.
Elena olhou para Sue.
— Ele está pagando uma chef para fazer isso?
— Sim.
— Um adolescente com uma air fryer conseguiria sobreviver aqui.
Sue apertou os lábios.
Elena percebeu.
— Você quase riu.
— Não.
— Quase.
— Continue lendo.
Elena sorriu e voltou às folhas.
Sue prosseguiu:
— Sua entrada será depois das dez da manhã e você deverá deixar a residência antes das quinze horas.
Elena franziu a testa.
— Antes das três?
— Exatamente.
— Mesmo se ainda estiver preparando alguma coisa?
— Organize-se para que isso não aconteça.
— Certo.
— Se houver qualquer atraso, deverá me avisar imediatamente.
— Claro.
— Não ao senhor Black.
— Certo.
— A mim.
— Entendi.
Sue abaixou o papel.
— E existe uma regra particularmente importante.
Elena esperou.
— Não incomode Jacob Black.
Ela piscou.
— Como?
— O senhor Black não gosta de ser interrompido em casa.
— Mas se eu tiver alguma dúvida sobre a comida...
— Pergunte a mim.
— Preferências?
— A mim.
— Reclamações?
— Eu entrarei em contato.
Elena inclinou a cabeça.
— Então tecnicamente eu nem vou conhecê-lo.
— Essa é a ideia.
— Estranho.
Sue ergueu uma sobrancelha.
— Desculpe.
— Você costuma dizer tudo o que pensa?
— Estou trabalhando nisso.
— Trabalhe mais.
Elena mordeu o lábio para não sorrir.
Sue voltou a caminhar.
— Você não deverá circular pela residência sem necessidade. Cozinha, despensa, lavanderia quando precisar e entrada de serviço.
— Certo.
— Nada de quartos.
— Claro.
— Escritório.
— Nem saberia o que fazer lá.
— Sala de reuniões.
Elena parou.
— Existe uma sala de reuniões dentro da casa?
Sue continuou andando.
— Academia.
— Não pretendo malhar durante o expediente.
Sue parou.
Olhou para ela.
Elena tentou permanecer séria.
— A menos que limpar essa casa conte como exercício.
Por um segundo, o canto da boca de Sue se moveu.
— Ótimo.
— Você riu.
— Não ri.
— Eu vi.
— Vamos continuar.
— Sim, senhora.
— Não me chame de senhora.
— Certo, senhora.
Sue virou-se lentamente.
Elena levantou as mãos.
— Última vez.
A entrevista durou mais quarenta minutos.
Experiência.
Formação.
Cursos.
Técnicas.
Organização.
Disponibilidade.
Elena respondeu tudo.
Até que Sue colocou diante dela uma última exigência.
— Precisamos de uma prova.
— De cozinha?
— Naturalmente.
Elena sorriu.
Finalmente.
Algo que sabia fazer.
— O que devo preparar?
Sue entregou a lista.
— Qualquer coisa dentro dessas restrições.
Elena leu.
Salmão.
Castanhas.
Ervas frescas.
Limão-siciliano.
Aspargos.
Azeite.
Alguns temperos.
— Posso escolher?
— Desde que não acrescente nada que não esteja relacionado.
Elena pensou.
Então sorriu.
— Posso trabalhar com isso.
Duas horas depois, observava sua criação.
Salmão em crosta de ervas e castanhas.
Dourado por fora.
Úmido por dentro.
Molho delicado de limão-siciliano.
Aspargos grelhados.
Elegante.
Sofisticado.
Sem exageros.
Sue aproximou-se.
— Bonito.
Elena cruzou os braços.
— Só bonito?
— Eu não sou a candidata.
— Podia experimentar.
Sue olhou para o prato.
Depois para Elena.
— Não.
— Está com medo?
— Senhorita Swan.
— Elena.
Sue suspirou.
— Elena, coloque na geladeira.
— Sim, senhora.
— E não me chame de senhora.
