O Outro Lado
2 Capítulo 1
DANA
O nó em minha garganta parecia tentar me asfixiar.
Olhei rapidamente para o homem de olhos verdes que estava diante de mim, tentando desviar o conforto da situação. Mas isso fez com que aumentasse ainda mais.
O homem tirou os olhos do meu currículo e focou a sua atenção em mim.
"Ok, Dana. Não saia correndo. Respire fundo. Não. Saia. Correndo", eu busquei me acalmar.
Mas o auto conselho pareceu não funcionar.
Ao observar a inspeção minuciosa do entrevistador quanto a mim e o meu currículo, eu percebi que ele não tinha gostado do que tinha visto. Mais um incentivo para o desespero que estava em mim se proliferar.
"Não enlouqueça, Dana. A vaga é sua!"
— Então, Dana, me diga o que você gosta de fazer nas horas de lazer.
— Eu gostaria de trabalhar na empresa porque acha que sou dedicada, esforçada... Espera, não!
"O que você está falando, cabeça-de-vento?"
Cara, eu estou tão ferrada.
Eu sabia disso. Bastava olhar a expressão do entrevistador. Ele estava simplesmente confuso.
Bom, ele tinha razões para isso.
Quando você faz um número considerável de entrevistas, se acostuma com o tipo e ordem de perguntas. E por conta disso, também decora as respostas que tem que dar para a pessoa que está lhe fazendo perguntas.
Só que no meu caso, o padrão de perguntas e respostas foi quebrado. E eu não estava atenta a isso.
Resumindo: falei besteira. Muita besteira.
— Desculpe... Não entendi a sua resposta – piscando os olhos rapidamente, ele sorriu e retrocedeu à pergunta – O que você gosta de fazer nas horas livres?
Respirei fundo e tentei esquecer o meu terrível equívoco.
"Você consegue, Dana", eu tomei uma dose de motivação.
Espero que dessa vez funcione. Pois as últimas vezes foram um fracasso total.
— Bem, eu gosto de desenhar. Principalmente no computador. Esse é o meu hobby favorito.
— Mas você não gosta de sair com os seus amigos? Passear, ir em uma festa...?
— Primeiro, eu não tenho amigos. Segundo, eu tenho um corpo de velha que não me permite ter uma vida socialmente ativa. Terceiro, odeio festas. Odeio barulho. Odeio muita gente reunida. Odeio gente bêbada –eu não disse.
Por um momento, eu tentei raciocinar o motivo daquela pergunta.
Pelas palavras que utilizou, o entrevistador queria saber se tenho uma vida socialmente ativa. Ou seja, quais são as minhas habilidades com pessoas.
Bom, a vaga que me candidatei era para o cargo de Artista Conceitual. Como a empresa que estava interessada em trabalhar começava sua preparação para iniciar a modelagem do seu próximo jogo, pude presumir que o cargo requeria o nível de comunicação com a equipe que estava inserida.
Embora não tivesse uma vida socialmente ativa, eu não tinha problemas em trabalhar em equipe. Bom, até onde eu sabia.
Mas enquanto pensava o quão flexível eu era, lembranças do meu relacionamento com meus antigos colegas de trabalho vieram à minha mente. E diferente do que eu achava saber, elas revelavam inúmeros atritos.
Problemas de convivência aqui, palavras mal interpretadas ali...
É, eu era horrível no meu relacionamento interpessoal. E era desesperador descobrir isso em uma entrevista de emprego.
— Dana...? Tudo bem? – buscando me acordar do intenso transe que estava, o rapaz balançou uma das suas mãos para mim.
— Oi...? – confusa, balancei a cabeça – Ah... A pergunta! – cocei a minha cabeça, transmitindo meu embaraço – Não, não sou propensa a sair, a não ser para resolver compromissos.
O entrevistador marcou alguma coisa na sua caderneta.
Algo me dizia que era sobre a minha última fala.
— Certo, Dana. Eu vi que você tem... bastante interesse na nossa empresa. Por que nós deveríamos te contratar?
Alô, planeta Terra. Que tipo de pergunta é essa? Não é óbvio?
