O Outono é a Cor dos seus Olhos
24 Raio Solar
Notas iniciais
– Ava Rose, você quase me faz chorar.
– Eu que irei chorar caso continue me chamando desse jeito – Ela retorquiu, gargalhando. – Andei escutando algumas músicas do The Cities, realmente eles são incríveis. E agora posso entender o que você disse: eles não são dançantes.
– Quem sou eu para dizer o que eles são perante a garota que acabou de reproduzir Desperdício de Tempo de maneira fascinante?
– Por favor, menos – Ela pediu, envergonhada.
– Eu vou aprender violino só para tocar a sua música favorita.
– Tem certeza? Minha música favorita é Bach Cello Suite número 1.
Levantei as sobrancelhas e mordi o lábio inferior.
– É. Eu posso pagar um sorvete de morango para você e ficamos quites?
– Ah, adoro pessoas que sabem fazer um bom acordo.
Voltamos para o nosso dilema do papel de parede, e o recortamos segundo as medidas que tiramos. Enquanto Ava marcava cuidadosamente uma linha reta nas áreas que deveriam ser cortadas, estudei-a com a tampa da caneta presa entre seus dentes e o corpo deitado ao lado da estampa de pássaros roxos, no piso de madeira. Seus cabelos lisos escorriam sobre a sua blusa de alça cor azul, que evidenciava as suas delicadas clavículas adornadas por um fino cordão de ouro. Eu ainda não estava acreditando que ela sabia tocar violino e que, além disso, havia se dedicado a tocar uma música (uma música não, a música) para mim. Quer dizer, aprender uma nova canção deveria ser complicado e requeria muita prática. No ensino médio, eu acompanhava uma banda de garagem composta pelos meus amigos, e eles passavam dias para acertar todas as notas de um trecho. Tudo bem, eles eram muito ruins, porém era o único parâmetro que eu tinha. O que mais eu não sabia a respeito de Ava White? Ela agora me parecia um enigma que eu estava louco para desvendar.
– O que mais você ouve, além de música clássica? – Indaguei, também deitado do outro lado do rolo estendido no chão.
– Sou beatlemaníaca por grandes influências da mamãe. Para você ter uma noção, a minha mãe é tão fissurada nos Beatles que ela remarcou a data do casamento por causa da morte do John Lennon, alegando que estava debilitada demais para dar atenção aos preparativos da cerimônia.
– Nossa. Eu adoro a música Imagine, mas o que você falou já é fanatismo.
– Nem me diga. Enquanto todas as crianças normais decoravam as músicas do Discovery Kids, eu aprendia as letras de Yesterday e Let It Be. Eu escrevia cartas desejando Feliz Natal para o Paul McCartney – Ela continuou.
– Que bonitinho. E ele respondia você?
– Minha mãe me enganou até uns sete, oito anos escrevendo cartas imitando a letra dele. Eu descobri que tinha algo errado quando percebi que a letra do Paul McCartney era igual à letra do Papai Noel – Nós rimos juntos.
– Quando descobri que o Papai Noel não existia fiquei com tanta raiva que contei para a minha irmã gêmea. Aí foi quando eu comecei a descobrir que Stella sempre foi mais esperta do que eu: ela já sabia da inexistência do Papai Noel e fingia que acreditava só para continuar a ganhar presentes.
– Você tem uma irmã gêmea e um cachorro emprestado, quanta sorte! – Ela exclamou, jogando os cabelos para trás em um gesto gracioso.
– Falando em cachorros emprestados, descobri que o nome verdadeiro do Maple é Snoopy.
– Quanta falta de originalidade – Ava criticou, franzindo o cenho. – Devem existir mais de cem milhões de cachorros chamados Snoopy. Eu prefiro chamá-lo de Maple, porque além de ser autêntico também é divertido. Soa tão divertido quanto falar “pudim”. Puuudiiiim – E ela riu histericamente da própria piada, e eu a acompanhei, mais pela sua risada descontrolada do que pela palavra “pudim”.
