Notas iniciais
Espero que gostem! :)

O belo distrito de Scarborough é o subúrbio canadense conhecido como a zona mais verde de Toronto. Foi onde nasci, cresci e me formei no instituto Woburn Collegiate. Basicamente minha vida se resumiu àquele bairro, e não me arrependo. Sempre fui um cara calmo e muito na minha, não me classificando como tímido porque não tenho vergonha de falar com ninguém, apenas gosto mais de observar o que está a minha volta do que interagir com os fatos. Esta característica me proveu um ar misterioso sem eu querer, que acabou fazendo sucesso entre o gênero feminino. Sou visto como o cara que quase ninguém sabe de muita coisa, de poucas palavras e com um charme irresistível, que dá meios sorrisos capazes de fazer as garotas se derreterem como sorvete no verão. O que faz James Carten ser tão sexy? Seus cabelos negros desorientados caindo-lhe pela testa? Seus olhos cinza penetrantes? Ou sua expressão enigmática que ninguém consegue decifrar?

A verdade é que eu adoraria ser assim, no entanto não sou. Sou um cara quieto, sim, mas que não passa da característica “quieto”, sabe? Talvez se eu me mudasse para bem longe como Vancouver ou Quebec conseguiria ser o tal misterioso, enterrando o James Carten com cara de tapado em Scarborough.

_ Por que seu nome é James?

_ Eu tenho descendência inglesa.

_ Jura? Que maneiro!

_ Na verdade, não. Meus pais adoram nomes ingleses, e só.

_ Ah… bem. É bonito, eu gosto.

_ Que bom para você.

_ Meio rude você falar isso, não acha?

_ Apenas digo que bom para você porque irá repeti-lo muitas vezes.

_ Como assim?

_ A não ser que você prefira me chamar de Jim, ou Jamie, ou... simplesmente de amor. Eu gosto de amor. É carinhoso.

Uma pausa. Uma risada histérica e bochechas rosadas feito queimadura de pele após uma manhã de piquenique no parque.

_ Você está falando sério?

Segurei a mão dela por cima da mesa da cafeteria, desviando dos copos de isopor que fumegavam apetitosos double-doubles da Tim Hortons.

_ Nunca falei tão sério na minha vida.

Esta foi uma das primeiras conversas com Margareth Walls, na qual houve muitas frases prontas e muitas reações esperadas. Embora pareça à la Marge Walls (brega), as mulheres adoram essas frases de filmes quando bem empregadas, é claro. E foi assim que a conquistei: usando táticas triviais como se fossem uma receita de bolo, pois caso eu usasse investidas da minha própria intuição eu abriria o jogo logo de início e mostraria quem eu realmente era – um cara sentimental, nem um pouco orgulhoso e capaz de fazer qualquer coisa para ficar com ela. E desespero é um péssimo sinal no jogo da sedução.

Então o plano sempre foi o seguinte: aparentar ser um cara descolado e sedutor, com as frases na ponta da língua (decoradas previamente após ter lido um arsenal de dicas no Google) e após, jamais antes, mostrar o que estava por trás daquele figurino. Funcionou com Margareth Walls, Lara Wilson, Emma Thompson e Abigail Lam. As outras acabaram descobrindo na metade do processo, e adivinhe – não deu certo.

A vantagem de ser um cara quieto e discreto é que as pessoas nunca me conhecem realmente, e eu posso me reinventar para cada uma delas. Para Lara Wilson fingi ser um sujeito atlético, dizendo que adorava trilhas e participava de todos os campeonatos de hockey no gelo (naquela época eu aparecia no treino uma vez por semana e olhe lá). O legal era que quando eu não queria atender o telefonema dela bastava falar “desculpa, estava no treino”, quando que na verdade ainda estava de pijamas jogando Xbox. Para Emma fingi ser do tipo intelectual, o que me deu um pouco mais de trabalho, confesso. Tive que ler muita Wikipédia para poder “borrifar” informações, tipo, falar de algo superficialmente só para mostrar que tem conhecimento, e logo em seguida mudar de assunto antes que a pessoa comece a fazer perguntas. Como, “Sabia que o poeta John Keats estudou para ser farmacêutico e chegou a trabalhar como aprendiz de cirurgião, mas sua paixão pela literatura o fez largar tudo? NOSSA, aquele cachorro quase foi atropelado! Motorista filho da mãe!”

