O Outono é a Cor dos seus Olhos
10 Rotina
Notas iniciais
Durante o caminho para Scarborough, Ava se manteve com a testa colada no vidro do carro, apontando para qualquer tipo de construção que via, tentando adivinhar se eram os monumentos que pesquisara no Google Imagens.
– Aquela é a CN Tower?
– Não.
– Então o que pode ser aquela torre gigante? Com certeza é a CN Tower!
– Aquela é uma torre de transmissão qualquer. A CN Tower está a quilômetros de distância daqui.
– Você ao menos poderia mentir para eu me sentir melhor.
– Não irei mentir só para agradar você.
– Você pode estar mentindo agora, dizendo que aquilo é uma simples torre de transmissão quando que na verdade é a CN Tower. É muito feio enganar turistas, sabia?
– Aquilo é uma torre de transmissão. E só. – Respondi, mais áspero do que pretendia ser.
Ava permaneceu quieta por alguns instantes, e eu concluí que finalmente havia conseguido desligar a fonte inesgotável de palavras.
– Espero que os outros canadenses não sejam mal-educados como você. – Ela disse, olhando-me de esguelha.
– E por qual motivo fui julgado como mal-educado? – Indaguei, mesmo sabendo qual seria a resposta.
– Eu o cumprimentei e você nem me falou seu nome. – O argumento me pegou de surpresa, permitindo que eu fizesse outra observação.
Segunda observação sobre Ava: inocência igual a dela eu jamais havia visto em outra pessoa.
– Meu nome é James Carten. Desculpe. – Eu falei, um pouco encabulado.
– Eu já conheci várias pessoas que se chamam James. James Owen, Adams, Marshall, Mills, deste último eu não gostava muito porque ele me apelidou de ferrugem, Stevens… ah, e o Gray também! James é um nome bastante comum em Londres. E agora conheço mais um James do Canadá!
– Então você veio de Londres?
– Eu não vim de Londres, eu vim do Brasil. Eu fui fabricada em Londres, com peças legítimas e genuinamente inglesas. – Ava esclareceu, em tom brincalhão.
– Isso explica o sotaque. Fale a palavra água, por favor.
– Água.
– Eh. Definitivamente você é britânica. – Ava riu uma risada deliciosa e gradativa.
– Por que você finge ser sério?
A pergunta me pegou de supetão, não entendendo o que ela queria insinuar com aquilo.
– Eu não estou fingindo ser sério, nem tenho razões para fazer tal coisa.
– A não ser que tenha cansado de ser você mesmo e está tentando se reinventar.
– Eh… oi?
– Você disse que não há razões para fingir ser sério. Porém, há pessoas que cansam de si mesmas e querem tentar ser alguém diferente, então criam personagens para as pessoas que não as conhecem. Mas é impossível fingir para sempre… você nunca tentou isso?
– Eu? Nunca. – Menti abruptamente, ignorando todas as vezes que eu inventei novos James para conquistar garotas na adolescência.
De fato, naquele momento eu não queria impressionar Ava e estava sendo eu mesmo, de cara limpa. A ideia de flertar com uma garota para iniciar toda uma jornada que resultaria em um namoro me embrulhou o estômago. Eu era um homem livre, e pretendia ser livre por um bom tempo.
– Quando eu era mais nova, com uns catorze, quinze ou dezesseis anos – Ava tinha algum bloqueio em lembrar datas exatas – as pessoas começaram a me dizer que eu deveria amadurecer e deixar de usar roupas coloridas e de ser tão ingênua. Então eu tentei me reinventar, passei a… NOOOSSA QUE CARRO ROSA LINDO! Continuando, passei a vestir roupas mais “normais” e a controlar mais a minha língua. Acho que não deu para notar ainda, mas gosto de falar igual uma maritaca. Momento cultura: maritaca é um pássaro muito barulhento do Brasil, tive a infelicidade de morar em um apartamento ao lado de uma vizinha que tinha uma maritaca. Onde estava? Ah, em controlar a minha língua. Irei logo dizendo, eu não consegui. Fingi ser uma pessoa mais “madura” por um bom tempo, tipo, uma semana, mas logo eu já estava dando as minhas risadas escandalosas e querendo vestir as minhas roupas preferidas novamente. Por que as pessoas não aceitam você simplesmente do jeito que é? Tenho tanta raiva de gente que muda a sua personalidade por causa da sociedade! Não é exatamente raiva, está mais para tristeza. As pessoas poderiam ser tão mais interessantes se não seguissem estereótipos.
