O Outono é a Cor dos seus Olhos
22 Macaco
E desde então não consegui mais parar de pensar em Ava. Ela era o pensamento que despertava o meu dia e o mesmo que acalentava meu sono. Demorou um pouco para eu constatar isso, pois ela dominou a minha inconsciência de um jeito tão sorrateiro como as nuvens que se formam no céu antes de uma tempestade. Quando me dei conta era tarde demais. O vírus Ava White já havia infectado todos os meus neurônios, mesmo que eu recusasse a dizer que sim.
Ela estava na estampa de bolinhas da toalha de mesa, no pote de morangos em calda, na propaganda de televisão da Polishop, no meu CD dançante do The Cities, na silhueta da CN Tower, nos letreiros da Tim Hortons, na folha de maple na jarra de molho syrup, no banco do carro e até no escuro do meu quarto. Tudo estava contaminado como se fosse uma tinta fluorescente.
Lembrei que eu tinha uma sessão psicológica somente quando vi minha mãe vestida com o seu terninho na manhã de quarta-feira. Ela preparou uma tigela de cereais com leite para mim e colocou sobre o balcão, a felicidade estava evidente em seu rosto.
– Coma rápido e se arrume logo para não nos atrasarmos – Ela recomendou, mais como uma ordem. Afinal todos os conselhos da minha mãe eram no fundo, ordens.
– Eu estou tão melhor, nem me recordo mais de quando foi a última vez que pensei na… qual era o nome dela mesmo? Bernadette? – Brinquei, bebendo o leite direto da borda da tigela.
– Eu percebi que você melhorou bastante. Suas olheiras diminuíram e finalmente tirou aquela barba malfeita! Mas acho que será o melhor para você continuar por mais um tempo, tipo por mais um mês. E aí prometo que estará liberado, quer dizer, se não tiver voltado para a fossa.
– Margareth não existe mais para mim, mãe. Tenho outras prioridades para preencher meu tempo, e definitivamente Marge não está entre elas.
– Falando em prioridades, conte-me sobre sua visita à universidade na segunda-feira. O que achou? – Ela perguntou, esperançosa.
– Ah, sim… a universidade. Bem, visitei o St. George Campus e dei uma olhada nos cursos. Foi… legal. – Improvisei, enchendo a boca com uma generosa colherada de cereal.
– E você acha que essa visita... clareou alguma ideia? – Holly sondou, abaixando o tom de voz para um murmúrio como se fosse um segredo de Estado.
– Sim, mãe. Com certeza, clareou muitas – Respondi não me referindo aos cursos, mas a uma pessoa em especial. Eu me flagrei sorrindo.
– Que ótimo, meu bebê! – Minha mãe veio até mim e beijou minha testa, fazendo aquele som de estalo babado. – Você sabe que seus pais o apoiarão em qualquer decisão que tomar – Ela afirmou, mantendo meu rosto entre as suas mãos em concha.
– Sim, mãe. Obrigado.
Coloquei uma roupa consideravelmente mais arrumada para comparecer à sessão, com o objetivo de esfregar na cara do doutor Donovan que eu estava muito melhor em relação ao James que vira semana passada. Durante o caminho, observei a vista da janela no banco do carona e procurei nas faces das pessoas que caminhavam para seguir as suas rotinas a face que eu queria reconhecer. Tentar encontrar Ava em cada esquina se tornou um passatempo quase que obsessivo, embora eu soubesse que a probabilidade de ela estar no percurso do quadrado da minha janela era de um em um milhão. Mas a esperança sempre é a última que morre.
O doutor Donovan me recebeu com um sorriso supérfluo, que se dissolveu rapidamente após fechar a porta do consultório. O seu escritório parecia mais bagunçado do que a última vez, com várias pilhas de papéis esparramados e a luminária de investigação derrubada no chão por um motivo não aparente. Provavelmente alguém havia se aborrecido além da conta com as brincadeiras perversas do psicólogo.
– Bom dia, doutor – Cumprimentei com voz irônica.
– Estou dispensando falsas cortesias hoje, garoto – Ele avisou, afundando-se na sua poltrona de diretor de escola. Donovan estava com olheiras tão profundas que parecia um panda desnutrido.
