Notas iniciais
Olá, você por aqui!
Espero que goste bastante dessa nova fic que escrevo com muita dedicação. E, se por obséquio, quiser deixar aquele review sobre o que achou do cap, será muito bem-vindo! (infelizmente sou carente e vivo a base de opiniões, hahahaha).
Enjoy!

Um, dois, três.

Quatro, cinco, seis e infinitos pingos em sequência.

Logo a fina garoa começou a tomar força, evoluindo para uma chuva constante que rapidamente encharcou o asfalto lamacento de neve, no qual se refletia melancolicamente as luzes das casas vizinhas.

Uma dor forte, muito forte. Aquelas que engasgam o peito e formam um nó embaixo da goela, fazendo com que o gosto amargo na boca desça com dificuldade. Os dedos das mãos e dos pés gelados, cobertos por uma microscópica camada de suor frio. O olhar vidrado e ao mesmo tempo perdido, fitando a imensidão da janela afora que também me fitava com seus tempestuosos olhos que clareavam entre relâmpagos. Talvez a natureza quisesse soar um pouco clichê naquele dia. Por quê? Bem, eu tinha acabado de terminar meu namoro naquele momento. Na verdade, não tinha acabado de acabar exatamente naquele momento, se me entende, já fazia duas semanas. E seis horas.

Eu sei que tudo estava andando de mal a pior, pois brigávamos pelos motivos mais fúteis e desnecessários, saíamos sem a companhia um do outro somente para provocar ciúmes, sem mencionar os malditos jogos de relacionamento para ver quem realmente comandava o casal. Meu estômago embrulhava só de pensar no tamanho da lista dos nossos problemas que deveria cruzar os dois extremos do Canadá. Apesar de todas as desavenças, era um namoro. Éramos um casal. Éramos uma estrelinha no céu, assim como todas as outras que representavam os amores do mundo inteiro. E nossa estrelinha acabara de morrer. Desculpe novamente, morrera há duas semanas.

Esta era a concepção de Margareth Walls, minha namorada, quer dizer, ex-namorada. Uma concepção muito brega. Aliás, tudo nela era brega: as roupas floridas, as bolsas de pano e até as frases clichês que ela sempre utilizava em momentos de dificuldade. O sol nasce para todos! Quem acredita sempre alcança! Só cai quem levanta!

Nossa, como aguentei dois anos e três meses? Como aguentei seu comportamento irritante e a falta de originalidade? Como aguentei as TPM’s e as reações que eram sempre contrárias às minhas expectativas? Meu Deus, ela me tirava do sério.

Para que seu julgamento não recaia sobre mim como um exagerado, vou lhe apresentar um exemplo. No nosso primeiro dia dos namorados juntos, resolvi bancar o romântico clássico. Além de ser uma opção certeira, não queria arriscar muito. A propósito, ela era minha primeira namorada que sabia que era minha namorada e havia sido apresentada oficialmente à minha família (sim, uma vez estava ficando com uma garota e achei que era algo sério, então contei para algumas pessoas que estávamos namorando e não foi nem um pouco legal quando ela descobriu isso).

Marge era brega, e não havia chances de erro que ela iria gostar do estilo romântico clássico. Comprei as rosas vermelhas, a caixa de chocolates em forma de coração e uma caixinha com um bilhete escrito “Pego você às oito para uma aventura italiana em Buonanotte”, o recém-inaugurado restaurante de pastas em Toronto que ela estava louca para conhecer.

Perfeito, não?

Não.

Marge Walls fez um sorriso torto para as rosas e as flores, um breve relance de decepção percorreu sua face, mas logo consertou com outro sorriso mais torto que a minha cara torta fez ao ver a cara torta dela. Foi tudo tão torto que ela deixou os bombons caírem sem querer (pelo menos espero) e a caixa em forma de coração saiu estatelando degrau por degrau da escadaria de sua casa, e esta cena não cessa em minha mente, pois eu estava me sentindo igual àquela caixa naquele instante…

Perguntei se estava tudo bem e eu já sabia a resposta, mas como todo bom homem nós não ousamos expor a verdade logo de primeira, pois a mulher inverte a mesa para o lado dela tão facilmente quanto gastar dinheiro em shopping. Então ela respondeu que havia gostado, contudo esperava… mais. Essa palavra dói, mas como dói. Aquele sentimento de que você poderia ter feito algo melhor e não foi o suficiente para a sua amada, e que ela logo arranjaria um cara melhor que pousaria de helicóptero na frente de sua casa, com dois ingressos para conhecer a fantástica fábrica de chocolate do Willie Wonka e uma viagem para os jardins suspensos da Babilônia – que aconteceria logo em seguida, pois um jatinho os esperaria no aeroporto – onde ele diria que toda aquela flora ainda não era o suficiente para ela. Após eles iriam para um jantar romântico no centro do coliseu em Roma, já que os pais dele seriam mega influentes e podiam fazer o que quisessem com as sete maravilhas do mundo. E eu pensei nisso em exatos dois segundos enquanto o som da caixa de bombons se estatelando repercutia no silêncio constrangedor entre nós.

Com esta resposta, mordi meu lábio inferior e afirmei que entendia com a cabeça. Marge ficou envergonhada e me abraçou rapidamente, pedindo desculpas de forma frenética. Eu falei que estava tudo bem e ela replicou dizendo que não estava, que era uma idiota por não reconhecer o meu trabalho, e eu disse que nem foi tanto trabalho assim, e ela disse que foi, e eu disse que deveria ter me esforçado, e ela disse que era para esquecer tudo e continuar aquele dia maravilhoso e lindo que estava sendo, o qual seria mais uma prova de que o nosso amor superava qualquer barreira… aaah, brega!

Talvez se ela tivesse sido mais verdadeira e menos brega, tivesse usado menos frases prontas e mais frases sinceras, ainda estivéssemos juntos. “Eu realmente esperava mais de você, porém prosseguiremos com os nossos planos. Afinal, você já gastou seu dinheiro e está tarde demais para mudar de ideia. ” A verdade machuca, e nem sempre deve ser proferida. Se ela tivesse dito a verdade todas as vezes, provavelmente nosso namoro se reduziria para uns 5 meses, numa previsão otimista. Todas as frases prontas eram para salvar nosso relacionamento, porque ela realmente gostava de mim e queria meu bem, assim como eu queria o dela. Embora eu reclamasse de sua personalidade, lá no fundo eu me afeiçoava à breguice dela. E eu a amava. E talvez ainda continuasse a amando.

A música melancólica da minha banda preferida tocava ao fundo como trilha sonora de meu drama amoroso, enquanto a chuva tamborilava do lado de fora. Comecei a cantar o refrão para desemaranhar um pouco o novelo de sentimentos confusos que parecia entrelaçar o meu estômago à boca, e acabei ultrapassando os limites inconscientemente. Não demorou muito e minha irmã mais velha entrou quase derrubando a porta do quarto, gritando:

_ Pare de chorar e vire HOMEM!

Ah, Margareth Walls, com certeza eu ainda a amava.