Elena sorriu.
— Sim, Sue.
Antes de ir embora, Elena atravessou novamente a sala.
Foi quando viu o quadro.
Não havia reparado nele antes.
Era um grande retrato de um homem de aparência séria.
Cabelos escuros.
Traços fortes.
Olhar firme.
O tipo de homem que parecia desaprovar alguma coisa mesmo pintado sobre uma tela.
Elena parou.
Olhou para o quadro.
Depois para a enorme casa.
Depois novamente para o homem.
— Jacob Black.
Parecia óbvio.
Homem rico.
Empresário.
Casa gigantesca.
Retrato enorme de si mesmo na sala.
Elena aproximou-se.
— Modesto.
O homem permaneceu sério.
— Não estou julgando.
Silêncio.
— Estou julgando um pouco.
Inclinou a cabeça para um lado.
— Você parece mais velho do que eu imaginava.
Nada.
— Não que isso seja um problema.
Continuou examinando.
— Sue falou que você é extremamente organizado.
Olhou para a sala impecável.
— Percebi.
Deu mais um passo.
— Também falou para eu não incomodar você.
O retrato não reagiu.
— O que, convenhamos, fica um pouco difícil quando você coloca uma pintura desse tamanho no meio da sala.
Silêncio.
Elena apertou os lábios.
— Certo. Começamos mal.
Pegou a bolsa.
— Amanhã, se eu for contratada, tentamos novamente.
Deu dois passos.
Voltou.
— E o salmão está excelente.
Billy Black continuou perfeitamente sério.
— Quando comer, pode dizer “excelente”. Não dói.
Saiu.
Jacob chegou em casa às oito e quarenta e sete.
Quarenta e sete minutos mais tarde do que planejara.
O que já era suficiente para irritá-lo.
Tirou o paletó enquanto atravessava a sala.
Parou.
Olhou para uma mesa lateral.
Poeira.
Passou o dedo.
Observou.
— Inacreditável.
Continuou.
Na escada encontrou uma pequena mancha no corrimão.
Pegou o celular.
Sue atendeu no terceiro toque.
— Boa noite, Jacob.
— A casa está suja.
Silêncio.
— Boa noite para você também.
— A funcionária veio hoje?
— Veio.
— Demita.
— Jacob...
— Há poeira na sala.
— Talvez...
— E uma mancha no corrimão.
Sue suspirou.
— Você passou o dedo procurando poeira?
— Eu não procurei. Eu vi.
— Naturalmente.
— Demita.
— Uma conversa talvez resolva.
— Uma demissão também.
— Você sabe que pessoas normais simplesmente pediriam para ela prestar mais atenção?
— Ótimo.
— Ótimo?
— Peça para ela prestar mais atenção enquanto comunica a demissão.
— Jacob.
— Sue.
Silêncio.
— Demita.
— Boa noite.
Ela desligou.
Jacob olhou para o telefone.
Pouquíssimas pessoas desligavam na cara dele.
Sue Clearwater era uma delas.
Entrou na cozinha.
Tudo estava impecável.
Isso melhorou ligeiramente seu humor.
Abriu a geladeira.
Encontrou um recipiente cuidadosamente organizado.
Uma etiqueta dizia:
SALMÃO EM CROSTA DE ERVAS E CASTANHAS
Molho de limão-siciliano
Aspargos grelhados
Aquecer conforme instruções abaixo.
Jacob franziu a testa.
Seguiu as instruções.
Sentou-se.
Experimentou.
Parou.
Olhou para o prato.
Experimentou novamente.
Aquilo era...
Excelente.
Não.
Melhor que excelente.
O salmão estava perfeitamente preparado.
A crosta dava textura sem esconder o sabor.
O molho tinha acidez suficiente para equilibrar as castanhas.
Os aspargos ainda mantinham firmeza.
Jacob terminou o prato inteiro.
Pegou o celular.
Sue atendeu.