– Sabe o que é mais engraçado do que um pudim? – Perguntei.
– O quê?
– Dois pudins.
E ela novamente caiu na gargalhada, rolando no chão com a mão sobre a barriga. Quando finalmente conseguiu recobrar o fôlego, o seu rosto estava vermelho e uma lágrima escorria por um canto do olho.
– Eu não estou conseguindo respirar, Jim – Ela avisou, fazendo força para conseguir parar de rir.
– O.k., não irei mais falar a palavra-que-não-deve-ser-pronunciada.
– Agradeço a compreensão – Ava disse, voltando a sua tarefa de marcar as linhas retas.
Passamos a cola no verso do papel de parede já recortado nas medidas corretas, havendo alguns acidentes como respingos em cima da nossa roupa e a perda de metade da cola quando Ava tropeçou no balde. Colamos os recortes sobre as paredes limpas, com a ajuda de uma escada flexível e um pincel de rolo para aplainar as bolhas, conforme aconselhava o blog. O resultado não foi excelente, pois nos esquecemos de encaixar os recortes do papel de maneira que o desenho da estampa se tornasse contínuo e sem falhas, sendo que nas junções das paredes os pássaros roxos se atropelaram uns sobre os outros, ficando alguns pássaros com duas cabeças e outros com duas caudas. Sem falar nas áreas onde o papel de parede ficou enrugado. E das sobras de parede antiga que ficaram à mostra devido às medições que não foram tão precisas. Nós dois avaliamos o fruto de nosso trabalho árduo e deixei que Ava expressasse a sua opinião primeiramente.
– Jim, eu preciso confessar que de início eu não achei que ficaria tão bom assim – Ela admitiu, limpando a testa com as costas da mão embora não houvesse uma gota de suor em seu rosto.
– De fato, ficou muito bom – Concordei, balançando a cabeça positivamente. – Não está perfeito, mas para quem nunca aplicou papel de parede antes... superou as minhas expectativas.
– Eu quero um quarto que combine comigo, então nada mais justo que paredes imperfeitas para uma pessoa imperfeita… está incrível, Jim. Formamos uma ótima dupla!
– Uhum – Continuei afirmando, apesar de desconfiar que Ava argumentasse aquilo apenas para me agradecer.
Dianna apareceu na entrada do quarto sorrateiramente, encolhendo seu corpo e projetando apenas o tronco para o interior do aposento.
– Ficou magnífico! – Ela exclamou, simulando uma expressão boquiaberta ao ver a nova decoração.
– Eu sei, mãe! E tudo graças ao Jim. Eu não conseguiria realizar um terço disso sem ele!
Aquela situação me remetia à infância: eu fazia alguns rabiscos coloridos num papel e entregava para minha mãe que me elogiava, depois pregando na geladeira para que todos pudessem ver as obras de seu Picasso prematuro. Essas mentiras incentivadoras funcionaram comigo até uma certa idade, e infelizmente, as da senhora White não mais me convenceram.
– Eu só medi as paredes e ajudei a colar o papel, nada demais – Menosprezei, com as mãos enfiadas nos bolsos.
– Enfim, o quarto está com um visual bem melhor do que antes. Se já estiverem com fome, o almoço está pronto e será glamourosamente servido no quintal dos fundos – Dianna falou, lançando um beijo para nós e dando meia-volta.
– Diga que você fez a sua carne assada com batatas! – Gritou Ava. – O nosso canadense precisa saber da existência do prato mais divino do mundo!
– E com que panelas eu faria, Ava? Nós não temos nem um copo de vidro decente! – Sua mãe respondeu em voz alta, enquanto descia as escadarias.
– Ah, que droga. Se você experimentasse a carne com batatas que a minha mãe faz, este dia se tornaria perfeito. – Ela lamentou, franzindo os lábios.
– Um dia imperfeito para uma pessoa imperfeita – Brinquei.