– Não há de quê – Continuei, sentando-me à cadeira de réu do outro lado da mesa.
Ele clicou o botão de sua caneta infinitas vezes até encontrar a minha ficha, que estava em uma pilha que se erguia até a altura de sua cabeça grisalha. Abriu a pasta e começou a ler suas anotações a meu respeito, franzindo o cenho e comprimindo as bochechas com as mãos, fazendo boca de peixe.
– Bem garoto, eu tenho más notícias. Tudo o que sei sobre você é este desenho de um macaco coçando a bunda – E ele mostrou o seu papel de anotações para mim, no qual de fato só havia o desenho de um macaco coçando a bunda.
– Algo bem previsível vindo de um profissional que manipula a mãe dos pacientes para não perder dinheiro – Retorqui, abrindo um amplo sorriso dissimulado.
– Mas pelo modo como o macaco posiciona a mão sobre a nádega direta e utiliza o terceiro dedo para satisfazer suas necessidades fisiológicas, presumo que você tem depressão…
– Eu tinha depressão. Acabou. Você é inútil agora. – Interrompi.
– Sim, claro, você não é o primeiro a dizer isso hoje – Ele retrucou, sem levantar os olhos das suas anotações imprestáveis.
– E acredito que você ouvirá ainda muitas vezes. Doutor Donovan, você só tem o poder de tratar um único tipo de paciente: o tipo que não precisa mais ser tratado.
– O.k. garoto, você está tentando convencer um psicólogo com vinte anos de carreira, que já diagnosticou mais de cento e cinquenta casos de depressão, que você se curou sozinho em apenas uma semana? – Ele esmiuçou, bufando.
– Sim, para você notar como a sua terapia é desnecessária.
Donovan se ergueu do assento e caminhou com passos arrastados até um painel que ficava ao lado da estante que guardava as testemunhas do tribunal, puxando vários gráficos e esquemas que estavam presos com tachinhas e os jogando em um canto, até achar o qual ele queria.
– Garoto, gostaria de apresentar a você a Janela de Johari. Janela de Johari, gostaria de apresentar a você mais uma de suas vítimas. – Ele expôs com uma reverência, indicando um esquema de quatro quadrados unidos que pareciam um pedaço de tablete de chocolate. – Esta ferramenta simplifica objetivamente como ocorre a nossa comunicação interpessoal e nos relacionamentos grupais. Tirando as orgias. Este primeiro quadrado – Ele apontou para o primeiro pedaço do tablete – representa a área livre. A área livre corresponde ao que você sabe sobre si mesmo e também abrange o que as outras pessoas sabem sobre você. Por exemplo: você é um idiota, algo que todos nós sabemos.
– Acho que seus patronos não são capazes de protegê-lo contra uma acusação por dano moral.
– Cale a boca. O segundo quadrado representa a área cega, a qual integra as características que somente as outras pessoas sabem, mas você mesmo as desconhece. Por exemplo: todo mundo sabe que você tem tendência à depressão, mas você não sabe. O terceiro quadrado abrange a área secreta, a qual detém o conhecimento que só você sabe, e mais ninguém. Como o fato de que você é virgem até agora. O último quadrado compreende o que você e ninguém no mundo sabe. Por exemplo: você é um serial killer de nível psicopata tão severo que nunca chegou a reparar que é um serial killer.
– E o que toda essa informação tem a ver comigo?
– Hãã... nada. Eu só queria explicar para saber se eu ainda me lembro. – Donovan disse, voltando para a sua poltrona.
Engoli em seco, ajeitando-me na cadeira. Não, eu não iria explodir. Ao menos não naquele dia tão bonito e sereno.
– Mas voltando ao seu caso… há uma maneira de como descobrir se você está ou não em uma depressão. Faremos um exercício muito divertido. – O doutor apanhou uma folha em branco e desenhou uma linha reta com a caneta, marcando dois pontos nas extremidades da linha. Depois, marcou um terceiro ponto entre a metade e o extremo final da linha, no qual escreveu “ARA”. No primeiro ponto, ele escreveu “o pior que pode acontecer na minha vida” e no segundo ponto “o melhor que pode acontecer na minha vida”.