Já Abigail era uma punk, e eu juro que não faço a mínima ideia de como ela se interessou por mim. Já que ela era atraente por baixo de toda aquela maquiagem pesada e mechas roxas, tentei ser o cara mais “compatível com ela” o possível. Resumindo, tentei reencarnar o Kurt Cobain, numa versão muito piorada porque não sabia tocar nenhum instrumento e muito menos estava interessado em usar drogas. Então só tentei parecer com ele no estilo: cabelo desgrenhado, barba mal feita e o jeito de falar como o de um drogado – sem ofensas aos fãs. No final, apesar de todos os meus esforços, Abigail disse o porquê de realmente estar comigo enquanto tragava um cigarro mentolado: ela só queria causar ciúmes na ex-namorada lésbica. Ah, isso explicou muita coisa.

O motivo de Marge ser minha primeira namorada é que o fingimento é uma máscara que cai muito rápido. Dura algumas semanas, mas logo a sua personalidade repulsiva começa a se infiltrar no traje da sua fantasia sem você querer. Fingir é um hábito rigoroso, onde você se vigia absolutamente o tempo inteiro. E falhar é humano. O fato é que Marge gostou do verdadeiro James, pelo menos assim acredito, e continuou comigo após ter aceitado o pedido de namoro na época em que eu ainda era o James misterioso e sedutor. Ela achava “fofinho” todo o meu sentimentalismo e aspecto protetor, dizendo que o homem do signo de Câncer era assim mesmo, porém era necessário ter cuidado com a dificuldade de se separar dos laços maternais, e que eu tinha que entender que a vida era assim, a gente cresce e tem que deixar a família um pouco de lado, pois se vão os anéis e ficam os dedos, tínhamos um futuro pela frente e não deveríamos olhar para trás, pois águas passadas não movem moinhos e que eu tinha de ser um homem forte para inspirar meus filhos, pois filho de peixe, peixinho é. E eu só ria, parando de prestar atenção na metade do discurso.

Eu estava caminhando pela Clementine Square, a rua em que eu morava havia 19 anos. Arborizada como a maioria das ruas daquele subúrbio, possuía uma simetria que era agradável aos olhos, com seu gramado aparado e sua calçada a dez passos da rua. As casas silenciosas tinham arquitetura semelhante, a maioria coberta por telhadinhos baixos e de várias cores, com janelões de fachada que mantinham os segredos familiares escondidos através das finas cortinas estampadas. O céu estava tomado por um cinza gélido com nuvens esparsas, entrecortado pelos galhos secos de árvores que se estendiam exasperadamente em busca de algum raio solar naquele rigoroso inverno.

Os prelúdios da doce primavera chegariam mais tarde naquele ano.

O iPod no fundo do bolso de meu jeans reproduzia um rock depressivo picaresco, cuja letra era tão ruim que fazia um suicida desistir do suicídio, contraditando os conselhos da minha família que dizia para esquecer a Marge, mas que para isso eu deveria me animar, sair com os amigos e conhecer gente nova. Porém, a única coisa que eu gostaria de fazer era permanecer no meu quarto escuro e gelado, escutando minha trilha sonora deprimente e olhar para o teto enquanto pensava se Marge sentia minha falta, se ela tinha vontade de ligar para mim, arrependida e louca para estar de volta em meus braços. Será que ela ainda pensava em nós? Pelo menos cinco minutinhos antes de cair no sono? Ou já estava com outro? Eu andava checando sua timeline no Facebook sagradamente a cada dia, e tudo o que ela havia postado na semana que se decorreu era o refrão de uma música que falava sobre liberdade (um terrível sinal) e três fotos com as amigas numa festa em casa repleta de copinhos fluorescentes cheios de vodka que também não muito me agradou. Ela poderia estar enchendo a cara para me esquecer, pois não conseguia de jeito nenhum em estado sóbrio (a esperança é a última que morre, pensamento a là Margareth Walls).