Ela cruzou seu braço com o meu, e me conduziu para o quintal dos fundos. Ava falava animadamente sobre seus próximos planos para o quarto, porém a única coisa a qual eu estava prestando atenção era nos seus dedos segurando o meu braço contraído por cima da blusa quadriculada. De vez em quando eles se apertavam como se quisessem certificar de que eu era forte o suficiente. Embora nunca tenha frequentado academia, acabei herdando do meu pai ombros largos e braços torneados que me ajudavam na minha antiga posição de defesa do hockey no gelo.
O quintal era razoavelmente grande, possuindo três árvores frondosas espalhadas pelo terreno de gramado verde que precisava ser aparado. Uma mesa com quatro cadeiras de plástico estava posta debaixo de uma das árvores, sendo acobertada pela sombra fresca. Acomodamo-nos, arrastando as cadeiras de forma que estas se estabilizassem entre as raízes volumosas e apanhamos os pratos e talheres descartáveis.
– Espero que goste de comida japonesa, Jim. Qualquer coisa, eu posso preparar algo para você – Falou Dianna, pondo várias caixinhas brancas de delivery sobre a mesa, abrindo-as e deixando o vapor de comida quente escapar.
– Que feio, mãe. Pedindo comida pronta com um convidado em nossa casa. Você não era assim – Reclamou a filha, fazendo uma cara de desaprovação.
– Se eu bem me lembro, você implorava para eu pedir comida em casa. Ava não podia ver uma fila de drive-thru que ela enlouquecia, puxando os meus cabelos e berrando para eu entrar nela – Revelou Dianna, sentando-se ao meu lado.
– Eu tinha uma paixão irracional por amostras grátis de supermercado. Eu sempre voltava de dez em dez minutos, achando que havia se passado tempo o suficiente para o funcionário não conseguir me reconhecer – Confessei, e elas abanaram a cabeça positivamente.
– Amostras grátis são tããão mais gostosas! – Concordou Ava, enchendo seu prato descartável com uma porção generosa de yakisoba fumegante.
Um vento agradável assoprava pela copa das árvores, fazendo as folhas farfalharem acima de nós. O clima da conversa estava prazeroso, até a figura de Kevin White sair pela porta dos fundos, caminhando até a mesa com o mesmo ar austero e frígido que mantinha desde o início da manhã. Ele sentou ao lado da filha, soltando um arquejo cansado.
– Finalmente se cansou daquele jornal – Comentou Dianna, levantando um leve tom de crítica.
– Alguém precisa saber o que se passa nesta cidade – Ele argumentou, servindo-se de sunomono. – Estamos em um lugar completamente desconhecido e vocês se preocupam com a cor das paredes.
Sua repreensão cortou a harmonia do momento como um raio, provocando um tremor discreto em mim.
– Por favor, Kevin. Não estamos numa Faixa de Gaza ou coisa parecida. – Alegou Dianna, sustentando a sua voz mansa que derretia aos meus ouvidos.
– Toronto é considerada uma das cidades mais perigosas do Canadá, para a sua informação – Ele continuou, colocando um punhado de pepino na sua boca com o hashi.
– Isto é verdade, Jim? – Interrogou Dianna, voltando-se para mim.
– Para ser sincero, o índice de criminalidade de Toronto reduziu bastante nos últimos tempos, tornando-se uma das cidades mais seguras da América do Norte. – Expliquei, ao passo que o olhar fuzilante de Kevin me penetrou até os ossos, e eu desejei ter falado que Toronto é sem dúvida a cidade mais violenta de todo o hemisfério.
– Viu? Seria mais convincente se você falasse que prefere ficar calado em um canto, longe de qualquer contato humano. – Alfinetou Dianna, saboreando um sashimi de salmão.
– Com licença – Kevin disse rispidamente, erguendo-se da cadeira num ruído grosseiro e levando o seu prato descartável consigo.
Olhei de esguelha para Ava, que conservava uma expressão apreensiva enquanto acompanhava o pai se distanciando com os olhos cabisbaixos.