– Descreva o que você considera como o melhor e o pior que poderá lhe acontecer, sendo que o ponto ARA é o que acredita ser apenas-razoavelmente-aceitável na sua vida. – Donovan explicou, entregando-me a folha e a caneta.
Encarei o papel por um longo tempo, refletindo sobre o assunto. Eu nunca realmente havia parado para pensar sobre isso, e a tarefa se demonstrou ser muito mais difícil do que parecia. Tentei escrever a primeira palavra, e o psicólogo começou a esticar o pescoço para ler. Automaticamente peguei um de seus livros e o abri, deixando-o em pé sobre a mesa de forma que o impedisse de ver a folha. Após uma demorada hesitação, coloquei que o melhor que poderia acontecer na minha vida era eu trabalhar num emprego que adorasse, ganhando muito dinheiro e sendo altamente reconhecido na minha área, como um dos melhores do ramo. Além disso, viveria em uma mansão de quatro andares com uma esposa que me compreendesse e me amasse profundamente, com a qual eu teria pouquíssimas diferenças e raramente brigaríamos. No ponto do pior que poderia ocorrer na minha vida escrevi que jamais encontraria uma profissão que eu me simpatizasse, trabalhando em algo que não me identificasse nem um pouco e caindo num intenso desgosto pela rotina. Fora isso, viveria entrando em relacionamentos fracassados, os quais apenas aumentariam a minha crença de que não encontraria uma pessoa certa para casar. No ponto ARA, estimei que uma situação aceitável na minha vida seria trabalhar com algo que eu somente “gostasse”, não me destacando muito e ganhando um salário considerável. Eu moraria em uma casa simples e teria um carro popular, e talvez eu pudesse encontrar uma mulher com quem me afeiçoasse, embora tivéssemos algumas diferenças significativas. Ao terminar, empurrei o papel e a caneta para ele, soltando um esbaforido que fez meu cabelo levantar.
– Vejo que o trabalho e a vida amorosa são as suas prioridades – Ele comentou, arqueando as sobrancelhas enquanto lia por trás dos óculos na ponta do nariz carrancudo. – Muito bem, agora quero que você marque um ponto nesta reta indicando quais são as expectativas para o seu futuro. Quer dizer, você acha que está mais próximo do primeiro, segundo ou terceiro ponto? – Ele devolveu o papel, encarando-me. – Lembrando que sua resposta deve ser completamente sincera. Mais uma vez digo que este campo é neutro, e estou pouco me lixando para julgar o que você pensa.
Embora ele continuasse a manter sua postura sarcástica e desprezível, percebi que o seu tom havia se tornado mais sério. Recebi a folha novamente e apoiei o queixo na mão. Meus olhos passearam entre os pontos, e eu fiquei com um misto de medo e vergonha da minha própria resposta. Eu sabia muito bem que as minhas expectativas eram curtas, afinal eu era um cara que completaria vinte anos e não sabia nem qual faculdade cursaria enquanto seus amigos estavam alcançando a metade de suas graduações, acabara de sofrer uma decepção amorosa que o havia destruído, contentava-se a viver seus dias trabalhando em um emprego arranjado pelo pai e que nos horários livres costumava praticar hóquei no gelo, embora nem isso fizesse mais. A verdade machuca, e nem sempre deve ser proferida. Entretanto, às vezes acabamos escondendo buracos tão profundos que sem querer caímos dentro deles.
Receosamente segurei a caneta e posicionei sua ponta sobre a superfície branca, pintando um círculo tão minúsculo quanto a minha coragem para desenhá-lo na metade do segmento entre o ponto do pior que aconteceria na minha vida e o ponto ARA.
Esta era a amarga realidade. Caso eu prosseguisse a minha vida daquela forma, eu não teria condições de alcançar nem a situação que eu mesmo considerava razoável. Totalmente patético.
– Interessante – Donovan falou ao analisar a minha marcação. – Você não se declara capaz de atingir os seus objetivos, mesmo que estes sejam apenas aceitáveis. Você já se perguntou o porquê, ao menos?