– Eh. Verdade. – Eu me sentia como se meus ouvidos estivessem sendo bombardeados. – E como você foi parar no Brasil?
– Pelo mesmo motivo que eu fui parar na Suíça, Alemanha e Portugal.
Arregalei os olhos, imaginando como uma pessoa poderia ter morado em tantos lugares numa vida tão curta.
– Então você é uma fonte de cultura ambulante.
– Nem tanto. Fiquei por pouco tempo em cada país, mas consegui captar a essência de cada lugar. Meus pais são dentistas, mas eles estão mais para pesquisadores agora, sabe. Eles estão trabalhando para a Vital Research, uma rede de laboratórios que estuda projetos para descobrir curas de doenças nas mais diversas áreas. É bem interessante, embora que muitas pesquisas ainda não tenham desvendado curas, elas acabam descobrindo muitas informações que servem para o desenvolvimento de medicamentos e prevenções. Meus pais estão em um projeto que tem como objetivo avaliar a influência genética na progressão da doença periodontal em várias regiões do mundo, e estimar quais são os países que possuem a maior quantidade de genes que são capazes de desencadear essa doença.
– Fascinante. E perdoe a minha ignorância, mas doença periodontal tem algo a ver com gengiva?
– Sim. Basicamente é doença de gengiva. E não me pergunte mais sobre o assunto, é tudo o que eu sei.
– Então seus pais cuidam das gengivas do mundo inteiro.
– Sim, alguém precisa fazer esse trabalho! – Ava disse, rindo sua risada deliciosa novamente. Há pessoas que possuem uma risada tão sonoramente agradável que poderiam se transformar em uma música.
– E agora seus pais irão pesquisar sobre as gengivas canadenses, correto?
– Sim, eles estão obtendo um bom progresso no projeto. Não vejo a hora de isso tudo acabar e voltar para casa. – Ela confessou, seu tom de voz diminuindo gradativamente.
– Mas deve ser uma bagagem e tanto morar no mundo inteiro, eh? Quer dizer, não deve ser tão ruim.
Ava se manteve calada por alguns segundos milagrosamente, e após retornou a falar sem o sorriso que antes acompanhava seus lábios.
– Muita gente fala que está cansada de viver em uma rotina. Acordar no mesmo quarto, tomar café na mesma mesa, olhar para a mesma paisagem da janela. Após, dirigir pelo mesmo caminho, encontrar as mesmas pessoas e ouvir os mesmos problemas. Depois, fazer as mesmas atividades que já foram feitas várias outras vezes e não oferecem mais novidades, porque você conhece cada detalhe e cada rosto dali. E de repente, tudo muda drasticamente, você está em uma casa que nunca viu antes, acorda e vê que seu quarto é laranja invés de verde, a janela mostra prédios invés de montanhas, você sai para a rua e não sabe o que tem depois da esquina e entra nos lugares que não tem mais as pessoas que costumava ver, as músicas que costumava ouvir e as atividades que costumava fazer. Você se torna só mais um rosto estranho na multidão, que ninguém sabe de onde veio, nem dos seus gostos, dos seus sonhos e medos e o pior de tudo, elas não parecem se importar em saber. Então você constrói seu castelo de areia com muita dificuldade, colocando cada grão com esforço e finalmente conquista uma rotina. Você se torna alguém novamente. E de repente, o mar engole e destrói tudo, e você se torna outra vez um grão de areia perdido na praia, e começa a se reconstruir de novo e de novo… — Ava hesitou, com o olhar perdido para o nada. – Enquanto os outros querem sair da sua rotina, eu sinto saudade da minha.