– Desculpe, querido. Ele fica bastante estressado todas as vezes que nos mudamos. São muitas coisas, desde os detalhes para a casa até para a pesquisa, ainda mais que perdemos algumas amostras durante a transferência e isso atrasará um pouco o andamento dos resultados… – Dianna explicou, condescendente.
– Entendo. – Concordei, concentrando-me na minha porção de yakisoba.
– Meu amor, você quer sashimi? – Ela ofereceu para Ava, que ainda estava absorta na porta dos fundos que se debatia lentamente após seu pai ter entrado na casa.
– Ah, claro. – Ava respondeu, voltando para a conversa.
– Ava, você fez aquilo de novo. – Repreendeu Dianna.
– Aquilo o quê? – Ela devolveu, aturdida.
– Você estava apertando seus dentes. E nem adianta me contrariar, eu vi a contração dos seus masseteres.
– Eu tento me controlar, mas nem sempre consigo – Contrapôs a filha.
– Ava foi uma das pacientes mais complicadas que eu tive na minha vida, Jim. Pelo menos todo o esforço valeu a pena, e hoje ela tem um sorriso decente para uma filha de dentistas. Ela já contou a você que precisou usar aparelho ortodôntico AEB?
– Perdoe minha ignorância, mas o que seria um aparelho ortodôntico AEB? – Perguntei, franzindo o cenho.
– Essa história de novo! – Ava protestou, enterrando as mãos no rosto.
– O aparelho ortodôntico AEB é o famoso freio de burro. Sabe, aquele que passa por fora da boca e se apoia na cabeça? – Prosseguiu a mãe, fazendo gestos indicativos de como era o tal aparelho.
– Sim.
– Então, ela precisou usar um desses quando criança. Um belo dia, eu busquei Ava na escola e levei um susto. Seu aparelho estava completamente cheio de adesivos e cola branca, com várias figurinhas do Mickey Mouse penduradas no arco de metal. A professora a trouxe até mim segurando a sua mãozinha, e tentou explicar o ocorrido. Quando entramos no carro, perguntei por que ela havia feito aquilo e Ava simplesmente me respondeu que gostaria de ficar mais bonita. Levei um mês inteiro para descascar toda a cola seca e os restos de adesivo – Falou Dianna, sorridente.
– Não exagera, mãe! Uma semana, no máximo. – Contestou Ava, rindo de si mesma. – E quando eu acreditei que podia voar com a minha fantasia de fada?
– Essa também é boa. Kevin deu uma fantasia de fada para ela quando tinha cinco anos, e Ava achou que poderia voar por causa das asas de pano. Na nossa casa em Londres, há um balanço de árvore no quintal e ela se balançou até atingir o ponto mais alto que podia, atirando-se no ar e aterrissando de cara no chão. O resultado do voo não bem-sucedido foi quatro pontos no queixo e dois dentes quebrados. O médico ainda a incentivou a continuar com a utopia de fada, dizendo que ela precisava encontrar o pó mágico para conseguir voar. Cinco dias depois a vi mexendo no pote de sal – Nós rimos.
– Eu sinto muita falta daquele balanço – Comentou Ava, com ar saudoso.
O almoço foi prolongado entre molho shoyu e lembranças de infância, que provocaram várias risadas e momentos nostálgicos. Nem notamos o tempo passar, e quando vimos já haviam se transcorrido duas horas desde que nos sentamos ali. Recolhemos as embalagens e os pratos descartáveis, e quando nos dirigimos para o interior da casa, Dianna me segurou com a mão em meu peito, deixando que Ava prosseguisse na frente. Quando ela ganhou uma certa distância de nós, a mãe cochichou próximo ao meu ouvido:
– Você tem algum compromisso mais tarde?
– Pelo que sei, não.
– Você nos concederia a honra de jantar conosco?
– Seria ótimo, senhora White. Muito obrigado pelo convite.
