O Outro Mundo
5 5º Capítulo: Pânico em plena lua cheia
Notas iniciais
Já estava entardecendo e o sol não ia demorar a se pôr. A temperatura tendia a cair e já ameaçava trazer uma noite fria pela frente. A sargento Takada, volta e meia, olhava desconfiada para Seth e este trazia aquela expressão sorridente e zombeteira no rosto, sem falar que quase não se dava para enxergar seus olhos estreitados pelas pálpebras. Tony, por outro lado, se tinha olhos para o que estava à frente e ao lado. No seu interior, ele torcia arduamente para que Nyah ainda estivesse viva, mas seu coração apertava com a incerteza, como se isso lhe apunhalasse facas.
–Seth, o que é isso que você usou para expulsar aquele tiranossauro? –Perguntou-lhe o tenente Bride, curioso.
–Hum. Isso?! –Questionou Seth, tirando o objeto do bolso e exibindo-o. –Achei jogado nas proximidades da fortaleza. Eu tava encrencado e se não fosse por isso, a essa hora eu já estaria morto. –Concluiu com aquela mesma tranquilidade e sorriso, fato esse que fez o capitão olhá-lo com uma disfarçada admiração, enquanto a sargento Takada e até mesmo o tenente Bride, olhavam-no com surpresa.
–Nossa, que fome. –Murmurou o tenente Bride, outra vez quebrando o silêncio.
–Que língua comprida! Por que ela não se mantém só dentro dessa sua boca idiota? –Questionou-lhe a sargento Takada com rispidez o olhar de censura.
–Você bem que queria ela na sua boca, Louise. –Disse o tenente Bride, com um sorriso cínico e passando sua língua por entre os lábios, olhando provocantemente para ela.
–Miserável! Eu ainda vou cortar esse seu pescoço, espera só pra ver. –Retrucou, ela, fuzilando-o com o olhar.
–Ora, quanto amor... –Comentou Seth, debochadamente quando foi interrompido.
–Cala a boca! –Max e Louise ordenam em uníssono, fazendo Seth dar uma leve risadinha.
O capitão, dentre eles, ia sempre à frente e mal prestava atenção no que acontecia, mas quando prestava, revirava os olhos, indignado.
A escuridão já estava começando a se fazer presente. Volta e meia Seth indicava o caminho por onde eles deveriam seguir, mas Tony continuava indo na frente enquanto os outros dois iam atrás, tecnicamente escoltando Seth pelo fato dele não ser um oficial e, claro, não muito confiável. Então, finalmente, eles conseguiram chegar ao lugar onde Seth havia sugerido. Era uma cabana de madeira que ficava próxima a lagoa. Em seu interior, luzes vacilantes iluminavam e algumas sombras demonstravam a existência de pessoas ali.
Assim que chegaram ao local, todos ficaram esperando do lado de fora enquanto Seth chamava as pessoas da cabana para fora. Um por um, as pessoas foram saindo, até que era possível se contar cinco — um homem barbudo que devia beirar os quarenta, uma mulher de expressão gentil que deveria ser a esposa desse homem, uma garotinha que notavelmente era filha do casal, um homem idoso com uma expressão rabugenta destacada e uma mulher morena e incrivelmente bonita que de cara chamou a atenção do tenente Bride.
–Pessoal, esses são os recém-chegados ao Outro Mundo. Capitão Tony Hyeras, tenente Max Bride e a sargento Louise Takada. –Disse Seth, apontando cada um conforme a menção do nome.
–Espero que esses não morram como os outros. –Zombou o homem barbudo meio rudemente, fazendo Tony olhá-lo desprezo.
–Que mulher linda! –Disse a garotinha com entusiasmo, apontando para a sargento Takada que sorriu para ela.
–Ora, por favor, entrem! Entrem! A comida está esfriando. –Disse a mulher de expressão gentil, com um sorriso correspondente.
Todos entraram na cabana que tinha um interior simples e improvisado. Mas havia vários itens que não combinavam com o local, como cadeiras de escritório, um aparelho inusitado que servia de fogão, bacias de ferro que serviam de panelas e, na mesa improvisada de madeira, bacias menores que serviam de pratos. Tony estava concentrado em observar o aparelho inusitado que cozinhava algo misterioso até então e o tenente Bride tinha seus olhos brilhando na comida.
–Seth, o que é isso? –Perguntou, ele, apontando para o “fogão”.
–É um aparelho que funciona através da luz solar. De dia, colocamos ele lá fora para recarregar. Ele absorve muito calor e dá pra se cozinhar bastante aí, até mesmo se ficar dois ou três dias sem fazer sol. –Explicou-lhe Seth.
–Seth, onde estão seus modos? –Repreendeu aquela mulher gentil, mas que estava com um olhar severo para Seth e este sorriu acenando para ela. –Gente, não reparem o jeito descuidado dele. Esse homem ranhoso e meu marido, James. Essa é a nossa filha, Suzy. Esse é o senhor Albert e essa é a minha irmã mais nova, Paola. E eu me chamo Elizabeth. –Disse a mulher, apontando cada um conforme falava e, no fim, despertando o olhar interessado do tenente Bride em Paola, que ficou corada e ao perceber o clima, a sargento Takada revirou os olhos.