– Hum… eu estou muito longe do meu objetivo máximo. Diria que ele é até impossível. Eu não acredito que realmente conseguirei ser um cara bem-sucedido na carreira que amo e muito menos encontrarei uma mulher que me compreenderá, porque talvez ela seja inexistente. – Expliquei secamente, com ar derrotado. Percebi que eu segurava os braços da cadeira firmemente, e uma fina película de suor brotava na palma das mãos.
– Então está me dizendo que não vale a pena se esforçar para alcançar seu objetivo, pois ele é inalcançável?
– Sim. – Anuí novamente, com a voz mais áspera ainda.
– Garoto, é com muito prazer que o informo que está errado e eu estou certo: seu quadro de depressão persiste.
O doutor Donovan me passou um exercício para ser feito durante a semana. No início relutei, alegando que eu já estava bem velho para fazer dever de casa. Porém Donovan ameaçou “conversar” com a minha mãe novamente, e peguei o pequeno caderno que ele oferecia em suas mãos, a contragosto.
Eu não estava doente. Na verdade, eu acreditava que nem havia realmente entrado em estado de depressão, visto que a minha melancolia era uma consequência exclusiva do término de namoro. Contudo, eu havia alcançado a superação e não estava mais pensando em Margareth, no cara do nariz de papagaio e muito menos sobre o lindo e fantástico relacionamento deles, com todas as suas piadas perfeitas e beijos inesquecíveis.
Como diria a minha melhor amiga: passar bem para eles.
Na volta para casa, abri o caderno de capa dura cor verde e li a primeira página. Como eu havia suposto, era um típico exercício no estilo de escola. Para me provocar, Donovan havia desenhado no canto da folha uma casinha com chaminé e ao lado outro macaco coçando a bunda. Eu ri, jogando a cabeça contra o encosto do banco do carro. Minha mãe perguntou a respeito do caderno, e eu li em voz alta a questão número um.
“Considere a letra A como situações as quais você vive cotidianamente. Estas situações consequentemente geram emoções, as quais serão denominadas de letra C. Este exercício tem como objetivo descrever as situações que está vivenciando e as respectivas emoções que acarretam. Além disso, conecte a letra A e a letra C utilizando a letra B, que representa os pensamentos que o fizeram reagir com as emoções da letra C. Por exemplo: Bobby chegou atrasado para a aula de matemática, e a professora chamou sua atenção em frente a turma inteira (letra A). Bobby ficou com raiva (letra C). Bobby sentiu raiva pois a professora o humilhou diante seus colegas, quando poderia conversar em particular (letra B). Procure realizar este exercício sempre que for possível, descrevendo o número máximo de situações com quais você lida.”
– Parece eficaz – Disse minha mãe, após eu fechar o caderno.
– É para isso que o doutor Donovan fez faculdade, para que seus métodos pareçam eficazes. – Mas não são, eu quis complementar, porém não estava animado para discutir com ela.
Minha cabeça saiu fora do ar outra vez, e viajou para alguns quilômetros de distância dali com suas curtas asas. Ela pousou no modesto início da Abbeville Road, que ganharia uma nova moradora na sexta-feira daquela semana. Eu havia combinado com Ava de nos encontrarmos no sábado, para ajudá-la a reformar seu quarto chocho. Colocaríamos um novo papel de parede, enceraríamos o piso de madeira e desmontaríamos os velhos móveis para que os novos chegassem. Tudo indicava que seria uma ocasião agradável, exceto pelo fato de que eu conheceria seus pais. Sei lá, eu não tinha nenhum compromisso com Ava e seria apresentado como um amigo qualquer, entretanto eu pressentia que eles me olhariam de outra forma. Seu pai provavelmente pensaria “este é o babaca que quer levar minha filha para cama”, quanto que sua mãe me criticaria “ele nem faculdade faz, não é adequado para namorá-la” mesmo que eu não demonstrasse as menores intenções disso. Percebi que eu acabaria os tratando igual os meus antigos sogros: comedindo minhas palavras pensando três vezes antes de proferi-las e mantendo a postura de bom moço o mais impecavelmente que eu pudesse.
É um saco total.
Paramos em um sinal vermelho e avistei um outdoor de creme dental que dizia: “o negócio é sorrir para a vida”. E foi o que eu procurei fazer.
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