Notas iniciais
Desejo boas-vindas aos novos leitores, e um grande agradecimento pelos favoritos! Espero que estejam realmente gostando, vou encarar o silêncio como algo positivo rsrsrsrsrs Enjoy!

O que veio em seguida foi uma experiência que eu nunca havia vivenciado nada semelhante. Tudo a minha volta parecia dez vezes mais atraente e vívido, a música entrava pelos meus ouvidos e arrepiava a minha pele. Eu era capaz de sentir a energia correr pelo meu corpo assim como era capaz de transmitir essa energia para as outras pessoas através do meu toque que era mágico, excitante e profundo.

No meio de toda essa viagem lunática e eufórica, encontrei novamente a moça loira dos lábios vermelhos, que descobri se chamar Lindsey. A cor vermelha de sua boca parecia vibrar para mim, e embora ela estivesse falando várias coisas que eu não consegui prestar atenção, tive uma imensa vontade de beijá-la, e então a beijei sem nenhuma cerimônia.

Lembro que depois bebi mais um copo com ela, e Lindsey me puxou pela mão e me guiou até o segundo andar, atrás de um quarto. Porém naquele instante a minha bateria já estava a 1%, digamos assim, e meu corpo não correspondia mais aos meus comandos e eu não fazia nenhuma noção de quem eu era e porque aquela garota com uma mancha vermelha no rosto estava me levando para uma cama. Para ter ideia, quando eu deitei pensei que já estivesse em casa, e disse para Lindsey não fazer barulho pois poderia acordar meus pais. Pelo menos eu tentei dizer isso.

Quando senti novamente seus lábios nos meus, eu simplesmente apaguei.

Meus olhos abriram lentamente, doloridos pela claridade que inundava o quarto excessivamente branco. Fechei-os novamente e continuei a abrir aos poucos, até que estes se acostumassem. A visão embaçada delatou ser um quarto de hospital, mas eu apenas notei que era um quando vi um tubo entrando no meu braço, com um carrinho de soro estacionado ao meu lado. Eu estava vestindo uma bata branca e um cobertor me cobria com o bordado Ontario Hospital Association.

Tentei sentar, porém meu corpo inteiro reclamou de dor e voltei a minha posição inicial. Uma tontura dominava minha cabeça, e eu simplesmente não conseguia lembrar de nenhum detalhe sobre como havia chegado ali. O que eu sabia até então era que tinha ido para uma festa na casa do Liam e de um radiador no meio de uma praia, nada mais.

Uma enfermeira de meia idade entrou no cômodo, e arqueou as sobrancelhas como gesto de alívio ao me ver acordado.

– Boa tarde, senhor Carten. – Ela cumprimentou, dirigindo-se para o carrinho de soro, ajustando a quantidade de líquido que era injetado na minha veia.

– Tarde? Que horas são? O que estou fazendo aqui? – Perguntei aturdido, com a voz enrouquecida.

– O doutor Hermann estará aqui em poucos minutos com seus pais. Ele irá explicar o seu estado clínico. – Ela respondeu. A enfermeira tinha um tom de voz meigo, porém isso não evitou o calafrio que percorreu minha espinha quando ela pronunciou “seus pais”.

Não importa qual fosse meu estado clínico, uma coisa muito, muito ruim tinha acontecido. A última vez que eu estivera em um hospital fora dez anos atrás, devido a uma leve infecção intestinal.

Como a enfermeira havia prometido, o doutor Hermann chegou alguns minutos após, acompanhado das duas figuras com quem eu convivia desde o meu nascimento.

– Você sofreu um quadro de desidratação moderada. Os resultados dos exames revelaram alta taxa de álcool na corrente sanguínea e presença de metilenodioximetanfetamina, mais conhecido como ecstasy.

Algumas observações que eu realizei perante o diagnóstico do doutor Hermann:

– Realmente é necessário realizar um exame de sangue para diagnosticar se alguém está chapado ou não?

– Como ele conseguiu falar metilenodioximetanfetamina tão rápido e com dicção perfeita? Provavelmente ele andou treinando na frente do espelho.

– Eu estava extraordinariamente ferrado.

Dei uma olhadela para meus pais e suas expressões estavam incrédulas, escutando as palavras do doutor Hermann silenciosamente com os braços cruzados.

– O prognóstico é bom, o quadro de desidratação já foi praticamente revertido e as toxinas serão eliminadas daqui algumas horas. Provavelmente no final da tarde estará liberado. – Prosseguiu o médico.

– E qual foi a causa do desmaio, doutor? – Indagou minha mãe, com a voz mais seca que o deserto do Saara.

– Perda de consciência é uma das consequências de uma desidratação mais avançada. O uso do ecstasy também eleva a temperatura corporal do usuário, o que não é notado pelo o mesmo e pode provocar o desmaio.

Ele me chamou de usuário. Agora sim meus pais acreditariam que eu era um drogado.

– Obrigada, doutor Hermann. Será que nós poderíamos passar um tempo em particular com ele?

Doutor Hermann assentiu com a cabeça e se retirou do quarto, segurando a prancheta diabólica que acusava minha sentença. Meus pais se aproximaram do meu leito, porém mantiveram a postura rígida, com os braços cruzados e as faces frígidas por desgosto.

– Para começo de conversa, eu jamais esperaria isso de você, James. – Iniciou meu pai, em tom de desapontamento.

– Demos a você uma educação decente, muita atenção, vários conselhos e a única justificativa para você ter agido desta forma foi porque quis! – Interrompeu minha mãe, os olhos mareados de lágrimas e a fala entrecortada pelo choro.

– Eu posso ao menos tentar explicar o que houve? – Interceptei, exasperando-me com aquele bombardeio.