A música de má qualidade era sugada pelos meus ouvidos e turbinava meu cérebro com suas frases repetitivas “eu sou um lixo” e “eu quero desaparecer para sempre, sempre, sempre” penetrando todo o meu corpo, deixando-me com vontade de sentar na sarjeta recoberta de gelo e permitir que a neve me petrificasse igual ao hidrante da rua regado por urina de cachorro. Se aquela música não era capaz de tirar uma vida, ao menos tirava a vontade de viver. E de repente, cada letra daquela música passou a fazer sentido, e talvez o compositor dela também perdeu o grande amor de sua vida e teve vontade de virar um hidrante congelado. Talvez nós dois finalmente havíamos entendido as questões do amor – ou achávamos que entendíamos – e fôssemos julgados injustamente pela sociedade. Porque por fora todos os sentimentos são absurdamente mais fáceis de serem compreendidos e analisados, e isso nos torna os melhores consoladores de amigos quando estão apaixonados, brigados ou separados de seus queridos amores. Entretanto, quando somos nós que estamos naquela situação merda, toda a razão se pulveriza e embora saibamos qual a atitude correta a ser feita, nosso adorável coração sempre nos diz o contrário, levando-nos a tomar decisões que em 99% das vezes provocarão frustrações. Apesar disso, o nosso companheiro feito de ventrículos e átrios continua nos alimentando com falsas esperanças, que infelizmente, lá no fundinho, meu amigo compositor e eu sabemos que não vai dar certo, mas insistimos em persistir na tecla chamada erro. E nós erramos, somos humilhados e ignorados feito um brinquedo que perdeu sua graça, até estarmos totalmente acabados, sem nenhum pingo de dignidade e bom senso. Aí o cérebro entra novamente em ação apagando todo o caos que o coração fez, o qual eu posso imaginar que sai com um risinho maroto soltando um “foi mal”.

Parei em frente à uma casa de tijolinhos vermelhos e janelas brancas, no final da Mafeking Crescent Street que ficava a duas ruas da Clementine Square. Desviei da neve acumulada em cima do que deveria ser um jardim de margaridas na primavera, e subi os pequenos degraus rangedores de madeira que antecediam a curta varanda. Cliquei a campainha e aguardei alguém atender a porta, enquanto esquentava a ponta do meu nariz congelado com a luva de lã. Escutei passos do outro lado que cessaram a uma certa distância da maçaneta, não produzindo mais nenhum som. Apertei novamente a campainha por via das dúvidas e esperei a pessoa abrir a porta, porém nenhum outro passo foi dado. Só poderiam estar de sacanagem comigo. Soltei um arquejo e olhei para os lados, de repente vendo um rosto rechonchudo entre as cortinas cor branca da sala de estar que se fundiam com o gelo empilhado no parapeito, encarando-me com os olhos profundos e semicerrados. Não pude deixar de dar um passo para trás e um levantar de ombros, prendendo a respiração por uma fração de segundo. Kimberly deu uma gargalhada gozada que terminou numa sequência de soluços engasgados, saindo dentre as cortinas e finalmente abrindo a porta.

_ Você é a graça do meu dia, Jim. – Disse Kim ao abrir o vão, com uma expressão debochada.

_ Sério mesmo que você passa a porra do dia inteiro atrás da janela esperando alguém tocar a campainha para levar um susto?

_ Não, retardado. Eu fui pegar uma pop e vi você chegando. — Acho engraçado o fato dos canadenses atribuírem o nome de um gênero musical para um refrigerante. — Você está terrivelmente péssimo. Parece que um carro passou por cima da sua cabeça e você simplesmente se levantou e continuou andando com essa cara amassada. Tipo o desenho do Looney Tunes. E você seria o coiote. – Acrescentou Kimberly, fechando a porta com o pé e limpando o nariz com a manga da blusa preta.

