O mês de abril trouxe de presente para os torontonianos alguns graus de temperatura, aumentando a média para dez graus Celsius. O tempo passava na mesma velocidade que uma lesma levaria para atravessar uma esteira que rola em sentido contrário, e sábado parecia uma data tão distante quanto à chegada do verão. Confesso que na noite de sexta-feira não consegui dormir direito, precisando me esforçar para fechar as pálpebras, porém estas sempre se abriam sozinhas quando eu mergulhava nos meus pensamentos. O rádio-relógio denunciou que Stella havia chegado duas da manhã em casa, e observei pelo vão da porta a silhueta de minha irmã no escuro, apalpando as paredes em busca do interruptor e carregando em uma das mãos o par de saltos altos para não acordar meus pais.

Os pensamentos que perturbavam meu sono eram infinitos e suas origens tão inexplicáveis quanto o surgimento de um buraco negro, porém eles sempre voltavam para o mesmo ponto inicial: Ava. Eu era uma pessoa depressiva. Será que Ava não estava conseguindo dormir também? Eu precisava escolher uma profissão logo. Será que os pais de Ava eram legais? Eu poderia voltar a jogar hóquei no gelo para ter um hobby. Será que Ava estava pensando em mim naqueles dias?

Passei tanto tempo revirando na cama e refletindo sobre a vida que senti um nó se atar no fundo do cérebro, sinalizando que meu corpo estava cansado e que finalmente estava preparado para dormir. Enterrei meu rosto no travesseiro da NASA e adormeci, ouvindo meu coração palpitar com tanto vigor que até poderia sentir o fluxo de meu sangue circulando desde o centro até as pontas dos dedos.

Acordei num salto antes de o despertador tocar e rapidamente me dirigi ao banheiro para tomar banho. Coloquei o celular para reproduzir a lista das músicas que eu mais gostava, e cantarolei enquanto passava o sabonete por uns quarenta minutos. Eu particularmente adoro cantar durante o banho, pois a água abafa a minha voz esganiçada e acredito que ela é tão boa que eu poderia largar a ideia da universidade e iniciar uma carreira como cantor solo, porém todo o sonho vai para o ralo literalmente assim que desligo o registro e escuto o som da dura realidade.

Destruí as ameaças de uma barba que estava prestes a se formar, borrifei dez doses de perfume pelo pescoço e braços (e mais três vezes para garantir), vesti uma camisa de mangas longas estilo xadrez e uma calça jeans clara. Antes de deixar o quarto, olhei-me várias vezes no espelho para ajeitar a gola da camisa, pentear e despentear os cabelos, puxar as mangas até o cotovelo e após descê-las novamente até os punhos, sendo que fiquei exatamente igual como estava antes de começar as alterações. Dei algumas mordidas nas panquecas com maple syrup, contudo não estava com fome e a ânsia gorgolejava logo abaixo da goela. Olhei para o relógio de parede e fiz o cálculo de que ainda faltava uma hora e meia antes do horário combinado, já contando com o tempo que eu levaria para chegar até a Abbeville Road. Então o que me restava era a torturante espera.

Coloquei os pratos sujos na máquina de lava-louças.

Assisti televisão.

Arrumei a minha cama.

Assisti televisão.

Ajudei minha mãe a levar as compras do supermercado para dentro.

Li dois capítulos de um livro que meu pai havia deixado no sofá.

Assisti televisão.

Abri e fechei a geladeira várias vezes só para encarar um pote de geleia que estava com aspectos estranhos.

Curti algumas postagens no Facebook.

Apaguei os arquivos que considerei inúteis do computador.

Assisti televisão pelo computador.

Observei o meu vizinho da casa em frente sair pela porta de roupão, enquanto coçava o peito asquerosamente.

Quando cansei de inventar coisas para fazer, somente cinquenta minutos haviam se passado. Resolvi que sairia de casa assim mesmo, imaginando que se eu pedalasse até a residência de Ava com a menor velocidade possível eu chegaria com apenas quinze minutos de antecedência. Apanhei minha bicicleta e coloquei os fones de ouvido, partindo com a sensação de que havia rompido os grilhões da ansiedade. Contornei as esquinas do quadrado que constituía a Clementine Square, respirando fundo a brisa fresca de primavera que acariciava meu rosto. Durante o caminho contemplei um rapaz que ensinava o seu provável irmão caçula a andar de patins, e me lembrei de quando eu tentei mostrar a Stella como se joga beisebol (não é uma recordação muito bonita, pois ela se aborreceu com as regras do jogo e acabou acertando a bola nas minhas áreas íntimas). Parei de pedalar para levantar uma lixeira que estava derrubada, cumprimentei o carteiro e tirei uma foto com o celular de um casulo pendurado num galho de árvore, tudo para gastar os minutos de sobra. Fiz o retorno e passeei pela mesma rua com a bicicleta novamente, ganhando velocidade para deixar a correia girar por si só. Retomei o percurso e atravessei a Markham Road, na qual dois campos verdes e infindos se estendiam de ambos os lados, repletos de dentes-de-leão que floresciam deixando a grama salpicada de pontos brancos que me lembrou uma plantação de algodão (embora eu nunca tenha visto uma antes).

