Os corredores da faculdade sempre pareciam mais apertados na primeira aula. Isso me fazia acreditar que o melhor momento para se encostar nas paredes azuis e mastigar minhas ideias seria na hora do intervalo onde ninguém poderia atrapalhar, já que a maioria teria encerrado a aula mais cedo e seguido até algum restaurante ou bar.

Como esse não meu costume, me conformava em reorganizar as minhas ideias. Uma atitude deveras estranha para quem observava do lado de fora, mas para mim era um hábito necessário que ajudava a não entrar em um ciclo de confusão mental ou até mesmo em um bloqueio criativo. Olhar para o nada enquanto projetava minhas ilustrações parecia ter um efeito relaxante para mim.

Mas na situação atual de agitação que os corredores estavam, a ideia mais sensata que encontrei era colocar os fones de ouvidos enquanto me dirigia até o setor da Imprensa Estudantil. A cada intervalo de passos, eu entrava em choque com uma pessoa que se colocava na minha frente. E após o atrito, ela olhava para mim como se fosse minha responsabilidade evitar aquela colisão. Sem muito ter o que fazer, me desviava do obstáculo que invadia o meu caminho para colidir com mais uma pessoa, há metros depois. Todos esses choques me fizeram querer desenvolver a habilidade de andar pelo teto. Mas acredito que até ali existiriam obstáculos e contratempos. Sendo um deles pessoas que estavam tão envolvidas em suas brincadeiras estúpidas que não fossem capazes de entender que o corredor é um local de transição de lugares, antes de ser um lugar de transição de ideias.

E como estava em minhas previsões, colidi mais uma vez com alguém que era incapaz de perceber que estava no meio do caminho. Mas essa colisão foi mais intensa do que as demais, fazendo-me retirar os fones de ouvidos. Com os ouvidos livres, ouvi uma onda de risadas, levando o meu pescoço virar-se instantaneamente em direção aos ruídos de escárnio. Eu já sabia de quem vinha a fonte que dava vida aos relinchos e gargalhadas.

Mas ver com os meus próprios olhos garotos em suas roupas elegantes e descoladas aproveitando o máximo do humor que a situação trazia fez com que meu rosto queimasse. Além disso, aquela situação criou em mim o desejo de desaparecer daquele lugar cheio de pessoas cegas e ignorantes.

A pessoa que eu havia esbarrado era outro garoto em roupas elegantes e descoladas, cujo olhos verdes se precipitaram em me lançar um olhar irritado e aturdido, que gradualmente se tornou em galanteador e delicado. O rapaz tocou em minhas mãos gentilmente, enquanto os seus amigos continuavam com as suas banalidades. Ele lançou um sorriso malicioso para mim, revelando que estava feliz por finalmente ter colidido com uma garota, a qual ele provavelmente nunca tinha adicionado em sua lista de cortejo.

Para minha infelicidade, ele permaneceu com as mãos firmes nas minhas enquanto fixava os seus olhos em mim.

— Oh, querida! Você se machucou? – ele apertou gentilmente os meus dedos.

— Preocupe-se apenas com você, querido — com um brusco impulso, desvencilhei as minhas mãos das dele, e sai em direção ao final do corredor. Para intensificar o recado, colidi voluntariamente com o meu ombro no dele, fazendo com que o atrito criado entre ambos gerasse uma vibração forte que percorresse do meu ombro até o pescoço.

Com certa discrição, virei o meu rosto sutilmente para trás, de forma que enxergasse apenas com a minha visão periférica. Tendo um campo de visão limitado, pude desvendar entre as silhuetas que ficavam cada vez mais distantes o galanteador do corredor apertar o seu ombro, tentando sanar a dor causada pela batida brusca. Voltei os olhos para o meu objetivo, e enquanto andava, sorria com a reação que causei.

Não mexa com Dana, senhores e senhoras.

Essa situação me fez andar confiante até a sala da Imprensa. Com um fervor em minhas mãos, girei a maçaneta e descobri uma sala com uma grande fila indiana que liderava até a impressora. Ah, não! Justo agora! Não, não, não!

Andei até a fila de pessoas com estratégias maliciosas. Elas se consistiam em furar aquela fila e ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas que estavam nela não se incomodassem com isso. Mas o meu plano desformou-se logo quando reconheci as duas garotas que também estavam esperando as suas vezes para imprimir seus documentos.