Todos já estavam jantando perante a mesa improvisada de madeira, exceto por Tony e Max que jantavam do lado de fora, aproveitando a luz da lua cheia, sentados na areia às margens da lagoa.
–Jamais pensei que eu fosse comer carne de Coe... Coel... Droga! Nem lembro o nome dessa coisa. –Indignou-se o tenente Bride.
–Coelurosauria, tenente. –Corrigiu-lhe o capitão, dando uma boa mordida na carne que não era nada macia.
–Obrigado, capitão. E sem falar no gosto disso. Mas pensando bem, é melhor do que nada. Eu tava morrendo de fome.
–Você reclama muito, tenente. Até parece que não passou por um disciplinamento no quartel, onde a gente passava fome dentre vários outros testes de resistência.
–Sim, capitão. Mas eu jamais pensei que um dia eu ia precisar usar o treinamento para sobreviver em uma terra de dinossauros. –Disse o tenente, dando uma mordida voraz na carne.
–Eu também não, tenente. –Disse o capitão, terminando de comer e colocando a bacia ao lado. –Mas agora estamos aqui e precisamos chegar naquela tal fortaleza. Eu, eu vou te falar que quando eu colocar minhas mãos no pescoço de quem está por trás disso, vou descarregar a minha arma na cabeça do desgraçado.
–Acha mesmo que tem alguém por trás disso, capitão? –Questionou-lhe o tenente, atento e interessado.
–Não é óbvio? Construções militares, veículos militares e uma fortaleza, eu não acho que isso tudo seja coincidência. Tem alguém tramando algo por baixo dos panos e eu vou descobrir quem é. E aprenda uma coisa, tenente. Por trás de toda grande obra, tem sempre aquele que comanda tudo. É esse que eu quero ter em minhas mãos. –Os olhos do capitão brilharam de raiva.
–Capitão, eu queria aproveitar para te perguntar uma coisa bastante pessoal.
–Pergunte, tenente.
–A tenente Nyah e o senhor, por acaso... –Insinuou o tenente Bride, com um olhar sugestivo.
–Eu sabia que você ou outra pessoa ia me fazer essa pergunta. É, tenente. Ela é a mulher que eu amo mais do que a minha própria vida. Eu daria todo o meu sangue para salvá-la nesse momento, mesmo se eu não pudesse ficar ao lado dela depois. –O brilho em seus olhos mudara, agora, eram de preocupação e saudade.
–Capitão... –Chamou-lhe o tenente, segurando no ombro de Tony. –Nós vamos recuperar a tenente Nyah. Isso é uma promessa. Voltaremos com ela para o nosso mundo, acredite! –O olhar do tenente Bride tinha um brilho de confiança e determinação que, pela primeira vez, Tony estava vendo e isso o fez sorrir por breves instantes.
–Obrigado, tenente.
–Não por isso, capitão. –Disse o tenente, sorrindo da mesma maneira.
Logo um rugido quebrou o silêncio noturno naquele local. Em seguida, mais outro rugido e outro depois outro. Todos que estavam na casa, saíram para ver do que se tratava. Tony e Max já estavam de pé e apontavam suas armas para o grupo de criaturas que se aproximava sorrateiramente. Cerca de quinze Eoráptor estavam se aproximando cada vez mais de todos. James entrou na casa e pegou dois machados, entregando um para sua esposa que havia perdido a face gentil e agora tinha um olhar de uma fera selvagem para com as criaturas.
–Paola, pegue a sua irmã e vá para dentro da cabana. Não abra a porta até que tudo esteja acabado. –Disse James para a filha que pegou a irmãzinha assustada e se trancou com ela na cabana.
Uma das criaturas correu ferozmente na direção do velho Albert, mas foi detida a tiros por Tony. Seth não tirava o seu sorriso do rosto e, calmamente, tirou o aparelho do bolso e não hesitou em apertar o botão, mas o aparelho não funcionou.
–Opa... Acho que quebrou. –Disse Seth, como se aquilo não tivesse importância.
De repente, o grupo de Eoráptor decide atacar de uma só vez, correndo em disparada na direção de todos. James decapitou uma das criaturas, tamanha a força da machadada. Sua esposa, Elizabeth, se manteve parada no lugar e a cada criatura que saltava sobre ela, o golpe de machado era mortal. O velho Albert usava um pedaço de pau para golpear as criaturas, enquanto os oficiais disparavam tiros com moderação e pontaria, pois não poderiam se dar ao luxo de desperdiçarem balas.
No calor da batalha, ninguém conseguiu ver que de trás da cabana, um inimigo bem maior se aproximava. Era um Alossauro, uma criatura bípede e que media uns cinco metros de altura, com uma crista na cabeça e uma boca recheada de dentes. A criatura se aproximou do velho Albert e, com um único bote, abocanhou o homem e estraçalhou seu corpo, devorando-o. E ao ver isso, James gritou em fúria e partiu para cima do gigante que ainda mastigava e, talvez por isso, preferiu golpeá-lo com a cauda, arremessando o homem em cima da sargento Takada que caiu desacordada. Tony disparou contra o último Eoráptor e, em seguida, apontou para a cara da criatura gigante, atirando sem pudor. Mas o Alossauro já estava terminando de mastigar os restos do velho Albert e seus olhos já cobiçavam uma próxima presa, Elizabeth.
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