Cheguei à casa de tijolinhos laranjas, com um carro estilo minivan estacionado em frente ao jardim de tulipas avisando que os novos moradores estavam presentes. Desci da bicicleta e a estacionei no gramado, aproximando-me da ampla janela da cozinha que era voltada para o jardim. Esta estava vendada por uma cortina estampada com pequenas bandeiras da Inglaterra, e eu sorri não sabendo explicar por qual motivo. Talvez porque Ava estivesse perto de mim agora em Scarborough, e ela não se tratava mais de um ponto perdido no Canadá. Ela estabeleceria um novo lar, e brevemente reconheceria aquelas ruas como as suas ruas, aquela casa como a sua casa e eu como o seu mais novo canadense favorito. Seríamos a sua rotina. Eu, as ruas do subúrbio e a casa de tijolinhos laranjas.

Toquei a campainha e aguardei, balançando os pés para frente e para trás. O nervosismo queimava os lóbulos das minhas orelhas e fazia meus dentes rangerem. Escutei o barulho da maçaneta sendo puxada e o vão da porta se abriu, revelando um homem de estatura média e cabelos ruivos penteados cuidadosamente para o lado esquerdo. Ele me encarou por trás de seus óculos bifocais, seus olhos possuíam a cor de um verde-esmeralda impenetrável e logo presumi que os castanhos de Ava pertenciam à mãe.

– Bom dia – Ele cumprimentou austeramente, com um carregado sotaque britânico típico de “ovo na boca”.

– Bom dia – Respondi, engolindo em seco. Eu era mais alto que ele, porém me sentia como se estivesse por baixo da sola de seu sapato pronto para ser esmagado. – Sou amigo da Ava.

– Ah, sim. Ela está no quarto. – Ele falou, o seu tom de voz rígido feito uma linha contínua que não possui uma imperfeição sequer.

– Olá James! – Bradou Ava no topo da escada, por trás do contorno do pai. Seu sorriso resplandecente dominava o rosto sardento, ao contrário da expressão de concreto que o senhor White mantinha.

Suspirei de alívio, e pedi permissão para entrar na casa. O homem ruivo se afastou e fechou a porta atrás de mim. Caixas de papelão estavam espalhadas pelos cômodos, pratos e talheres de plástico improvisados se empilhavam sobre a pia da cozinha à esquerda. Ava desceu as escadas pulando de dois em dois degraus, sua saia franzida de rosas esvoaçando contra as pernas desnudas.

– Papai, este é o Jim que me buscou no aeroporto. Jim, este é o papai. – Ela apresentou, colocando cada mão sua sobre nossos ombros em busca de nos deixar mais íntimos através de seu corpo.

– Prazer, Jim. Pode me chamar de Kevin. – Ele informou, estendendo a mão e eu a apertei, fazendo com que nossas palmas escorregassem devido ao meu suor. Seus movimentos pareciam robóticos, e os meus, digamos, gelatinosos.

– O prazer é meu, senhor… Kevin. – A última coisa que eu realmente estava sentido naquele momento era prazer.

– Ah, você está aqui! – Exclamou animadamente alguém atrás de mim.

Virei o corpo e me deparei com a mãe de Ava, cujo sorriso era idêntico ao da filha. Seus olhos eram castanhos como eu havia previsto, os cabelos escuros estavam presos em um coque e isso tornava evidente que a sua fisionomia era igual ao de Ava, podendo as duas serem confundidas como irmãs.

– E esta é a mamãe! – Ava continuou, abraçando a sua cópia versão mais velha. – E também minha melhor amiga, confidente e parceira de compras no shopping.

– É um prazer conhecê-lo, James. Ava falou bastante de você – Ela disse, vindo ao meu encontro e me dando um abraço rápido.

– Falou? – Perguntei retoricamente, questionando-me se isso era bom ou ruim para mim.

– Bem, digamos que falou de você em setenta por cento das nossas últimas conversas…

– Mãe! – Interrompeu Ava, suas maçãs do rosto ruborizando.

– Que foi? Acabei de revelar algum segredo de Estado? – Brincou a senhora White, dando uma olhada de esguelha para a filha enquanto segurava as minhas mãos com as pontas dos dedos. Seu timbre era meigo e extremamente agradável aos ouvidos, e penso que se as flores pudessem falar, estas teriam a sua voz. – Perdoe-me James, meu nome é Dianna. Pode me chamar de Di ou de Anna.