— Se for sobre a poeira...
— Contrate.
Silêncio.
— A chef?
— Sim.
— Gostou?
— É aceitável.
Sue sorriu do outro lado da linha.
— Você comeu tudo?
Jacob olhou para o prato vazio.
— Isso é irrelevante.
— Comeu tudo.
— Contrate a moça.
— Elena Swan.
— Quem?
— A chef tem nome.
Jacob fechou os olhos por um instante.
— Ótimo. Contrate Elena Swan.
— E a funcionária da limpeza?
Jacob olhou para a sala.
— Demita.
Sue suspirou.
— Boa noite, Jacob.
— Boa noite.
Desligou.
Olhou novamente para o prato vazio.
Aceitável.
Definitivamente aceitável.
Na manhã seguinte, Elena quase derrubou o telefone quando Sue lhe deu a notícia.
— Consegui?
— Conseguiu.
— Sério?
— O senhor Black aprovou sua comida.
Elena abriu um sorriso enorme.
— Ele gostou?
— Disse que estava aceitável.
O sorriso desapareceu.
— Aceitável?
— Sim.
— Só aceitável?
Sue permaneceu em silêncio.
— Sue, aquilo estava excelente.
— Ele comeu tudo.
Elena sorriu novamente.
— Ah.
— Começa hoje.
— Estarei aí às dez.
— Dez e quinze.
Elena ficou confusa.
— Pensei que fosse às dez.
— Depois das dez.
— Dez e um?
Sue suspirou.
— Dez e quinze está ótimo.
— Estarei aí.
— Outra coisa.
— Sim?
— Estamos sem funcionária para limpeza.
Elena olhou ao redor.
O apartamento.
A conta da faculdade sobre a mesa.
A conta de luz presa na geladeira.
O aluguel.
Fez uma conta mental.
— Quanto?
— Como?
— Quanto vocês pagavam?
— Elena...
— Eu faço.
— Você?
— Sim.
— Você foi contratada como chef.
— E sei limpar.
— É uma casa grande.
— Eu vi.
— Não é pouca coisa.
— Eu também vi.
— Terá que continuar cumprindo todas as suas funções na cozinha.
— Se me pagarem o salário da limpeza além do meu, eu faço os dois.
Sue ficou em silêncio.
— Você tem certeza?
Elena pensou em Bella.
Faculdade.
Aluguel.
Contas.
— Absoluta.
Jacob nem ergueu os olhos do computador.
— Ela quer fazer os dois?
— Sim.
— Consegue?
— Diz que sim.
— Pague.
Sue cruzou os braços.
— Você não quer conhecê-la?
— Para quê?
— Ela vai cozinhar para você e limpar sua casa.
— Você a entrevistou.
— Sim.
— Confia nela?
— Confio.
— Então não preciso conhecê-la.
Sue balançou a cabeça.
— Você é uma criatura estranha, Jacob Black.
— Mais alguma coisa?
— Não.
— Feche a porta.
Sue saiu.
Jacob voltou ao trabalho.
Dois dias depois, Elena estava ajoelhada no chão da sala, travando uma batalha pessoal contra uma pequena mancha no tapete.
— Quem coloca um tapete desse tamanho numa casa?
Silêncio.
Ela esfregou.
— É uma pergunta legítima.
Nada.
— Se fosse menor, seria mais fácil limpar.
Esfregou novamente.
— Mas não. O senhor precisava de um tapete do tamanho do estado de Rhode Island.
Levantou-se.
E encontrou o retrato olhando para ela.
Elena estreitou os olhos.
— O quê?
Billy Black continuou sério.
— Eu vi.
Pegou o pano.
— Não precisa ficar me vigiando.
Passou pelo retrato.
Parou.
Voltou.
— E só para constar, estou fazendo um excelente trabalho.
Silêncio.
— Pode elogiar.
Nada.
— É. Imaginei.
Foi até a mesa lateral.