Terceira observação sobre Ava: ela era verdadeira com qualquer pessoa.
– Eh, entendo. Quer dizer, mais ou menos. Eu nunca saí de Scarborough, lugar onde eu moro desde sempre. Porém se um dia eu me mudar, acho que sentirei o mesmo.
– Você mora em Scarborough? – Ela perguntou, sua voz ganhando uma entonação alegre novamente e o sorriso voltando para as curvas de sua boca.
– Sim. – Respondi, temendo o que aquela informação poderia resultar.
– Que máximo! A nossa casa também é lá, sabia? Ah, claro que sabe, você quem vai mostrá-la… a gente pode se ver tipo, todos os dias, porque seremos vizinhos! E aí você poderia me mostrar o que se tem para fazer em Scarborough… cara, estou com muita sorte. – Ela afirmou, tão entusiasmada que até o cachorro do senhor Mansfield acordou do seu sono profundo para observá-la.
Meu temor havia se concretizado.
– Antes de tudo, sinto muito estragar os seus planos, mas eu sou uma pessoa muito ocupada.
– Ocupada? Ocupada, ocupada, ocupada, ou só ocupada?
– E qual é a diferença? – Questionei franzindo o cenho, trocando o olhar rapidamente da pista para ela.
– Se você for uma pessoa só ocupada, terá algum tempinho sobrando. E eu juro, não roubarei mais que dez minutos do seu dia. Eu só farei perguntas básicas e irei embora. Eu juro. Juuuro!
– Como assim somente fará perguntas básicas e irá embora?
– Passarei na sua casa quando tiver tempo e tirarei minhas dúvidas sobre a cidade. E aí eu desapareço, como os bruxos aparatam no filme do Harry Potter.
– Existe um jeito mais prático, chamado telefone.
Ava fez cara de reprovação e esbaforiu, meneando a cabeça com veemência.
– Recuso utilizar telefones, celulares, redes sociais, aplicativos e qualquer coisa que afaste a comunicação social verdadeira. Para mim, tudo o que tem de ser dito, deve ser dito olhando nos olhos. – E nesse momento percebi que ela estava olhando para mim com o objetivo de fazer contato visual, mas preferi ignorá-la.
– Seus pais devem ter grandes dificuldades em se comunicar com você.
– Infelizmente sou obrigada a ter um celular por causa da minha mãe. Mas eu juro, uso somente em casos ex-tre-mos. – Nesse exato instante o toque de um celular começou a apitar, e não pude deixar de dar uma risada ao perceber que era a música Hakuna Matata da Disney.
Ava vasculhou sua bolsa de mão que era feita por uma linda estampa de melancia e apanhou o celular, cujo display denunciava que era a chamada da “mamãe”.
– Não irei atender agora. – Ela decidiu, mordendo o lábio inferior.
– Escute, se você não quer atender só para preservar os seus valores diante a mim, vá em frente. Estou pouco me importando com os seus dogmas.
Após longos segundos de brava resistência, Ava atendeu o telefonema timidamente. Após responder algumas perguntas objetivamente, começou a contar sobre como havia se perdido no aeroporto do Rio de Janeiro, as turbulências que derrubaram seu copo de suco e seu medo irracional da descarga do banheiro do avião. E ao final contou sobre mim, o sétimo James que conhecera na vida, e que eu era um cara muito legal e que ela tinha muita sorte. Senti uma pontada de vergonha, porque eu estava sendo um tanto rude e mesmo assim Ava me considerou uma boa pessoa. Ao desligar, perguntei em seguida:
– Por que você tem muita sorte?
Antes de ela responder, abriu novamente o seu sorriso iluminado e olhou em volta.
– Está um dia lindo, tenho um cachorro muito fofo no meu colo e uma pessoa para conversar. Quantas pessoas gostariam de estar no meu lugar neste instante?
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