– E você pode me chamar só de Jim, porque somente meus pais me chamam de James e é quando eu faço algo de errado. Não que eu faça muitas coisas erradas, raramente eu faço algo que os desagradem, e quando faço nem é algo tão grave assim... – Corrigi exasperadamente.

– Sei como é – Afirmou Dianna, rindo. – Eu também só a chamo de Ava Rose quando ela põe os pés em cima do sofá – Confessou a mãe em voz baixa, colocando a mão em concha sobre a boca na tentativa de evitar que a filha escutasse.

– Não acredito que você disse isso – Retorquiu Ava, perplexa. – Você me prometeu que não diria meu nome completo para ninguém! – Ela protestou, dando um tapa de mentira no ombro da mãe.

– Ops… – Murmurou Dianna, segurando o riso maroto.

– Vamos subir, antes que alguém quebre outras promessas também – Ava insinuou, pegando a minha mão e me puxando em direção à escada.

Passamos pela entrada da sala, onde Kevin estava sentando na sua poltrona (o único móvel totalmente montado no aposento) lendo o jornal deitado sobre as suas pernas cruzadas. Ao ouvir nossos passos, ele ergueu o olhar por cima de seus óculos e me fitou friamente, fazendo-me estremecer. Desviei de seus grandes olhos verde-esmeralda o mais rápido que pude, e galguei os degraus com Ava na minha frente. Permaneci com a cabeça baixa, e não pude deixar de notar as suas pernas torneadas se movimentando. Os músculos de suas panturrilhas se contraíam à medida que colocava os pés no chão, e o tecido leve de sua saia florida acompanhava as curvas do seu quadril, sendo que de vez em quando se levantavam alguns centímetros devido a força do impulso.

– Eu tenho tanta amizade com a minha mãe que às vezes eu esqueço de que ela é minha mãe – Explicou Ava, entrando no seu novo quarto.

– Eu gostei dela. Também gostei do seu nome Ava Rose. Ava Rose White. É quase um poema. – Elogiei, e ela olhou para mim como se eu estivesse a caçoando. – Seu pai é um pouquinho sério ou ele não foi com a minha cara mesmo?

– Ah, não se preocupe. Meu pai é caladão no início, mas depois que você ganha intimidade ele se transforma em outra pessoa. Acho que é um tipo de defesa dele, sabe.

– Defesa bem resistente – Complementei, não sentindo muita firmeza na sua justificativa. – Por acaso essa defesa não envolve armas ou instrumentos de dentista, eh?

– Deixe de bobeira.

– Só estou checando a minha integridade. Minha mãe disse que me queria vivo para o jantar.

– Bem, vamos deixar os medos irracionais de lado, pois nós temos muito trabalho a fazer! Espero que você domine a técnica de colar papel na parede – Ela cogitou, arrastando duas latas de cola para o centro do quarto.

– Eu já colei palitos de fósforo para uma maquete de escola, serve?

– Hum… como o mercado de aplicadores de papel de parede está escasso, creio que o seu currículo está bom o suficiente para ocupar o cargo – Ela disse, esboçando um discreto tom de preocupação.

Nós arrastamos os antigos móveis de suas posições originais para que as paredes ficassem totalmente livres, e em seguida abrimos os rolos de papel de parede no chão do corredor, cuja estampa era de pequenos pássaros roxos sobrevoando um fundo de cor creme. Permanecemos sentados no piso gelado de pernas a chinês, encarando os materiais dispostos entre nós.

– E agora? – Perguntei, não fazendo ideia de qual seria o próximo passo.

– Não sei. Eu tinha esperança de que você soubesse fazer isso – Ava declarou, fazendo bico.

– Bem, nós ainda podemos recorrer ao pai de todos os conhecimentos do mundo…

– A enciclopédia?

– Não, o Google.

E assim abrimos uma página de navegação no notebook de Ava, e pesquisamos sobre “como aplicar papel de parede”. Obtemos mais de cem mil resultados, e escolhemos um blog de decoração que mostrava passo a passo de como fazê-lo. Primeiro tiramos as medidas da parede, porém não tínhamos uma fita métrica e utilizamos uma régua de trinta centímetros. Levamos em média de quarenta minutos para conseguir todas as medições, já que para o nosso infortúnio a largura era diferente em cada parede mesmo que por milímetros. Em seguida, abrimos as latas de cola e tivemos a inesperada surpresa de que a cola não era bem uma cola, na verdade era um pó e não líquida como imaginávamos. Então foi necessária outra busca de “como diluir a cola do papel de parede”. Despejamos o conteúdo das latas em um balde improvisado e adicionamos a quantidade de água que consideramos ser o suficiente, porém o resultado ficou bem mais aguado em comparação à foto da cola pronta na Internet.