Por sorte, a resposta dela estava em meu acervo de coisas decoradas. Mesmo sendo uma pergunta ridícula, esse questionamento foi comum nas entrevistas em que tinha ido. Menos mal.
— Acredito que porque eu esteja disposta em fazer o meu melhor.
— Seja sincera, Dana.
Essa fala me causou surpresa. Como assim, "Seja sincera, Dana"? Não era essa a resposta correta?
— Eu estou sendo sincera.
— Não, você não está.
— E qual é o motivo dessa suposição?
— Você praticamente gravou todas as respostas de uma possível entrevista. A sua fala não soa natural. Como podemos contatar alguém que não é transparente?
Eu me senti diretamente atacada com esse discurso.
E então, a ferida feita no meu ego por aquelas palavras começou a dilatar. Uma onda de pensamentos surgiu em minha mente, enquanto o sentimento de indignação começava a fluir dentro de mim.
E por um momento, eu senti medo. Muito medo. Porque sabia que a partir do momento que o meu orgulho era ferido, as minhas reações eram as piores possíveis.
— Transparência é algo muito desejado pelas pessoas, mas quando elas entram em contato com palavras sinceras, acabam se ofendendo fácil – eu disse, tentando conter cada palavra pronunciada. Mas o impulso foi maior que a razão.
A face do entrevistador ficou vermelha ao ouvir as minhas palavras.
E era justamente isso que tentava transmitir em minhas palavras.
As pessoas dizem buscar a verdade, mas se irritam com a sua presença.
— Desculpe...?
— É isso mesmo que você ouviu. E olha só! A sua reação só mostra que as minhas palavras são verdadeiras.
— Dana, eu quis dizer que...
— Não – levantei uma das mãos e interrompi o seu discurso polido que tinha uma camada de arrogância – Nós sabemos muito bem o significado das suas palavras. E aqui está a resposta da sua pergunta anterior: quero trabalhar na empresa porque tenho o talento e vocês possuem o dinheiro. É simples. Uma relação de troca.
O rubor no rosto do rapaz começava a se intensificar, e eu percebia que a situação estava piorando.
Sim, eu deixei me levar por um ego dolorido. E eu sabia onde isso iria dar: fracasso.
— Ok, Dana. Obrigada pela entrevista. Qualquer coisa nós te ligamos – ele cortou o assunto e escreveu algo em meu currículo. Era impressão minha, ou a palavra "REPROVADA" estava sendo desenhada no papel? Provavelmente sim.
"Parabéns, cabeça-de-vento. Mais uma rejeição. Se continuar assim, vai morrer vivendo de freelance", eu pensei enquanto descia a escadaria da empresa.
O fato de continuar vivendo por uma renda imprevisível me causou desespero.
Enquanto eu andava pela rua pouco movimentada, comecei a pensar nas alternativas que possuía. E não era difícil de concluir que nenhuma delas iria funcionar. Absolutamente nenhuma.
Uma onda ainda maior de desespero surgiu no meu interior. A vontade era de sair gritando pelas ruas o quanto eu era uma impulsiva idiota. E, sendo um acontecimento raro, eu contive o meu desejo. A angústia se materializou de outra forma: pelas lágrimas.
Enquanto fitava o meu tênis branco em movimento, sentia o líquido salgado jorrar dos meus olhos. Provavelmente o meu rosto começava a ficar inchado e as minhas bochechas avermelhadas.
A dor se intensificou quando pensei na pergunta "E agora?" E como os outros questionamentos, eu não sabia responder.
Passei as minhas mãos em volta dos meus olhos, tentando tirar o excesso da água. Mas, por um momento, eu percebi que não eram apenas os olhos que estavam molhados. As minhas roupas e os meus cabelos também estavam.
— O que... É isso? – eu toquei em meus fios molhados enquanto tentava assimilar o acontecimento.
Foi então que percebi o que havia acontecido.
Eu fui atingida por uma torrente de água de uma poça feita na rua. Ótimo. O dia não poderia ser melhor.
Olhei para trás e vi o autor daquela situação desagradável. Ele parecia estar muito feliz em sua motocicleta de porte pequeno e fina, mas algo dentro de mim estava definido em tirá-lo daquele estado de movimentação.