Limpou.
Olhou para o quadro.
— Você parece exatamente o tipo de pessoa que passa o dedo nos móveis procurando poeira.
Pausa.
— Aposto que faz isso.
Continuou limpando.
— Chega em casa, tira o paletó, olha em volta...
Imitou uma expressão severa.
— “Hum. Poeira.”
Passou o dedo sobre a mesa dramaticamente.
— “Inaceitável.”
Olhou para o quadro.
— Acertei?
Billy permaneceu impassível.
— Acertei.
Cinco minutos depois voltou com o aspirador.
— E outra coisa.
Ligou.
Parou.
Desligou.
— Sua lista de comida é deprimente.
Billy não reagiu.
— Salmão, frango, carne, legumes.
Ligou o aspirador.
Desligou novamente.
— Salmão, frango, carne, legumes.
Olhou para o quadro.
— Você é milionário. Tenha imaginação.
Ligou.
Passou o aspirador.
Desligou.
— Risoto existe.
Silêncio.
— Massa existe.
Nada.
— Queijo existe.
Inclinou a cabeça.
— Você come queijo?
Nenhuma resposta.
— Claro que não. Essa cara é de quem considera queijo uma fraqueza moral.
Ligou novamente o aspirador.
Dois minutos depois, desligou.
— E aquele prato estava muito melhor que “aceitável”.
Silêncio.
— Sue me contou.
Apontou para o retrato.
— Mal-educado.
Billy Black continuou sério.
— Custava dizer “excelente”?
Nada.
— “Muito bom”, talvez?
Nada.
— “Obrigado, Elena, esse foi o melhor salmão que já comi em toda a minha vida vazia e excessivamente organizada”?
O silêncio permaneceu.
Elena assentiu.
— Sabia.
Ligou o aspirador.
Aquilo deveria ter acontecido uma única vez.
Não aconteceu.
Na segunda-feira, Elena entrou na sala e olhou para o retrato.
— Bom dia, senhor Black.
Passou por ele.
Voltou.
— Sua casa continua grande demais.
Silêncio.
— Só atualizando.
Seguiu para a cozinha.
Na terça-feira:
— Não olha assim para mim. Eu cheguei dez minutos mais cedo.
Nada.
— Sue disse depois das dez. Dez e cinco é depois das dez.
Billy continuou sério.
— Você precisa ser mais flexível.
Elena parou.
— Não. Retiro o que disse. Pela sua cara, flexibilidade não faz parte do seu vocabulário.
Na quarta-feira:
— Fiz massa fresca.
Silêncio.
— Antes que comece, está dentro das restrições.
Nada.
— Mais ou menos.
Ela apontou para ele.
— Não quero ouvir reclamação.
Parou.
— Tecnicamente, você nunca fala, então estamos progredindo muito bem nessa relação.
Na quinta-feira, Elena atravessou a sala carregando uma cesta de roupas.
Parou.
Olhou para o quadro.
— Você tem seis banheiros.
Billy Black permaneceu imóvel.
— Seis.
Aproximou-se.
— Uma pessoa precisa de seis banheiros para quê?
Silêncio.
— Você troca de banheiro durante o dia?
Nada.
— Segunda-feira, banheiro um. Terça, banheiro dois?
Continuou pensando.
— Domingo descansa porque acabou banheiro?
A própria pergunta a fez rir.
— Não. Domingo você provavelmente trabalha.
Passou pelo quadro.
Voltou.
— Você tem cara de quem responde e-mail no Natal.
Na sexta-feira, Elena surgiu diante dele com as mãos na cintura.
— Descobri uma coisa sobre você.
Silêncio.
— Você não gosta de doce.
Nada.
— Isso explica muita coisa.
Seguiu para a cozinha.
Voltou.
— Pessoas que não comem sobremesa são naturalmente mal-humoradas.
Billy permaneceu sério.
— É ciência.
Nada.
— Não adianta essa cara.
