Notas iniciais
Hey hey! Feliz pelos novos leitores. Que todos sejam bem-vindos e se divirtam lendo essas linhas que escrevo com muito afeto.

Nós chegamos à casa conforme mandava o endereço, no início da Abbeville Road. Ava e eu não seríamos tão vizinhos como ela havia imaginado, porém a distância era curta, sendo o percurso atravessado em quinze minutos de bicicleta.

O início da Abbeville Road não era uma das mais charmosas ruas de Scarborough. As mudas de árvores nas calçadas ainda cresciam deixando uma sensação de vazio para mim, acostumado com o céu preenchido pelas copas das árvores antigas da Clementine Square. A futura moradia de Ava era pequena e feita de tijolinhos laranjas, havendo um segundo andar apenas na parte direita da casa. Havia uma ampla janela de vidro na cozinha que permitia ter uma visão geral da rua, uma escada de concreto na entrada com corrimão estilo vintage e um pequeno jardim no gramado da frente no qual tulipas amarelas começavam a florescer sobre a terra descongelada.

– Pela coluna construída na lateral da casa, deduzimos que você terá uma chaminé. – Observei, sentindo-me o pior corretor de imóveis da face da Terra.

Ava andou até a parte central do pequeno gramado que precedia a casa, analisando o que estava em sua volta enquanto que o cachorro do senhor Mansfield esvaziava a bexiga entre as tulipas. Pelo seu semblante, pude notar que ela estava um pouco decepcionada.

– Na Inglaterra, também temos uma cidade chamada Scarborough, no Condado de North Yorkshire. Lá tem o Grand Hotel, que é uma construção colonial lindíssima que permite ver toda a cidade de South Bay…

– Legal. Eu lembro de uma professora da escola que nos contou que Scarborough se chama Scarborough por causa da Scarborough na Inglaterra. Segundo a lenda, Scarborough Bluffs lembram as falésias encontradas por lá, por isso deram este nome. Qualquer dia, eu posso levá-la para conhecer Scarborough Bluffs, quem sabe você se sente mais próxima da sua rotina.

Os olhos de Ava brilharam no mesmo instante.

– Não brinca! Quando poderemos ir? Amanhã? Hoje, mais tarde?

Eu já havia me arrependido por ter agido impulsivamente por pena.

– Eh, não. Algum dia, como disse sou uma pessoa bastante atarefada. Tenho trabalho amanhã. Aliás, estou trabalhando agora.

– Verdade. Sabe, eu sinto como se você fosse um amigo que não vejo há muito tempo, e não um funcionário que está me convencendo a aceitar esta casa. – Ela declarou, fitando-me com um ar de familiaridade.

Apressadamente desviei o olhar e preferi não tecer nenhum comentário a respeito. Muito provavelmente Ava tinha alguns parafusos a menos.

– Que bom, pois estou prevendo que talvez eu seja um péssimo corretor de imóveis. – Eu disse, abrindo a porta de madeira branca da entrada.

O primeiro recinto era a sala de estar, que era fusionada à cozinha americana. O piso era de carpete, as paredes revestidas por papel de parede de finas listras, dois sofás de couro que ficavam em volta da lareira que tinha alguns troncos de madeira ainda não queimados. A cozinha era constituída de algumas bancadas velhas, um fogão e uma geladeira que ao abrir a porta exalou um cheiro de oxigênio tóxico guardado há décadas. Atrás ficava a área da lavanderia, na qual havia uma cueca do antigo dono pendurada no varal. Subimos as escadarias, onde ficavam dois quartos e o banheiro. No corredor, uma estante de livros estava preservando os mais renomados títulos da literatura romântica. Adentramos ao primeiro quarto, que pelo tamanho nós presumimos ser o de solteiro.

– Voilà, bem-vinda ao seu novo quarto. – Anunciei, fazendo uma mesura para que Ava entrasse.

O aposento era bem simples com paredes pintadas de cor branca, no teto pendia um pequeno lustre que deveria ter uns trinta anos no mínimo, uma cama de solteiro de pernas magras, um criado mudo com um abajur entortado e um armário de duas portas coberto por uma espessa camada de poeira.

– Não é exatamente como você havia sonhado, eh? – Deduzi, ao constatar a expressão desanimada da minha cliente.

– Não se preocupe, eu já não esperava encontrar a casa da Barbie. – Ela brincou, passando o dedo pelo armário sujo e expondo sua cor verdadeira por baixo da poeira. — Mas sempre que eu me mudo para uma nova casa eu crio expectativas de que ela irá ser mais parecida com a minha casa em Londres, entende? – Ela abaixou a cabeça e riu um riso tolo, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Mas nunca é.

Havia uma janela com persianas que dava vista para a vasta vizinhança, e na miserável esperança de tentar animá-la, eu disse indicando para o ponto mais longínquo da paisagem:

– Veja, a vista da sua janela dá em direção à Clementine Square, onde fica a minha casa.

Ela se aproximou da janela e me encarou austeramente.

– Por que você falou isso? – A inglesa indagou, pela primeira vez em um tom amargo.