Meu pai respirou fundo e respondeu que sim, olhando para baixo.

– Tudo bem, obrigado. – Eu disse sendo hesitante logo após, pois não me lembrava de absolutamente nada do que havia acontecido. Querendo ou não, eu era obrigado a mentir. – Eu confesso que a minha intenção era ficar alterado, mas quanto à droga eu não fazia a mínima ideia. Colocaram na minha bebida sem eu ver, é a única possibilidade. Até eu fiquei espantado quando o médico falou da presença de metilenodi… ecstasy nos exames. Eu admito que errei em extrapolar os limites no álcool, o término com a Marge me deixou perturbado. Mas eu jamais escolheria me drogar por vontade própria.

Minha mãe emitiu um esbaforido sonoro, meneando com a cabeça.

– Eu acredito em você, filho. Porém isso não me impede de estar decepcionada.

– Holly, deixe-me conversar com ele por um minuto. Você está bastante cansada, coma alguma coisa na cantina. Deixe comigo. – Sugeriu meu pai. Minha mãe concordou meio contrariada e saiu de cena, restando apenas Richard e eu, o caso perdido da família Carten. Ele esfregou as mãos e penteou os cabelos negros para trás, andando de um lado para outro enquanto eu esperava o veredicto.

– Então, agora você pode me falar a verdade. Nua e crua. Não importa o que me conte, seu castigo já está escolhido. – Ele decretou, arrastando uma cadeira para perto da cama.

– Eu contei a verdade pai. – Afirmei, sem deixar de gaguejar um pouco.

– Uma das poucas certezas que eu tive na sua criação foi alertá-lo quanto a ter cuidado com a sua bebida em festas como a de ontem. Eu sempre avisei tanto Stella quanto a você a respeito de pessoas engraçadinhas que gostam de batizar bebidas alheias às escondidas.

O que meu pai tinha acabado de dizer era verdade. Ele sempre nos advertiu sobre isso dirigindinúmeras vezes, o que levava a minha mentira por água abaixo. Soltei um grunhido derrotado e mordi o lábio inferior, procurando uma resposta mais honesta o possível, porém sem entregar os detalhes. Afinal, omitir não é mentir.

– Certo. A realidade é que eu não lembro nada do que ocorreu ontem. Recordo de ir para a casa do Liam, conversar com os meus amigos e só. Depois, apenas um borrão preto.

– Imaginei que isso tivesse acontecido. Andrés está na recepção, ele que o trouxe até aqui e nos ligou. Talvez ele o ajude a refrescar a memória. Deveria valorizar mais amizades como a dele.

Ao escutar a palavra amizade um pressentimento ruim me veio à mente, porém não consegui associá-lo com nenhum acontecimento então não dei importância.

– Sim, claro. Nesse caso, qual será a minha punição?

Eu tinha dezenove anos, e deveria ser o único de Ontário a receber castigo ainda.

– Psicoterapia. Eh. — Determinou meu pai, levantando-se e caminhando até a porta.

– Fala sério! Eu não preciso disso! – Retorqui, boquiaberto.

– Você já está bem encrencado com a gente, não acha? O mínimo que pode fazer é obedecer nossas exigências.

– Desculpa. – Eu falei baixinho antes de ele se retirar. Richard deu um sorriso amarelo e saiu.

Momentos depois Andrés entrou no meu quarto e narrou todos os acontecimentos da noite passada. Contou sobre a minha participação convicta em todas as competições de bebida alcoólica, o tapa na cara que levei, as mensagens enviadas para Margareth, o vômito, a verdade sobre o ecstasy e Lindsey. Também contou que eu vomitei novamente depois de apagar na cama, e só depois que eu realmente desmaiei de vez. Ele me levou até o hospital com o carro emprestado do Liam e disse que evitou o máximo que pôde ligar para os meus pais, porém a recepcionista pediu vários dados que ele não sabia e foi obrigado a avisar.

– Que merda. – Eu disse, com a mão na testa.

– É cara, você deu um blecaute total. Mas você está aqui, conosco, bem e de volta para casa daqui a pouco. – Animou Andrés em tom alegre, repousando a mão no meu ombro como fazia de costume.

– Onde está meu celular? Eu quero saber o que eu enviei para a Marge.

– Você esqueceu na casa do Liam, enquanto estava aproveitando a onda.

– Eh. Você sabe se aconteceu algo entre eu… e a tal Lindsey?

– Acredito que não. Vocês dois ainda estavam vestidos quando ela saiu esbravejando do quarto que você era o cara mais tapado da face da Terra. – Andrés soltou uma gargalhada espontânea. – Você apagou nas vésperas de transar com a garota mais gostosa da festa. Se não fosse cômico seria trágico.

– Não é cômico e é trágico. – Eu disse, não podendo evitar uma risada rouca.

– Vou devolver o carro para o Liam e pegarei seu celular. Mais tarde passo na sua casa e lhe entrego.

– Muito obrigado, Andrés.

Voltei para casa por volta das cinco da tarde, o silêncio ensurdecedor no carro demonstrou que levaria algum tempo até meus pais voltarem a falar comigo normalmente. Stella me apelidou de “bad trip”, para piorar a situação. Andrés apareceu lá em casa por volta das sete da noite, conforme havia prometido. Passou somente para entregar o celular, pois tinha um compromisso na igreja o qual já estava atrasado.

Sentei na beirada da minha cama com o celular nas mãos, colocando a língua entre os dentes. Estava com muito medo de ler as mensagens, mas um filete de esperança brotou dentro de mim e pensei que, quem sabe, a troca de mensagens poderia ter resultado em algo positivo. Ao apertar o display, a caixa de entrada notificava três mensagens não lidas. Todas elas vinham de Margareth Walls.