_ Você engordou quantos quilos no último mês mesmo? Acho que já deve ter perdido a conta.

_ Vá à merda. Passar bem.

Kimberly Groove tinha 1,53 metros de altura e pesava 81 quilos. Pelo menos era isso o que ela pesava na última vez que teve coragem de me contar, praticamente um ano atrás. Eu a conhecia desde infância e acabou se tornando minha melhor amiga, ou para ser mais franco, meu melhor amigo. Kim se tornou lésbica aos 14 anos, e até hoje não sei dizer se é porque sente atração por mulheres ou se desistiu de ser atraente para o público masculino. Infelizmente, há pessoas que definitivamente são feias, não importam o que digam. Então elas são obrigadas a jogar com o que tem ou então – com o que não tem.

Kim se afundou no sofá quadriculado, colocando seus pés minúsculos em cima da mesinha de centro e acomodando o corpo atarracado de forma que ficou quase deitada, colocando a lata de refrigerante em cima da barriga proeminente. O que eu mais gostava nela era a sua expressão de dane-se para o mundo inteiro, os olhos com pálpebras caídas preguiçosamente e os cantos da boca sempre virados para baixo, com a papa gorda avantajada para frente como um colarinho. Sempre usava sombra de olhos cor preta e batom arroxeado que dava um aspecto bruxuleante para sua pele excessivamente branca.

_ Então Romeu – um arroto demorado – como vai?

_ Só estou aqui te perturbando porque meus pais já estão há séculos me obrigando a sair de casa, e sabe, não estou afim de ir muito longe.

_ Valeu pela consideração.

_ Você sabe muito bem a merda em que eu estou. Passou por isso com a Leslie, não foi?

_ Aquela vadia. Passar bem para ela. Eh.

A frase “passar bem” era a frase de efeito da Kim: tudo que a desagradava era respondido com um “passar bem”, o que significava que ela falava isso mais de cem vezes por dia. Embora sua aparência fosse exótica e seu comportamento um tanto másculo, Kim estava solteira, mas nunca sozinha. Ela tinha uma lábia boa com as suas pretendentes, e tenho certo medo de perguntar quantas parceiras ela já teve e descobrir que sim, Kim já havia pegado muito mais ninfas do que eu.

O baque de saltos agulhados sobre o piso laminado soou em direção ao aposento, e a figura da mãe de Kimberly surgiu na entrada da cozinha com as mãos apoiadas na cintura e os últimos resquícios das rugas de expressão do rosto denunciando reprovação.

_ Largue essa lata AGORA. Já é a terceira hoje, e ainda nem chegou a hora do almoço.

Kimberly permaneceu com a sua típica cara de “eu realmente não me importo”, e após levar meia hora para mexer a boca, retrucou:

_ Mãe, você ainda tem esperanças de que um dia terei um corpinho de Polly Pocket igual ao seu?

Tragicamente e comicamente, Kimberly herdou os piores genes que seus pais tinham a oferecer. A senhora Groove era uma baixinha de rosto bastante simpático, corpo magro, porém esbelto, e longos cabelos loiros, fazendo com que fosse uma mulher de meia idade considerada bonita. Já o senhor Groove era bem alto, quase dois metros, contudo tinha um peso bem acima da média mas que era disfarçado pela sua altura, passando despercebido no meio da população canadense. Uma vez ela comentou isso comigo, e eu disse para ver o lado bom das coisas, porque tudo na vida tinha um lado positivo (eu estava no auge do namoro com a Marge, e consequentemente dopado com seu otimismo irritante). Kimberly disse que não tinha como ver o lado bom da vida como realmente era, pois também tinha daltonismo.

Sério, antes de terem outro filho os pais da Kimberly deveriam fazer um mapeamento genético. Só por precaução.