– O que eu disse de errado?

– Agora toda vez que eu olhar para essa janela me lembrarei de você.

Nós voltamos para a picape e Ava perguntou se era possível levá-la para alguma estação de metrô que a deixasse o mais próximo do Clarion Hotel, que ficava na Sherbourne Street no centro de Toronto. A tentação de negar o pedido era imensa, visto que eu estava a poucos minutos de casa e meu estômago começara a roncar de fome pela falta do almoço. No entanto, caso eu abandonasse a pobre garota perdida em um pedaço de terra que era longe de ser a Scarborough que ela conhecia na Inglaterra, meu pai certamente concordaria com a minha mãe em me expulsar de casa.

Levei-a até a Warden Station, que ficava próxima ao Scarborough Junction. Durante o caminho, Ava continuava a tagarelar sobre como o senso de humor dos alemães era totalmente diferente dos americanos e enquanto isso, eu coloquei o último CD lançado da minha banda predileta e tentei escutar as músicas com o sotaque britânico carregado de Ava ao fundo.

– Nossa, que ritmo dançante! Qual o nome da banda? – Ava perguntou, levantando os ombros ritmicamente de acordo com a batida da música.

– The Cities. E a intenção deles não é ser “dançante”.

– Então por que estou com tanta vontade de dançar? – Ava ergueu os braços e suas mãos começaram a girar no ar, iniciando uma dança que a minha avó deveria falar que a mãe dela dançava daquele jeito na adolescência.

– Por que você não conhece a banda. A proposta dos outros álbuns é totalmente diferente deste, fala sobre paz, saudade, crises interiores e as imperfeições humanas.

– Então eu prefiro este último álbum. É dançante! – Ela repetiu, com um sorriso de orelha a orelha e a dança ultrapassada tomando conta de seu corpo cada vez mais como uma entidade.

– Você não pode preferir o que não conhece. – Murmurei para mim mesmo, meneando levemente a cabeça. Não via a hora de tirar aquela mini-explosão de euforia do meu carro e escutar as minhas músicas sossegadamente.

Finalmente chegamos ao nosso destino, e fiz um sinal para que Ava descesse do carro. Ela tirou delicadamente o cão que estava em seu colo e o pôs no banco, permanecendo imóvel por um momento, contemplando os grandes olhos pidões do animal que suplicavam pelos seus braços novamente.

– Eu tenho um nome para ele. Maple. – Ela decidiu em tom determinado.

– Maple é o nome de uma árvore, e não de um cachorro. – Critiquei, revirando os olhos como se eu estivesse lidando com uma criança incompreensível.

– Olhe para ele novamente e você entenderá o porquê. – Ela desafiou, fechando a porta e deixando para trás um sorriso dissimulado.

Enquanto Ava apanhava a sua mala no banco detrás, encarei o beagle que continuava a acompanhar Ava com o olhar. Ele não tinha nenhuma mancha ou pinta que lembrasse uma folha de maple, apenas as cores branca, marrom e preta mescladas pelo seu corpo. Concluí que Ava havia fungado algum resquício de maconha que estava no local e ignorei a charada.

– Foi um prazer conhecê-lo, senhor James Carten. Espero vê-lo mais vezes. – Ava se despediu antes de fechar a porta traseira.

– Igualmente. – Falei, na verdade pensando “espero nunca mais vê-la”.

Acompanhei Ava através do retrovisor, assistindo a moça carregando a sua mala com estampa de zebra desajeitadamente pela calçada. Antes que o meu lado bondoso vencesse o meu lado egoísta, arranquei o carro e segui pela Avenida Saint Clair.

Agora a música ressoava limpidamente no interior do carro, e a paz sonora havia sido restabelecida. Se não fosse pelo cachorro do senhor Mansfield, que começou a latir freneticamente.

– Eu também estou com fome, daqui a pouco estaremos em casa e devolverei você para o seu dono maluco que foi capaz de deixa-lo comigo.

Mais e mais latidos estridentes de doer os tímpanos.

– Você não gosta dessa música? Tudo bem. – Afundei meu dedo no botão de desligar do rádio, respirando fundo para não perder a paciência. O que eu tinha de fazer para ouvir minhas músicas em silêncio?

O cachorro prosseguiu a sua sinfonia canina, latindo até perder o fôlego. Quando achei que por fim ele havia cansado, reiniciou os ganidos numa longa sequência.

– Ela sabe se virar sozinha, já deve ter andado de metrô em todos os lugares do mundo, Alemanha, Brasil, Miami, França e outros locais por aí… ela não precisa da gente. – Falei inutilmente para o cachorro, mas na verdade era mais um discurso para convencer a mim mesmo.

Conforme eu atravessava a avenida, o peso na consciência aumentava. E antes que eu descobrisse por qual motivo, peguei o primeiro retorno que estava disponível. Por pena, por solidariedade, por destino.

Pela primeira vez de muitas eu estava voltando para Ava.

Notas finais
Se gostou, deixe um comentário! Ele é muito importante para o andamento da fanfiction. Até! :)