Como já tinha conhecimento de histórias que relatavam a pouca tolerância e alto temperamento daquela dupla, decidi esperar a minha vez para usar a impressora, pois já tinha tido a minha dose de caos naquele dia. Além disso, pelos meus conhecimentos gerais, aquelas garotas pertenciam a mesma alcateia dos garotos de roupas elegantes e descoladas.

Alcateia. Essa era a forma como gostava de nomear os grupos populares que povoavam a faculdade com suas existências irritantes e fúteis, trazendo estresse desnecessário para os alunos que estavam comprometidos demais com suas tarefas para passarem a imagem de "livres e legais". Muitas vezes já fui prejudicada por esses seres cheios de ócio e alvoroço, e consequentemente aprendi a lidar com as suas ameaças à minha ordem de paz mental.

Isso pode explicar o comportamento que desenvolvi anteriormente diante das suas provocações no corredor, e essa postura me ajudou a não mais ser incomodada por suas atitudes. Ainda que achasse a existência deles desnecessária para o ambiente estudantil, as suas ações não me causam mais o mesmo desconforto que antes. Podemos considerar isso um avanço muito positivo!

A fila progredia, e chegou a vez das duas amigas. Enquanto elas recebiam os papéis que a impressora lhes concedia, os meus pensamentos foram perturbados por suas finas vozes. Era praticamente impossível não prestar atenção no diálogo delas.

— Dennis me chamou para jantar hoje, no intervalo. Você acredita?

— Oh, River! Fico muito feliz por vocês terem retornado. Sempre apoiei vocês juntos.

— Eu ainda não sei se fiz o certo, Kyra. Dennis agiu muito estranho enquanto estávamos separados.

— O que ele fez, River?

— Eu não sei se posso falar. Não agora. Acho que... O que é passado fica no passado. Mas enfim... – hesitante, River olhou para o chão – Ainda não sei se devo jantar com ele.

— Mas é claro que deve ir, amiga. Dennis é louco por você! Tenho certeza de que quer muito voltar contigo...

— Eu... eu não consigo mais enxergar isso da mesma forma.

— Qual é, River?! Você sempre fez tudo por ele.

— Só vamos terminar o que estamos fazendo, ok?! Depois discutimos. As paredes têm ouvidos – River disse enquanto liberava um suspiro.

— Ok, mas foi você que começou com esse assunto e agora tem que terminá-lo.

"Eu não sei se devo jantar com ele...", uma voz ecoou na minha mente.

O que cargas d'água está acontecendo?

"Eu não sei se devo jantar com ele...", mais uma vez consigo ouvir a voz, de maneira que posso praticamente tocá-la com as minhas mãos.

Balanço a minha cabeça em um ato de confusão. Pare com isso, pensamentos irritantes! Agora!

"Eu não sei... Se devo jantar... Com ele", a voz repetiu a frase várias vezes nas paredes da minha mente.

Ok, Dana. Não enlouqueça, eu dizia para mim mesma enquanto buscava respirar e inspirar pausadamente. Não enlouqueça, Dana! Você não pode ficar louca agora!

"Eu não sei se devo jantar com ele...", dessa vez o eco produzido por aquela voz se intensificou, e por um momento consegui ver algo como um véu se dividir atrás de River.

Do lado direito da brecha feita no véu, uma imagem produziu-se perante mim. Era River, e o seu namorado Dennis. Pareciam muito felizes, até Dennis sacar um canivete... E acertar River no coração, de tal modo que ela cai no chão.

Essa imagem fez que meu corpo se projetasse para trás, e senti as minhas mãos tremerem de forma intensa. Não era capaz de controlar minha respiração, e olhei para o lado procurando ajuda.

As pessoas pareciam não estar vendo o que estava diante dos meus olhos, e isso fez com que meu desespero aumentasse. Será que estou ficando maluca?

Após a primeira cena, outra surgiu do seu lado, agora do lado direito da brecha feita no véu, onde River simplesmente não vai ao encontro do namorado. Ao ter em vista aquela imagem, o meu corpo se acalmou ao perceber que River conseguia sobreviver naquela situação.