_ Não se trata de estética, e sim de sua saúde. Meu Deus, deixamos de comprar todas aquelas porcarias calóricas e a única, ÚNICA coisa que deixamos nessa geladeira foram essas malditas pops para o fim de semana…

_ Já estamos no fim de semana mãe. Hoje é sábado.

_ Não interessa! Pagamos um absurdo de dinheiro com seus exames, remédios, terapia e…

_ Mãe.

_ Não me interrompa, estou cansada desse seu descaso consigo mesma! Se você não…

_ Mãe. O Jim tá aqui.

A senhora Groove cessou o seu discurso e num instante transformou a réplica da Polly Pocket com sangue nos olhos para a anfitriã mais atenciosa do mundo.

_ Jim querido! Quanto tempo! Estávamos sentindo sua falta, não é mesmo Kim? – Ela acenou para mim de longe e esboçou um sorriso falso, que esticou mais ainda a pele já esticada por aplicações exageradas de Botox.

_ Prazer em revê-la, senhora Groove. – Eu disse ao mesmo tempo em que Kimberly dizia um “não” em resposta à pergunta retórica da mãe.

_ Vamos para o meu quarto. – Kim anunciou, levantando o corpo do sofá com dificuldade, e passando pela mãe que ainda praguejava coisas horríveis como “um dia você ficará entalada no sofá e nunca mais conseguirá sair”.

Subimos as escadarias e fomos até a segunda porta à esquerda, cuja estava salpicada com uma tinta preta que parecia esmalte de unha. Quando adentrei ao quarto, não pude resistir em fazer uma cara de crítica ao que vi. Aparentemente o quarto de Kimberly estava decorado com móveis e objetos de cor rosa claro, feitos de madeira que imitavam um estilo colonial. Entretanto, tudo havia sido malhado pela mesma tinta preta que estava na porta, manchando com as gotas escorridas a cama, o abajur de borboleta, o tapete felpudo, a penteadeira de boneca, a cortina de bolinhas e os quadros da Torre Eiffel e Estátua da Liberdade. Porém, o que mais chamava atenção não eram os objetos transfigurados em dálmatas, mas a parede de fundo que contrastava com as demais pelo simples motivo de estar pintada horrendamente com uma tinta roxa bem escura, quanto que as outras seguiam o mesmo tom de rosa.

_ Que decoração… linda. Depois me passa o telefone do seu designer.

_ Passar muito bem para ele. Eh. – Ela murmurou com rispidez enquanto fechava as cortinas, deixando o quarto em penumbra.

_ Então... não vai me contar como essa obra de arte foi fabricada?

Ela arfou, levantando e descendo as clavículas que deveriam estar em algum lugar entre o seu pescoço largo e os peitos enormes.

_ O seguinte: minha mãe fez uma reforma total na casa porque aqueles programas do Discovery Home&Health fizeram uma lavagem cerebral nela, e o meu santuário foi incluído nessa cilada. Se lembra da viagem para Orlando que fizemos verão passado, quando chutei a bunda do Mickey?

Eu ri.

_ Lembro, sim.

_ Então, era tudo uma armadilha. A rainha do mal lá embaixo nos levou para a terra onde os sonhos são feitos para reformar a casa sem que soubéssemos. Quando cheguei, assim estava. – E ela ergueu os braços branquelos com uma cara de condenação. – Mas sem esse toque espetacular de tinta preta.

_ Mas… a sua mãe sabe da sua escolha sexual, não sabe?

_ Que eu sou sapata? Sabe. Coitada, ela tem tantas esperanças ainda…

Nós dois nos sentamos, ela na cama de solteiro cheia de bichos de pelúcia endalmatados e eu na cadeira da escrivaninha, de frente para ela. Um silêncio natural perpassou por nós. Apesar de sermos pessoas com estilos um tanto distintos, nós tínhamos uma certa intimidade onde conversávamos sem restrições e nos permitia ficar calados sem constrangimento.

_ Por quanto tempo você sentiu falta da Leslie? – Perguntei num sussurro amargurado, fitando a brecha de luz gélida que escapava entre as cortinas.