"Ninguém mais vai estragar o meu dia", foi o que pensava enquanto corria desesperadamente atrás dele.
O cavalheiro dirigia tão devagar em sua motocicleta, que estava a poucos passos de alcançá-lo. E não demorei muito até que peguei na garupa da sua moto, e vi sua face surpresa se virando para mim.
— Hoje não, amigo! Hoje não! – gritei para ele, enquanto a moto reduzia ainda mais a sua velocidade.
Com meu rosto e cabelo molhados, esperei que ele me confundisse com alguma espécie da assombração que viera julgar os seus atos mais miseráveis. Mas isso não aconteceu.
Ele parou a motocicleta no meio da avenida, e tirou o capacete que envolvia os cabelos castanhos que iam até seus ombros.
— Moça! O que deu em você?! Isso é muito perigoso!
— O que deu em você?!, eu pergunto. Você jogou uma torrente de água em mim e quer que fique parada?
— O quê?! – surpreso, ele perguntou. Ao parar para analisar as condições que a sua perseguidora estava, ele lançou um olhar de compreensão para mim – Realmente, não queria lhe causar dano. Foi erro meu, me desculpe – ele disse tentando se retratar.
— Ah, não me diga! Pois saiba que a sua desculpa não tira a água do meu cabelo. E quer saber?! O mundo está tão ruim por causa de pessoas como você, que não buscam nem desviar de uma poça de água.
— Olha, moça, eu...
— Você é tão egoísta que nem sequer parou para prestar ajuda.
— Como iria parar se eu não vi?
— Me diga, amigo, como alguém dirige uma motocicleta em uma velocidade tão baixa que não vê os detalhes ao seu redor?
— Quando se está andando, costuma-se olhar para frente, e não para os lados.
— E por que não viu a porcaria da poça que estava diante de você? – eu gritei com extrema irritação.
Os seus olhos mudaram a expressão gradualmente, saindo de uma profunda confusão até uma extrema compaixão.
— Parece que alguém está tendo um dia difícil, hein?
— Não me venha com essa história de bancar o compreensivo. O que você sabe sobre dias difíceis? Primeiro, eu perco a minha irmã. Depois, sou obrigada a sair de casa porque meus pais estão insuportáveis com a perda dela. E agora, estou desempregada e a minha última esperança em uma entrevista falhou. Então me diga, camarada, o que você sabe de dias ruins?
— Mais do que você pensa. Eu sei que eles não são eternos. – Ele me lançou um sorriso sincero – Mas chega de falar de dias ruins e vamos resolver o seu problema.
Ele acionou o descanso da moto e passou a perna esquerda sobre o assento, enquanto se apoiava sobre a direita, colocando o pé no chão. Ainda com um sorriso simpático em seus lábios, ele abriu o compartimento da moto e retirou de lá uma embalagem marrom, com uma logo que caracterizava um pão dentro de um círculo.
— Você tem se alimentado regularmente?
— Isso não é relevante no momento.
— Eu acho que isso em você é mais fome do que frustração. Bem, tome aqui, senhorita que está tendo um mau dia. Um sanduíche delicioso, feito por mim – segurando a embalagem, ele direcionou o braço a mim.
O ato daquele cavalheiro rapidamente fez a fúria que queimava dentro de mim desaparecer. Buscando ser educada, eu recebi a embalagem com meus os olhos no chão. A forma que ele me tratou parecia tornar as minhas atitudes hostis. E, por um momento, tive a impressão de que a pessoa ruim na verdade era eu.
— Pois bem, senhorita, preciso ir agora. Tenho que fazer algumas entregas, e estou atrasado. Foi um prazer! – ele se acomodou novamente na moto, e deu partida em direção ao seu objetivo que eu havia impedido de prosseguir.
Ao sair, um som soou no ar. Beep beep, o cavalheiro da motocicleta se despediu, deixando o meu rosto ruborizado de vergonha quanto as minhas palavras.
Mas é isso que a gentileza faz. Ela convence pessoas.
Fale com o autor