– Dianna, por favor. A palavra senhora me faz lembrar que já estou na casa dos cinquenta anos. E não conte para Ava sobre o jantar, se puder – Ela esboçou um sorriso, continuando o caminho até a cozinha.
Perguntei-me no que havia de especial em um convite para jantar que Ava não pudesse saber. Será que ela não gostaria da minha presença ali até mais tarde? Não queria me tornar um incômodo. Após limparmos a cozinha rapidamente, Ava decretou a “pausa para digestão”. Ela foi para a sala, na qual o jornal de Kevin ainda estava dobrado sobre a poltrona, e conectou os fios da televisão de plasma que estava apoiada no piso entre as caixas de papelão nomeadas por “álbuns, DVDs e retratos” com um pincel preto.
– Escolha algo que você goste – Ava disse, chamando-me para sentar ao lado dela no chão. Obedeci, e juntos abrimos a caixa de DVDs que revelou pilhas e pilhas de filmes e seriados.
– Nossa, vocês são colecionadores profissionais – Observei, arqueando as sobrancelhas para o mundo de capas que parecia não ter fim.
– A arte de assistir televisão e comer pipoca é uma paixão que minha mãe e eu compartilhamos – Ela informou, revirando o acervo. – Temos de tudo, desde os piores filmes de terror até os filmes intelectuais. Seriados médicos, investigativos, de suspense, drama e comédia – Ela foi listando à medida que encontrava as capas.
– Vocês estão fazendo a “pausa para digestão”? – Perguntou Dianna animadamente por trás de nós, secando as mãos com um pano de prato.
– Sim! Junte-se a nós! – Exclamou Ava, erguendo a cabeça para vê-la.
– Eu adoraria querida, mas preciso conversar com seu pai. Quem sabe eu ainda chego a tempo de ver uma parte – Ela justificou, com pesar.
– Pode ser. – Disse Ava, em tom decepcionado.
Dianna deu um beijo estalado na testa da filha e se retirou do aposento, subindo as escadarias. Quando ela saiu de vista, Ava olhou para mim e murmurou:
– Desculpe pelo desentendimento dos meus pais no almoço. Eles andam beeem estressados – Ela falou, comprimindo os lábios. – Se você quer escolher uma carreira que não traga problemas, já sabe: não se torne um pesquisador de gengivas.
– Anotado. Mas isso é normal, Ava. De vez em quando meus pais também se atracam – Expliquei. – Eu só não quero ser um incômodo para você.
– Você jamais seria um incômodo, Jim – Sua face se aclarou novamente. – Cara, eu nem acredito que você está aqui na minha nova casa, sendo o meu mais novo parceiro de “pausa para digestão”. Quer dizer, duas semanas atrás nem sabíamos da existência um do outro.
– Ninguém faz ideia do que o futuro nos reserva – Afirmei, realmente surpreso com aquela observação. Duas semanas atrás eu só queria Ava White bem longe de mim, e agora estávamos escolhendo um filme na casa dela.
Decidimos assistir a primeira temporada de Skins, o seriado britânico favorito de Ava. Sentamos no chão em frente à televisão, apoiando as costas no encosto da poltrona. O espaço para o apoio era pequeno, e não conseguimos evitar que os nossos braços e quadris permanecessem colados. Eu fiquei embaraçado com aquela proximidade toda, e percebi que ela também havia ficado, tentando afastar um pouco de vez em quando, porém nossos corpos sempre se juntavam novamente devido ao peso como se fôssemos dois ímãs que se atraíam lentamente. Assistimos ao segundo episódio da temporada, pois o primeiro falava sobre um cara chamado Tony e ela não gostava do Tony. Neste que assistimos, retratava a história de uma jovem anoréxica chamada Cassie, a qual saía de uma provável orgia e prosseguia a sua vida por baixo de uma trilha sonora melancólica, e ao decorrer dos quarenta minutos restantes recebia mensagens de que “precisava comer”. Ava assistia atentamente enquanto roía a unha do dedo anelar, cuja estava com um esmalte laranja descascado. Se não fosse a minha constante vigilância em manter meu corpo numa “aproximação aceitável” de Ava, eu acabaria cochilando na metade do episódio.