_ Uns dois meses, eu acho. Até me cansar e dizer para ela ir se danar de vez. Cara, não tem jeito. Quando a gente gosta mesmo de alguém, fodeu.

_ E toda aquela história de que o tempo cura tudo? – Interpelei, sentindo-me meio idiota após ter ponderado a minha pergunta.

_ Caramba, a Marge fez mesmo uma lavagem cerebral em você com essas frases de superação. O tempo cura resfriado e diarreia, sentimento não. Essa dor de cotovelo pode até ser amenizada com o tempo, mas enquanto você se importar irá continuar te enchendo o saco lá no fundo da mente.

_ Então você ainda pensa na Leslie?

_ Espera, pensar é diferente de sentir. Inevitavelmente você irá continuar a pensar na Marge por um bom, booom tempo. Quando ouvir a música favorita dela, comer a comida favorita dela, passar por algum lugar em que vocês tenham feito sacanagem como o banheiro da casa do Larry...

_ Como...

_ Todo mundo ouviu, o.k.? Não me venha com essa cara de santo. O que realmente interessa é que quando você pensar nela, não irá sentir absolutamente nada. Nem pena, nem saudade, muito menos empatia. Só irá pensar porque seu cérebro é muito filho da puta e não tem como bloquear certas memórias.

_ Se ao menos existisse aquela terapia do filme O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças… – Lamentei com um suspiro pesaroso.

_ E depois eu sou a gay.

Kimberly deu a última golada de sua soda e com um golpe único entre a mão e a costela direita amassou a lata de forma que esta se transformou em um disco parecido com o de hockey. Eu realmente não gostava de ser visto como um cara sentimental. Na verdade, às vezes eu chegava a odiar esse meu lado. Eu já me ferrei bastante por isso.

Por mais que eu tente me enganar, Marge Walls nunca aceitou muito bem o que eu era genuinamente. Quando você é muito legal com uma garota, elas acabam desenvolvendo um aspecto maligno, pois elas notam que possuem poder sobre você. Não é questão de machismo, do tipo que os homens devem se sobressair na relação e ser o típico babaca que muitas delas se fascinam. Apenas deve haver um equilíbrio mútuo, para que o respeito mútuo seja desenvolvido. E quando um cara abre o jogo e expõe todo o lado afetivo que ele tem a oferecer, digamos que a balança pesa muito mais de um lado do que do outro, principalmente quando a garota quer comandar e acaba agindo com frieza que recebe outro nome, “independência”. Em suma, você se torna o brinquedo favorito dela e é o único que não se diverte.

_ Eu te amo. – Murmurei serenamente no ouvido de Marge uma semana antes de terminarmos, debaixo das cobertas após um sexo rápido e sem vontade.

Um silêncio impiedoso cruzou entre nós, fazendo-me sentir a quilômetros de distância dela mesmo que a pudesse tocar, sentir sua pele e seu perfume.

_ Também. – Ela respondeu secamente, sem tirar os olhos do teto.

Enchi meu peito de ar, e o soltei de uma única vez. Separei meus braços do corpo dela e deitei de barriga para cima, encarando também o teto no escuro e refletindo sobre cada letra daquela palavra. T-a-m-b-é-m. Também não é uma resposta decente. É uma resposta que você quer dar quando não tem mais nada a oferecer. Quando você prefere ficar calado, mas o peso na consciência o obriga a dizer alguma coisa. Aí sai esse lixo de resposta. Também. Naquele instante eu percebi que nosso relacionamento já havia se esgotado, e eu deveria ter dado um ponto final ali mesmo, porém mais uma vez meu sentimentalismo não permitiu e deixei que aquele cárcere se prolongasse por mais 8 dias. Uma nota: arrependo-me profundamente.

_ Será que ela ainda pensa em mim? – Soltei aleatoriamente para quebrar a quietude, já cansado daquela pergunta de tantas vezes que a repeti em minha mente antes de dormir.

Kim meneou com a cabeça em tom de desgosto, mordendo o lábio inferior que resguardava um sorriso irônico.