Ela se aproximou.
— Aposto que quando era criança recusava bolo de aniversário.
Silêncio.
— Provavelmente pedia brócolis com vela.
Elena começou a rir sozinha.
— Parabéns para você...
Imitou uma criança séria diante de um prato.
— “Obrigado. Agora todos podem ir embora.”
Saiu rindo.
Na semana seguinte, a relação unilateral evoluiu.
Elena entrou carregando sacolas de mercado.
— Preciso de uma opinião masculina.
Parou diante do quadro.
— Não faça essa cara. É sério.
Colocou as sacolas no chão.
— Bella quer ir a uma festa da faculdade sexta-feira.
Silêncio.
— Eu disse não.
Nada.
— Ela disse que tem dezoito anos.
Elena cruzou os braços.
— O que tecnicamente é verdade, mas não vem ao caso.
Billy permaneceu sério.
— Você acha que devo deixar?
Silêncio.
— Concordo.
Pegou as sacolas.
— Não vai.
Deu dois passos.
Parou.
— Obrigada. Você é muito sensato.
No dia seguinte:
— Bella disse que você é um velho controlador.
Elena congelou.
Olhou para o quadro.
— Quer dizer... ela não sabe que eu converso com você.
Silêncio.
— Porque isso seria estranho.
Pausa.
— Então, tecnicamente, ela disse que eu sou controladora.
Pensou.
— Mas você concordou comigo, então agora somos dois.
Nada.
— Não precisa parecer tão satisfeito.
Poucos dias depois, Elena entrou irritada.
Nem tirou o casaco.
Foi diretamente ao quadro.
— Sua secretária é assustadora.
Silêncio.
— Eu gosto dela.
Pausa.
— Mas é assustadora.
Apontou para o retrato.
— E ela manda em você.
Nada.
— Não precisa negar.
Elena se aproximou.
— Dá para perceber.
Imitou Sue:
— “Jacob.”
Depois imitou uma voz masculina grave:
— “Sue.”
Voltou à voz normal.
— E aí você perde.
Billy continuou sério.
— Toda vez.
Em outra manhã, Elena estava espanando o móvel abaixo do retrato.
— Posso perguntar uma coisa pessoal?
Silêncio.
— Você já foi casado?
Nada.
Elena olhou para a mão pintada.
— Não vejo aliança.
Inclinou a cabeça.
— Namorada?
Nada.
— Não?
Suspirou.
— Imaginei.
Continuou limpando.
— Você precisa sair mais.
Passou o pano.
— Conhecer pessoas.
Nada.
— Pessoas vivas.
Olhou para o retrato.
— Não que eu esteja insinuando que você não seja vivo.
Pausa.
— Você está vivo, certo?
Silêncio.
Elena franziu a testa.
— Sue teria mencionado se meu patrão estivesse morto.
Continuou espanando.
— Espero.
Enquanto Elena desenvolvia uma amizade completamente imaginária com William “Billy” Black, o verdadeiro Jacob começou a perceber pequenas mudanças em sua casa.
Sua comida estava melhor.
Muito melhor.
A casa estava impecável.
Não apenas limpa.
Organizada.
Exatamente como gostava.
As camisas que ocasionalmente deixava sobre uma poltrona apareciam dobradas.
Os livros permaneciam exatamente na mesma posição.
Nada era movido desnecessariamente.
Nada desaparecia.
Nada estava fora do lugar.
Na cozinha, etiquetas começaram a aparecer.
JANTAR.
CAFÉ DA MANHÃ.
NÃO ESQUECER DE AQUECER.
Na terceira semana surgiu uma nova:
COMA OS ASPARGOS.
Jacob ficou olhando.
Pegou o celular.
Ligou para Sue.
— Ela deixou uma ordem na minha geladeira.
— Quem?
— A chef.
— Elena?
— Sim.
— Qual ordem?
Jacob leu:
— “Coma os aspargos.”