– Você achou legal? – Ela me interrogou, quando os créditos finalmente começaram a rolar.
– Muito… intrigante – Respondi, tentando disfarçar um bocejo.
– Se você quiser, posso emprestar todas as sete temporadas completas! – Ela ofereceu, levantando-se para retirar o DVD do aparelho.
– Seria incrível – Continuei, um pouco consternado.
– Bem, hoje ainda preciso encerar o piso de madeira porque segunda-feira os móveis novos chegarão. É uma tarefa simples, então se você quiser ir para casa, fique à vontade…
– Não, eu irei ajudá-la.
– Não precisa.
– Precisa sim.
– Terminarei rápido.
– E comigo terminará mais rápido ainda.
– Tudo bem – Ela cedeu, e eu suspirei de alívio. Por que diabos ela não poderia saber que eu jantaria com eles?
Enceramos o chão com uma máquina de polir muito divertida, na qual subíamos com os pés e escorregávamos caindo de bunda. Devido a esses incidentes, demoramos mais do que o previsto para terminar o enceramento. Ao final deitamos no piso polido, nossos peitos subindo e descendo ritmicamente após cair no chão feito batatas esparramadas diversas vezes.
– Aquela parede ficou horrível – Ela confessou, apontando para a área onde o papel de parede havia enrugado bastante. Nós rimos alto.
– Aquela parede representa a sua pior imperfeição, Ava. Você perderá muitas horas a analisando em profunda reflexão e se perderá numa crise existencial. Recomendo não encará-la por muito tempo.
– Ah não, ela me lembrará de todas as vezes que deixei o chuveiro aberto para fingir que estava tomando banho…
– Ela sabe de todas as verdades, Ava. Até do seu primeiro choro proposital para chamar a atenção da sua mãe quando tinha apenas onze dias de vida.
Ela riu deliciosamente, atravessando o braço sobre a barriga. Ava virou o rosto para mim, e senti que estava me fitando. Virei meu rosto lentamente, para constatar seu olhar de outono. Nossas faces estavam distantes por apenas um palmo de mão, e estudei todas as suas graciosas sardas espalhadas pelo seu nariz. Uma mecha de cabelo ruivo estava caindo sobre sua testa, e eu a afastei com a ponta dos dedos nos quais uma fina película de suor frio brotou instantaneamente com aquele gesto.
Eu agora podia notar claramente, como se uma venda houvesse caído dos meus olhos e as minhas pupilas tivessem se contraído pela primeira vez ao ver a luz do sol. No início ficamos cegos, e aos poucos nos acostumamos e finalmente somos capazes de admirar a magnificência de um raio solar. Transparente, imutável e intenso. Um raio solar é capaz de iluminar qualquer lugar, por mais obscuro que este seja. Um raio solar é capaz de aquecer qualquer corpo, por mais congelado que se encontre. Um raio solar é capaz de dar vida, por mais difícil que seja a situação. Ava era linda como um raio solar, e era capaz de me descongelar e de me preencher de vida como tal. Com ela, eu me sentia… vivo. Mais vivo do que se eu pudesse sentir cada célula minha respirando.
Ela se inclinou em minha direção e meu coração quase pulou para fora da boca, e seus lábios úmidos se encostaram à minha bochecha quente, quase alcançando o canto dos meus. Senti sua expiração exalar das suas narinas, acariciando a superfície do meu rosto. Fechei os olhos e apreciei o toque macio que provavelmente não ultrapassou de dez segundos, porém havia durado mais que uma eternidade para mim. Era um toque tão ardente quanto o nosso abraço no Clarion Hotel, e eu quase tinha a certeza de que aquele beijo no rosto era tão forte que havia paralisado o movimento dos oceanos e das civilizações por pelo menos um segundo.
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