"Eu não acho que devo jantar com ele...", novamente aquela voz começou a disparar e o véu se desapareceu, enquanto River conversava naturalmente com Kyra algo que parecia inteligível aos meus olhos.

— Que cena! Isso não pode ser real! – disse ofegante para mim mesma.

Ao dizer isso, senti um cutucão no meu braço, e virei atônita para trás. Ainda ofegante, encarei a moça de óculos com armação preta que olhava de forma confusa para mim. Ela possuía um pacote de folhas em suas mãos, claramente para ser colocados na impressora.

— É a sua vez, moça – ela me disse. Ao estudar detalhadamente o meu semblante, o seu rosto assumiu expressões graves – Tá... tudo bem, moça? Você parece pálida. Seus lábios estão... tremendo.

Constrangida, toquei neles, tentando esconder o tremor.

— Obrigada pela preocupação... Eu acho que foi uma queda de pressão – sorri buscando disfarçar a nervosismo.

Virei-me rapidamente para avançar a impressora, e tentei imprimir o mais rápido possível os pôsteres de "Procura-se Alyson Westwesh — ofereço recompensa", ao ponto de quebrar o ciclo vicioso em que estava exposta todas as vezes que imprimia os mesmos papéis na impressora do setor de jornalismo. Era como se tivesse um tipo de hábito sagrado que consistia em me comover todas as vezes que ficava frente a frente com a foto da minha irmã, acreditando que um dia alguém iria retornar ao telefone que estava marcado no pôster e me dizer a sua localização.

Embora isso nunca aconteceu, eu queria me certificar que estava fazendo algo para encontrá-la e acabar com o sofrimento da minha família. Mas naquele momento estranho, tudo o que conseguia ansiar era manter River segura, e incrivelmente isso sobrepunha o meu desejo de encontrar Alyson.

Mesmo achando que River e seus camaradas tinham uma existência desnecessária, senti a responsabilidade de evitar aquilo que vi. Isso é, se aquilo era realmente real e não algum sonho consciente que a minha mente havia criado para fugir da realidade. Eu só queria evitar que a família de River sentisse a dor que a minha estava sentindo. Independentemente de quem ela era, havia alguém que se importava com ela, e eu não queria colaborar com a falta de uma pessoa.

Ao finalizar a impressão de cem pôsteres, andei desesperadamente até o corredor em busca de River e Kyra. O volume de pessoas no corredor havia diminuído consideravelmente, e nenhuma delas era a que estava buscando. Mesmo assim, procurei em cada canto a figura magra e loira de River, mas tudo o que pude encontrar eram estudantes que estavam evitando entrar para aula.

Limpando o suor em meu rosto, eu percebi que não sabia mais de nenhuma informação sobre aquele encontro. Não sabia era qual classe de Dennis ou de Kira. Não sabia quando eles iriam sair para jantar. Não sabia se Dennis não seria capaz de fazer algo mais horrendo além do que vi naquele terrível momento, pois ele talvez poderia ter planos mais sangrentos.

Oh, Dana! Cabeça-de-vento! Por que não andou mais rápido e foi atrás delas?

A área vazia daquele corredor parecia angustiante para minha mente, e percebi que talvez a melhor opção fosse ir de sala em sala e descobrir onde River estudava. Era notável que a faculdade possuía centenas de salas e dezenas de blocos, mas tinha que encontrar River e avisá-la. Algo dentro de mim dizia que precisava salvar a sua vida.

Em meio ao meu desespero, senti uma mão gelada tocando em meu pulso, fazendo-me despertar do meu pesadelo psíquico. Virei-me para identificar o dono daquele membro tão gélido, e percebi a atenção de Chase apregoada em mim. Cara, olha só essas feições. Ele está tão furioso comigo! Olha esse olhar! Ele poderia me matar só com um piscar.

— Onde você pensa que vai, Dana? Hoje é o dia de montar o nosso projeto e só está faltando você do grupo.

— Chase, eu... – tentei pensar em uma desculpa, mas travei completamente em relação aquele olhar ameaçador – Ok, vou te acompanhar.

E andando naquele corredor pouco povoado pude experimentar uma onda de sentimentos e sensações desagradáveis, sendo um deles a culpa, mesmo que não tenha sido eu quem iria cravar aquele canivete no peito de River. A omissão parecia uma opção homicida.