Silêncio.
— Sue?
— Estou aqui.
— Ela está me dando ordens.
— Parece que sim.
— Funcionários não me dão ordens.
— Então não coma.
Jacob olhou para os aspargos.
— Eu vou comer.
— Problema resolvido.
— Esse não é o ponto.
— Qual é o ponto?
Jacob ficou em silêncio.
Sue continuou:
— Você pretende demiti-la?
— Não.
— A comida está ruim?
— Não.
— A casa está suja?
— Não.
— Ela mexeu em alguma coisa que não deveria?
— Não.
— Então seu problema é um pedaço de papel pedindo que coma vegetais.
— Não é um pedido.
— Jacob...
— Está no imperativo.
Sue ficou alguns segundos em silêncio.
— Você está discutindo gramática comigo por causa de aspargos?
Jacob olhou para a etiqueta.
— Boa noite, Sue.
— Coma os aspargos.
Ela desligou.
Jacob ficou olhando para o telefone.
Depois para a etiqueta.
Retirou-a.
Amassou.
Jogou no lixo.
Sentou-se.
Comeu os aspargos.
Todos.
Naquela mesma tarde, Elena terminou a limpeza e passou pela sala.
Parou diante do quadro.
— Pronto.
Colocou as mãos na cintura.
— Tudo limpo.
Observou o homem.
— Pode parar de me julgar.
Nada.
— E só para constar, eu sei que você reclamou da outra funcionária.
Aproximou-se.
— Sue não disse.
Silêncio.
— Mas eu sei.
Apontou para ele.
— Você tem cara de delator de poeira.
Billy Black continuou impassível.
— Então comigo não vai ter motivo.
Pegou a bolsa.
— Amanhã tem frango.
Deu dois passos.
Voltou.
— E legumes.
Mais dois passos.
Parou.
— Porque aparentemente você tem o paladar de um monge.
Olhou para o retrato.
— Um monge milionário e mal-humorado.
Nada.
Elena suspirou.
— Sabe de uma coisa? Apesar de tudo, acho que estamos nos dando bem.
Silêncio.
— Você é um excelente ouvinte.
Sorriu.
— Não interrompe.
Começou a caminhar.
— Não reclama.
Parou.
Olhou por cima do ombro.
— Bom, reclama da comida para Sue, aparentemente.
Billy continuou olhando para ela.
— Mas podemos trabalhar nisso.
Deu mais alguns passos.
Então voltou pela última vez.
— Até amanhã, senhor Black.
Fez uma pausa.
— Tente se divertir um pouco enquanto eu não estiver aqui.
Olhou para a expressão austera do retrato.
— É. Também não acredito.
Saiu.
A porta se fechou.
A sala voltou ao silêncio.
Na parede, logo abaixo do retrato, havia uma pequena placa dourada.
Elena nunca havia reparado nela.
Se tivesse chegado apenas um pouco mais perto durante qualquer uma daquelas longas conversas, teria lido:
WILLIAM “BILLY” BLACK
E talvez tivesse descoberto que passara semanas reclamando da alimentação, discutindo sobre aspargos, pedindo conselhos sobre Bella, analisando sua inexistente vida amorosa e acusando de ser um monge milionário...
o homem errado.
Jacob Black não tinha sessenta anos.
Não usava os cabelos como o homem do retrato.
E certamente não era o senhor sisudo que Elena havia criado em sua imaginação.
O verdadeiro Jacob Black era mais jovem.
Muito mais jovem.
E Elena estava prestes a descobrir isso.
O problema não seria apenas perceber que havia passado semanas conversando com o retrato de Billy Black.
Seria descobrir que o verdadeiro Jacob provavelmente não acharia graça nenhuma naquilo.
Ou talvez achasse.
Mas Elena ainda não sabia que arrancar um sorriso daquele homem seria muito mais difícil do que fazê-lo comer aspargos.
E, justamente por isso, muito mais interessante.
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