– Dará certo da mesma forma – Eu encorajei, ao perceber o semblante decepcionado no rosto dela. Na verdade, eu também não possuía grandes expectativas quanto à cola, muito menos quanto ao papel de parede.

– Parece com a sopa de repolho que a minha avó faz – Ela falou, pegando um punhado do líquido com as mãos e o deixou escorrer entre os dedos melecados de branco.

– Deve ser uma delícia – Ironizei, formulando uma cara feia.

– Todas as vovós do mundo sabem cozinhar, menos a minha. Mas ela comprava McLanche Feliz para mim, então está tudo certo – Ava justificou, limpando as mãos em uma folha de jornal.

– Eu não tenho muito contato com a minha avó, pois ela mora na Califórnia. Depois que o meu avô morreu, antes mesmo de eu nascer, ela se mudou para lá dizendo que estava cansada do frio desgraçado do Canadá, e hoje ela mora numa casa de praia e vende pranchas de surf.

– Sua avó é uma pessoa bastante peculiar, eu adoraria conhecê-la. Ah, tem uma coisa que eu gostaria de lhe mostrar. Vem comigo! – Ela se levantou rapidamente e voltou para o quarto.

Eu a segui, observando-a vasculhar seu armário que rangia ao ponto de ameaçar um desmoronamento. Depois de retirar uma pilha de livros, CD’s e roupas, pareceu que finalmente ela encontrou o queria. Arqueei as sobrancelhas ao constatar que era um grande estojo de couro rajado. Ava o colocou sobre a cama empurrada num canto e abriu suas dobradiças, revelando um violino feito de madeira de abeto envernizada.

– Que lindo – Eu elogiei, admirando o instrumento com deslumbre. O som das cordas de violino sempre foi um dos meus favoritos. – Você ainda não me contou sobre seu gosto por música.

– Para ser sincera, ainda não tive oportunidade de lhe contar muita coisa. Mas nós vamos nos descobrindo aos poucos, certo? Eu toco violino desde meus dez anos, mas não costumo falar muito disso. Algo bastante raro, sabe, eu não falar muito de alguma coisa. Durante estes dias, treinei uma música para você. Quer dizer, não sei tocá-la perfeitamente, mas acho que dá para o gasto – Ava disse, retirando o violino com delicadeza de sua caixa.

Ava posicionou o corpo do violino sobre seu ombro esquerdo, e deitou o rosto sobre o tampo, colocando o arco entre as cordas. Notei que seus dedos tremiam. Ela fechou os olhos e umedeceu os lábios, soltando um arquejo de preparação. Vi a sua boca se mexer timidamente, murmurando “um, dois, três” e iniciando a melodia.

Mantive-me parado diante dela, com um sorriso de fascinação estampado no rosto mesmo que ela não o visse. A primeira nota ressoou, reverberando por todo o meu corpo e fazendo com que um arrepio me percorresse dos pés à cabeça, eriçando os pelos dos braços. Adentrei a um transe ao perceber que a melodia era simplesmente a minha música predileta de The Cities: Desperdício de Tempo. A música possuía apenas um minuto e meio de duração, porém o seu solo de violino me permitia penetrar em um frenesi que adormecia todos os meus sentidos como uma anestesia profunda, preenchendo o meu peito com uma emoção capaz de encher os olhos d’água. Naquele momento, toda a inocência de Ava emanou de seus poros e a envolveu como um manto. Meu Deus, ela parecia um anjo. Comecei a cantar a letra quase que num sussurro, e ela me acompanhou em alguns trechos com sua voz frágil e tremida por nervosismo. Talvez nós estivéssemos mergulhando no mesmo transe...

Se eu pudesse voltar atrás

Se eu pudesse ver todo o nosso desperdício de tempo

Se você me perguntasse o que eu queria a mais

Eu responderia nada de novo

Que eu só desperdiçaria o nosso tempo de novo, e de novo, e de novo

E se você me perguntasse o que eu queria a mais

Eu pediria uma segunda chance

Para desperdiçar o nosso tempo de novo, e de novo, e de novo

A última nota foi repercutida, morrendo aos poucos até que a última vibração da última corda cessasse, inundando o quarto com um silêncio indecifrável. Ava abriu os olhos lentamente, direcionando-os diretamente a mim. Seus lábios formaram o seu sorriso iluminado, e eu o retribuí da mesma forma.

– Eu não acredito que você acabou de tocar o hino da minha vida – Exprimi, maravilhado.

– Sério? Então eu acertei?

– Ava Rose, você quase me faz chorar.

Notas finais
Pelo previsto, faltam só mais dois capítulos para concluir a história :) Espero que tenham gostado do enredo até aqui. Bjss!