_ Cara, eu sinto muito. Não queria lhe falar isso, mas acho que é necessário. Seria injusto toda Scarborough saber e você não.

Uma taquicardia iniciou em mim inusitadamente. Ela prosseguiu.

_ Ontem eu estava na Town Centre, procurando pelo CD do último álbum do Iron Maiden. No meio do corredor me encontrei com a Annabel, sabe, a que estudou com a gente no ginásio em Woburn.

_ A escocesa com jeito de amish?

_ Essa aí mesmo. Sorridente e com aquela alegria falsificada contagiante, veio falar comigo. Disse que não estava sozinha, que uma galera da Woburn também estava lá para ir ao cinema. Fui convidada e pensei seriamente em recusar, mas algo maior disse para eu aceitar e agora percebo que era a mensagem de um anjo para avisá-lo e fazê-lo largar essa dor de cotovelo o mais rápido possível porque não vale a pena. Chegamos ao Cineplex e o pessoal estava lá reunido na bilheteria, incluindo a senhorita Walls, soltando sorrisos amarelos para um carinha com nariz de papagaio. Ela ficou meio sem graça ao me ver, e nem me apresentou o palhaço que a fazia rir. Eu me levantei no meio do filme para comprar uma água e a vi no flagra, tascando um beijo com aquela língua venenosa no papagaio. – Kim fez uma pausa prolongada, para que eu pudesse processar a notícia. — Foi mal, cara. Não quis contar porque achei desnecessário, pensei que já estivesse cagando para ela uma hora dessas.

_ E eu estou. Estou bem. Está… tudo bem. – Repliquei hesitante, com o rosto pasmo de tal forma que não conseguiria enganar nem uma criança. – Isso foi quando?

_ Quinta passada.

Cinco dias após de terminarmos. Seria possível alguém conhecer uma pessoa em cinco dias e ficar com ela tão rapidamente, ao ponto de chamá-la para sair com os amigos? Poderia tê-lo conhecido na festa. Não. As fotos foram postadas no domingo, três dias depois. Será que ela já o conhecia há bastante tempo? Será que ela chegara a me trair? Será que ela já estava me traindo há meses?

Um ódio fervente começou a subir pelas minhas têmporas, ao passo que senti todo o meu corpo efervescer e a suar nas extremidades. Soltei um olhar colérico para Kimberly, que logo arqueou as sobrancelhas e retrucou:

_ Se está planejando um assassinato não peça a minha arma emprestada.

Kim tinha uma arma? Enfim, não era a questão a qual me preocupava no momento. Meu estômago começou a revirar com a mistura de ansiedade e rancor, não conseguindo mais ficar sentado e comecei a andar em círculos freneticamente.

_ Acho que vou indo, Kim. Informação demais para um dia só.

_ Eh. Sinto muito mesmo, cara. Aquela vadia é só mais uma, pense assim.

_ Como assim? O que quer dizer? – Retruquei, soltando uma risada nervosa e passando a mão pelos cabelos despenteados.

_ Agora ela é só mais uma qualquer, não merece mais significado nenhum para você. Pense assim. Não dê valor ao que não merece.

Assenti com a cabeça e descemos as escadarias, quietos. Kim me levou até a porta, despedindo-se com um “se cuida”. O ar frio quebrou a febre colérica que me dominava, e meu estômago deu uma reviravolta com o gosto de ácido subindo até a goela. Rapidamente, fui até o canteiro mais próximo e me ajoelhei na cobertura de gelo que molhou minhas mãos, despejando ali todo meu café da manhã. Com a respiração ofegante, vi-me naquela situação degradante, o tecido da calça respingado de vômito que derreteu a neve, deixando uma enorme mancha amarela na camada branca.

Margareth Walls não era qualquer uma, por mais que eu desejasse que fosse em toda minha vida. Ela foi o meu primeiro amor verdadeiro. E ninguém se sente bem vendo o seu amor verdadeiro em braços que não sejam os seus.